segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

ETIMOLOGIA DE BASHIU 'CACHORRO' DA LÍNGUA XOCÓ


No vocabulário de Loukotka de 1963, o autor anota palavras dos falantes do povo Xocó, são poucas que restam, mas muitas dão pistas de conexões passadas bastante interessantes, uma delas é bashiú 'cachorro', dessa estrutura é possível teorizar as seguintes formas:


1ª teoria) bashiú deriva de bashiú 'soltar, desamarrar', cognato do Xavante watsihu 'soltar, desamarrar', indicando que o animal era solto, talvez se referindo ao uso brutal destes animais como ferramentas por parte dos europeus para colonizar as terras brasileiras, se referindo a eles como animais que eram 'soltos por seus donos para caçarem'.


2ª teoria) bashiú deriva de bashi-hu 'estrela-onça', onça das estrelas, talvez o nome tivesse alguma alusão a algum conto lendário do povo Xocó, cujo infelizmente não tenho conhecimento sobre, novas pesquisas serão feitas para averiguar tal teoria.


 Com essas duas teorias, tomo a oportunidade para reconstruir os seus possíveis constituintes:


Terejê *wacihu 'soltar, desamarrar'


Xocó: bashiu

Natú: washihu

Wakonã: bashihú


Terejê: *waci 'estrela'


Xocó: bashi

Natú: bashi, bati

Wakonã: washí, watí


Terejê *hu 'onça'


Xocó: u

Natú: hu, ho

Wakonça: hú, hô




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 



terça-feira, 23 de janeiro de 2024

ADIÇÃO PARA A ETIMOLOGIA DO NOME TEREJÊ

 

É possível notar em vários grupos humanos do mundo a denominação de sua própria língua e cultura como um todo a partir das palavras 'verdadeira', 'boa', 'clara' e outros adjetivos positivos, tal não parece ser um conceito alienígena para os povos Terejê. Eu gostaria de manter aberta a possibilidade da última etimologia publicada ser a origem real, mas também gostaria de adicionar alguns achados recentes que fiz:


Xerente: waptẽrẽ 'chamar de, pronunciar'


Xerente: zidi 'clarear, brilhar'


 Eu percebi que talvez os Terejê na verdade se chamassem de 'aqueles que falam claramente' quando notei a possibilidade de -jê no final do endônimo se comparável com a palavra composta do Kipeá WORONÈ 'falar inteligivelmente', composto de WORO- 'classificador de diálogos' + NÈ 'claro', fazendo com que Terejê seja:


Tere-jê 'pronunciar claramente' > 'aquele(s) que pronuncia(m) claramente'


 Nesse caso, não é comparável fonéticamente, isto é, pelos sons, mas pelo quesito semântico, ou seja, no significado da palavra, a palavra NÈ significa 'claro' e é usada para definir um WORO-NÈ 'diálogo claro', portanto é possível que tal tenha ou sido herdado ou feito separadamente, mas seguindo a mesma lógica que a autodenominação dos Terejê, cujo pegaram seu verbo têrê 'pronunciar' e juntaram com o verbo jê 'clarear, brilhar'.


 Novamente digo que não descarto a possibilidade da etimologia anterior, porém creio que seja necessário adicionar o máximo de possibilidades para que se haja uma discussão mais elaborada sobre qual seria o nome próprio dos povos Xocó, Natú e Wakonã. Além de é claro trazer de volta os seguintes verbos:


Terejê *têrê 'pronunciar'


Xocó: têrê

Natú: têrê

Wakonã: têrê



Terejê: *je 'brilhar, clarear'


Xocó: je

Natú: zì, zi

Wakonã: jim




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 



quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

ESCLARECIMENTO DA ETIMOLOGIA DA PALAVRA NATÚ

 

Sabe-se que os três povos conhecidos do ramo étnico Terejê são: Xocó, Natú e Wakonã, também sabe-se que seus nomes dividiam-se baseados no paretensco, onde os Natú eram os considerados ancestrais, eu não discordo dessa etimologia, mas venho de volta para esse tópico para esclarecer um achado.


 Agora que as evidências foram demonstradas da conexão Terejê-Akuwẽ no âmbito genético (linguisticamente falando) e na conexão Terejê-Kariri no âmbito diplomático, pode-se aos poucos traçar os parâmetros de sua revitalização de uma forma adequada, mas para isso, é necessário checar tudo, para entender quais eram as relações destes povos com aqueles ao seu redor, quase nenhum povo do planeta Terra vive em absoluto isolamento, portanto os Natú sem dúvidas teriam interagido com mais de uma etnia.


 Nesse caso, argumento graças a ajuda de Nhenety, que me informou sobre a miscigenação Natu-Tupi que ocorrera no passado, tal mistura talvez tenha trazido consigo alguns empréstimos Tupi. Agora, peço ao leitor que entenda, eu não estou me referindo necessariamente aos Tupinambás nesse caso, pelo menos, não SÓ eles, não temos registros totais das interações que os Terejê tiveram ao longo de sua jornada, em algum momento, eles parecem ter vivido no cerrado junto com os Akuwẽ, talvez mais ao norte onde poderiam interagir de forma bem breve e antecendente às migrações Tupi para o litoral do Tupi.


 Veja que a palavra Proto-Tupi-Guarani (ancestral direto do Tupinambá) para grande é *wacu (watxú), que resultou no Tupi Antigo -gûaçu ~ -ûaçu, antes de ser wacu, era no Proto-Mawé-Guarani, o ancestral que veio antes do ancestral do Tupi Antigo (se o Tupi Antigo é o pai do Nheengatu e o Proto-Tupi-Guarani é o avô, o Proto-Mawé-Guarani é o bisavô), portanto ele é muito mais antigo, nele a pronúncia da palavra era -atu, com o hífen indicando a possibilidade de prefixação, onde variava entre atu e watu. 


 Essa possivelmente é a palavra ancestral do nome Natú, veja bem, dentro do documento de Clovis Antunes, assim como vários outros que mencionam os Wakonã, seu nome surge com quatro variações: Akonã, Yakonã, Nakonã e Wakonã, aqueles que tem y-, n- e w- são versões prefixadas com prefixos relacionais, Natú provavelmente é o mesmo: n-atú 'relativo ao/do grande (ancestral)'.


 É interessante verificar tal etimologia, pois indicaria uma interação e miscigenação muito mais precendente do que pensávamos entre os Tupi e os Terejê




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 



HISTÓRIA DE JURUMBÁ


A pescaria do caniço era praticada pelos Kariri-Xocó, nas margens do Rio São Francisco, com a diminuição do volume dágua do Velho Chico, a mata ciliar quase desaparesceu. Nesta antiga pescaria era formado dois grupos de pessoas, com um homem em cada grupo, puxando a fileira de mulheres. O homem era chamado de cortador de caniço, que cercava o mato na beirada do rio,  fazendo uma meia lua, cada pessoa carregava um jereré para pegar o peixe cercado. Os meninos e meninas pisava o caniço, como uma dança, o peixe saiam do mato e caiam na rede do jereré. Contavam os mais velhos da tribo que uma dessas meninas


Dançando em duas filas Homens e Mulheres

chamava-se Camãna filha de Jurumbá. Quando a pescaria começava os pescadores chamava : "Camãna bonita de Jurumbá", assim foi criado este Toré que homens e mulheres pisam no chão formando dois círculos, como estivesse pisando o caniço. Este Toré é cantado assim :


A Camãna Bonita de Jurumbá

Olé Oi Lé Dchá

A Camãna Bonita Pisa de novo

Bis...Bis...Bis...

A Camãna Bonita Vamos Pisar

Bis...Bis...Bis...


   Depois os cantadores chamando o nome de cada pessoa na dança, também escrevi este Toré nas línguas Portuguesa e Kariri :


"CÁ BYKÉ WIDOBAE AÍ BY JURUMBÁ

Chamar irmã bonita o pé dançar

YAHÉ YANÉ BÁ

Voz de homem estar afiada ficar".


    Devemos relembrar nossas tradições dos cantos do Toré,as danças, faz parte da Memória do Povo Kariri-Xocó, nossas histórias muitas vezes estar expressa nesta arte musical indígena de nossa comunidade.


 Dakrata tu za dipazé buré dì Monterezìnan, ma iñabak Opara, mêra bazu iñadu iñakrananan Opara, tibududu za kieñe robàré watobà. Dakrata dende za ma ta kieñe dipazé wakañì dozì, mêra warandì menzìkîô ma warandìrobà dozì, da tikóñì awan pikuânan. Dakrata zeka za menzìkîô poza buré, rotuza mèra ma bak krananan, da tipì krawave krâna, dakrata madì za warandìrobà zì zéréré dì myta di rotudì. 


 Dakrata pepe za menseókó pikuâseókó bà buré, mana wayu, dakrata poshi za mèra, dakrata barî za ma krudìmu zéréré. Dakrata wêkama za natunan donana warandì pikuâseókó da tiwayu ma wakañì awan Menzìkîô Pikuâ bà dakrata zeka za Kamana, krapikuâ Zurumba. Na dipazé dakrata tubàrà, dipazanan dakrata zeka za: "Kamana kiehaì Zurumba", mata dakrata zadì za ta Tora, mapa menzìkîô pikuânan bà ma atisêrê dakrata pepe za, da tipì wakañì kratukónan, mana na da tipepe buré. Ta Tora kamaradì mara:


Kamana Hakie Zurumba

Olé Oi Lé Tsha

Kamana Hakie Pepe ta

Wakañìña...Wakañìña...Wakañìña...

