sexta-feira, 6 de junho de 2025

DUBOHERÍ SURÉTÉ, Um Professor Indígena na Freguesia







Desde tempos muito antigos, quando o grande rio São Francisco serpenteava majestoso pelo sertão, duas aldeias viviam unidas como irmãs: Porto Real do Colégio e São Braz, nas terras quentes de Alagoas. Eram tempos das missões jesuíticas, quando os Kariri-Xocó aprendiam a resistir, a transformar e a preservar sua essência, mesmo entre as cruzes e espadas que insistiam em redesenhar o destino.


Dizem os anciãos que as aldeias foram unidas não apenas pela geografia ou pela história escrita nos papéis dos brancos, mas pela alma dos povos que sopravam, dia após dia, o Toré, ritual sagrado, onde se canta, dança e se vive o espírito ancestral. No Toré, um homem destacava-se: Surété, aquele a quem chamavam o Soprador Mágico Verdadeiro um tocador de buzo instrumento de sopro do toré.


O João Nunes de Oliveira foi uma pessoa muito dedicado aos estudos e também muito devoto a religião católica, acho que ele queria mesmo era aprender a profissão de professor. Os indígenas de Alagoas e da Aldeia de Colégio perdeu autonomia como povoação nativa em 1873. 


Segundo a tradição João Nunes de Oliveira fez parte das últimas turmas que estudaram no Colégio já em ruínas na antiga aldeia, assim se tornou um bom instrutor e professor posteriormente. Talvez tenha estudado em Penedo para completar seu estudos, considerando que a Aldeia do Colégio fazia parte da cidade de Penedo.


A Freguesia de São Braz foi criada pela lei n⁰ 702 de 19 de maio de 1875 desmembrada de Collégio do Porto Real. A Província de Alagoas designou para a Freguesia o vigário encomendado Padre Virissimo da Silva Pinheiro; Juízes da Paz: Luiz José Bezerra, José Antônio da Silva...; Professores Públicos: João Nunes de Oliveira e D. Tertulina Maria Tavares; Subdelegados de Polícia: André de Farias Lima; Supplentes: Luiz Vieira Dantas, Antônio Francisco Tavares....


Surété sabia que seu nome carregava o peso e a leveza de muitas gerações: era o mestre do sopro que acordava os espíritos, o Duboherí, o condutor do ritmo, aquele que fazia vibrar a trombeta mágica do Toré, convocando todos à roda da tradição. No som que ele extraía de seu instrumento, havia o eco das matas, o murmúrio das águas e a firmeza das raízes que se enterravam fundas no solo de Porto Real do Colégio.


Surété chamava-se também João Nunes de Oliveira, nome que os homens das leis escreveram nos livros, mas, na língua do povo, ele sempre foi Surété, filho da linhagem dos que nunca se calaram. Como professor na Freguesia de São Braz, desmembrada de Porto Real em 1875, ensinava as letras e os números, mas também ensinava, em segredo, as histórias, os cantos e os segredos do sopro que não podiam ser esquecidos.


De Surété nasceu Manoel Nunes Suré, também conhecido como Manoel Batyté, "o indígena da linhagem verdadeira". Como o pai, também soube guardar a tradição, e passou o bastão ao seu filho, Alírio Nunes Suré, que, por sua vez, transmitiu ao seu filho Nhenety, o guardião das memórias e das palavras que agora se transformam em conto.


Dizem que, quando Surété soprava sua trombeta no Toré, os espíritos ancestrais dançavam invisíveis ao redor da fogueira, e o povo sentia a força do seu sangue pulsar ainda mais forte. Assim, a tradição oral seguiu seu curso, como o próprio Velho Chico, caudaloso e imortal, preservando o nome, o sopro e o ritmo.


Entre mestres e discípulos, entre nomes portugueses e nomes sagrados, uma verdade permanece: o Duboherí, o mestre, nunca morre. Ele se transforma no sopro, no canto e na memória viva de um povo.


E assim, até hoje, na terra de Porto Real do Colégio e São Braz, quando o Toré é dançado e o sopro mágico atravessa o ar quente da aldeia, dizem que é Surété quem ainda sopra, guiando os passos, ensinando os ritmos e mantendo viva a alma Kariri-Xocó.



