quarta-feira, 22 de junho de 2022

NOVA SUGESTÃO PARA NÚMEROS


  Nova sugestão para números


 Recentemente Ari esteve olhando para a sua sugestão de abreviação dos números dos dialetos da família Kariri e comecou a desgostar um pouco do processo que fez, pois abreviou de maneira não natural esses números, ou seja, sem saber o significado original das palavras e como elas são divididas, isso vem lhe incomodando bastante, portanto decidiu estudar o vocabulário das línguas Kariri e de outras línguas do Brasil para servir de inspiração para números mais lógicos e curtos, aqui está a sua nova sugestão com a explicação ao lado sobre como chegou a essa conclusão:


0 = Dz.: di / Kp.: dý / Sb.: tü / Km.: tü (derivado da raiz *dV 'não', no sentido de não haver algo)


1 = Dz.: tsa / Kp.: tsã / Sb.: za / Km.: zang (derivado da raiz *t͡sə 'cabeça' no sentido de primeiro, assim como foi utilizado no Dzubukuá *itsebute*, a vogal foi alterada de ə > a para soar diferente da palavra para cabeça)


2 = Dz.: dae / Kp.: dé / Sb.: dä / Km.: dä (derivado da raiz *dɛ "amigo, camarada", inspirado pela palavra rengre do Kaingang que significa 'dois' e 'companheiro, irmão')


3 = Dz.: ho / Kp.: so / Sb.: so / Km.: so (derivado da raiz *so 'a, contra', no sentido de estar contra os outros dois dedos)


4 = Dz.: ga / Kp.: ga / Sb.: cha / Km.: cha (derivado da raiz *ɣə 'muito', inspirado pela raiz utilizada no número 4/5 do Kamurú *bicho*, a vogal foi alterada de ə > a para soar diferente da palavra para muito)


5 = Dz.: mui / Kp.: mý / Sb.: mü / Km.: mü (derivado da raiz *mɨ 'tomar, levar, ser levado' com extensão semântica para 'mão' e posteriormente 'cinco')


6 = Dz.: muitsa  / Kp.: mýtsã / Sb.: müza / Km.: müzang (5 + 1)


7 = Dz.: muidae / Kp.: mýdé / Sb.: müdä / Km.: müdä (5 + 2)


8 = Dz.: muiho / Kp.: mýso / Sb.: müso / Km.: müso (5 + 3)


9 = Dz.: muiga / Kp.: mýga / Sb.: mücha / Km.: mücha (5 + 4)


10 = Dz.: ba / Kp.: ba / Sb.: pa / Km.: pa (derivado da raíz *bə 'todos', no sentido de todos os dedos das mãos estarem presentes, a vogal foi alterada de ə > a para soar diferente da palavra para todos)


100 = Dz.: ya / Kp.: yã / Sb.: ya / Km.: yang (derivado da raiz *jə 'grande', a vogal foi alterada de ə > a para soar diferente da palavra para grande)


1000 = Dz.: ki / Kp.: chi / Sb.: ci / Km.: ci (derivado da raiz *ci 'comprido')


1000000 = Dz.: ma / Kp.: ma / Sb.: ma / Km.: ma (derivado da raiz *ma 'longe')



Autor da matéria: Ari Loussant 

terça-feira, 21 de junho de 2022

NOVA RAIZ PARA 'ÁGUA, RIO E A ORIGEM DA PALAVRA MÝDZE 'PEIXE'

 

Ari Loussant esteve olhando o vocabulário de Aryon Rodrigues recentemente, notou a palavra *Mýba* "passar o rio", agora sabendo dos compostos dessas línguas são extremamente diretos quando se trata de transmitir uma informação, Ari percebeu que *mý* surge em compostos referentes à água, como na palavra para *Mýdze* que significa 'peixe'.


 Essa palavra vem sido um desafio já que ela claramente não é cognata das palavras do Proto-Boróro *k₂arV e Proto-Caribe *kana (NIKULIN, 2020, pág 68) e sim um composto nativo que denota algo que pertence à água. A raiz que Ari reconstruiu como *mɨ 'água, rio' seria cognata distante do Proto-Macro-Jê *mbi₁n°, já o dze de peixe provavelmente seria um resultado do Proto-Kariri *dz-e ~ *ɟ-e 'carne', portanto 'carne da água', um composto idêntico ao Coreano 물고기 (mulgogi) que deriva do Coreano Médio 믌〮고기〮 (múl-s kwòkí) com mul significando 'água', o sufixo -s sendo o possessivo coreano e kwòkí/gogi significando 'carne', portanto 'carne da água'.