Kamana Hakie da né za pepe

Wakañìña...Wakañìña...Wakañìña...


 Da tizeka abaka marazanan inze warandìrobà zì ma wayu, dakrata wìkré za wa dì ta Tora ma wêrìzé Zitók wêrizé Zìnunu bà:


"CÁ BYKÉ WIDOBAE AÍ BY JURUMBÁ

Chamar irmã bonita o pé dançar

YAHÉ YANÉ BÁ

Voz de homem estar afiada ficar".


 Izamadì wankra wazìnan simunan mara Tora, wayunan bà, iñabak wankra Monterezìnan, wêrìtodì tu makrata wazìnan wêkamanan ma iñapì maradì terezì wazìnan dozìbà.



 Com esta história traduzida, também trazemos eu e Nhenety a reconstrução da palavra Jurumbá, que ao comparar diretamente com o Akuwẽ, parece ter sido composto de duas palavras, jurum-bá 'pequena repartição', como Nhenety me explicou, a palavra talvez se refira a um título antigo de um dos chefes sociais das quatro malocas coletivas que formam uma aldeia tradicional. Com isso, Jurumbá, descendente de Tarobá seria o 'chefe da pequena repartição'.




Autores da matéria: Suã Ari Llusan tradução em Natú e Nhenety KX texto em Português. 




quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A ETIMOLOGIA DE MARUANDA 'VIGILANTE'

 

A palavra Maruanda é uma das palavras preservadas no vocabulário Kariri-Xocó, aqui venho providenciar alguns argumento de que tal palavra derive de alguma língua Terejê:


Ma 'pronome relativo, aquele que'


Ruan 'clareza, claridade'


Da 'olhar, zelar'


Estas palavras podem ser vistas nos vocabulários do Xavante e Xerente e comparadas diretamente, sua composição e evoluação também são claras, visto que temos a evolução regular de /o/ > /u/ (ex.: nerú 'amontoado', que tem seu ru derivado de um antigo ro 'coisas', como visto no Xerente ro 'idem'), a queda da coda, que é estendida no Akuwę, portanto onde o Xavante de wa'a (< *waka), teríamos wa, assim *ro-wa > *ru-wa > ru-a.


 Por último, da (não acentuado) também é comparável diretamente com dâkâ 'olhar, zelar' e o Xavante 'madö'ö 'ver', com a mesma perda da coda vista antes, assim criando:


MA-RUÃ-DA 'aquele que com clareza olha' > 'vigilante'


Reconstruo para o resto do Terejê como:



Xocó: maruanda

Natú: maruandó, maruandì

Wakonã: maruande, maruanda




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE SINHÃ 'SUCESSOR(A)'

 

Essa palavra me deu um pouco de dificuldade na sua decomposição em 2022, isto por que eu estava confiante da composição entre um verbo SI 'suceder' + NHÃ 'senhor', versão palatalizada por causa do I de SI, derivado da mesma raiz que NANHE do Dzubukuá.


 No entanto, agora que estou analisando o adstrato dentro do vocabulário Kariri, venho buscando outras formas de analisar as palavras que analisei no passado, foi aí que me deparei com esta palavra no dicionário do Xavante de Lachnitt de 1987 que bate tanto no aspecto fonológico quanto semantico com SINHÃ, NHÃ realmente foi palatalizado por SI, palavra anterior talvez sendo SINÃ, derivando de um verbo que significa 'continuar, fazer continuadamente', portanto 'suceder, prosseguir com o que estava sendo feito antes'. Reconstruo para as outras línguas como:


Proto-Kariri *tsinã ~ txinã 'suceder, continuar'


Dz.: hinhiam, dhinhiam (h ou dh < *ts ou c no Proto-Kariri ?)

Kp.: sinhã

Sp.: sinyáng

Km.: sinyàng

Kt.: iñan

KX.: sinhã, hinhã, dhinhã

Pp.: sinhã

Kb.: hinhã


Terejê *txinã 'suceder, continuar'


Xokó: sin'ã, tsin'ã

Natú: siñan, shiñan

Wakonã: sinhám, xinhám




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




domingo, 14 de janeiro de 2024

ETIMOLOGIA DE PHOXINÕ


 A palavra phoxinõ, uma das palavras restantes da língua Natú, demonstra uma conexão espetacular com o Akuwẽ, a palavra parece ser cognata do:


Xerente: sinõkr zaka 'irara, papa-mel'

Xavante: sinhoreza'are 'irara, papa-mel'


A palavra compartilha do compost SHINÕ com o Akuwẽ que se separa como SHI-NÕ 'comer-mantimentos':


Xavante: tsi 'comer'

Xavante: nho 'mantimento, comida, fruto'


PHO parece ser a palavra para 'comprido', cognata do:


Xerente: po 'achatar, enlarguecer'

Xavante: po 'comprido'


Portanto criando PHO-XI-NÕ '(animal) comprido que come mantimentos', reconstruo para as outras línguas Terejê como:



Terejê: pho-ci-nõ 'irara'


Xokó: potsinõ

Natú: phoshinon

Wakonã: pôxinôm


Terejê: po 'comprido, achatar'


Xokó: po

Natú: pho

Wakonã: pô



Terejê: *ci 'comer'


Xokó: tsi

Natú: shi

Wakonã: xí



Terejê: *nõ ~ nhõ 'mantimento'


Xokó: nõ, n'õ

Natú: non, ñon

Wakonã: nôm, nhôm



Aproveito também para traduzir para o Kariri:


Proto-Kariri *do-buho-ki 'comer-sustento-comprido'


Dz.: dobuôki

Kp.: dòbuhòchì

Sp.: toppuhokí

Km.: dobbuhocì

Kt.: dobuhoshi

KX.: dôbuôkí, poshinõ

Pp.: dôbuhôchí

Dz-Tx.: dobuoki

Kb.: dôbuhôchí




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

ETIMOLOGIA DE RIHU E RIÚ 'LAGO'

 

A palavra é composta de dois elementos RI 'nadar, atravessar' do Proto-Cerratense rê 'nadar, atravessar' e GU 'líquido', derivado da mesma raiz que KU 'líquido' do Kipeá, portanto reconstruo como:


Proto-Kariri *righu 'lago, lagoa'


Dz.: rihu

Kp.: riù

Sp.: liggú

Km.: liggù

Kt.: riu

KX.: rihú, riú

Pp.: riú

Dz-Tx.: rihu

Kb.: riú


Terejê


Xokó: rigu

Natú: rigu, ligu

Wakonã: rigú




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

ETIMOLOGIA DE WARAERÓ E WARUDU


As palavras registradas por Mamiani para se referir ao pão indígena, isto é, o beiju, foram waraeró 'beijú' e warudu 'bolo de mandioca assado', ambos compartilham da palavra WA, cujo deriva do Proto-Cerratense *kwar 'beiju com carne', os compostos são


WA-RAE-RÓ 'beiju-branco-chapada' ou 'beiju-branco-coisa'


WA-RUDU 'beiju-áspero'


Reconstruo as palavras como:


1) Proto-Kariri *wâ 'beiju'


Dzubukuá: wa

Kipeá: wà

Sp.: wá

Km.: wà

Kt.: wa

KX.: wá

Pp.: wá

Dz-Tx.: wa

Kb.: wá


Terejê


Xokó: wa

Natú: wa

Wakonã: wá



2) Proto-Kariri *rà 'branco, ser branco'


Dz.: rè, roè

Kp.: rae

Sp.: rái

Km.: rài

Kt.: ré

KX.: rae

Pp.: rae

Dz-Tx.: ra, re

Kb.: rê


Terejê


Xokó: râ

Natú: rà

Wakonã: ré


3) Proto-Kariri *ró 'coisa' e *ró 'chapada'


Dz.: rò

Kp.: rò

Sp.: rói

Km.: ròi

Kt.: ró

KX.: ró

Pp.: ró

Dz-Tx.: ro

Kb.: ró


Terejê


Xokó: ró

Natú: ró

Wakonã: ró


4) Proto-Kariri *rudu 'áspero'


Dz.: ruddhu

Kp.: rudù

Sp.: ruttú

Km.: ruddù

Kt.: rudu

KX.: rudú

Pp.: rudú

Dz-Tx.: rudu

Kb.: rudú


Terejê


Xokó: rudu

Natú: rudu

Wakonã: rudú





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

ETIMOLOGIA DE RÕMPÂTI 'TATU' DO XOKÓ

 

Existem duas palavras Xokó que foram registradas para animais: rõmpâti 'tatu' e shiãti 'porco', descobri recentemente a relação de 'tatu', cujo provavelmente tem relação com a seguinte palavra do Akuwẽ:


Xavante: ropãrĩ 'desmaiar'