FONTES: 


ALMANAK da Província de Alagoas (AL). 1873 a 1880. DocReader Web. Disponível em: https://memoria.bn.br/DocReader/DocReaderMobile.aspx?bib=706035&PagFis=686&Pesq=uni%C3%A3o%20mercantil. Acesso em: 6 jun. 2025.


ORAL TRADIÇÃO. Povo Kariri-Xocó, através de das histórias nas fogueiras com anciãos. Entre 1980 a 1990. Porto Real do Colégio, Alagoas. 




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




MARIA MATILDES, A Protetora dos Índios







Conto baseado em fatos da história Kariri-Xocó



Por Nhenety Kariri-Xocó


No calor do sertão alagoano, nos tempos em que o trem mal alcançava Porto Real do Colégio, ecoavam nas noites de lua cheia as histórias do povo Kariri-Xocó. Entre elas, uma se contava com respeito e reverência: a de Maria Matildes, a mulher que se tornou escudo e esperança para os indígenas da Rua dos Índios.


Gabriel Gonçalves, conhecido como Gravié, era um homem de posses, índio respeitado e dono de terras, casas e rebanhos. Seu nome era falado em voz baixa, não por medo, mas por admiração. Morava com sua esposa Luzia, irmã do pajé Manoel Paulo, e juntos mantinham viva a tradição de seu povo com rituais e encontros sagrados.


Mas o destino, com sua vara torta, veio pousar sobre Luzia, deixando-a paralisada por uma enfermidade sem nome. Foi então que Maria Matildes chegou àquela casa, trazida não por acaso, mas pelo sopro do espírito ancestral. Contratada para cuidar da enferma, logo se tornou mais que uma ajudante — tornou-se presença, silêncio, afeto.


Quando Luzia partiu, em 1912, a tristeza vestiu a casa por longos meses. Gravié recolheu-se, e, no tempo em que o luto cicatrizava a dor, o coração se reabriu: ele e Matildes tornaram-se companheiros de jornada.


A força de Matildes ia além do amor. Ela caminhava entre os brancos com firmeza, mas era entre os seus que se fazia rocha. Ao lado de Gravié, oferecia assistência ao povo Kariri e aos Xocó, mantinha vivo o espírito dos rituais, garantia espaço, respeito e acolhimento na Rua dos Índios.


Quando Gravié faleceu em 1932, não deixou apenas lembranças: deixou a ela tudo que possuía. Terra fértil, casas de tijolo, bois de chifre longo, moedas de prata. Maria Matildes tornou-se senhora de si e do destino de muitos. Ao redor de sua casa viviam parentes: o irmão Luiz Teipó, os primos Quinca, João Menino e Zeca. E todos sabiam: com ela, nenhum indígena estava só.


Matildes enfrentava autoridades, enfrentava o preconceito, e se impunha com o peso do respeito que conquistara. Era a voz dos que não podiam falar, o escudo dos que apanhavam calados.


Enquanto ela fazia valer os direitos dos seus, o pajé Francisquinho atravessava o sertão rumo a Bom Conselho, em Pernambuco, buscando apoio do padre Alfredo Dâmaso. Sonhavam com reconhecimento, com um lugar onde o povo não precisasse pedir permissão para existir.


Em 1944, Maria Matildes fez sua última travessia, deixando um rastro de lágrimas e saudade na comunidade. Muitos sentiram-se órfãos. Mas dizem os mais velhos — e em cada canto da aldeia isso ecoa — que parte da sua fortuna ajudou a erguer o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso naquele mesmo ano. Lá surgiram a sede, a enfermaria e uma escola, tudo erguido com a força de um legado.