 Voltando para *mýba* 'passar o rio', a palavra BA denota movimento e provavelmente é a mesma que surge em *bahà* 'nadar' ou outra raíz que denota movimento como *bae* 'subir' por exemplo.


Autor da matéria: Ari Loussant


PRONÚNCIA DA PALAVRA MANHEM NO DZUBUKUÁ


 Ari Loussant dando continuidade à correção da pronúncia das palavras do Dzubukuá, vemos a palavra manhem, cujo superficialmente parece ser lida como ma-nhem, mas o cognato Kipeá *maehae* implica que a pronúncia na verdade não era para ser assim, também nos indica como as vogais deveriam ser pronunciadas corretamente, sendo portanto /mə̃'ɣə̃/ a pronúncia correta.


 Note que Ari também colocou a fricativa velar sonora /ɣ/, já que a única palavra que semanticamente falando concorda com essa palavra é o ho de iho 'muito', cujo já discutiu antes na origem do número um como ela era pronúnciada pelos Kariris, já o mae/man não surge independentemente até onde eu saiba, mas pode ser um cognato distante do sufixo aumentativo do Proto-Caribe *-imô (ô nas reconstruções do PCrb representa o mesmo que o som schwa /ə/, portanto existe uma possibilidade grandes de ambos serem cognatos).


 Vemos que para Nantes, o uso de consoantes para representar sons nasais das vogais era uma estratégia do qual ele estava muito mais acostumado, isso lança dúvidas sobre como deveríamos interpretar a ortografia dele, já que não podemos confiar no encontro consonantal nh, pois ele pode muito bem ser apenas uma representação nasal da vogal anterior + um h da próxima sílaba e não o som *nh* que conhecemos no Português, mas também pode ajudar a encontrar cognatos e pode explicar o porquê de Nantes escreve nhiV (V = qualquer vogal) onde verdadeiramente há o som nh do Português (ex.: nhia 'morrer' cujo Mamiani escreve apenas como nhà ou nunhie onde Mamiani só escreve nunhè). 


 Voltando aos cognatos, vejam um exemplo, a palavra *nanhe* significa "chefe, cacique" dentro da língua Dzubukuá, se a nova interpretação se aplicar aqui também, podemos separar as sílabas como nã-he, a primeira sílaba ainda é um mistério, mas a segunda pode ser o cognato da palavra Kipeá se 'senhor, amo' que Ari Loussant estava procurando há bastante tempo, além de não ter encontrando em nenhum lugar uma variante *nanhie* que confirmasse que o nh era o som do n palatalizado.



Autor da matéria: Ari Loussant 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

PRONÚNCIA DO VERBO NHINHO 'CRIAR' DO DZUBUKUÁ


A pronúncia correta do verbo *nhinho* 'criar' do Dzubukuá


 Recentemente fiz uma correção na pronúncia do dígrafo ny da Ortografia de Nantes, após descobrir que o n tinha função de marcador de nasalidade da vogal anterior, ajudando a corrigir a pronúncia de várias palavras dentro dessa língua. Isso também quebrou a hipótese anterior de que o som nh /ɲ/ teria se tornando y /j/ no Kipeá.


 Com isso dito, agora me vejo obrigado a reconsiderar a pronúncia do verbo 'criar', cujo qualquer que compreende a ortografia portuguesa iria ler como se fosse ni-nho /niɲo/, porém a variante Kipeá possui *niò* como seu cognato direto, o que lança dúvidas sobre esse nh ser o nosso encontro consonantal para o n palatalizado, deixe me explicar usando outras palavras como exemplo:


Dzubukuá        Kipeá

*habuihan*      *sambýye*


 Vejam que nessas duas palavras, o som da terceira sílaba muda entre as duas línguas, sendo que no Dzubukuá o som velar /ɣ/ surge como /j/ no Kipeá, o mesmo ocorre com hemui e yemý, usando essas palavras como exemplo e notando que Mamiani propositalmente registrou niò assim e não assim: *nho*, sabemos agora que havia uma consoante entre o ni- e o -o, a fricativa velar sonora.