 Neste caso, 'desmaiar' está se referindo ao seu ato de se defender ao tomar o formato de bola, tanto que existe um tatu referido como tatu-bola, devido ao seu mecanismo de defesa. É importante notar essa forma de criar nomes de animais, visto que tanto 'tatu' quanto 'porco' usam do sufixo predicativo -TI, também visto no Kipeá (herdado do Natú) como -di em HOMODI 'embora, seja assim', portanto rõmpâ-ti significa 'que é desmaiado'. Não descartando a possibilidade também de pâ ser cognato do Xavante pahi 'ter medo' acoplado ou prefixo RO- intensificador, formando rõ-pâ-ti 'que tem muito medo, que é muito tímido', se referindo também ao mecanismo de defesa do animal. Reconstruo como:


Xocó: rõpati

Natú: rombadi

Wakonã: rômpeti, rômpati





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




terça-feira, 9 de janeiro de 2024

ETIMOLOGIA DE AGÀ E AGANORI DO KIPEÁ

 

A palavra é traduzida para o latim com o significado de heu dolentis, HEU é a interjeição latina que significa 'ai de mim, infelizmente', dolentis é de onde deriva o nosso 'dor' e 'doloroso', então é a interjeição de dor, cujo Mamiani diz que era usado pelas mulheres. A palavra provavelmente pode ser traçada de volta para o Natú através destes cognatos:


Xavante: a'ö 'ainda, espera!, por enquanto'

Xerente: akâ 'ainda, antes'


NORI que se junta com AGÀ vem do próprio Kariri e significa 'porque, por causa disso', então sendo possível traduzir como AGA-NORI 'ainda por causa disso', servindo como uma reclamação causada por dor de algo. Reconstruo como:


Proto-Kariri: *aga, aga-norì 'infelizmente, ai de mim'


Dz.: aha, ahanoli

Kp.: agà, aganori

Sp.: aká, akanolí

Km.: agà, aganorì

Kt.: aga, aganori

KX.: agá, aganori

Pp.: agá, aganôri

Dz-Tx.: aha, ahanoli

Kb.: agá, aganôri


Terejê


Xocó: aka

Natú: aga

Wakonã: aká, agá





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




CORREÇÃO DA ETIMOLOGIA DE TIPIA 'CABEÇA' DO XOCÓ


 Ontem à noite enquanto eu estava deitado antes de dormir, parei para pensar sobre a publicação anterior um pouco e também sobre sua relação com a publicação que veio antes dela, entitulada NOVA DESCOBERTA SOBRE A EVOLUÇÃO DO TEREJÊ E SUA CONEXÃO COM O AKUWẼ, se existe uma conexão tão forte com o Akuwẽ nas mudanças fonéticas, existe a possibilidade de *tipia* especificamente ser um desenvolvimento que vemos por exemplo no Dzubukuá.


 O que estou tentando dizer é que as palavras cujo usei na etimologia de ontem estão corretas *tə̂t-pᵊ-kyj 'firme-ver-topo', mas a reconstrução da última palavra é o problema, veja que a palavra *kyj do Proto-Cerratense resulta em *həj no Proto-Akuwẽ, se seguirmos a lógica de que a mesma mudança de *k > *h aconteceu no Terejê, teríamos no Xocó Antigo *tipiha, com o Xocó Moderno (aquele que veio depois da colonização portuguesa e sua subsequente influência) tipia, com a perda do -h- intervocálico por enfraquecimento de sua pronúncia, portanto corrijo as reconstruções para:


Xocó: tipia

Natú: tìpìha, tìpìa

Wakonã: têpêhá





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

A ETIMOLOGIA DE TIPIA 'CABEÇA' DO XOCÓ

 

A palavra registrada para 'cabeça' do Xocó surge em um documento de 1963 de autoria de Loukotka, por um tempo ela me causou dúvidas pois nenhuma palavra no Terejê, Akuwẽ ou próprio Proto-Cerratense tem a estrutura TI-PIA. Foi aí que ao teorizar sobre a mudança que estava ocorrendo no Xocó de /k/ > /ʔ/, cujo é a mesma mudança que fez o Xavante perder o som k, que eu percebi que tipia na verdade era tipi'a, vindo de um antigo tipika, uma construção Terejê das seguintes raízes Cerratenses:


TI 'firme, duro', do Proto-Cerratense: *tə̂t 'firme, duro'


PI 'olhar, observar', do Proto-Cerratense: *pᵊmbu 'ver'


KA 'topo, cume', do Proto-Cerratense: *kyj 'topo, cume'



Reconstruo para as outras línguas como:


Xocó: tipi'a

Natú: tìpìka

Wakonã: têpêká, tipiká



Fonte: NIKULIN, ANDREY, Proto-Macro Jê: Um estudo reconstrutivo, UNB, Brasília, Goiás, 2020, p. 449, 453 e 468





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




domingo, 7 de janeiro de 2024

NOVA DESCOBERTA SOBRE A EVOLUÇÃO DO TEREJÊ E SUA CONEXÃO COM O AKUWẼ


 Sabe-se através dos Natú de Colégio que os Akuwẽ eram considerados um povo a parte, os Peagaxinã chamam eles também de Kôbê, e na língua Natú significa 'estrangeiro' e não 'povo', indicando a separação étnica Terejê. Mesmo que não exista um laço direto entre os dois povos, pode-se notar que eles estão muito conectados ao analisar a língua deles.


 Veja bem, uma característica muito importante do Jê Central (mesmo que Akuwẽ) é que a sílaba KA átona, isto é, em uma posição onde ela não é a sílaba tônica, torna-se WA, isso só acontece (de acordo com a pesquisa de Andrey Nikulin de 2020) no ramo Central, um exemplo disso é *karên 'fumo' do Proto-Cerratense, que surge no Xavante como warĩ e no Xerente como warĩ, mas essa palavra não é exclusiva deste grupo, o Natú também a herdou de sua língua ancestral, e nela surge como barí, o uso de /b/ ao invés de /k/ (hipotético *karí) indica que o Natú, e por extensão o subramo Terejê, passou pela evolução específica do ramo Central de *ka > wa, onde wa sofreu betacismo (cf. betacismo do espanhol de v pronunciado como b) e virou ba, esta é a prova definitiva da conexão destes dois grupos culturais e linguísticos, eles compartilharam de um aspecto muito importante no desenvolver de suas línguas, indicando que eles formam membros separados de um único ramo Central que se divide em subramos Ocidental (Akuwẽ) e Oriental (Terejê). Reconstruo a palavra para as outras línguas Terejê como:


Xokó: warî, varî

Natú: barî, bari

Wakonã: barí





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




REANALISANDO AS PROPOSTAS ETIMOLÓGICAS ANTERIORES DOS NUMERAIS KARIRI


Os numerais que temos registrados são os seguintes:


Dzubukuá


1 = bihè

2 = witane

3 = witanedique

4 = ?

5 = ?

6 = ?

7 = ?

8 = ?

9 = ?

10 = kedamoedha


Kipeá


1 = bihé

2 = wacháni

3 = wachanidikié

4 = sumarã orobae

5 = mŷ bihé misã saí (levar uma mão para ele)

6 = mŷreprí bubihé misã saí (levar uma mão junto com um (dedo) para ele)

7 = mŷreprí wacháni misã saí  (levar uma mão junto com dois (dedos) para ele)

8 = mŷreprí wachanidikie misã saí (levar uma mão junto com três (dedos) para ele)

9 = mŷreprí sumarã orobae misã saí (levar uma mão junto com quatro (dedos) para ele)

10 = mŷcribae misã saí (levar todas as mãos para ele)

20 = mŷcribae misã idehó ibŷ saí (levar todas as mãos incluindo os seus pés para ele)


Kamurú


1 = liauigäboh

2 = liauithikanihüh

3 = liauithikanihühke

4 = ibichó

5 = ibichó




Começando com o Dzubukuá e Kipeá, vamos para BIHE



1) BIHÈ/BIHÉ 'um'


 A raiz BI para um parece ter conexão direta com os morfemas vistos nas palavras:


Xavante: mitsi 'um'

Xerente: pisi 'único'


Enquanto hè/hé, que também surge como ho no Kipeá em woibiho provavelmente tem relação direta com um verbo que significa 'cortar', também visto no:


Xerente: ké 'cortar'


Essa palavra surgiu com essa pronúncia a partir de um estágio intermediário de *gé, o processo fonético que levou a isso deve ser o mesmo pelo qual o Natú passou com gôzê 'jacaré' de um antigo *ku-sê 'jacaré-animal', este -sê/-zê sendo visto desvozeado em sêprun 'veado'.


De acordo com Diana Green em sua publicação ""Diferenças entres os termos numéricos em algumas línguas indígenas do Brasil", o Xavante tem no composto mi-tsi duas palavras mi 'lenha' + tsi 'só', indicando que BI-HÈ seria '(um) corte de lenha'.