O que restou foi dividido entre os familiares, como era justo. Mas o maior bem que deixou foi a memória viva de uma mulher que amou e lutou como poucas. Até hoje, quando os mais antigos se reúnem à beira do fogo, alguém sempre diz:

— Ela ainda caminha por aqui... na força de nossa luta.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



quinta-feira, 5 de junho de 2025

TUPAN, Na Onda da Tradição Divina das Águas

 






O rio Opará sempre correu dentro de mim, como correu dentro de minha mãe, Indaiá — conhecida pelos brancos como Maria de Lourdes Ferreira Poité. Era ela quem me contava, com olhos cheios de lembrança, das grandes canoas que rasgavam as águas do São Francisco: Canindé, Marialva, Cordilheira… Eram como extensões do próprio rio, moldadas pelas mãos de nossos ancestrais, deslizando com a força de quem conhece e respeita a correnteza.


Depois vieram os vapores, os navios que cruzavam o baixo São Francisco levando carga e gente, vida e fé. Minha mãe falava muito do Encomendador Peixoto e do Penedinho — e eu, ainda menino, vi o Encomendador uma vez, numa procissão fluvial de Bom Jesus dos Navegantes em Propriá. As águas brilhavam com fogos e artifícios, e o rio parecia celebrar sua própria força.


Mas, no meu tempo de menino e depois adolescente, o que ficou tatuado na memória foi a passagem das grandes lanchas: Tupan, Tupy e Tupigy.


Quando a Tupan passava, primeiro ouvíamos a sua buzina, forte e grave, como o chamado de um deus antigo. Corríamos todos nós, os jovens indígenas da Rua dos Índios, à beira do Opará, tábuas grandes nas mãos, prontos para montar as ondas que ela deixava. Era mais que brincadeira: era um rito, uma celebração da vida e da tradição, uma dança com as águas que sempre nos alimentaram e protegeram.


O nome da lancha não era acaso. Tupan, o deus criador na mitologia Tupi, sempre habitou estas margens do Baixo São Francisco, onde antes de nós vieram e viveram Tupinambá, Caetés, Kariri, Dzubukuá, Xocó… Povos que, como nós, tinham o rio como caminho e casa.


Segundo os mais velhos, aquelas três lanchas eram de uma empresa da família Barreto, lá de Neópolis, Sergipe, fundada na década de 1950, com a Tupan como pioneira. Elas cruzavam as águas como novas canoas, motores substituindo remos, mas mantendo a mesma função ancestral: aproximar as pessoas, conectar margens, manter viva a tradição da navegação.


Na nossa aldeia, o índio Tononé também fazia parte dessa história, com suas duas embarcações: a Nordeste e a Nova Iraci Tononé. Resistência flutuando, como as histórias que se recusam a afundar.


Mas o tempo é rio que nunca volta. Em 1972, a construção da ponte sobre o São Francisco ligou margens, mas separou o homem do seu barco. A navegação foi se apagando, e o que restou foram memórias. A última viagem da Tupan foi em 1979, levada pela grande enchente — como um encantado que volta às águas profundas de onde veio.


Ainda hoje, quando as festas de Bom Jesus dos Navegantes enchem o Opará de barcos e fé, sinto que, de algum modo, a tradição resiste. O rio segue, sempre seguirá. E nós, que um dia surfamos nas ondas deixadas pela Tupan, sabemos: quem brincou com a onda do deus das águas carrega para sempre o balanço do rio no corpo e a tradição da navegação no coração.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




IBÁMERAIPU, Carro de Ferro Fumegante








Posfácio



Carrego no peito uma saudade bonita daquele tempo em que meu pai vendia peixe ao pessoal da ferrovia. Era cedo que ele saía, com a tarrafa ao ombro e o balaio cheio de esperança, seguindo até onde os trilhos cortavam a terra do nosso povo. Lá, entre o cheiro forte do peixe e a fumaça do trem, ele trocava palavras e sorrisos com os homens da ferrovia, enquanto o Ibámeraipu soltava seu apito ao longe, como quem também fazia parte da nossa vida.


Eu, ainda menino, ficava olhando ele partir, e até hoje, quando fecho os olhos, escuto o som do trem e sinto o vento quente daquele tempo. Aquelas cenas ficaram guardadas no fundo da minha alma, como um filme antigo que nunca se apaga.


Escrevi este conto movido por essa saudade — saudade do meu pai, das histórias que ele me contava, das manhãs à beira do Opará, e de tudo que o Ibámeraipu representou: mudança, coragem, mas também a marca profunda que ficou na nossa terra e no nosso coração.


