sábado, 7 de março de 2026

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM






FALSA FOLHA DE ROSTO

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI

VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM


Contos da vida, memória e cultura do povo Kariri-Xocó às margens do Opará — Rio São Francisco.

Autor

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Todos os contos desta obra são baseados na memória cultural, nos costumes e nas narrativas do povo indígena Kariri-Xocó, habitantes tradicionais da região do Baixo Rio São Francisco.

A obra valoriza a tradição oral indígena, integrando elementos da língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, preservando significados culturais e cosmológicos associados à natureza, ao território e à vida comunitária.

Autor:

Nhenety Kariri-Xocó

Publicação independente.

Blog do autor:

https://kxnhenety.blogspot.com⁠�



FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI

VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM


Contos da memória cultural do povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil



FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)


Kariri-Xocó. Nhenety,

Baiwo Opará Uohoie Canghi: viver no Rio São Francisco tudo de bom /

Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.

Livro de contos sobre memória cultural, vida ribeirinha e tradições do povo indígena Kariri-Xocó no Baixo Rio São Francisco.

Inclui glossário de termos da língua Kariri-Xocó.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

Rio São Francisco – memória cultural

Narrativas tradicionais indígenas

Povos indígenas do Nordeste brasileiro

CDD: 869.899

Literatura indígena brasileira



DEDICATÓRIA


Dedico esta obra ao meu povo Kariri-Xocó, guardião das águas do Opará, que atravessam gerações levando vida, memória e sabedoria.

Dedico também aos mais velhos, que ensinaram que a palavra não mora apenas no papel, mas no vento, na terra e nas águas.

E às novas gerações, para que nunca esqueçam que nós todos somos o rio.



AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente aos ancestrais Kariri-Xocó, guardiões da memória e da sabedoria tradicional, que ao longo das gerações transmitiram ensinamentos, histórias e conhecimentos sobre o rio, a terra e a vida, cuja memória continua viva em cada história contada às margens do Opará.


A realização deste livro nasceu do desejo de preservar e compartilhar as histórias vividas nas margens do Opará, o grande Rio São Francisco, que acompanha a vida do povo Kariri-Xocó desde tempos antigos.


Agradeço às famílias da aldeia que mantêm vivos os costumes, os ensinamentos e a convivência com a natureza.


Agradeço também às iniciativas culturais que valorizam a língua e a tradição indígena, permitindo que histórias como estas sejam registradas e compartilhadas.


Expresso também minha profunda gratidão aos alunos, professores e professoras da Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra, que diariamente fortalecem a educação indígena e ajudam a manter viva a cultura de nosso povo através do estudo, da língua, da tradição e do respeito às nossas raízes.


Que este livro possa inspirar novas gerações a conhecer, respeitar e proteger o Opará, suas histórias e os saberes que vivem nas comunidades do Baixo Rio São Francisco.


Por fim, agradeço aos leitores que se aproximam desta obra com respeito e curiosidade, permitindo que o rio das palavras continue correndo.


Com gratidão,


Nhenety Kariri-Xocó



EPÍGRAFE


“Assim como o rio corre sem esquecer sua nascente,

um povo vive enquanto guarda sua memória.”

— Sabedoria tradicional indígena



SUMÁRIO 


Falsa folha de rosto

Verso da falsa folha de rosto

Folha de rosto

Ficha catalográfica

Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Palavra do Autor


Contos (01 a 10)


01. Hietãdé Uihoie Opará, Nós Todos Somos o Rio São Francisco; 

02. Piwonhé Ieendeá – A Reprodução das Aves; 

03. Baiwo Opará Bohé, A Vida Social no Rio São Francisco; 

04. Okendzurió – A Porta D’Água da Lagoa; 

05. Hehé Pahaempá – Escorregar no Barranco Molhado; 

06. Batim Hopele Pahankó, Salto do Barranco no Opará; 

07. Pehó Iwo Opará, A Enchente do Rio São Francisco; 

08. Taiutará Ruñohú Midzé, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe; 

09. Undéá Boighy Opará – O Caminho das Águas que Ensinam; 

10. Ubauipú Itohiquiete – A Lancha dos Viajantes. 


Apêndices

Glossário

Dados biográficos do autor

Sobre a obra

Orelha do livro



PREFÁCIO


Esta obra nasce das margens do Opará, nome indígena do Rio São Francisco, um dos maiores rios da América do Sul e verdadeiro eixo cultural de muitos povos.

Nos contos reunidos neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta narrativas que unem memória, natureza e identidade. Cada história revela não apenas acontecimentos, mas também uma forma de compreender o mundo.

Nas palavras do autor, o rio não é apenas água: é parente, é caminho, é história viva.

Os contos trazem elementos da língua Kariri-Xocó, resgatando termos e conceitos que pertencem ao universo cultural indígena e que ajudam a compreender a relação profunda entre o povo e a natureza.

Assim, este livro não é apenas literatura:

é memória cultural, registro histórico e expressão de resistência indígena.



APRESENTAÇÃO


O Rio São Francisco, chamado pelos povos indígenas de Opará, é muito mais do que um curso d’água que atravessa o Brasil. Para as comunidades que vivem às suas margens, ele é território, memória, alimento e ensinamento.


Neste livro, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da experiência direta com o rio e com a vida ribeirinha do povo Kariri-Xocó, habitante tradicional da região de Porto Real do Colégio, no Baixo São Francisco.


As narrativas apresentam diferentes dimensões da convivência com o Opará:


a infância nas margens do rio, as pescarias, as enchentes, os costumes antigos, a cerâmica tradicional, as travessias e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


A presença da língua Kariri-Xocó ao longo dos contos fortalece o caráter cultural da obra e reafirma a importância da preservação das línguas indígenas como guardiãs de conhecimento ancestral.


Mais do que literatura, esta obra é um registro de memória cultural, uma forma de manter viva a relação entre o povo e o rio que sustenta sua história.



INTRODUÇÃO



O Rio São Francisco é um dos principais rios do Brasil e atravessa diferentes regiões, culturas e paisagens. Entre os povos indígenas que vivem em suas margens está o povo Kariri-Xocó, cuja história está profundamente ligada ao rio e às lagoas que formam o território do Baixo São Francisco.


Para esse povo, o rio não é apenas um elemento natural. Ele é considerado parte da própria vida comunitária, influenciando a alimentação, os costumes, as formas de trabalho, as brincadeiras das crianças e as práticas espirituais.


Os contos reunidos neste livro apresentam fragmentos dessa convivência com o Opará. Cada narrativa revela uma experiência ou lembrança relacionada ao rio: a chegada das aves migratórias, a vida social nas margens, os antigos barrancos onde as crianças brincavam, as grandes enchentes, o comércio tradicional de cerâmica e peixe e as mudanças trazidas pela modernidade.


Ao registrar essas histórias, o autor contribui para preservar elementos importantes da memória cultural Kariri-Xocó, fortalecendo a tradição oral que durante séculos foi o principal meio de transmissão de conhecimento entre as gerações.



PALAVRA DO AUTOR



Escrever estas histórias foi como voltar muitas vezes às margens do Opará, o grande Rio São Francisco que acompanha a vida do meu povo Kariri-Xocó desde os tempos mais antigos.


Cada conto deste livro nasceu da memória, da observação e das palavras que escutei dos mais velhos, aqueles que sempre ensinaram que o rio não é apenas água correndo, mas também um ser vivo que orienta a vida das pessoas.


Nas margens do Opará aprendemos a pescar, a brincar, a plantar, a respeitar os animais, a ouvir o vento e a observar os sinais da natureza. O rio nos ensina paciência, convivência e respeito pelos ciclos da vida.


As histórias aqui reunidas falam de momentos simples do cotidiano: crianças escorregando no barranco molhado, pescadores trabalhando nas águas do rio, mulheres moldando o barro da cerâmica, travessias em canoas e lanchas, enchentes que transformam a paisagem e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


Ao registrar essas lembranças, meu desejo é contribuir para preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó e mostrar às novas gerações que nossa história continua viva.


O Opará sempre foi mais que um rio para nós. Ele é caminho, alimento, memória e espírito de resistência.


Se estas histórias conseguirem fazer o leitor sentir um pouco da vida que pulsa nas margens do São Francisco, então o rio também terá encontrado um novo caminho através das palavras.