2) WITANE / WACHÁNI / LIAUIWITHIKANIHÜH


A palavra que surge nas sílabas -tane/-chani/-kani provavelmente deriva de um verbo Terejê, cujo é cognato de:


Xerente: kannãrĩ 'colher (dual ou plural)'


Levando em consideração o que foi discutido sobre codas (neste caso -rĩ), sobre o alçamento vocálico (a, ã > ɪ), palatalização (k > ky > c > ts, t, ch), a forma Terejê provavelmente soaria como *kána 'cortar (dual, plural), a composição dele com o prefixo wa-/wi- parece ser uma forma de indicar que se trata de uma palavra que está sendo contada de alguma forma, tal teoria é confirmada pelo seu uso indiscriminado nos três primeiros números do Kamurú, comecemos com ele para voltar para o Kp e Dz:


li-a-wi-thi-kani é uma junção de alguns elementos que podem ser encontrados em um dicionário Xerente de 1999:


li significa 'colher'


AWITHIKANI-HÜH é um substantivo com mais verbos referente à ação de colher, primeiro temos A- que é o prefixo comum de derivação de substantivos (como visto no Xokó tsá e atsá 'fogo'), WI deriva da mesma raiz que derivou o Xerente wẽkẽ 'quebrar, colher' (do que pude encontrar no dicionário, wẽkẽ não parece ser composto de wẽ + kẽ, o que indica que a segunda sílaba não é uma palavra independente e sim uma extensão de uma antiga coda -k, portanto algo como *wẽk), isso explicaria sua variação entre WI do Dz e Km mas WA no Kp, THI talvez seja uma variante do Kamurú do verbo TÁ 'pegar' do Kipeá, mas pode ser derivado também do mesmo verbo que TI 'botar, escolher', por último temos KANI que deriva do verbo reconstruído acima como *kana 'cortar (dual)', indicando que duas pessoas colhem tal objeto, portanto indicando o número 'dois', daí temos:


Dz.: wi-tane 'colher-cortar(du)'

Kp.: wa-cháni 'colher-cortar(du)'

Km.: li a-wi-thi-kani colher NMLZ-colher-escolher-cortar(du)'


Normalmente verbos duais são usados para a primeira pessoa 'nós dois', então existe a chance de WI-/WA-/WI- na verdade serem os pronomes do Terejê que vimos no Wakonã ba-skiô 'eu, comigo', o que ainda faria sentido na forma que as palavras foram herdadas, sendo a segunda possibilidade:


Dz.: wi-tane 'nós dois cortamos'

Kp.: wa-cháni 'nós dois cortamos'

Km.: li awithikani-hüh 'é coisa colhida que nós dois escolhemos e cortamos'



3) LIAUIGÄBOH 'um'


Aproveito que agora que expliquei a etimologia do número dois, também darei a do número 'um' do Kamurú, que é facilmente explicada como um método similar ao visto no número 'dois'


Se for um verbo conjugado na primeira pessoa (WI), pode ser que seja:


li a-wi-gäboh


GÄBOH sendo neste caso um verbo que signifique 'cortar', só que no singular, ao invés do dual ou plural, portanto sendo:


li a-wi-gäboh 'colher coisa que eu reparti'



Seu cognato direto é o Xerente kapoko 'rachar, repartir, lascar'



4) WITANEDIQUE / WACHANIDIKIE / LIAUIWITHIKANIHÜHKE


A palavra para 'três' deriva da mesma construção que 'dois', juntando duas partículas comuns a todos -KE / -KIE / -KE, se seguirmos os parâmetros deixados por Mamiani, essa vogal registrada variava entre /e/ ~ /ɛ/ ~ /ə/, o Kamurú indica que é pronunciado como e, mas não é tônico, por isso é escrito [ke] ao invés de [keh], o que nos ajuda a procurar seu cognato em outras famílias da América do Sul.


 Primeiro olhemos para o número Kamurú:


li awithikani-hüh ke


 Como vimos no número 'dois', esse número é uma frase que se traduz como 'é coisa colhida que nós escolhemos e cortamos', incluíndo ke na frase significa que mais uma ação foi feita com estes dois itens, nesse caso parece que houve mais uma repartição, visto que o cognato mais aproximado se encontro no:


Xerente: ke 'cortar' ou kẽ 'quebrar, partir'


 Isso significa que das duas pessoas que escolheram algo, cortaram essa coisa e colheram, uma das duas pessoas hipotéticas ainda foi além e repartiu sua porção, criando um terceiro item dos dois primeiros colhidos, isso pode ser exemplificado com duas pessoas pegando gravetos e uma delas quebrando um dos gravetos no meio, assim criando três deles, isso explicaria por que a partir do número 4, 5 e adiante, as duas línguas Kariri que os tem (Kipeá e Kamurú) discordam em como expressar esses números, pois os números mais antigos são os três primeiros, sendo o 2 e o 3 os mais garantidos de serem preservados, então os Kariri expressavam desde os tempos antigos os números das seguintes formas:


1 = lenha cortada ou 'eu sozinho reparti (algo)'

2 = 'nós dois cortamos e colhemos (algo)'

3 = 'nós dois cortamos e colhemos e depois quebramos um dos itens'



5) SUMARÃ OROBAE 'quatro'


 Eu expliquei a etimologia deste no passado, SUMARÃ aqui está sendo usado para denotar oposição, do mesmo jeito que foi usado no Katecismo Indico quando se falava dos pecados e dos remédios contra eles:



Katecismo Indico, pág. 69

Iwanhuquie umanran hany jwanhutce


"Caridade contra a Inveja"


Portanto podemos presumir que o número quatro está em oposição a alguma coisa, essa coisa sendo OROBAE, a única palavra que bate com essa é ROBAE 'todos', vista no Catecismo de Mamiani, cognata do Dzubukuá loboe 'todos', a palavra pode ser derivada de um substantivo Natú:


Natú: AROBÀ 'todas as coisas, tudo', fazendo com que seja portanto SUMARÃ OROBAE 'contrário a todas as coisas', essas "coisas" sendo os dedo anteriormente mencionados, que derivam das coisas que foram cortadas (1), escolhidas, colhidas por duas pessoas (2), cujo uma dessas coisas foi repartida por uma delas (3), portanto uma adição extra que não havia antes neste cenário hipotético.



6) IBICHÓ 'quatro' e 'cinco'


A palavra Kamurú para números maiores que 3 é mesma, neste caso é um substantivo sendo conjugado como verbo, vimos que BI tem relação com MI 'madeira, lenha' do Xavante, também adiciono que no Dzubukuá existe o sufixo -iho 'muito', cujo é talvez o cognato deste -chó que vemos aqui, portanto temos:


I-BI-CHÓ 'é muita lenha' > 'muito'


Este portanto não teria relação direta com IBICHÓ 'pessoa' que é possivelmente cognato de BYDZOHO 'alguém, ninguém, todos' do Dzubukuá.



7) MŶ BIHÉ MISÃ SAÍ 'cinco'


A partir daqui os números serão apenas Kipeá, e o cenário estabelecido nos números 1, 2 e 3 não será mais usado, no lugar deste, um novo cenário é posto, onde a pessoa hipotética 'leva' (MŶ) uma mão (BIHÉ MISÃ) para ele ou ela (SAÍ), ele/ela sendo uma pessoa hipotético número 2 com qual a pessoa número 1 estava conversando.


8) MŶREPRÍ .... 'seis', 'sete', 'oito', 'nove'


A partir daqui a contagem torna-se a partir do verbo MŶ modificado para MŶREPRÍ, essa palavra se trata de um verbo que derivou do Natú, sendo mŷ-ré-pri 'levar-com-avançar', sendo PRÍ cognato do Xavante pra 'correr, avançar', portanto o verbo fala todas as informações que no português ficaria


mŷreprí bubihé misã saí 'LEVAR uma mão COM ADIÇÃO de um (dedo) para ele(a)' > 'seis'

mŷreprí wacháni misã saí 'LEVAR uma mão COM ADIÇÃO de dois (dedos) para ele(a)' > 'sete'

mŷreprí wachánidikié misã saí 'LEVAR uma mão COM ADIÇÃO de três (dedos) para ele(a)' > 'oito'

mŷreprí sumarã orobae misã saí 'LEVAR uma mão COM ADIÇÃO de quatro (dedos) para ele(a)' > 'nove'


PRI também tem chance de derivar da mesma raiz que PRIBAE 'totalmente', dando a ideia de 'levar ao todo X dedos e uma mão para ele(a)'


10) MŶCRIBAE MISÃ SAÍ 'dez'


Dez modifica o verbo novamente, dessa vez o modificador é uma palavra que foi registrada por Mamiani, CRIBAE 'todos', portanto:


MŶ-CRIBAE MISÃ SAÍ 'levar todas as mãos para ele(a)'


20) MŶCRIBAE MISÃ IDEHÓ IBŶ SAÍ 'vinte'


Mamiani não conta os números de 11 a 19, talvez por conta da falta de espaço no seu documento ou por não querer repetir tudo, pode-se presumir que se fosse para contá-los seria com as estruturas propostas aqui, por exemplo:


mŷcribae misã saí sumarã orobae = 14


O número vinte continua o tema do número 10, adicionando à frase "idehó ibŷ", que significa "com os pés dele(a)", o plural aqui sendo implícito, assim 10 dedos das mãos + 10 dedos dos pés = 20.