 Portanto o que eu quero dizer é que o segundo n de nhinho está na verdade representando o som nasal da vogal i, e a sílaba ho seria pronunciada separadamente, concluindo então que a pronúncia seria /ɲĩ'ɣo/.


Autor da matéria: Ari Loussant


A PALAVRA NOITE E SUAS SÍLABAS


 Segundo Ari Loussant este texto tem o propósito de esclarecer o significado da palavra *kaya*, que significa nas línguas Kariri 'noite', essa palavra, assim como várias outras dentro dessa língua, um composto de sinônimos, assim creio. É necessário entender o significado de cada uma das palavras dessas línguas para poder revitalizá-la apropriadamente, portanto Ari dará aqui a explicação sobre as duas raízes que encontramos nessa palavra.


1ª) KA: A primeira raiz que surge na palavra é *Ka*, cujo sabemos que é uma raiz independente graças a Mamiani que registrou o composto Kieretu 'à boca da noite', onde Kie é exatamente a mesma raíz que Ka, além dela ser cognata distante da palavra para noite em várias línguas da família Karib *koko, graças ao registro de Mamiani, Ari reconstruiu com certeza a raiz *kə 'noite'.


2ª) YA: Esta é a raiz mais difícil, Ari ainda não encontrou nas famílias Macro-Jê, Boróro, Caribe, Guaicuru e Tupi uma palavra que fosse cognato de *Ya*, no entanto encontrou na língua Hup da família Nadahup a palavra j’əb 'noite', cujo se parece bastante com a raíz *Ya* do Kariri, crendo ser válido ressaltar essa similaridades entre as duas, já que os pronomes da família Nadahup demonstram grande proximidade aos padrões que vemos nas línguas da família Brasílica.

 

Pronomes da língua Hup:


1SG       ʔãh


2SG       ʔám (pronome de 2SG com *a


3SG       tɨh (pronome de 3SG com tV, possível cognato do Kariri di-, Proto-Caribe t-, Proto-Macro-Jê t-)


1PL       ʔɨn


2PL       nɨŋ


3PL       hɨd


Além de haver duas palavras básicas que Ari encontrou que se parecem bastante com de outros membros da família Brasílica:


Português       Hup     Proto-Tupi     Macro-Jê     Kariri     Proto-Caribe          

*pai*                 ʔip          *cuP              *jo₂m      (pa-)*dzu           X

*entrar*             yé             X                    jə̂p         ɟə (Kp.: dio)      X



 Até onde Ari Loussant saiba, atualmente não existem estudos que conectem a família Nadahup às famílias Macro-Jê, Caribe, Tupi e etc, portanto acreditando que seja necessário aguardar teses mais elaboradas antes de chegar a uma conclusão, mas Ari  deixa aqui a possibilidade de duas raízes, j’əb da língua Hup e ya do Kariri, serem cognatos distantes.




Autor: Ari Loussant

RECONSTRUÇÃO DA PALAVRA COBRA


Proto-Kariri: *(c)wəci ~ (c)wә̃ci ou (c)wəcɨ ~ (c)wә̃cɨ


Beiträge de Martius:

(1) ujatschi-bujeng, 

(2) djatschi-bujeh 

(3) nuana

(4) niangih

(5) niuangnih

(6) ujatschih

(7) uatschüh


Dzubukuá:

(8) niennhy


Kipeá: 

(9) wò


Cognatos externos:


Família Bororo:

Proto-Bororo:

*abakɨ (CAMARGO, 2013) ou *VbakV (NIKULIN, 2020)

Boróro:

awagɨ




 Olá pessoal, o que Ari Loussant estar demonstrando logo de começo é a  reconstrução da palavra cobra, baseado no que sobrou de seus resultados e um possível cognato externo dessa raíz, ele notou que as palavras se separam em dois grupos: o grupo nasalizado e o não-nasalizado.


*Grupo nasalizado*


 Começando com o nasalizado, vemos que nos exemplos (3) nuana e (5) niuangnih existe a presença da consoante nasal /n/ seguida da vogal /u/ + /a/ ou a consoante nasalizada /ɲ/ + /u/ + /a/, resultados similares são notáveis nos exemplos (4) niangih e (8) niennhy, apesar destes não possuírem o /u/ que vemos nos outros dois exemplos.