Nhenety Kariri-Xocó



CONTOS ( 01 a 10 )



01. HIETÃDÉ UIHOIE OPARÁ, NÓS TODOS SOMOS O RIO SÃO FRANCISCO





Na Aldeia Kariri-Xocó, quando o Ukie, o Sol, começa a se deitar no lado Oeste, a luz dourada repousa sobre o Opará. O grande rio segue seu caminho antigo, correndo do Norte ao Sul, até encontrar o Aindzu, o Mar. Assim ele atravessa os Undéá, os Lugares do mundo, carregando histórias pelo Uché, o Tempo que nunca para.


Era nesse entardecer, quando o vento soprava manso e as Dzuá, as Águas, murmuravam palavras antigas, que Mayara, moça curiosa e atenta aos sinais da vida, aproximou-se de sua mãe, Nancy. Seus olhos brilhavam como quem deseja compreender o que não se vê apenas com os olhos.


— Mãe — perguntou — o rio Opará representa o quê?


Nancy silenciou por um instante. Olhou para o horizonte, onde o céu se encontrava com as águas, e então falou com a voz mansa de quem carrega saber antigo:


— Minha filha, o Opará não é apenas as Dzuá que correm aqui diante de nossa Natiá, a Aldeia. Ele é muito mais do que parece.


Ela então explicou que a conexão do Opará nasce da própria Antse, a Natureza. Vem do Aranke, o Céu profundo, das Battiá, as Estrelas que vigiam a noite, e do Ukie, o Sol, que aquece o Aindzu, o Mar. Do encontro desses seres surgem as Arankedzoá, as Nuvens, que viajam pelo céu e alimentam muitos Iwoá, os Rios, até que todos retornem ao grande Opará.


— É no Uché das Dzoá, Tempo das Chuvas — continuou Nancy — que a Radá, a Terra, se torna fértil. É nela que plantamos os Uanhí Tdjeá, nossas lavouras e legumes. Eles alimentam nosso Buiehoho, o Corpo, assim como as Dzuá que bebemos, todas vindas do Opará.


Mayara ouvia em silêncio, sentindo que cada palavra da mãe corria dentro dela como o próprio rio.


— Olhe bem, minha filha — disse Nancy, com firmeza e doçura — Hietãdé uihoie Opará. Nós todos somos o Rio São Francisco.


Ela explicou que o Opará vive nas Atse, as Pessoas; nos Keríá Retsé, os Animais Silvestres; nas Ubuá, as Plantas; nos Boêdoá, os Montes; nas Naticróbeá, as Cidades Ribeirinhas; e nos Uanieá, os Povos Indígenas.


— Todos carregamos o Opará dentro de Hietãdé, de Nós — concluiu — seja nas Dzuá que sustentam a vida, seja no Amíá, o Alimento que a Natureza nos oferece por meio dele.


Quando a noite caiu, a Kaiaku, a Lua, surgiu no céu, chamando as marés do mar. Com ela vinham os Wãmyá, os Peixes, que subiam pelo Opará. Era o tempo das Mydzéá, as Pescarias, tradição antiga passada de geração em geração, ligando o passado ao presente como o curso do rio.


E assim, enquanto o Opará seguia seu caminho eterno, Mayara compreendeu que o rio não corre apenas pela terra: ele corre dentro de todos os seres que vivem, respiram e lembram.



02. PIWONHÉ IEENDEÁ – A REPRODUÇÃO DAS AVES





Antigamente, quando o Opará ainda conversava com o céu em águas largas e mansas, o Baixo São Francisco se tornava caminho de asas. Era tempo de anúncio, tempo sagrado. As Parari, ligeiras e numerosas, riscavam o firmamento em grandes revoadas. Os mais antigos as chamavam de Arribaçã, e diziam que sua chegada era sinal de fartura, de renovação da vida.


O céu escurecia de movimento, e o som das asas parecia um canto coletivo, um chamado antigo que vinha de longe para cumprir o ciclo da reprodução. Elas pousavam, descansavam, procriavam, e depois partiam, deixando no ar a lembrança de sua passagem.


Junto delas vinham outras parentes do vento. A Pukûa-tinga, a Rolinha-cinzenta, chegava em bandos numerosos, mas diferente das Parari, permanecia mais tempo. Fazia morada, observava o chão, escutava a mata. Seu canto fino atravessava as manhãs como um fio invisível ligando céu e terra.


Na Terra Indígena Kariri-Xocó, entre Porto Real do Colégio e São Brás, a mata do Ouricuri ainda guarda esse segredo vivo. Ali, a Caatinga respira diversidade. Entre galhos retorcidos e folhas resistentes, muitas espécies de aves fazem sua morada, conhecendo cada sombra, cada fruto, cada silêncio.


Na Várzea do Itiúba, onde a terra se deixa inundar pelas águas do rio, a vida se multiplica o ano inteiro. As aves aquáticas conhecem bem esse território. O Socó-Yobi, o Socó azul, caminha lento pelas margens. A Guaraúna, ave carão, anuncia sua presença com voz forte. Marrecas e paturis deslizam sobre a água como se fossem parte do próprio rio, cumprindo ali o mistério eterno da reprodução.


Para o indígena, tudo isso não é apenas paisagem. É convivência. É parentesco. Viver com a natureza é respeitar o tempo de cada ser, é proteger a flora e a fauna, porque na cultura Kariri-Xocó os Keríá — os Animais — não são apenas criaturas: são seres sagrados, guardiões do equilíbrio e geradores da vida.


Assim, quando uma ave cruza o céu do Opará, ela não passa sozinha. Leva consigo a memória dos antigos, o espírito da terra e a certeza de que, enquanto houver respeito, o ciclo continuará.



03. BAIWO OPARÁ BOHÉ, A VIDA SOCIAL NO RIO SÃO FRANCISCO





O sol ainda nascia por trás das matas quando Kawany acordou com o canto distante das aves. Da porta da Erá, ela avistou o brilho do Iwo Opará, o velho Rio São Francisco, que seguia seu curso calmo, como quem conhece todos os segredos do tempo. Para o povo Kariri-Xocó, o rio não era apenas água: era vida, memória e caminho.


Kawany tomou o Ruño, o pote de barro, e seguiu em passos firmes para o Tadzu Iwo, pegar água no rio. No caminho encontrou Manawá, sua amiga, que equilibrava o Setu, cesto na cabeça. Dentro dele iam o Runhú, panelas e o Aribé, pratos utensílios de barro que logo seriam Uanikutsu Iwo, lavados no rio. As duas riam baixinho, sentindo a areia fresca sob os pés, enquanto o rio as recebia como um parente antigo.


Mais adiante, Tawã, ainda menino, corria pela margem do Opará. Ele gostava de Bydihekié, brincar na areia, e não perdia uma chance de Buiempá, tomar banho em Bohé, junto com outros Inurá, filhos que acompanhavam suas Deá, as mães. Aquele era um Uaɲo, um costume antigo: crescer junto ao rio, aprender com ele, ouvir suas histórias silenciosas.


As Tetsiá, mulheres da aldeia, lavavam as Roácruté, as roupas de pano, enquanto conversavam sobre o dia, a colheita e os sonhos. O som da água batendo nas pedras misturava-se às vozes, criando uma canção que só o Opará sabia cantar. Para muitos, aquele momento era mais que trabalho: era encontro, partilha e alegria.


Na outra margem, alguns homens Mydzéá, pescavam com Yaentá yaclaro, a vara de anzol. Próximo dali ficava o Ubacródzuá, o porto das canoas, onde repousavam as Ubáydzé, canoas de pesca moldadas pela mão e pelo saber do povo. Manawá observava atenta, aprendendo também a Mydzé Jereré, pescar com rede de arco, prática ensinada pelas mulheres mais velhas.


O dia seguia leve. O rio acolhia quem queria Ponhú, nadar, quem buscava alimento e quem apenas desejava sentir a água correr pelo corpo. Todos eram Atseá, pessoas ligadas entre si pelo Opará e pela Antse, a Natureza.


Com o tempo, vieram as mudanças. A água encanada, os banheiros, as lavanderias e a tecnologia alteraram muitos costumes. Mas Kawany, Tawã e Manawá — assim como tantos outros — guardaram o rio dentro de si. Pois quem viveu o Opará na pele e no coração jamais esquece.


O Iwo Opará continua correndo. E enquanto houver memória, palavra e respeito, ele seguirá vivo na história do povo Kariri-Xocó, como símbolo de uma vida simples, saudável e profundamente feliz. 