A função deste texto foi providenciar a visão que os Kariri tinham quando desenvolveram seu sistema numeral, que muito provavelmente era complexo, levando em consideração a existência dos kiekotto dos Dzubukuá, e poderia ter chegado a números muito maiores dependendo da etnia, clã, aldeia e etc. Creio que agora que temos a visão, seja necessário um discussão para desenvolver um sistema numeral que seja mais conveniente para a era moderna.




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE KIERETÚ

 

A palavra é composta das seguintes partes:


KIÈ 'sol', variante de UCHÈ visto no Catecismo de Mamiani

RÈ 'abandonar', cognato do Xavante ré 'abandonar, deixar'

TÚ 'começar', mesma palavra que ITÚ 'estar começando'


Portanto KIE-RE-TU 'o começo do deixar do dia' > 'à boca da noite, crepúsculo', reconstruo para as línguas Kariri e Terejê como:


Dz.: kieletthu, ukieletthu

Kp.: kieretù

Sp.: ucelettú

Km.: ucerettù

Kt.: kieretu

KX.: kieretú, kieletú

Pp.: kiêrêtú

Dz-Tx.: kieretu

Kb.: kiêrêtú


Terejê


Xocó: shuretu

Natú: shulethu

Wakonã: shurêtú




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

A EXPRESSÃO AWANHYIDZE URO


 Essa expressão surge no Katecismo Indico na página 138:


R: awanhyidze uro


R: Correis grande perigo


 A expressão Dzubukuá não diz o mesmo que o texto português, traduzindo literalmente, podemos encontrar o prefixo de segunda pessoa a-, o verbo wanhy 'procurar' e o intensificador -idze, formando o verbo awanhyidze 'tu procuras de verdade, tu procuras mesmo', juntando tudo temos


awanhyidze uro 'tu procuras de verdade isso' ou 'tu está mesmo buscando isso'


Levando em consideração o fato de que essa frase está sendo usada para traduzir "correis grande perigo", é possível que a equivalência dessa frase seja a que conhecemos hoje como "quem procura, acha", a expressão diz que a pessoa está buscando isso (uro), isso sendo a consequência de uma ação repetida considerada negativa, traduzo para as outras línguas como:


Dz.: awanhyidze uro

Kp.: ewanhiidzã urò

Sp.: awaniitzé uró

Km.: awaniitzàng urò

Kt.: avañiizan uró

KX.: awanhiidzã uró

Pp.: aewanhiidzã uró

Dz-Tx.: awañiidze uro

Kb.: êwanhiizã uró


Terejê


Xocó: kawan'idzã ta

Natú: kawañidzan tha

Wakonã: kawanhidzã tá




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE DHAQUIE


A palavra surge na seguinte frase:


Katecismo Indico, pág. 140


Dhaquieba quedde ywè anrandete enna ?


Cometestes o peccado nefando?


O pecado do nefando que Nantes se refere é o homosexualismo, a frase significa literalmente "é comido porventura (dhaquieba quedde) o ânus do homem (ywè anrandete) por ti (enna) ?


Essa mesma palavra DHA surge mais abaixo no catecismo Dzubukuá como DHE 'morder, dente', QUIE (kie) apenas surge aqui com esse significado, possivelmente tem alguma relação com COTÒ 'comer que se guarda', ambas as palavras tem origem Terejê, possivelmente através do Chumimi, cognatos incluem:


DHA 'comer, morder', cognato de


Xerente: sa 'comer, morder'

Xavante: tsa 'comer, comida'


KIE 'alimentar', cognato de


Xerente: ka 'alimentar, dar de comer'


Reconstruo como:


Proto-Kariri *ca 'morder, comer'


Dz.: dha, dhe

Kp.: sõ

Sp.: sáng

Km.: sàng

Kt.: son

KX.: dha, dhe, sõ

Pp.: sãe

Dz-Tx.: dha, dhe

Kb.: hên




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE TOTTO 'APERTAR'


A palavra surge no Katecismo Indico:

pág 140

Tottocli abuiro enna bo inhia annu ?

Apertastes a barriga com as mãos para mover ?

Significa literalmente "apertada tua barriga por ti pelo morrer de teu filho (abortar) ?"

A palavra tem origem Terejê, como é específica do Dzubukuá, talvez a etimologia dessa palavra seja Chumimi, é cognata direta de:

Xavante: toto 'pulsar, latejar'
Xerente: totoko 'pulsar, latejar'

Reconstruo como:

Proto-Kariri toto 'apertar'

Dz.: totto
Kp.: totò
Sp.: tottó
Km.: tottò
Kt.: tótó
KX.: totó
Pp.: tótó
Dz-Tx.: toto
Kb.: tótó

Terejê

Xocó: toto
Natú: toto
Wakonã: tôtô



Autor da matéria: Suã Ari Llusan 



ETIMOLOGIA DE YWANYPODDOTE

 

Essa palavra surge no Katecismo Indico, na página 141, na seguinte forma:


Katecismo Indico, pág. 141


widde ywanypoddote enna mo kludimu dseho ?


Que casta , & quantidade de peixe furtastes no covo ? 



ywanypoddote está na forma chamada de partícipio em -te, que é usada para seres (considerados) inanimados pelo povo Kariri, a pergunta na verdade quer dizer:


"Quanto foi retirado de forma prejudicial por ti do covo do povo ?" ou "quanto você tirou do covo e prejudicou o povo ?", visto que wanypo é cognato distante de palavras encontradas na família Caribe:


Caribe: papo 'jogar fora, fazer cair'

Trio: papo 'jogar fora'


Portanto é uma palavra nativa do Kariri, enquanto -ddo é cognato do Kipeá DÒ 'acometer' que significa nos dias de hoje 'prejudicar', criando o composto:


WANYPO-DDO jogar fora prejudicialmente, ou lendo na provável forma que era pretendida: "remover (de algum lugar) e prejudicar (alguém)"


Reconstruo de volta para as línguas Kariri como:


Proto-Kariri *waipodo 'roubar, furtar, prejudicar'


Dz.: wanypoddo 

Kp.: waipodò

Sp.: waypottó

Km.: waypoddò

Kt.: waipodo

KX.: wãipodó

Pp.: waipódó

Dz-Tx.: wanypoddo

Kb.: waipódó




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE WANHO 'COSTUME'


A palavra para costume do Dzubukuá difere-se daquela vista no Kipeá (SIMÙ), note também que ela está escrita como WANHO e não WANHIO, o que indica que Nantes queria que você pronunciasse como wan-ho, isso nos ajuda a desvendar sua etimologia, sendo esta palavra cognata de:


Xavante: wahu 'ano, seca'

Xerente: wahu 'ano, estação seca, verão'


Reconstruo de volta como:


Proto-Kariri *waho 'ano, estação, costume, hábito'


Dz.: wanho

Kipeá: wahò

Sp.: wahó

Km.: wang'hù

Kt.: wãhõ

KX.: wãhó

Pp.: wahó

Dz-Tx.: wanho

Kb.: wahó


Terejê


Xocó: wahó, wahu

Natú: wahó, wahu

Wakonã: wahó, wahú




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

SENTIDO DE PROTEGER


 Thu azì benehaìkótók waìtìpî zadi pedaza, pebatan neru, pesìtan robà kóhómani bysadì.


Proteger um povo não é apenas evitar seus extermínio, mas reconstruir, revitalizar tudo aquilo que destruiram.




Autores: Suã Ari Llusan texto em Natú, Nhenety KX texto em português. 



CORREÇÃO DA ETIMOLOGIA DE PODSO 'ACORDAR'


 Argumentei no passado que PODSO/POTÇÒ 'acordar' viria de um antigo *PAK do Proto-Macro-Caribe, eu não descarto essa possibilidade visto nossa absoluta falta de dados relevantes sobre esse grupo que envolve o Kariri, Caribe e Boróro, mas um dado relevante surgiu e parece bater diretamente com a etimologia antiga que eu havia providenciado. Este dado é o verbo frasal:


Xerente: to poko 'abrir os olhos'

Xavante: topo'o 'acordar'


POKO por si só significa 'lascar, rachar', usado da mesma forma aqui como no verbo frasal inglês "crack open", onde 'crack' é sinônimo de 'rachar', seu desenvolvimento semântico é claro e bem direto, fazendo com que seja o candidato mais provavel para a derivação de PODSO/POTÇÒ, também explicaria a preservação do P inicial, cujo se nesse caso a palavra fosse mais antiga, provavelmente teríamos visto WODSO/WOTÇÒ ou HODSO/HOTÇÒ, portanto a palavra é reconstruída como:


Proto-Kariri *pótsó 'acordar'


Dz.: podsò

Kp.: potçò

Sp.: pottzó

Km.: pottzò

Kt.: pósó

KX.: potçó, pokó

Pp.: pótsó

Dz-Tx.: potso

Kb.: pósó


Terejê


Xocó: pokó, podsó

Natú: pókó, pódsó, pók

Wakonã: pókó, pódsó




Autor: Suã Ari Llusan 


ETIMOLOGIA DE TUL'U 'TESTA'


 A palavra que surge nos compostos que definem as palavras tul'uso 'dente' e tul'usô 'olho' na língua Xocó e tul'usô 'dente' no Natú é TUL'U, cujo é composto de:


TU 'olho', cognato do


Xerente: to 'olho'