 O que é possível notar é a presença das mesmas vogais que são encontradas em quase todas as raízes: um schwa seguido ou pela vogal /i/ = /CəCi/ ou /ɨ/ = /CəCɨ/ , o que implica que estas são todas a mesma palavra com resultados divergentes por influência de uma nasalização das sílabas, o processo de *c > ɲ (nh, ñ) é fácil de ocorrer em ambientes nasais, como visto por exemplo no Proto-Macro-Jê *cym 'semente' > Xávante ñə̃mə, portanto reconstrui essa mudança como:


*cwəci ~ *cwəcɨ > *cwә̃ci ~ *cwә̃cɨ > *ɲ(w)ә̃ɲi ~  *ɲ(w)ә̃ɲɨ > nuana, niuangnih, niennhy


Note que essa influência nasal nem sempre ia para a última sílaba, já que o exemplo (4) sugere a preservação do *ci e evolução posterior para /ki/ ou /gi/: niangih /ɲә̃'ki/ ~ /ɲә̃'gi/

 


Outra parte importante desta hipótese é o w, cujo parece ou ser um prefixo negligenciável ou uma parte da palavra que era perdida/assimilada dependendo do dialeto, como nos exemplos (2) djatschi, (4)  niangih e (8) niennhy. Reconstruo a pronúncia de cada um do grupo nasal como:


(3) nuana = /'nwә̃nә/

(4) niangih = /ɲә̃'ki/ ~ /ɲә̃'gi/

(5) niuangnih =  /ɲwә̃'ɲi/

(8) niennhy = /'ɲә̃ɲi/ ~ /'ɲẽɲi/



*Grupo não-nasalizado*


Partindo para o grupo dos exemplos (1) ujatschi, (2) djatschi, (6) ujatschih, (7) uatschüh e (9) wò, notamos uma consistência grande neles, exceto pelo exemplo (9) que tornou-se monossilábico sem um motivo aparente, possivelmente a sílaba *ci era negligenciável ou perdeu seu significado e se tornou redundante para os Kipeá, sendo portanto cortada posteriormente. 


Percebe-se que apenas os exemplos (7) e (9) possuem o segmento wV, enquanto os outros apresentam uma aproximante palatal /j/, e o mais aberrante apresenta o encontro consonantal dj, cujo Ari Loussant presume ser um descendente do *c que foi preservado ou como /c/ ou como /ɟ/. Reconstruo as pronúncias do grupo não-nasal como:


(1) ujatschi = /'ujәci/ ~ /'ujәtʃi/ ou /'wjәci/ ~ /'wjәtʃi/

(2) djatschi = /'cәci/ ~ /'cәtʃi/

(6) ujatschih = /wjә'ci/ ~ /wjә'tʃi/

(7) uatschüh = /wә'cɨ/ ~ /wә'tʃɨ/

(9) wò = /'wә/



Autor da matéria: Ari Loussant



domingo, 12 de junho de 2022

SEMENTE E FRUTA NO KARIRI

 

Ari Loussant primeiro começa dizendo que a palavra para fruta é uma que já conhecemos nestas línguas: *utthu* no Dzubukuá e *sutù* no Kipeá, que ele ainda não encontrou um cognato para essa raíz ou reconstruí-la, pois não sabendo se o s de sutu é uma parte da palavra ou o prefixo da terceira pessoa s- atrelado à palavra por acidente.


 Com isso dito, existe uma raiz comum entre as línguas do Brasil que é facilmente detectada, que é a palavra monossilábica para "semente", cujo vemos nessa lista de cognatos:


Proto-Macro-Jê: *cəm° ‘semente’

Proto-Chiquitano: *ijo- 

Proto-Boróro: *a ‘semente’

Proto-Caribe: *a-ry

Proto-Mataco: *-oʔ

Proto-Guaicuru: *-a ‘fruta’

Proto-Tupi: *j-əm


 A palavra para semente não foi registrada separadamente em nenhum dos dialetos da família Kariri, no entanto é possível que essa raíz tenha sobrevivido em compostos do Dzubukuá como aya (a 'semente, fruta' + ya 'espinho' = mandacaru, uma espécie de cacto) e obbo (o 'semente, fruta' + bo '?' = umbu) sendo portanto reconstruído como *ə "semente, fruta".



Autor da matéria: Ari Loussant