04. OKENDZURIÓ – A PORTA D’ÁGUA DA LAGOA





Nas Beáiwo Opará, as margens antigas do Rio São Francisco, Teipó gostava de se sentar ao entardecer, olhando o espelho quieto das Dzurióá, as lagoas que a Antse, a Natureza, moldara com paciência desde o princípio do mundo. Ao seu lado vinha sempre Sãbuá, mais jovem, curioso, atento às palavras que não estavam nos livros, mas na terra, na água e no vento.


— Vovô Teipó, — dizia Sãbuá — por que essas lagoas parecem adormecidas?


Teipó respirava fundo, como quem chama a memória dos antigos.


— Elas não dormem, meu neto. Elas lembram.


E então começava a história.


No tempo antigo, quando as lagoas eram cobertas por Retséá, as florestas densas, chegava a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. Em dezembro, o Opará crescia, transbordava e abria caminhos invisíveis, enchendo as lagoas com água viva e com Wãmyá, os peixes do rio. Entravam livres, sem medo, porque ali era berçário, era começo de vida.


— Os peixes sabiam — continuava Teipó — que ali era casa do crumatá, traíra, lambiá, aragú, piaba, mandim, pitú, piranha, cumbá, surubim e outros mais. Além disso nas lagoas estava também jacaré, capivara, jaçanã e o cágado d'água. 


Na Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, os peixes cresciam fortes, engordavam, aprendiam a nadar contra a corrente. Quando o Uché, o tempo certo, chegava, eles voltavam ao Opará. Era então que o povo pescava, nunca antes, nunca além. A pesca era coletiva, celebrada, respeitosa. Ninguém tirava mais do que a lagoa podia dar.


Sãbuá imaginava o povo reunido, os risos, os cestos cheios, a fartura partilhada.


Mas a voz de Teipó mudava quando chegava outro tempo.


— Depois vieram os colonizadores.


As lagoas foram fechadas. Construíram o Okendzurió, a Porta D’Água da Lagoa. Duas Onhancróá, paredes de pedra, erguidas frente a frente, e entre elas a Ybyrápeba, a tábua de madeira, controlando o que antes era livre. A água passou a obedecer à mão do homem, não mais ao chamado da lua.


A Naticróraí, a Aldeia de Pedra dos Brancos, cresceu onde antes era território indígena. A Natiá virou cidade, Porto Real do Colégio. Até o nome da terra mudou: Alagoas, que na língua antiga sempre foi Dzurióá, as Lagoas.


Sãbuá apertava a terra com os dedos.


— E nós, vovô?


Teipó sorriu com tristeza e firmeza.


— Nós resistimos.


Depois da criação do Posto Indígena, em 1944, o povo Kariri-Xocó começou a refazer seus caminhos. Em 1978, retomaram lagoas importantes: a Dzurichi, Lagoa Comprida, e a Dzucuréá, Lagoa dos Porcos. Cada retomada era como abrir novamente uma porta da memória.


Hoje, o Opará já não inunda as lagoas como antes. As grandes enchentes são raras, acontecem talvez a cada dez anos. A pescaria coletiva, que era festa e cultura, tornou-se lembrança e ensinamento.


Teipó levantou-se devagar, apoiando-se no bastão.


O governo federal demarcou e homologou a Terra Indígena Kariri-Xocó, ainda faltam receber as outras lagoas: Dzurunhá "Lagoa do Barro" e a Dzurité "Lagoa do Coité" e a Dzurye "Lagoa Grande". 


— Mas enquanto alguém contar essa história, Sãbuá, o Okendzurió não estará fechado por completo. A palavra também é uma porta.


Sãbuá olhou para a lagoa e entendeu:


algumas águas correm no rio,


outras correm na memória. 



05. HEHÉ PAHAEMPÁ – ESCORREGAR NO BARRANCO MOLHADO





Quando vinham as Pehóá, as grandes enchentes do Opará, ainda não existia na Naticróraí, a cidade, o Oncródzu, o cais de pedra. Naquele tempo, o rio falava direto com a terra, e o Pahankó, o barranco de barro cru, era parte da nossa vida. Era ali que acontecia o Hehé Pahaempá — escorregar no barranco molhado.


Assim que as águas começavam a subir, a alegria também subia junto. Os Inghéá, os meninos, os Mynhekiá, os rapazes, e as Tibudinã, as moças, se reuniam naquele antigo Kenhé, um costume passado de geração em geração, como se o próprio rio ensinasse.


Primeiro vinha o preparo. Com o Dehebá, o cavador, moldávamos a rampa no barro vivo. Abríamos uma cavidade funda, depois malhávamos a superfície com os pés e com as mãos, alisando o caminho até ficar perfeito para Craraidyó, descer. O barranco ficava liso, escuro, brilhando de água, pronto para o Hehé — o escorregar ligeiro que terminava no abraço frio das Dzuá, as águas do Opará.


Era queda, riso e grito. A Curaempá, roupa toda molhada, e o Dimy Bunhá, o corpo sujo de barro, não eram problema — eram motivo de alegria. Aquele era o tempo da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro. Tempo bom para Buiempá, tomar banho no rio, lavar o corpo e também o espírito.


Para ter segurança de não ter ferimentos havia uma grande minúcia na verificação de pedras no barro, retirando detritos pedregosos ficando somente a argila macia umedecida com água,  assim a rampa estava pronta para a brincadeira. 


O Opará corria forte, largo, como se sorrisse com a nossa brincadeira. Cada escorregada era um desafio, cada mergulho uma vitória. O barro grudava na pele, o riso ecoava pelas margens, e a memória se escrevia sem papel, direto no coração.


Depois, o tempo mudou. Veio o prefeito, veio o Oncródzu, o cais de pedra. O barranco desapareceu, e com ele aquele lugar exato da brincadeira. Mas o Opará continuou grande. O rio não esquece seus filhos.


E quando as águas voltarem a subir, nós saberemos: acharemos outros barrancos, outros caminhos, outros lugares para viver de novo o Hehé Pahaempá — porque enquanto o rio existir, a memória não morre.



06. BATIM HOPELE PAHANKÓ, SALTO DO BARRANCO NO OPARÁ





Yakoá cresceu ouvindo o rio antes mesmo de aprender a falar. Diziam os mais velhos que, ainda menino, ele reconhecia o som das Dzuá, as Águas, como quem reconhece o chamado de um parente antigo. Agora, já com os cabelos prateados pelo Uché do tempo, sentava-se à sombra de um ingazeiro, à beira do Iwo Opará, observando o rio crescer com a chegada da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada.


Ao seu lado estavam Taré, o neto curioso, e Namara, a irmã dele, atenta aos mínimos movimentos das águas.


— Vovô — perguntou Taré, com os olhos brilhando — é verdade que o rio fala mais alto nessa lua?


Yakoá sorriu. Apontou o braço firme para o barranco úmido.


— É agora que acontece o Hopele Pahankó, meu neto. O estrondo das águas no barranco. Costume antigo dos nossos Tokenhé, os Antepassados. Quando o Opará enche, ele chama o povo para brincar, nadar e voar por um instante antes de cair nas Dzuá, águas.


Namara observava as Ubacroté, canoas de pano, subindo e descendo o rio, enquanto outras repousavam no Ubacródzuá, o porto das canoas. As mulheres, as Tetsiá, lavavam roupas cantando baixinho; as Tibudiná, moças ágeis, cuidavam dos pratos; e as Inghéá, crianças como eles, mergulhavam e nadavam em alegria.


— Eu quero saltar, vovô — disse Taré, sentindo o coração bater como o tambor da aldeia.


Yakoá se levantou devagar. Caminhou até a borda do barranco, onde tantas gerações haviam saltado antes dele.


— O Pahankó não é só pular — explicou —. É respeito. É confiar nas Dzuá. É saber que o rio te recebe se teu coração estiver limpo.


Ele contou então como, em sua juventude, praticava o Batim Piedi, pescando de mergulho, com o arpão artesanal firme na mão. Saltava do Cró, mergulhava fundo e voltava com os Wãmyá, os peixes, como presente do Opará para a aldeia.


— Nosso povo sempre viveu assim — continuou —. Somos os Tseho Dzubukuá, Povos das Ribeiras. Mas o mundo mudou…


Yakoá silenciou. O olhar ficou distante.