Que esta história siga adiante, como o rio, como o trem, como a memória viva do nosso povo.



Dizem os mais velhos, com os olhos perdidos no horizonte e a alma ancorada no tempo, que muito antes de o ferro riscar a terra, o silêncio morava entre as árvores de Porto Real do Colégio. Ali, onde o Opará — o grande rio São Francisco — seguia seu caminho antigo, os Kariri pisavam leve o chão, colhiam os frutos da mata e escutavam apenas o chamado dos pássaros e o canto das águas.


Mas, numa manhã quente de 1944, o vento trouxe um sussurro diferente, um rumor de mudança:


— Vem aí um carro de ferro...


As palavras corriam mais velozes que o próprio trem, atravessando matas e veredas, sopradas pelos Fulni-ôs que vieram de Pernambuco, homens fortes e calejados, que ajudavam a abrir a estrada de ferro no peito da terra.


Antônio Cruz e Sebastião Ribeiro eram dois desses andarilhos do progresso. Sob a sombra das mangueiras, entre goles d’água e calos nas mãos, contavam aos Kariri:


— É um bicho de ferro, que cospe fumaça e range como uma onça ferida.


Os mais jovens arregalavam os olhos, como quem vê o futuro pela primeira vez. As mulheres, de lenços na cabeça, seguravam firme as cuias e se benziam. E os anciãos... ah, os anciãos! Estes apenas se entreolharam e, após longo silêncio, selaram a profecia:


— É o Ibámeraipu... o carro de ferro fumegante.


E assim ficou batizado, não com o nome frio dos brancos — "Maria Fumaça" —, mas com o nome quente da língua Kariri, onde as coisas têm alma e os sons são feitos de memória.


Em 1950, quando o Ibámeraipu finalmente chegou, a terra estremeceu como nunca antes. De longe, o seu canto metálico se espalhava:


Tchac-tchac... tchac-tchac...


Depois, o grito:


FUUUUUUUU...


O monstro negro surgiu, cuspindo fumaça e deixando atrás de si um rastro de fuligem. As rodas cortavam os trilhos como facas afiadas no corpo da terra.


O povo todo correu à estação, recém-nascida, ainda cheirando a madeira nova. Uns aplaudiam, outros temiam. As crianças se escondiam atrás das saias das mães, enquanto os homens apertavam os chapéus, sem saber se saudavam ou amaldiçoavam aquela besta de ferro.


O Ibámeraipu trouxe o progresso: gentes novas, mercadorias, notícias do mundo além das matas. Trouxe também trabalho aos Kariri — estivadores, carroceiros, homens do porto. Mas trouxe, sobretudo, a cicatriz.


Os trilhos rasgaram o território como lâmina impiedosa, dividindo terras, quebrando caminhos, interrompendo a dança dos passos antigos. O Ibámeraipu abriu a estrada do mundo, mas fechou veredas da alma.


E como tudo que corta, um dia também feriu fundo.


Foi em 1968, quando o Ibámeraipu fez-se tragédia.


Cadete era um homem da terra, indígena vaqueiro, desses que conheciam o cheiro do mato, o galope do cavalo, o mugido do boi e o silêncio das madrugadas. Usava chapéu de couro, gibão surrado, e carregava consigo a coragem moldada pelo sol.


Naquele dia, a notícia correu como raio:


— O gado escapou! Tá na linha do trem!


Sem hesitar, Cadete montou no cavalo e partiu, riscando a paisagem como flecha viva. O cavalo relinchava, os cascos batiam firme no chão seco.


— Arreda! Arreda! — gritava Cadete, assobiando forte, batendo o laço no ar.


Os bois mugiam, confusos, com os olhos arregalados pela luz que se aproximava.


E então, ao longe, como uma sentença, o som:


Tchac-tchac... tchac-tchac...


Depois, o grito seco:


FUUUUUUUU!


Cadete não fugiu. Tentou ainda empurrar o bezerro mais teimoso, mas o ferro não se dobra à vontade do homem. O Ibámeraipu veio impiedoso, arrastando o destino, surdo ao grito, cego à vida.


O choque foi breve, como são todas as mortes que não se espera.