L'U 'chapada', cognato do


Xerente: ro 'chapada'


Portanto TU-L'U 'relevo (acima) dos olhos' > 'testa', devido a sua posição mais fronteira que os olhos que estão dentro de uma cavidade, dando a impressão de que a testa é um relevo como uma chapada. Reconstruo de volta como:


Terejê: *tu 'olho'


Xocó: tu

Natú: tu

Wakonã: tú



Terejê *lhu ~ ru 'relevo, chapada'


Xocó: l'u, ru

Natú: liu, ru

Wakonã: lhú, rú




Autor: Suã Ari Llusan 


SUGESTÕES DE NOMES PRÓPRIOS EM NATÚ

 

Nomes próprios:


A

Aba (a- 'prefixo nominalizador + ba 'dividir' = 'que discerne, cientista')

Abawana (aba 'cientista' + wana 'erva' = 'cientista das ervas, curandeiro(a)')

Abayó (aba 'cientista' + yó 'muito' = 'polímata')

Abu (a- 'prefixo nominalizador' + bu 'roça' = 'plantador, que cuida da plantação')

Ada (a- 'prefixo nominalizador' + da 'deslocar' = 'migrante, viajante')

Adabara (ada 'viajante' + para 'rio, mar' = 'marinheiro, navegador')

Adu (a- 'prefixo nominalizador' + du 'carregar' = 'que sustenta')

Aduzì (adu 'sustento' + zì 'pessoa, gente, povo' = 'sustento do povo')

Agaki (aga 'mutum' + ki 'cabelo' = 'cabelo como pena de mutum')

Agazì (aga 'mutum' + sì 'coração' = 'coração de mutum')

Aho (a- 'prefixo' + ho 'acalmar' = 'calmaria, tranquilidade')

Ahoda (aho 'tranquilidade' + ta 'água')

Ahogamy (aho 'tranquilidade' + kamy 'perto')

Añìda (añì 'alma' + da 'grande' = 'alma grande, generoso(a)')

Añìsha (añì 'alma' + sha 'fogo' = 'alma de fogo, valente')

Añìnan (añì 'alma' + nan 'água' = 'alma de água, aquele que flui com a maré')

Añìti (añì 'alma' + ti 'terra' = 'alma de terra, resistente, resiliente')

Añiwari (añi 'alma' + wari 'ajudar' = 'benfeitor')

Anu (a- 'prefixo nominalizador' + nu 'irmão mais novo' = 'o caçula, o rapaz')

Anuwarizan (anu 'irmão caçula' + warizan 'ajudante' = 'irmão do ajudante (Warakidzã)')

Anuzì (anu 'irmão caçula' + zì 'pessoa, gente, povo' = 'irmão mais novo do povo')





Autor: Suã Ari Llusan 



ETIMOLOGIA DE UIBÒ 'VOMITAR', UINÙ 'RAPAZ' E UITÒ 'COISA ACHADA'


A palavra é cognata direta do Xavante baba di 'estar vazio' e do Xerente bba 'esvaziar' (< *baba), segue o método Terejê de marcação de verbos na terceira pessoa para criar um substantivo, ou seja, antes de ser o verbo vomitar, I-BÓ significa 'vômito', derivado do verbo conjugado na terceira pessoa 'ele/ela vomita', da mesma forma que as palavras para estrela (iro, inkó) foram derivadas dos verbos RO 'queimar' e KÓ 'queimar'.


UINÙ e UITÒ foram derivados da mesma forma, retirando o U- da quinta declinação temos os substantivos Natú i-nu e i-tó, i-nu é cognato do Xavante no (dano) 'irmão mais novo', e i-tó é o verbo TÓ na terceira pessoa, criando o substantivo 'coisa achada', o único cognato próximo dessa palavra seria TÀ que já existe no Kipeá e também deriva do Natú, significa 'pegar', no Natú talvez também tivesse o significado extra de 'colher', portanto i-ta/i-tó 'ela é coisa colhida, ele/ela é coisa encontrada' > 'coisa achada'. Reconstruo para o Kariri e Terejê como:


Proto-Kariri *u-ibó 'vômito'


Dz.: wibbò

Kp.: uibò

Sp.: uippói

Km.: uibbòi

Kt.: vibó

KX.: uibó, wibó

Pp.: uibó

Dz-Tx.: uibo, wibo

Kb.: uibó


Terejê


Xocó: ibaba

Natú: ibó

Wakonã: imbóbó



Proto-Kariri: *bó 'vomitar'


Dz.: bò

Kp.: bò

Sp.: pói

Km.: bòi

Kt.: bó

KX.: bó

Pp.: bó

Dz-Tx.: bo

Kb.: bó


Terejê


Xocó: baba

Natú: bó

Wakonã: bóbó


Terejê *nu 'irmão mais novo'


Xocó: nunu

Natú: nu

Wakonã: nunú


Terejê *ta ~ tó 'pegar, colher, achar, encontrar'


Xocó: ta, tó

Natú: tha, thó

Wakonã: tá, tó


Terejê *i-ta ~ i-tó 'coisa achada'


Xocó: ita, itó

Natú: itha, ithó

Wakonã: intá, intó




Autor: Suã Ari Llusan 

ETIMOLOGIA DE MUCRI "UMBIGO"


A palavra MUCRI é de origem Natú, e possui uma palavra que estive procurando por um tempo, a palavra "casa". Sabemos que os Xocó chamavam suas casas de gandil'á (gandilhá) ou grandil'á (grandilhá), mas não podíamos com total certeza afirma que esse composto era unânime entre os Terejê, hoje com essa palavra confirmamos que cada língua expressava-se de forma diferente, tanto morfologicamente quanto foneticamente.


 A palavra é composta de MU "barriga", visto no seu composto completo MUDÙ, e CRI é a palavra "casa", assim formando MU-CRI "a casa da barriga", reconstruo a palavra como:


Terejê


Xocó: ga, gra

Natú: krì

Wakonã: grê, krê




Autor: Suã Ari Llusan 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

ETIMOLOGIA DE PROH/PLOH 'OXALÁ'

 

Essa palavra parece derivar de uma raiz antiga, irmã da partícula de supresa masculina PRA do Xavante, reconstruo para o Terejê como:


Terejê *pra 'exclamação de supresa, exclamação de esperança, que Deus queira, oxalá, espero que'


Xokó: pra

Natú: pró

Wakonã: prá, pró




Autor: Suã Ari Llusan 


COMO DIFERENCIAR O PRESENTE DO PASSADO E O FUTURO DO CONDICIONAL


No Natú existem duas partículas de tempo que se juntam aos pronomes de sujeito:


-za, que indica o presente e o passado simples, o realis, o que existe no mundo material

-tó, que indica o futuro e o condicional, o irrealis, o hipotético


Uma maneira muito fácil de entender esses dois é da seguinte forma, se eu tenho um pedaço de carne assada (wañu ñan zó), e eu estou comendo ou já terminei de comer esse pedaço, significa que a ação é real (realis), que ela está ou já esteve no mundo real de alguma forma. Se eu não comi, se eu irei comer, se eu desejo comer ou se eu tenho esperanças de comer, significa que eu não realizei aquela ação, ela é irreal (irrealis), está no mundo da imaginação, vou dar alguns exemplos:


ba wa-za ma Shonembo 'eu moro em Fortaleza' ou 'eu morei em Fortaleza'


Como diferenciar entre esses dois ? Normalmente quando uma frase só assim não é o suficiente para esclarecer em que tempo se passa a informação, utiliza-se de outras palavras:


ba wa-za ma Shonembo keñe 'eu morei em Fortaleza antigamente' < Indicando que a ação é antiga, portanto passado com keñe 'antigamente'


ba wa-za ma Shonembo da rodo 'eu moro em Fortaleza agora' < Indicando presente com da rodo 'agora'


ba wì wa-za ma Shonembo 'eu estou morando em Fortaleza' < Indicando uma ação em progresso com wì 'andar, ir'


O futuro (ação que será feita), condicional (caso a ação seja feita), optativo (desejo) e imperativo (dar ordens) são todos marcados com -tó, mas se diferenciam com a marcação de advérbios:


ñàhì ka-tó haìwîsire tan añi seókó kìdé ? 'vais comprar sapatos novos pro teu filho/pra tua filha ?'


no ñàhì ka-tó haìwîsire tan añi seókó kìdé ? 'e se você comprar sapatos novos para teu filho/ tua filha ?'


ñàhì ka-tó pra haìwîsire tan añi seókó 'espero que tu compre sapatos novos para teu filho/tua filha'


da ñàhì ka-tó haìwîsire tan añi seókó! 'compre sapatos novos para teu filho/tua filha!'