— As Maecrótçawo, as hidrelétricas, prenderam o pulso do rio. Hoje o Opará já não cresce como antes. O Hopele Pahankó ficou raro, quase uma lembrança.


Namara segurou a mão do avô.


— Então a gente tem que guardar isso na memória, né, vovô?


Ele assentiu.


— Na memória, na palavra e no coração. Enquanto alguém lembrar e contar, o Pahankó continua vivo.


Naquele dia, Taré não saltou do barranco. Mas aprendeu algo maior: que nem todo salto é do corpo. Alguns são feitos para atravessar o tempo.


E o rio, mesmo contido, pareceu murmurar em resposta.



07. PEHÓ IWO OPARÁ, A ENCHENTE DO RIO SÃO FRANCISCO





No Uché, o Tempo antigo que caminha junto com a memória do povo, os Kariri-Xocó deixaram a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, e seguiram para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira.


Era a Puruá Kayaku, a Lua das Flores, outubro de 1978, quando a terra ainda respirava mudança e esperança.


Moacy, indígena pescador do Opará, acompanhou aquele deslocamento com o olhar atento de quem conhece os sinais da água e do céu. Seu remo era extensão do braço, e sua canoa, uma velha companheira. Além de pescar, Moacy tinha uma missão que carregava orgulho: atravessar os estudantes da aldeia pelo rio, levando-os até o Ginásio, na cidade de Porto Real do Colégio. A educação, dizia ele, também era um tipo de pesca — lançava-se a rede hoje para colher amanhã.


Quando chegou a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro, o Opará começou a mudar de voz. As Dzuá, as águas, cresceram dia após dia, subindo silenciosas, depois fortes, até alcançarem o tempo da Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, em janeiro de 1979. O rio, que sempre foi pai e caminho, tornara-se vasto e inquieto.


As Naticróbeá, cidades ribeirinhas, ficaram submersas. As Maecrótçawoá, hidrelétricas, abriram suas Okendzuá — as grandes Portas D’Água — e o Opará espalhou-se sem pedir licença. Na nova aldeia Wanheré Uanhícó, na  Fazenda Sementeira o povo Kariri-Xocó ficou ilhado. A Dzurye, a Lagoa Grande, a Dzurichi, a Lagoa Comprida, a Dzucuréá, a Lagoa dos Porcos, e o próprio rio formaram um grande espelho de água em volta da aldeia.


Mesmo assim, Moacy não deixou seu ofício. Com a canoa firme, enfrentava a correnteza para buscar mantimentos, notícias e, quando possível, atravessar quem precisava. Os estudantes, agora sem aulas, olhavam o rio com respeito dobrado. Moacy lhes dizia:


— O Opará ensina. Hoje ele cobre a terra, amanhã ele devolve.


O governo federal enviou Dipete Amiteá, doação de alimentos, para os ribeirinhos e para os indígenas. A ajuda chegava, mas o povo também buscava força na própria terra. Havia Utuá, frutas abundantes, que nasciam mesmo depois da água passar, como sinal de que a vida sempre retorna.


Na Içá Kayaku, a Lua das Formigas Grandes, em abril, o Opará começou a baixar. As marcas da enchente ficaram gravadas nas paredes, nos caminhos e na lembrança. As famílias começaram a reconstruir casas, roçados e histórias.


Moacy voltou a atravessar os estudantes com mais frequência. O rio já não rugia; murmurava conselhos antigos.


E assim, entre luas, águas e remadas, o povo Kariri-Xocó seguiu adiante. O Opará continuou sendo rio, estrada e memória.


Moacy, com sua canoa, permaneceu como testemunha viva de um tempo em que a enchente ensinou resistência, e a travessia se tornou lição para as gerações futuras.



08. TAIUTARÁ RUÑOHÚ MIDZÉ, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe





A velha Soyá acordava antes do sol. Suas mãos, marcadas pelo tempo, conheciam o barro como quem conhece o próprio corpo. Sentada à sombra de um juazeiro, às margens do Opará, ela amassava a argila com calma, enquanto a neta Aramã observava em silêncio, aprendendo mais com o gesto do que com as palavras.


— Vê, Aramã… — dizia Soyá, sem levantar os olhos. — O barro escuta a gente. Se a mão estiver pesada, ele racha. Se estiver mansa, ele vira ruñohú.


A cerâmica sempre foi assim para o povo Kariri-Xocó: mais que trabalho, era vida. Desde antiga data, as mulheres moldavam potes e panelas de barro, o ruñohú, e seguiam em taioiará, vendendo e trocando com os carai, os brancos. Em troca vinham o taiu, o dinheiro; a sabucá, a galinha; e o sekiki, a farinha que sustentava a casa.


Soyá lembrava bem do tempo da Rua dos Índios, quando ainda não tinham a terra reconquistada. As mulheres seguiam pelo rio na Ubacródzu, a canoa do Porto das Pedras, levando a cerâmica para os Atserácroraí, os povoados ribeirinhos. O rio era estrada, mercado e companhia.


Depois veio a retomada da Terra Indígena,  já nos anos de 1990. 


A aldeia se firmou às margens do Opará, cercada por lagoas fartas de midzé, os peixes. A vida mudou. Agora, junto com os potes de barro, as mulheres carregavam setu, balaios cheios de peixe fresco, para vender e trocar nos Atserácaddá, os povoados do interior.


— Foi o tempo mais bonito, Aramã — contou Soyá certa vez. — A terra voltou pra gente, e o peixe vinha como presente.


Já não era mais a canoa. As mulheres seguiam nos Ibáchiddá, os carros compridos da terra, atravessando Apreaca, Angico, Girau, Salomé e Xinaré. 


A Nova Aldeia trouxe estrada, luz elétrica, casa de alvenaria e água encanada. Trouxe conforto, mas também trouxe silêncio para o barro.


Agora, Soyá estava aposentada. Muitas das velhas ceramistas também. As mãos cansaram, os olhos falharam, e poucas jovens quiseram aprender o ofício. O barro começou a esfriar.


Aramã, porém, escutava tudo com atenção. Naquele dia, ajoelhou-se ao lado da avó e pediu:


— Ensina de novo, vó. Quero aprender a ouvir o barro.


Soyá sorriu. Um sorriso lento, profundo, como quem vê o futuro respirando.


— Então senta, minha neta. Enquanto houver mão jovem pra aprender, o ruñohú não morre. A tradição só dorme quando ninguém chama por ela.


E ali, entre o barro úmido, o rio antigo e a memória viva, Soyá passou à neta não apenas a técnica da cerâmica, mas a história de um povo que troca, vende, resiste e permanece.



09. UNDÉÁ BOIGHY OPARÁ – O CAMINHO DAS ÁGUAS QUE ENSINAM





O sol ainda se espreguiçava por trás do Boêdohe, o Morro Vermelho, quando Miraguaya, pescador antigo e conhecedor das Dzuá, águas do Opará, empurrou sua canoa para fora do Ubacródzuá, o Porto das Canoas. Seus pés sabiam o caminho antes mesmo de seus olhos acordarem por completo. O rio era casa, era estrada, era palavra antiga.


Naquele dia, Miraguaya não pescaria sozinho.


Vindos do sertão, chegaram Aruanã, Jatobá e Rizalva, três visitantes que nunca tinham visto o rio de perto. Conheciam apenas a terra seca, o chão rachado e o céu pedinte de chuva. Para eles, o Opará era mais que água: era um espanto.


— Aqui é a Natiá Kariri-Xocó, aldeia — disse Miraguaya, apontando o Ibiró Honé, o lado direito do rio. — Esses Undéá, lugares existem desde o tempo dos Tokenhé, antepassados. Cada curva do rio guarda um ensinamento.


Enquanto a canoa deslizava, Miraguaya mostrava as Beá, margens do rio como quem conta histórias vivas. Falou da Tseka, a grande Pucá Kitci, banco de areia onde o povo se banha e onde as crianças aprendem a rir com o rio. Aruanã, o mais jovem dos visitantes, mergulhou os pés na água e se calou — sentia algo que nunca havia sentido.


— Ali é a Yaraitá, — sussurrou Miraguaya, quase em respeito. — Pedra da Mãe D’água. Ela aparece à noite, quando o silêncio fala mais alto.