Quando o povo chegou, encontrou Cadete caído, abraçado ao solo que tanto amava. O chapéu de couro repousava, mudo, ao seu lado.


Na aldeia, o pranto se espalhou como o rio em cheia. As mulheres entoaram cantos baixos, enquanto os anciãos, olhos marejados, lembraram-se da profecia antiga:


— O Ibámeraipu é o carro que leva...


E levou.


Depois disso, o trem continuou seu curso, por mais alguns anos, até que, em 1972, ergueram a ponte sobre o Opará, na grande estrada BR-101, que rasgou o Brasil de Norte a Sul. O Ibámeraipu foi, aos poucos, silenciado.


Os trilhos enferrujaram, a estação apodreceu, a fumaça se desfez no tempo.


Mas dizem — e os anciãos juram — que, nas madrugadas silenciosas, quando a lua cheia ilumina o mato e o vento sopra por entre as ruínas da velha estação, ainda se ouve:


Tchac-tchac... tchac-tchac...


E, ao longe, como um suspiro que nunca termina:


FUUUUUUUU...


Alguns dizem que é só o vento.


Mas nós sabemos: é o Ibámeraipu, o carro de ferro fumegante, que nunca partiu de verdade...


E que, para sempre, carrega na sua fumaça a memória dos que ficaram, dos que lutaram, dos que se foram — como Cadete —, mas nunca deixaram de existir na alma desta terra.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





quarta-feira, 4 de junho de 2025

DZEANIEÁ, O Conto dos Nomes Indígenas







Na beira do Opará, quando o céu começava a se tingir de cores douradas e avermelhadas, Piracy, a “mãe dos peixes”, chamava sua filha, Neêperé, para sentar-se à sombra da gameleira sagrada. O rio sussurrava seus mistérios e os pássaros voavam baixo, como se quisessem também ouvir a conversa entre mãe e filha.


Piracy, com a paciência de quem conhece os ciclos da vida, ajeitava as folhas no chão e dizia:


— Venha, minha filha. Hoje contarei mais histórias dos nossos nomes, para que nunca esqueças quem és, quem somos.


Neêperé correu, animada, sentando-se ao lado da mãe, encostando a cabeça em seu braço forte e moreno como o tronco da gameleira.


— Ontem você me falou de Piragibe, de Jaciara e de Canindé… — lembrou Neêperé com um sorriso — Quero ouvir mais!


Piracy sorriu e olhou para o rio, como quem busca nas águas as lembranças:


— Havia também Pindaíba, que caçava com astúcia e nunca voltava de mãos vazias… E Pacatuba, que sabia ouvir o silêncio das árvores.


Fez uma pausa e olhou fundo nos olhos da filha:


— Cada nome tinha um sentido, uma história, um espírito que guiava a pessoa. Nossos nomes eram nossos protetores e nossos destinos.


Neêperé ficou pensativa:


— E por que agora muitos se chamam Maria, José, Manoel...?


Piracy respirou fundo, a voz embargando levemente:


— Porque, minha filha… vieram tempos difíceis.


E então, com aquele tom que misturava ternura e força, começou a narrar como quem invoca os espíritos antigos:


— Lembro do que contava minha avó, que ouviu de sua mãe… Os homens brancos chegaram com suas caravelas enormes, cruzes pesadas e línguas afiadas. Diziam que traziam a salvação, mas também traziam o esquecimento.


Fez um gesto amplo, como quem abarca a vastidão da floresta:


— Eles eram uma mistura de muitos: íberos, celtas, lusitanos, romanos, germânicos, judeus, muçulmanos… Tinham em si o sangue de muitos povos, mas queriam que nós esquecêssemos os nossos.


Neêperé segurou firme a mão da mãe:


— Mas você não esqueceu…


Piracy sorriu, orgulhosa:


— Não. Nem eu, nem tu, nem aqueles que ainda escutam a voz do Opará.