Autor: Suã Ari Llusan 


FRASES PARA TREINAR NATÚ


Pronomes independentes de sujeito


wa 'eu, meu, minha'

ka 'tu, teu, tua'

ta 'ele(a), dele(a)'

wazinan 'nós'

kazinan 'vós'

tazinan 'eles, elas'


Pronomes de objeto


i-my 'me, para mim'

a-my 'te, para ti'

in-my 'para ele(a)'

wa-my 'nos, para nós'

a-my-nan 'vos, para vós'

in-my-nan 'para eles(as)


Sufixos

-nan 'marca o plural'

-my 'marca o dativo (como a-my 'para ti')'

-za 'marca o presente e o passado simples'

-tó 'marca o futuro e o condicional'

-bà 'conjunção, como o e de eu E você'



kuzi waza a-my 'eu gosto de ti' ou 'eu gostei de ti'


ELEMENTOS DA FRASE

kuzi 'apreciar, gostar'

wa-za 'eu (sujeito/aquele que faz a ação no presente ou no passado simples)'

a-my 'para ti, a ti (objeto/aquele que sofre a ação)'


kran waza grogó 'eu como mandioca' ou 'eu comi mandioca'


ELEMENTOS DA FRASE

kran 'comer (verbo singular)'

wa-za (sujeito do presente ou passado simples)

grogó 'mandioca'


Ñàhì waza tingì tópàbà ma babà nen 'Comprei frutas e verduras no mercado.'


ELEMENTOS DA FRASE

ñàhì 'comprar, resgatar'

wa-za 'sujeito no presente ou passado simples'

tingì 'fruta, fruto'

tópà 'verdura'



10 mérékia imy, ñàhì wató zéda tan 'Eu tenho 10 reais, vou comprar uma camisa nova '


ELEMENTOS DA FRASE

10 (sôkra)

mérékia 'dinheiro, real'

i-my 'para mim'

ñahì 'comprar'

wa-tó 'sujeito da primeira pessoa no futuro'

zéda 'tecido, roupa, camisa'

tan 'novo, nova'


Obs.: Assim como no Kariri de Mamiani, o verbo 'ter' não é usado como no português, portanto usam-se os pronomes de objeto como i-my 'para mim' para dizer que você tem algo, como em:


grandira i-my 'eu tenho uma casa' ou literalmente 'existe uma casa para mim'



Frase de autoria de Nhenety Kariri-Xocó, traduzida por mim:


Thobatan wì wasêrêza Peagaxinan wadi. Pupuronê wì, êrêbà wì inêrêza terezi Peagashinan, yabàtan wêru, wìbà wazinañi wa wêru Peagashinan, kuzidoda êrê ma wêmytan tañi êrêza diada.


"Continuamos respirando e falando a língua do povo Natú. Nosso sonho é reconstituir o vocabulário e fazer nossa gramática Natú, Legal mesmo é o povo Natú falar no cotidiano sua língua materna.




Autor: Suã Ari Llusan 


ETIMOLOGIA DE USARUNGUWONHÉ 'DESPOSAR-SE'


 A palavra é um composto de elementos emprestados do Terejê com uma palavra Kariri, a palavra se divide da seguinte forma:


SARUNGU-WONHÉ


SARUNGU pode também ser divido, seus componentes sendo:


SARU 'sentir' ou SARU 'saltar', cognato do Xerente sarõ 'saltar' ou do Xerente saroto 'sentir', ambos os dois significados tem chance de ser o verdadeiro, veja no final.


Assim como TINGHI que veio de um antigo TIKA, NGU veio de antigo KU que foi nasalizado, a palavra que talvez tenha alguma relação com essa seja o Xerente kui, que surge dois compostos:


Xerente kuikãsi 'embrulhar, enrolar, envolver'

Xerente: kuirĩ 'rodear'


Tendo portanto alguma relação com o movimento de envolver ou cercar algo, seguindo a lógica teríamos junto com WONHÉ, que é a palavra Kipeá para 'bem, perfeito' ou o composto:


SARU-NGU-WONHÉ 'sentir envolvimento perfeito'


ou


SARU-NGU-WONHÉ 'saltar (celebrar) o envolvimento perfeito'



Como seguindo os processos fonéticos as palavras que vemos no Xerente teriam resultado no Terejê sem a coda e com possível alçamento vocálico (o, õ  > u ou û), SARU seria o resultado de ambos portanto reconstruo:


Proto-Kariri *u-saru 'saltar, celebrar'


Dz.: uharu, udharu

Kp.: usarù

Sp.: ussarú

Km.: ussarù

Kt.: usaró

KX.: usarú, uharú, udharú

Pp.: usarú

Dz-Tx.: uharu, udharu

Kb.: uharú


Terejê


Xokó: sarô

Natú: sarû

Wakonã: saróó


Proto-Kariri: u-saru 'sentir'


Dz.: uharu, udharu

Kp.: usarù

Sp.: ussarú

Km.: ussarù

Kt.: usaró

KX.: usarú, uharú, udharú

Pp.: usarú

Dz-Tx.: uharu, udharu

Kb.: uharú


Terejê


Xokó: sarô

Natú: sarû

Wakonã: saróó


Também reconstruo para o Terejê


Terejê *ku 'envolver, circular, rodear'


Xokó: ku, dsu

Natú: ku

Wakonã: kú, kô





Autor: Suã Ari Llusan 

FUNÇÃO DOS DIACRÍTICOS DO DZUBUKUÁ


 Bernardo de Nantes (Bernard de Nantes) era um capuchinho bretão que participou do processo de conversão para a fé cristã no vale do Rio São Franciso, sendo o autor de um dos dois catecismos de uma língua da família Kariri, a língua Dzubukuá, publicação esta que ele chama abreviadamente de "Katecismo Indico". Sua publicação é de valiosíssima importância para a nação Kariri, tendo auxiliado no desvendar dessa família assim como da família Terejê, mas uma coisa que nos escapou por um bom tempo fui sua ortografia, principalmente seus acentos e sua funções práticas dentro do texto.


 Queiroz em 2008 fez uma publicação discutindo sobre a fonologia Dzubukuá, mas acredito que existam alguns problemas em sua análise que precisam ser discutidos, neste texto, um dos pontos que irei discutir serão as suas vogais laringeais, ou vogais com voz trêmula. De acordo com este autor, todas as vogais que possuem o diacrítico circunflexo [^] possuem uma pronúncia onde a voz começa a tremer enquanto a pronuncia, Queiroz baseia sua teoria em comparação com a ortografia Kipeá de Mamiani, mas eu particularmente discordo nessa instância específica dessa comparação, irei providenciar as evidências que encontrei ao primeiro mostrar a seguinte tabela:


Tabela das vogais do AFI


Fonte bibliografica : https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:IPA_vowel_chart_2005.png 


Quero que os leitores prestem atenção especificamente nas vogais /æ/, /œ/ e /ɛ/, o Francês possui algumas estratégias de anotação de sua pronúncia, você pode notar isso pela presença dos diacríticos [´], [`] e [^] em suas palavras, elas não são meras "decorações", elas tem funções reais, e aqui argumento que Nantes tinha total noção delas e ativamente usou-as em sua publicação. Eu não discordo de uma comparação do Kipeá com o Dzubukuá, mas é preciso cuidado nesse quesito, peço que notem as seguintes palavras:


1) Dz.: uclèm vs Kp.: crae

2) Dz.: dehèm vs Dz.: dahandcj

3) Dz.: -loboè vs Kp.: -robae

4) Dz.: uplè vs Kp.: uprè


Como é possível perceber, existe uma transição de sons aqui, voltando para a tabela logo acima, os sons de /æ/ e /œ/ estão a apenas meio nível de diferença um do outro, meramente necessitando de um pouco de abaixamento e alçamento vocálico para que ambos transitem entre si, Nantes parecia ter noção da proximidade da pronúncia de /œ/ com o fonema /ɛ/, considerando ambos sons abertos da mesma qualidade, apenas diferindo no quesito de arredondamento dos lábios, ele tinha tanta noção disso, que o digrafo [oè] só tinha outra letra com anotação do mesmo sinal, que era [è], de acordo com as regras ortográficas estabelecidas no francês, o acento grave sobre a leta è torna-o aberto como nosso é de égua, também sendo possível que como no exemplo 1), Nantes usasse [è] para denotar o fonema /æ/ que Mamiani representa com o digrafo ae, e como visto no exemplo 2), também variava com o /a/, exatamente como acontece no Natú e Wakonã. A vogal i também surge anotada com o acento grave [ì] como em nhìnho 'Deus', aqui torna-se difícil interpretar sua função exata, já que o francês não utiliza esse acento nessa letra, portanto é possível que o fonema aqui seja /ɪ/, o mesmo visto no i átono do Kipeá como tinghi 'canafrecha'.


 Outra evidência de que Nantes tinha noção das funções antigas dos dígrafos franceses, que datam da época do grego antigo e sua ortografia politônica, é da utilização do circunflexo [^] para denotar as vogais longas, exatamente como é visto na anotação do Xokó por Loukotka séculos depois, aqui vai a maior evidência dessa utilização:


5) Katecismo Indico, pág. 3

E para quem fez o ceo ?             Idoôdè cunne Inhinho aranquè ?

R: Para nós                                  R: Kudôa.