Rizalva estremeceu. Jatobá fez o sinal de respeito que aprendera com os mais velhos. Miraguaya continuou:


— Perto dali é o Perau, canal profundo. É morada de Camurupim, o Dono do Rio. Quem pesca sem pedir licença, o rio cobra.


Mais abaixo, surgia a Naticróraí, Porto Real do Colégio, com suas casas, suas igrejas e seus santos. No meio das águas, a Itapytera, Pedra do Meio, agora guardava a imagem de Bom Jesus dos Navegantes.


— Antes da imagem, a pedra já era sagrada, — disse Miraguaya. — O rio aceita muitos nomes, mas não esquece os primeiros.


A canoa passou pelo Crodzu Waré, o Porto dos Padres, e pelo Crodzudzi, o Porto de Baixo, onde antigamente rangia a Eyemé Merata, a balsa de ferro que cruzava histórias e destinos.


Ao longe, a Uocró Idabacrú, a ponte de pedra sobre o rio, ligava terras e separava modos de viver. Do outro lado, Propriá. Ali, Miraguaya apontou:


— Undé Piau. Lugar dos peixes. O rio é generoso com quem sabe esperar.


Mais adiante, os Piripiri balançavam com o vento, junco aquático que vira Tupé, esteira de descanso, nas mãos das mulheres da aldeia. E, por fim, o Boêdohe, Morro Vermelho oferecia sua tinta encarnada, memória da terra que também ensina a pintar o corpo e o tempo.


Quando o sol já ia alto, os visitantes do sertão estavam em silêncio. Não era cansaço. Era transformação.


— Agora vocês viram o rio, — disse Miraguaya. — Mas só entende o Opará quem deixa ele entrar por dentro.


E o rio, antigo e atento, seguiu seu caminho, levando consigo mais três histórias para guardar.



10. UBAUIPÚ ITOHIQUIETE – A LANCHA DOS VIAJANTES





O Uché, o Tempo, não caminhava: ele deslizava manso sobre as Dzuá, as águas do Opará. E quem soubesse olhar percebia que algo estava mudando. As antigas Ubácruté, canoas de pano que durante décadas cortaram o rio com paciência e coragem, começavam a ceder espaço a uma nova forma de viajar.


Chegavam as Ubauipú Itohiquiete, as Lanchas dos Viajantes. Eram canoas transformadas, agora com cobertura firme e motor a diesel no ventre, rompendo a correnteza com mais ligeireza. O rio era o mesmo, mas o jeito de atravessá-lo ganhava outro ritmo.


No Baixo São Francisco, quase toda Ubauipú carregava uma história anterior. Antes lancha, fora Ubácruté. As mãos que um dia esticaram pano e confiaram no vento, agora aprenderam a domar o motor. Não era abandono do passado, mas continuação — evolução que respeita a origem.


No antigo Radamy Cródzu, o Porto de Baixo, onde antes repousavam as canoas de pano, o cenário se renovava. As Ubauipúá alinhavam-se à margem, prontas para a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá. De um lado e do outro do rio, pessoas, histórias, mercadorias e esperanças cruzavam juntas.


Cada lancha levava quarenta passageiros e três tripulantes. Custava pouco atravessar: três reais para quem escolhia o rio, seis para quem seguia pelo Ibápohduá, o automóvel, pelas estradas de terra e asfalto. Mas não era só o preço que pesava na escolha. Havia quem preferisse o balanço das águas, o vento no rosto, o cheiro do rio vivo.


Mesmo com as rodovias cortando a paisagem e os transportes terrestres acelerando o mundo, as Ubauipúá continuavam essenciais. Não apenas como meio de transporte, mas como elo cultural. Para muitos, entrar numa lancha não era só atravessar: era Tuyokié, passear com o rio, conversar com o Opará, lembrar que a vida também sabe fluir.


E assim, enquanto o Tempo seguia mudando, as Lanchas dos Viajantes continuavam indo e vindo, levando no casco não apenas pessoas, mas a memória viva de um povo que aprendeu a transformar sem esquecer.



Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 




APÊNDICES 


CONTEXTO CULTURAL DO POVO KARIRI-XOCÓ


O povo Kariri-Xocó habita tradicionalmente a região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, às margens do Baixo Rio São Francisco.


Sua história está marcada por processos de resistência cultural, retomada territorial e preservação da identidade indígena no Nordeste brasileiro.


A relação com o Opará sempre foi central para o modo de vida Kariri-Xocó. O rio fornece alimento, orienta práticas sociais e aparece também em narrativas míticas e ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


Entre as práticas tradicionais destacam-se:


a pesca artesanal


a cerâmica indígena


a coleta de frutos da região


as travessias fluviais


os rituais associados ao ciclo da natureza


Os contos deste livro dialogam diretamente com essas práticas, apresentando episódios do cotidiano que refletem o conhecimento tradicional do povo.



GLOSSÁRIO



Palavras da Língua Kariri-Xocó presentes nos contos


Este glossário ajuda o leitor a compreender melhor algumas palavras e expressões usadas pelo povo Kariri-Xocó, preservando o significado cultural dentro das histórias.


Baiwo – Viver, morar, existir em determinado lugar.


Opará – Nome ancestral do Rio São Francisco, usado por diversos povos indígenas da região.


Uohoie – Tudo, totalidade, aquilo que abrange o conjunto das coisas.


Canghi – Bom, agradável, positivo, aquilo que traz alegria ou bem-estar.


Baiwo Opará – Viver no Rio São Francisco; expressão que representa o modo de vida ligado ao rio.


Canghi Opará – A bondade ou generosidade do rio, quando ele oferece fartura de peixe e boas águas.


Nhenety – Nome indígena; associado à ideia de quem observa, escuta e transmite histórias.


Toré – Ritual sagrado praticado por vários povos indígenas do Nordeste, envolvendo canto, dança e espiritualidade.


Aldeia – Território tradicional onde vive o povo indígena.


Barranco do rio – Margem de terra do rio onde muitas atividades do cotidiano acontecem.


Canoa – Embarcação tradicional usada para pesca e travessia no rio.


Barro da cerâmica – Terra retirada das margens ou lagoas para produção de peças artesanais.


Dzuá – águas.


Opará – nome indígena do Rio São Francisco.


Uché – tempo.


Kayaku – lua ou período lunar associado aos ciclos naturais.


Tokenhé – antepassados.


Wãmyá – peixes.


Tetsiá – mulheres.


Inghéá – crianças.


Pahankó – barranco.


Ruñohú – utensílios de cerâmica.


Ubacródzuá – porto das canoas.


Boêdohe – morro ou elevação de terra.


Natiá – aldeia.


Undéá – lugares.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, Brasil.

É contador de histórias oral e escrita, pesquisador da memória cultural indígena e autor de diversos textos sobre a vida, os costumes e a história de seu povo.

Por meio da literatura e de seu blog, dedica-se à preservação da cultura, da língua e das narrativas tradicionais associadas ao Rio São Francisco, conhecido entre os povos indígenas como Opará.

Blog do autor:

https://kxnhenety.blogspot.com⁠�



SOBRE A OBRA


Este livro reúne contos que retratam a vida cultural, social e espiritual do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.


As histórias revelam práticas antigas, como pescarias coletivas, brincadeiras de infância, observação da natureza e o respeito aos ciclos da vida.


A obra também apresenta termos da língua Kariri-Xocó, fortalecendo o processo de valorização e revitalização cultural.


Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom reúne dez contos que retratam a vida cultural e social do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.


As histórias percorrem diferentes momentos da vida ribeirinha: a infância nas margens do rio, as pescarias tradicionais, as enchentes que transformam a paisagem, o comércio de cerâmica e peixe, os ensinamentos dos mais velhos e as mudanças trazidas pela modernidade.


Cada narrativa revela a profunda ligação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará, mostrando que o rio não é apenas um elemento geográfico, mas um verdadeiro eixo de identidade cultural.



ORELHA DO LIVRO (TEXTO)


Nas margens do grande Opará, o Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.

Neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta contos que nascem da memória de seu povo e da convivência com a natureza.

As narrativas mostram a vida ribeirinha, os ensinamentos dos mais velhos, as brincadeiras de infância, a relação sagrada com os animais, as lagoas e as águas do rio.

Cada conto é uma pequena porta aberta para o universo cultural Kariri-Xocó, onde tradição, memória e natureza caminham juntas.

Ler estas histórias é navegar pelo Opará — um rio que corre não apenas pela terra, mas também pelo coração de quem o conhece.