Depois de um breve silêncio, a menina perguntou:


— Mãe… conta como foi quando proibiram nossa língua…


Piracy fechou os olhos, como quem volta no tempo:


— Ah, minha filha… Quando os padres jesuítas chegaram, muitos de nós aprendemos a língua dos Tupis para poder entender e resistir. Mas depois… no tempo do Marquês de Pombal, ele mandou que todas as aldeias se tornassem vilas, cidades… Proibiu nossas línguas, nossos cantos, nossas rezas…


Neêperé arregalou os olhos:


— Como puderam proibir?


Piracy olhou para a filha com doçura:


— Quando proíbem uma palavra, tentam cortar uma raiz. Mas raízes fortes rompem pedras, minha filha.


E então, como fazia sempre que queria que Neêperé jamais esquecesse, pegou um punhado de terra e colocou na palma da mão da menina:


— Sente… aqui está a força dos nossos ancestrais. Eles estão nesta terra, neste rio, nesta árvore… e na tua pele, no teu nome.


Neêperé apertou a terra, como quem guarda um tesouro.


Piracy continuou:


— Mesmo que tentassem nos dar nomes de outros povos — Maria, José, Antônio, Baltazar… — o espírito dos nossos nomes continuava sussurrando nas nossas almas.


Fez mais uma pausa, e olhando o rosto da filha, acrescentou:


— Teu nome, Neêperé, é um chamado. É a “voz ancestral de poder”. Não esqueças: tua missão é lembrar e fazer lembrar.


Neêperé, emocionada, assentiu com a cabeça.


— Mãe… conta mais uma história…


Piracy sorriu e puxou a filha para mais perto:


— Lembras da história de Muirá Ubi?


Neêperé abriu um sorriso:


— Aquele que falava com as árvores?


Piracy confirmou:


— Sim… Dizem que Muirá Ubi nasceu com o dom de ouvir o que as árvores diziam. Antes de cortar um galho ou colher um fruto, ele pedia licença e agradecia. Foi ele quem ensinou aos nossos ancestrais que a mata não se domina, se respeita.


Neêperé fechou os olhos, como se pudesse ouvir as árvores naquele momento.


— Um dia, tu também ensinarás isso aos teus filhos… — completou Piracy.


A menina sorriu, abraçando forte a mãe.


O sol começava a se pôr, tingindo o céu com tons de fogo e esperança.


Piracy então se levantou, estendendo a mão para a filha:


— Venha, vamos ao rio. Quero te mostrar o lugar onde minha avó, tua bisavó, me contava estas histórias, e onde um dia tu também contarás aos teus.


As duas caminharam de mãos dadas até a beira do Opará. O rio seguia, eterno, levando e trazendo memórias.


E ali, sob o céu estrelado que começava a despontar, Neêperé prometeu em silêncio que jamais deixaria os nomes se perderem.


Porque, como sempre dizia sua mãe:


“Quando um nome é pronunciado com amor, ele nunca morre.”


E assim, o espírito dos nomes indígenas continuava vivo, forte, fluindo como o próprio rio.


Os anos passaram, como as águas do Opará que nunca param de correr.


Neêperé cresceu, aprendeu a respeitar e ouvir a voz da terra, a linguagem do rio e os segredos das árvores, como sua mãe, Piracy, lhe ensinara. Casou-se, teve filhos, e quando o tempo se fez maduro, nasceu Indaiá — sua neta, flor silvestre, forte e delicada como a árvore que lhe emprestou o nome.


Indaiá corria pela aldeia, com os pés descalços, os cabelos negros esvoaçantes, colhendo flores e ouvindo os cantos dos pássaros.


Numa tarde em que o céu se tingia com as mesmas cores que um dia tingiram as tardes de Piracy, Neêperé chamou sua neta:


— Indaiá, venha cá!


A menina correu e se aninhou aos pés da avó, como fazia quando queria ouvir uma de suas histórias.


Neêperé passou a mão carinhosa pelos cabelos da neta e disse:


— Hoje vou te contar uma história muito antiga… sobre os nomes que correm em nosso sangue, como corre o rio.


Indaiá abriu bem os olhos, curiosa:


— Sobre os nossos nomes?