Nantes responde a pergunta "e para quem fez o ceo" utilizando a mesma partícula que é vista no Kipeá como -dohò, aqui no entanto vemos que ela está reduzida, quem visse pela primeira vez apenas presumiria de que se trata somente da partícula dó 'a, para' sem o -hó incluso, mas não é isso que acontece no Dzubukuá, essa língua estava perdendo seu fonema /h/ aos poucos, isso é demonstrável claramente na palavra odde 'por que' em comparação ao Kipeá sodè 'por que', onde /s/ > /h/ > Ø (símbolo que representa a ausência de um fonema, ou seja, nada), portanto dô se trata da abreviação de um doo visto logo acima escrito como doô em idoôdè, a sua raridade na ortografia de Nantes também demonstra que sua função não denotava a qualidade do fonema, como vemos aqui, denota na verdade sua duração.


 O acento agudo parecia realmente ter a exata função que vemos no Kipeá, que é não é a de modificação da qualidade da vogal e sim de marcação da sílaba tônica de uma palavra, é possível ver isso em algumas palavras cujo a tonacidade muito provavelmente modificou um de seus constituíntes:


7) Dz.: hémwj 'céu' vs Kp.: yemŷ 'arriba, acima'

8) Dz.: tudénhie 'antigamente' vs Kp.: tudenhè 'nos tempos passados'

9) Dz.: andé 'quem, qual' vs Kp.: adjé 'quem, qual'


Caso mwj/mŷ realmente derivem da mesma raiz que o dativo ma que vemos no Xavante e Xerente (a partir do Terejê) em posição átona, então isso provaria que /a/ átono virava o i grosso /ɨ/ nessa posição, e provaria que o acento agudo visto no Dzubukuá realmente está demonstrando a sílaba tônica.


 Por último, vemos que existem vogais que não possuem acentuações, presume-se neste caso que sejam as vogais orais /a/, /e/, /i/, /o/ e /u/, no entanto existe o problema do [e], que possui cognatos no Kipeá que ora são pronunciados como /e/, ora como o schwa /ə/, não existe uma distinção clara entre os dois na ortografia do Katecismo Indico, podemos presumir que o acento agudo sobre o [é] seja o fonema /e/, mas sem acento, torna-se um jogo de adivinhação, isso pode indicar uma de duas coisas:


1) O fonema /e/ e o schwa /ə/ variavam livremente entre si no Dzubukuá

2) Todas as letras [e] não acentuadas são schwa /ə/

3) A letra [e] está fazendo duplo trabalho, representando tanto o fonema /e/ quanto o fonema /ə/


Eu tenho muitas dúvidas sobre a primeira e segunda teoria, creio que seja mais plausível que Nantes estivesse usando essa letra com dupla função, e como não temos uma gramática ou dicionário deste mesmo autor, não temos sua ideia exata de como pronunciar cada palavra escrita, mas podemos inserir os mesmos sons que conhecemos do Kipeá de volta no Dzubukuá, onde houver o schwa garantido na ortografia de Mamiani, podemos ter um pouco de certeza de que seria o mesmo no Dzubukuá, enquanto os outros que desconhecemos, recomendo que se pronuncia de forma neutra como /e/.


Ao todo temos os seguintes resultados:


Vogais fechadas

a, á = /a/ ou á do português

e, é = /e/ ou ê do português

i, í = /i/ ou i do português

o, ó = /o/ ou ô do português

u, ú = /u/ ou u do português


Vogais médias

e = /ə/ ou a de about do inglês

wj, ui, uj, wi = /ɨ/ ou y (i grosso) do Tupi Antigo


Vogais abertas

è = /ɛ/ ou é do português, também /æ/ ou a de bat do inglês

ò = /ɔ/ ou ó do português

oè = /œ/ ou œ do francês


Vogais longas

â = /aː/ ou áá 

ê = /eː/ ou êê

î = /iː/ ou íí

ô = /oː/ ou ôô

û = /uː/ ou uu





Autor: Suã Ari Llusan 



segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

CORREÇÃO DA ETIMOLOGIA DO NOME WAKONÃ


Ao reler o documento de Clóvis Antunes dos Wakona-Kariri-Xucuru, percebi que ele anotou algumas variantes do nome deste povo, uma delas me fez notar algo interessante:


Inakaná


Essa palavra se assemelha bastante ao formato da palavra Kipeá DZ-ACÀ 'sogro, sogra', fazendo com que este povo seja uma divisão daqueles que eram chamados de sogros e sogras. Claro, não descarto a possibilidade também dessa palavra ter relação direta com o ÓKÓ 'filho' do nome XOCÓ, fazendo nesse caso com que os Wakonã sejam uma divisão diferente dos filhos, mantendo a divisão binária entre 'filhos' e 'avós'.





Autor: Suã Ari Llusan 

ETIMOLOGIA DE MERÉ 'DINHEIRO' E A PALAVRA PARA PEDRA DO TEREJÊ


A palavra dinheiro foi registrada tanto no Xokó (mérékia) quanto no Natú (meré), percebi agora a semelhança dessas duas palavras em relação ao visto no Kipeá MERATÀ 'ferro' e no Dzubukuá MERATTA 'ferro', já que dinheiro na época da colonização era feito de metal, com isso, percebi também que o Xokó preservou a palavra KIÁ no composto, que seguindos os padrões estabelecidos na publicação MUDANÇAS SONORAS DO KATUANDÍ, seria cognata do Xavante 'ẽnẽ 'pedra' (< *kẽnẽ) e do Xerente knẽ 'pedra', portanto sendo a palavra, ou pelo menos, uma das palavras nativas do Terejê para denotar o coneito de 'pedra', portanto reconstruo como:


Terejê: *k(y)æ 'pedra, mineral'


Xokó: kia

Natú: kià

Wakonã: kiá



SUGESTÕES DE COMPOSTOS COM A NOVA PALAVRA:


1) Pedra, mineral


Xokó: kia

Natú: kià

Wakonã: kiá


2) Capacete (pedra-cabeça-cobrir)


Xokó: kiatipiadu

Natú: kiàtìpîdu

Wakonã: kiatipiêdú


3) Âncora (pedra-corda)


Xokó: kiakrara

Natú: kiàkróró

Wakonã: kiakrará


4) Enxada (pedra-roça)


Xokó: kiamal'aba

Natú: kiàmàràbà

Wakonã: kiamalhambá, kiamalhembá


5) Cristal (pedra-olho-osso)


Xokó: kiasôki

Natú: kiàsôkì

Wakonã: kiassôkê


6) Mercúrio (pedra-lua-matar)


Xokó: kiawãvimar

Natú: kiàwavemarì

Wakonã: kiababêmár



7) Prata (pedra-lua)


Xokó: kiawãvi

Natú: kiàwave

Wakonã: kiabábê


8) Cascavel (metal-pedra-cauda)


Xokó: mérékiakru

Natú: mérékiàkru

Wakonã: mérékiakrú


9) Dinheiro (metal-pedra-trocar)


Xokó: mérékianen

Natú: mérékiànen

Wakonã: mérékianém


10) Ouro (pedra-amarelo)


Xokó: kiahé

Natú: kiàhé

Wakonã: kiahé


11) Mármore (pedra-olho-borda)


Xokó: kiasôba

Natú: kiàsôbè

Wakonã: kiassôbe


12) Cobre (metal-pedra amarelo fedor)


Xokó: mérekia hé kóga

Natú: mérékia hé kógà

Wakonã: mérékiá hé kógé




Autor: Suã Ari Llusan 



CONSTRUÇÕES E DIVISÕES GEOGRÁFICAS EM NATÚ


 Tocaia = gambu, grambu (gan/gran 'casa' + bu 'armadilha')

Barraca = zìñada (zìña 'barro' + -da 'predicativo')

Armazém = kìsìbì (kìsì 'repartição' + bì 'observar, guardar')

Casa = ga, gra, gan, gran, gandira, grandira

Loja = nembà pofoza (nen-bà 'lugar de trocar' + pofo-za 'produto')

Prédio = dendéza (dendé 'construir' + -za 'nominalizador')

Apartamento = gawañupri (ga 'casa' + wañu 'repartição, camada' + pri 'alto')


Conjuntos:


Acampamento = maraza (mara 'campo' + -za 'nominalizador')

Assentamento = dadìza (dadì 'assentar' + -za 'nominalizador')

Ocupação = wîsireza (wîsire 'pé, plantar, firmar, ocupar' + -za 'nominalizador')

Aldeia/Vila = simido

Fortaleza/Fortificação = dedì (dedì 'cerca de paus')

Castelo = dedì haìkó

Palácio = ga haìkó, gra haìkó

Igreja/Templo = inga Sonsé, ingra Sonsé

Mercado = babà nen (ba-bà 'lugar plano' + nen 'trocar')

Cidade = krasimido, simido haìkra, simido akóma

Estado = natisêrê krasimido (n-atisêrê 'REL-terra' + krasimido 'cidade')

Região = tinan (ti 'terra' + nan 'dividir, divisão')

País = dadìzì (dadì 'assentar' + zì 'barro, gente, povo, nação)

Ilha = tipoñu (ti 'terra' + poñu 'nadar')

Arquipélago = tipoñuyó (tipoñu 'ilha' + yó 'muito')

Subcontinente = inkra atisêrêkó (in-kra 'filho dele/dela' + atisêrê-kó 'terra grande, continente')

Continente = atisêrêkó

Planeta = intho (in-tho 'ele é redondo')




Autor: Suã Ari Llusan