CONTRACAPA



Nas margens do grande Opará, nome ancestral do Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.


Neste livro, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da memória viva de seu povo e da convivência profunda com o rio que sustenta a vida no Baixo São Francisco.


As narrativas revelam cenas do cotidiano ribeirinho: crianças brincando nos barrancos molhados, pescadores enfrentando as águas do rio, mulheres lavando roupas nas margens, aves que anunciam os ciclos da natureza e antigas lagoas que guardam segredos da terra.


Entre lembranças de enchentes, pescarias, travessias de canoa, comércio tradicional de cerâmica e histórias transmitidas pelos mais velhos, o autor apresenta uma visão de mundo em que natureza, cultura e memória caminham juntas.


Misturando a língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, os contos preservam expressões e significados culturais que revelam a profunda ligação entre o povo indígena e o Opará, o rio que corre não apenas pela terra, mas também dentro das pessoas.


Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom é mais do que um livro de contos: é um testemunho de identidade, resistência cultural e amor pelo território.


Uma obra que convida o leitor a navegar pelas águas do São Francisco e descobrir que cada curva do rio guarda uma história.


Sobre o autor


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, Alagoas.


É contador de histórias oral e escrita e dedica-se ao registro da memória cultural de seu povo, valorizando a tradição, a língua e os saberes transmitidos pelas gerações.


Blog do autor:


kxnhenety.blogspot.com



LOMBADA LATERAL DO LIVRO 



A lombada é a parte lateral do livro que aparece quando ele está na estante.


Texto sugerido para a lombada:


BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI


Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom


Nhenety Kariri-Xocó


(se houver logotipo da editora ou publicação independente ele pode ir na parte inferior)






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



sexta-feira, 6 de março de 2026

DZENHÉÁ DUBOHERIÁ, GUARDIÕES E MESTRES DOS SABERES DO OPARÁ






FALSA FOLHA DE ROSTO

(Primeira página interna)



DZENHÉÁ DUBOHERIÁ, 

GUARDIÕES E MESTRES DOS SABERES DO OPARÁ 


Guardião e Mestres dos Saberes do Opará

Autor

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO

(geralmente página em branco)

Esta página permanece intencionalmente em branco.



FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)


DZENHÉÁ DUBOHERIÁ, GUARDIÕES E MESTRES DOS SABERES DO OPARÁ 


Contos da memória cultural do povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – Alagoas

Brasil

2026


VERSO DA FOLHA DE ROSTO


(Ficha editorial e catalográfica simplificada)

© 2026

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

Esta obra reúne contos inspirados na tradição oral, na memória cultural e nos saberes ancestrais do povo indígena Kariri-Xocó, habitantes das margens do Rio São Francisco, conhecido ancestralmente como Opará.

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, sem autorização do autor.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Título: Dzenhéá Duboheriá, Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará

Local: Porto Real do Colégio – AL

Ano: 2026

Tema:

Cultura indígena brasileira — tradição oral — povo Kariri-Xocó — memória cultural — Rio São Francisco (Opará).



APRESENTAÇÃO


O livro “Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará” reúne narrativas inspiradas na tradição cultural do povo Kariri-Xocó, habitantes das margens do grande rio Opará, conhecido na geografia brasileira como Rio São Francisco.

Nesta obra, o autor Nhenety Kariri-Xocó transforma memórias, ensinamentos e experiências da vida comunitária em contos que revelam a riqueza dos saberes tradicionais transmitidos ao longo das gerações.

As histórias apresentam personagens que representam diferentes formas de conhecimento presentes na cultura indígena: o mestre da cerâmica, o mestre dos balaios, o mestre da canoa, o mestre da pescaria, o mestre do Toré e outros guardiões da memória cultural da aldeia.

Esses personagens não são apenas figuras narrativas; eles simbolizam papéis fundamentais dentro da organização social e espiritual do povo Kariri-Xocó. Cada um deles carrega saberes ligados à terra, ao rio, à floresta e à convivência comunitária.

Ao registrar essas narrativas, o autor contribui para a preservação da tradição oral indígena, transformando histórias que antes circulavam principalmente na palavra falada em um documento cultural acessível a leitores de diferentes lugares.

A obra também revela a profunda relação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará, rio que ao longo da história tem sido fonte de alimento, caminho de encontros e espaço sagrado de memória.

Mais do que uma coletânea de contos, este livro é um testemunho cultural que reafirma a importância da diversidade de saberes presentes nas culturas indígenas do Brasil.



DEDICATÓRIA


Dedico este livro aos ancestrais do povo Kariri-Xocó,

que ensinaram a escutar o rio Opará e a respeitar os caminhos da natureza.

Dedico também às crianças e jovens da aldeia,

para que continuem aprendendo, guardando e transmitindo os saberes do nosso povo.

Que cada história aqui contada seja como uma canoa sobre o rio:

levando a memória dos antigos para as gerações que ainda virão.



AGRADECIMENTOS


Agradeço, em primeiro lugar, aos anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó, guardiões da memória e dos saberes transmitidos através da palavra e da convivência.

Agradeço às comunidades indígenas que mantêm viva a tradição oral, fonte de inspiração para estas narrativas.

Agradeço também às instituições culturais e educacionais que valorizam a preservação da história e da identidade dos povos originários.

Meu reconhecimento especial às crianças e jovens da aldeia, que continuam escutando as histórias dos mais velhos e mantendo viva a cultura do nosso povo.

Por fim, agradeço ao Opará, o grande rio São Francisco, que há séculos acompanha, alimenta e guarda a história do povo Kariri-Xocó.



PREFÁCIO


Este livro nasce do encontro entre a memória ancestral e a palavra escrita. Durante muitos séculos, os saberes dos povos indígenas foram transmitidos principalmente pela oralidade: histórias contadas ao redor da fogueira, ensinamentos passados pelos anciãos e experiências vividas no cotidiano da aldeia.

Entre o povo Kariri-Xocó, que habita as margens do grande rio São Francisco — conhecido ancestralmente como Opará, o rio-mar — a memória coletiva sempre encontrou formas de permanecer viva. Nos cantos do Toré, nas práticas de pesca, nos trabalhos da roça, na arte do artesanato e nos rituais comunitários, os conhecimentos foram sendo preservados e renovados geração após geração.

Os contos reunidos neste livro apresentam figuras simbólicas fundamentais dentro dessa tradição: os Dzenhéá ou Dzenuá, guardiões, e os Duboheriá, mestres dos saberes. Cada um deles representa um campo de conhecimento que sustenta a vida do povo Kariri-Xocó: a natureza, a cultura, a educação, a cura, a produção artesanal, a pesca, a navegação e as manifestações espirituais.

Mais do que simples narrativas, estas histórias são fragmentos de memória cultural. Elas revelam como os saberes tradicionais continuam dialogando com o presente, resistindo às mudanças do tempo e reafirmando a identidade de um povo.

Assim, “Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará” convida o leitor a percorrer os caminhos da tradição Kariri-Xocó, onde cada ensinamento nasce da relação profunda entre o ser humano, a natureza e o espírito dos ancestrais.



INTRODUÇÃO


O OPARÁ E O POVO KARIRI-XOCÓ


O rio São Francisco, chamado pelos povos originários de Opará, é um dos mais importantes rios do Brasil. Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, suas margens já eram habitadas por diversos povos indígenas que encontravam em suas águas alimento, caminhos de deslocamento e inspiração espiritual.

Entre esses povos estão os Kariri-Xocó, cuja história está profundamente ligada às terras da atual região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas. Ao longo dos séculos, mesmo diante de processos de colonização, missões religiosas, mudanças políticas e transformações culturais, o povo Kariri-Xocó manteve viva grande parte de seus saberes tradicionais.

A vida comunitária desse povo sempre esteve conectada aos ciclos da natureza. O rio, as roças, as matas e os animais formam um sistema de convivência que orienta práticas de trabalho, alimentação, espiritualidade e organização social.

Dentro dessa estrutura cultural surgem figuras importantes responsáveis pela preservação do conhecimento: os Dzenuá, guardiões, e os Duboheriá, mestres de saberes específicos. São pessoas que, por experiência e reconhecimento da comunidade, se tornam responsáveis por ensinar e transmitir práticas fundamentais para a continuidade da cultura.

Entre esses saberes estão o cultivo da terra, o artesanato, a construção de canoas, a pescaria, os cantos do Toré, a medicina tradicional e a produção de utensílios essenciais para o cotidiano da aldeia.