Neêperé sorriu, vendo nela o brilho inquieto de todas as mulheres da sua linhagem:


— Sim, minha netinha. Havia uma mulher forte, chamada Piracy, a mãe dos peixes… minha mãe, tua bisa…


E então, com a voz embargada de emoção, Neêperé contou à neta as mesmas histórias que ouvira sob a gameleira, quando também era apenas uma menina.


— Ela me ensinou que nossos nomes guardam nossas histórias, que eles falam da nossa ligação com a terra, com os rios, com o céu…


Fez uma pausa, olhando para o horizonte, onde o rio brilhava sob o sol poente:


— Mas, um dia, tentaram nos tirar isso…


Indaiá franziu o cenho:


— Quem, vovó?


Neêperé respirou fundo:


— Aqueles que vieram do outro lado do mar. Eles chegaram com suas cruzes, suas armas, suas leis… Quiseram apagar nossa fala, mudar nossos nomes…


Indaiá, aflita, perguntou:


— E conseguiram?


A avó sorriu, acariciando-lhe o rosto:


— Conseguiram em parte… Muitos de nós passaram a se chamar Maria, José, Antônio… Mas, dentro de cada um, a força do nome antigo nunca morreu.


Apontou para o peito da neta:


— Está aqui… dentro de ti.


Indaiá colocou a mão no coração, sentindo o calor das palavras da avó.


— Por isso me chamo Indaiá?


Neêperé assentiu:


— Sim, para que nunca esqueças quem és, para que continues a tecer essa rede invisível que liga Piracy, Neêperé e agora… Indaiá.


A menina sorriu, feliz, e deitou no colo da avó.


O vento soprou suave entre as folhas da gameleira, e o Opará continuou a cantar seu canto milenar.


E então, olhando o céu que começava a se encher de estrelas, Neêperé disse, quase num sussurro:


— Um dia, minha neta… tu também contarás essa história aos teus filhos, aos teus netos… E eles contarão aos deles…


Indaiá fechou os olhos, abraçada à avó, e prometeu, em silêncio:


“Nunca deixarei os nomes se perderem.”


E assim, naquela tarde banhada de luz dourada, o ciclo se completou — e seguiu adiante, como sempre seguiu, desde o tempo das origens, desde quando o Opará começou a correr.




Contado por: Nhenety Kariri-Xocó






terça-feira, 3 de junho de 2025

SUÍRA, O Jovem Pajé









Na beira serena do rio São Francisco, onde as árvores antigas sussurram segredos aos ventos de Alagoas, ergue-se a Aldeia de Colégio. Ali, entre cantos e memórias, pulsa forte a tradição do Ouricuri, ritual sagrado que atravessa o tempo, guiando gerações dos Kariri-Xocó.


Por muitas luas e sóis, a condução desse ritual permaneceu nas mãos de uma mesma família: os Suíra. Foi Luvico quem primeiro recebeu o chamado espiritual, passando adiante a missão a Manoel Baltazar. Depois, as palavras do sagrado foram guardadas por Manoel Paulo, que as transmitiu a seu neto, Manoel Joaquim de Santana, conhecido por todos como Dunga.


Mas como o rio, a vida também faz curvas inesperadas. Dunga, em meio a um desentendimento com Gravié, outro importante líder da aldeia, interrompeu o ritual do Ouricuri. Três longos anos se passaram, e o silêncio parecia ter calado as vozes dos ancestrais.


Porém, a tradição não podia morrer.


O Conselho Tribal reuniu-se em círculo, sob a sombra acolhedora dos juazeiros. Depois de muitos diálogos e olhares para o passado e o futuro, escolheram um novo guardião para o ritual: Francisco Suíra, outro neto de Manoel Paulo. Ele era apenas um jovem de dezesseis anos, mas já carregava no olhar a força dos antigos. Entre os seus, era chamado carinhosamente de Francisquinho.


Assim, com a responsabilidade que só os grandes líderes conhecem, Francisco Suíra tornou-se o novo pajé. Conduziu novamente o Ouricuri, devolvendo vida ao que parecia adormecido.


Ao longo de sua trajetória, Suíra deixou marcas profundas: fundou, em 1944, o Posto Indígena na Aldeia de Colégio, durante os tempos do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Décadas depois, ao lado do cacique Cícero Irêcê, lutou bravamente pela retomada da Fazenda Modelo, conquista emblemática de 1978.