Os contos apresentados nesta obra reúnem personagens inspirados nesses mestres e guardiões, demonstrando que cada conhecimento tradicional representa um elo entre passado, presente e futuro.

Ao registrar essas narrativas, o autor contribui para fortalecer a memória cultural do povo Kariri-Xocó, permitindo que leitores de diferentes lugares conheçam um pouco mais sobre os saberes que nascem às margens do grande Opará.



SUMÁRIO


Falsa folha de rosto

Folha de rosto

Ficha catalográfica

Apresentação 

Dedicatória

Agradecimentos

Introdução – O Opará e o povo Kariri-Xocó

Prefácio 

Prólogo 

Contos ( 01 a 11 )

01. Dzenhéá Antse – Guardião da Natureza

02. Dzenhéá Samyá – Guardião da Memória e Cultura

03. Duboheriá – Guardiões do Saber

04. Dzenuandzoá – Guardião da Cura

05. Dzenu Katiantse – Guardião das Abelhas

06. Duboheridé Ruñohú – A Mestra da Cerâmica

07. Duboruhúá – Os Mestres do Artesanato

08. Duboeretuá – O Mestre dos Balaios

09. Duboheri Torá – Canto do Mestre do Toré

10. Duboherubá – O Mestre da Canoa

11. Duboheri Mydzé – O Mestre da Pescaria


Conclusão

Glossário

Referências

Nota sobre o autor

Sobre a obra



PRÓLOGO


Antes das cidades, antes das estradas e antes do barulho das máquinas, havia o silêncio profundo do Opará.

O grande rio corria livre entre as matas e as aldeias, carregando em suas águas as histórias dos povos que nasceram às suas margens. Cada curva do rio guardava um ensinamento, cada pedra escondia uma memória, cada árvore conhecia o nome dos antigos.

Entre o povo Kariri-Xocó, os saberes nunca viveram apenas nas palavras escritas. Eles caminharam na fala dos mais velhos, nos gestos de quem trabalha a terra, na habilidade de quem constrói uma canoa, no canto de quem puxa o Toré e na paciência de quem aprende a pescar respeitando o tempo do rio.

Esses saberes pertencem aos Dzenhéá, os guardiões, e aos Duboheriá, os mestres que mantêm viva a memória do povo.

Cada um deles carrega um conhecimento que não está apenas nas mãos ou na voz, mas também no espírito da comunidade.

Este livro reúne histórias inspiradas nesses mestres e guardiões. São narrativas que falam de trabalho, de tradição, de resistência cultural e da profunda ligação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará.

Assim, antes que o primeiro conto comece, é importante lembrar: estas histórias não pertencem apenas ao papel.

Elas pertencem à memória viva de um povo.



CONTOS ( 01 a 11 )



01. DZENHÉÁ/DZENUÁ ANTSE – OS GUARDIÕES DA NATUREZA





Na Radá, a Terra viva dos Uanieá, indígenas que existia numa Natiá, aldeia onde tudo respirava junto: as pessoas, as árvores, as águas e os animais. Ali, diziam os anciãos, a Antse, a Natureza, havia moldado o Radda, o Mundo, com a força do Ukie, o Sol, iluminando a Hine do Cayápri, o Dia.


Quando o Uché, o Tempo, se movia, surgiam o Tidzebæ, o Relâmpago, as Arankedzoá, as Nuvens, e então vinha o Dzo, a Chuva, descendo para alimentar as Dzuá, as Águas, que corriam até a Ebedzú, a Fonte sagrada do Iwo Opará, o grande Rio São Francisco.


Foi nesse lugar que vivia Ynori, um jovem curioso, que sonhava em se tornar um Dzenuá Antse, um Guardião da Natureza. Ele sabia que não bastava querer: era preciso aprender com quem escutava os seres da floresta.


Certa noite de Kaia, quando a Kaiaku, a Lua, iluminava o Aranke, no céu e as Batiá, estrelas que brilhavam, Ynori sentou-se ao lado do ancião Vovô Irecê, guardião dos Woroyá, as histórias antigas.


— Vovô, perguntou o jovem,


— por que tantos Keríá, animais desapareceram de nossas Retséá, florestas?


Irecê suspirou fundo, como quem chama a memória da Terra.


— Quando os colonizadores chegaram, eles esqueceram que Antse, a natureza tem espírito. Derrubaram as florestas, calaram muitos Keríá. Hoje, eles vivem mais nas Nhenetíá, nas tradições, e nas Woroyá, histórias que contamos.


E então o ancião começou a nomear os ausentes, como quem chama seus espíritos:


Inhiconete, a Preguiça; Hamoklekle e Rõti, as Onças; Murawó, o Porco-do-mato; Dziku, o Bugio; Kukryt, a Anta; Pãn, a Arara; Krêre, o Papagaio; Imbuam, a Seriema…


Cada nome fazia o fogo estalar, como se os Keríá escutassem.


— Mas nem tudo se perdeu, continuou Irecê.


— Os Dzenuá Antse ainda caminham entre nós.


No dia seguinte, Ynori foi levado à floresta por Anaiê, uma anciã que conversava com os pequenos seres. Ela mostrou o Ibozoim, o Sonhim, a Kati, a Abelha trabalhadora, o Munim, o Grilo cantor, e até o Myghy, o Caramujo paciente.


— Todo ser tem Ba, Vida, disse Anaiê.


— Até o menor Axum, a Formiga, sustenta o mundo.


Mais adiante, perto das águas, aprenderam sobre a Nieɲi, a Cobra guardiã dos caminhos, o Klimi, a Lontra das Dzuá, águas e o Hazú, o Tamanduá silencioso. Anaiê explicou que proteger também era não caçar, não destruir, saber esperar.


— A Boregor, a Caipora, ainda protege os Keríá Uaplu, disse ela.


— Hoje, só caçamos quando a Antse, natureza permite, e apenas em extrema necessidade.


Ao entardecer, Ynori viu Gongá o sabiá cantar, o Xáj, picapau bater o bico no tronco e o Xõn, urubu circular no alto, limpando o mundo. Ele compreendeu, então, que ser Dzenuá Antse não era lutar contra a natureza, mas caminhar com ela.


Naquela noite, olhando a Kaiaku, lua refletida no Aindzu, o Mar distante, Ynori fez seu juramento silencioso:


guardar as florestas, respeitar os Keríá, ouvir os anciãos e ensinar aos mais novos.


E assim, dizem os Woroyá, que todo Kariri-Xocó pode se tornar um Dzenuá Antse, desde que escute a Antse, respeite o Uché e cuide do Radda como quem cuida da própria alma.




02. DZENHÉÁ/DZENUÁ SAMYÁ, OS GUARDIÕES DA MEMÓRIA E DA CULTURA





Naquele fim de tarde, quando o vento atravessava a Retséantoá, a Floresta Sagrada do Ouricuri, o velho Nhamuã caminhava lentamente entre as árvores. Seus passos eram firmes, mas leves, como quem não pisa no chão, e sim na lembrança dos ancestrais. Nhamuã era conhecido entre os Kariri-Xocó como Dzenu Woroy, o Guardião da História.


Ao seu lado seguiam dois jovens aprendizes: Amoãny, atenta como o voo do gavião, e Kanamã, curioso como as águas do rio que nunca cessam de perguntar à terra por onde passam.


Nhamuã parou diante de um tronco antigo, marcado pelo tempo, e ali se sentou. Com a voz serena, iniciou o ensinamento:


— Meus filhos, antes de tudo, precisam saber que o Nordeste foi o primeiro chão pisado pelos colonizadores, mas também o primeiro a sentir a dor do contato. Muitos povos perderam suas línguas, seus cantos, seus costumes… alguns quase desapareceram como fumaça ao vento.


Amoãny abaixou a cabeça, respeitoso. Kanamã, com os olhos brilhando, perguntou:


— Mas por que nós ainda estamos aqui, Nhamuã?


O velho sorriu, como quem guarda o segredo do mundo.


— Porque aprendemos a resistir. Sobreviver não foi fácil. Foram séculos de estratégia, amor ao povo e fidelidade à memória. Ser Kariri-Xocó é carregar o tempo dentro do peito.


Nhamuã então tocou o chão com a palma da mão e continuou:


— Entre nós existem os Dzenuye ou Dzenuá, os Guardiões. São eles que mantêm vivo aquilo que o tempo tenta apagar.