Francisco Suíra — ou simplesmente Pajé Suíra — partiu em 1994, aos 82 anos. Mas sua presença permanece viva: na memória do seu povo, no fortalecimento da cultura Kariri-Xocó e no nome que batiza a Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra, onde novas gerações aprendem, crescem e sonham.


E assim, como os ciclos eternos da natureza, a história de Suíra continua a ecoar, inspirando os que seguem pelo caminho da tradição.



Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 3 de junho de 2025.





NHEÊPERÉ, A Voz Ancestral Que Fala com Poder

 










Na aurora dos tempos, quando o Opará ainda sussurrava segredos apenas aos que sabiam escutá-lo, existia, firme como o tronco do jenipapeiro, a antiga Aldeia de Colégio. Ali, entre as águas abundantes e a mata generosa, vivia a grande família Pirigipe — os “Pescadores”, conhecidos por todos como Baca, o “Povo da Flecha”.


O nome Pirigipe vinha do casamento das palavras pirá, o peixe, e gibe, a nadadeira, revelando os que sabiam nadar entre os cardumes e capturá-los com maestria. Já Baca vinha de abá, o povo, e aca, o bico da flecha, os que transformavam o arco e a flecha em extensão de seu próprio corpo, pescadores e guerreiros do rio.


Dessa linhagem destemida nasceu aquela cujo nome seria gravado na eternidade: Nheêperé — a “Palavra Mágica”, “Aquela que fala com poder”. Seu nascimento foi saudado pelas águas do Opará e pelos ventos da mata; os anciãos logo perceberam que ali estava uma mulher escolhida pelos seres sagrados, dotada do dom raro de fazer da fala um caminho de sabedoria e força.


Naquela aldeia, que era abrigo para muitos, encontravam-se povos irmãos: Kariri, Karapotó, Aconã, Natu e Xocó. Fugidos das dores impostas pelos colonizadores, haviam tecido uma só teia, um só canto, uma só resistência. E entre eles, Nheêperé erguia-se como a mais sábia, guardiã das histórias, detentora das palavras que curavam e orientavam.


Contam os mais velhos que Nheêperé, com seu ornado de flores no cabelo e seu olhar que atravessava o tempo, estava presente quando, em 1859, o Imperador D. Pedro II visitou a aldeia. Lá, sua presença silenciosa, mas cheia de dignidade, testemunhou os encontros e os desencontros entre os mundos.


Era filha do valente indígena Manoel Altanásio, cabo de esquadra que andava lado a lado com o Capitão-Mor Pedro Lolaço, seu parente e companheiro nas andanças pelos sertões e pelas lutas que garantiram a sobrevivência de sua gente.


Os ciclos do tempo giraram, como gira a correnteza do Opará. Nheêperé viveu cento e quinze anos, vendo a aldeia transformar-se em cidade, em 1876, e com o coração sangrando, prometeu: “Minha palavra não descansará até que meu povo seja reconhecido.”


E assim foi. Já anciã, com a força das raízes profundas, em 1935, conversou com o estudioso Carlos Estevão, do Museu Goeldi. Sua fala firme e verdadeira permitiu que ele a reconhecesse como pertencente à etnia Natu. Esse encontro foi como o disparo certeiro de uma flecha: cruzou os ventos do tempo e preparou o caminho para a proteção de seu povo.


Por sua voz, em 1944, foi criado o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, pelo Serviço de Proteção aos Índios — o SPI —, marco de resistência e sobrevivência para aqueles que a terra e o rio geraram.


Nheêperé, a incansável, viveu para ver seu povo novamente protegido, para ver a promessa cumprida. Partiu em 1953, deixando atrás de si não apenas uma história, mas um legado, como uma árvore que, ao cair, espalha sementes por toda a floresta.


E assim, até hoje, nas margens do Opará, quando o vento balança as folhas e as águas sussurram, os mais atentos podem ouvir: é a voz de Nheêperé, a Palavra Mágica, a Anciã que fala com poder, ensinando que enquanto houver memória, há resistência, e enquanto houver palavra, há vida.




Autor: Nhenety KX