E, um a um, foi nomeando, como quem convoca espíritos antigos:


— Há o Dzenu Samy, Guardião da Memória e da Cultura.


— O Dzenu Woroy, Guardião da História.


— O Dzenu Woroyé, Guardião dos Contos e das Fábulas.


— O Dzenukaá, Guardião dos Cantos.


— O Dzenu Torá, Guardião da Dança.


— O Dzenu Toré, o Guardião Soprador.


— O Dzenu Uaɲoá, Guardião dos Costumes.


— O Dzenu Nhenetíá, Guardião das Tradições.


— E o Dzenu Amíudé, Guardião da Culinária.


Cada nome parecia ecoar entre as árvores, como se a floresta respondesse em silêncio.


— Manter os uaɲo, os costumes — prosseguiu Nhamuã — é um ato de amor ao povo. Assim como preservar o nhenetíá, nossas tradições. Viver onde viveram nossos pais, nossos parentes e nossos ancestrais nos dá equilíbrio, harmonia e paz de espírito.


Kanamã respirou fundo e sentiu o cheiro da terra úmida, misturado à fumaça distante do fogo comunitário.


— É por isso que dançamos o toré? — perguntou.


— Sim — respondeu o velho. — É por isso que cantamos, pescamos juntos, partilhamos a comida, celebramos os mutirões e entramos na floresta sagrada. Tudo isso é memória viva passando de geração em geração.


O sol começava a se esconder. Nhamuã levantou-se lentamente.


— Um dia, Amoãny… Kanamã… vocês também serão Dzenuyeá. E quando esse dia chegar, lembrem-se: guardar a história não é apenas contar o passado, mas proteger o espírito do povo para o futuro.


Os dois jovens permaneceram em silêncio, sentindo que naquele instante haviam recebido algo maior que palavras: haviam recebido a missão.


E assim, na Retséantoá, a memória continuou viva.



03. DUBOHERIÁ E DUBOHERIDÉÁ – OS GUARDIÕES DO SABER NO OPARÁ





À margem esquerda do grande Opará, onde o rio fala com as pedras e o vento atravessa as Retséá, as florestas vivia o povo Kariri do grupo linguístico Dzubukuá. Sua Natiá, aldeia repousava entre as águas da Dzurichi Lagoa Comprida e as florestas antigas, lugar onde o tempo não corria — caminhava.


Ali moravam Duboheriá, o Mestre do Saber, e Duboheridéá, a Mestra da Palavra Viva. Não usavam paredes nem livros de pedra. Seus ensinamentos nasciam da terra, do rio, do fogo e da memória. As crianças sentavam-se em roda, e os Subatekié, conhecimento, Nhenetí, tradição fluíam como canto antigo, passando de geração em geração.


— Aprender é escutar o espírito da terra, dizia Duboheriá, enquanto traçava sinais na areia.


— Ensinar é manter vivo o que não pode morrer, completava Duboheridéá, com a voz calma das avós do mundo.


Mas um dia, o silêncio da floresta foi cortado por vozes estranhas. Chegaram os Waréá, padres vestidos de preto, trazendo cruzes e palavras novas. Com eles vieram os Caraí, brancos, os Peró, portugueses como diziam os Tupinambás. No alto do Boêdo, onde antes se ouvia apenas o canto dos pássaros, ergueram a Erantoá, a casa dos santos, e logo depois o Erátekié, o colégio dos jesuítas.


Os ensinamentos mudaram.


Os Duboheriá e as Duboheridéá foram silenciados. Seus lugares passaram a ser ocupados por vozes que não conheciam o Opará nem falavam com os espíritos da floresta. As Erácró, casas de pedras  cresceram, transformando a antiga Natiá, aldeia tradicional numa Naticróraí — a aldeia de pedra dos brancos.


Com o tempo, veio o Império, depois a República. Os Kariri foram empurrados para fora do centro, vivendo agora na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Sem proteção, sem terra, sem direito — mas ainda com memória.


As Duboheridéá, mestras envelheceram, mas nunca deixou de ensinar. À noite, reunia as crianças e sussurrava histórias proibidas, como sementes escondidas no chão seco. 


Em 1944, algo mudou. O Estado reconheceu novamente os indígenas. Surgiu o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso. Na Rua dos Índios nasceu a Escola dos Kariri. Mas ainda não era tempo de retorno completo: os professores vinham de fora, ensinavam sem ouvir.


Só em 1973 as primeiras professoras indígenas cruzaram os portões da escola. Duboheridéá já não caminhava, mas sorriu quando soube. Na década de 1980, o número cresceu. O saber começava a voltar para casa.


Em 1999, a educação indígena foi reconhecida segundo sua própria cultura, arte, língua e história. O que antes era sussurro voltou a ser voz.


E em 2006, a escola recebeu o nome do Pajé Francisco Queiroz Suíra. Ali, finalmente, os professores e professoras eram do próprio povo Kariri-Xocó.


Naquele dia, dizem que o vento passou diferente sobre a Lagoa Comprida.


Duboheriá, agora espírito da memória, falou ao rio:


— Voltamos.


Hoje, o saber ancestral caminha novamente pela escola:


Duboherí Worobü ensina os números como caminhos,


Dubosamy ensina cultura como raiz,


Doboherí Nunúanie faz a língua nativa florescer,


Duboherí Subantse revela os segredos da natureza,


Dubohé Hibuyê faz do corpo movimento sagrado.


E assim, no Opará, o ensino voltou a ser o que sempre foi:


memória viva, palavra ancestral e continuidade do povo.



04. DZENUANDZOÁ, GUARDIÕES DA CURA NATIVA





No Brasil, terra de muitos povos, muitas línguas e muitas memórias, vivem os Kariri-Xocó, guardiões antigos do chão, da palavra e do espírito. Na aldeia, quando o sol nasce lento sobre o rio São Francisco e o vento passa conversando com as árvores, há sempre alguém que procura a casa do Pajé, o Bidzamu, aquele que escuta o invisível. Outros vão aos Atseáde, “Pessoas que Rezam”, os rezadores e rezadeiras, e também aos Atseandzoá, “Pessoas que Curam”, os curadores.


Na Aldeia Kariri, antigamente, e depois na Aldeia Kariri-Xocó, passaram várias gerações de pajés, rezadores, rezadeiras e curadores.


Entre os pajés estiveram: Pedro Lolaço, Ludovico, Baltazar, Manoel Paulo, Manoel Joaquim (Dunga), Francisco Suíra e Júlio Suíra.


Entre os rezadores, rezadeiras e curadores estiveram: Gravié, Matildes, Iria, Marieta, Kandará, Maria Véia, Frederico e Kênede.


Todos eles são Dzenuandzoá, os Guardiões da Cura.


São assim reconhecidos:


Bidzanuandzo – Pajé, Guardião da Cura;


Dzenude – Guardião da Reza;


Dzenuandzoá – Guardiões da Cura.


Naquela manhã, enquanto o Pajé preparava sua Dzó, a mesinha sagrada onde repousam os remédios da floresta, aproximou-se Ynorá, jovem da aldeia, curiosa e respeitosa. Ela observava em silêncio o movimento lento das mãos do Pajé, que maceravam folhas do Uanrandzi, remédio ensinado pelos ancestrais.


— Vovô Suíra, — disse ela em voz baixa — por que tanta gente vem de longe até sua casa?


O Pajé levantou os olhos, fundos como a mata do Ouricuri, e sorriu com a paciência de quem já ouvira aquela pergunta muitas vezes.


— Eles não vêm só atrás da cura do corpo, Ynorá. Vêm buscar a cura do espírito. O que dói por dentro, muitas vezes, não se resolve com remédio da cidade.


Ela se aproximou mais.


— E quem lhe ensinou tudo isso?


O Pajé suspirou, olhando para o chão batido da casa.


— Foi a floresta, foram os antepassados, foram meus avós e os avós deles. Nada disso é só meu. Eu apenas guardo e repasso. O saber não tem dono; é do povo.


Do lado de fora, chegavam pessoas da cidade, dos povoados vizinhos e até de outros estados do Brasil. Todos entravam com respeito, cabeça baixa e coração aberto. Ali, na casa simples do Pajé Suíra, encontravam silêncio, palavra certa e a força invisível da tradição.


À noite, quando o ritual acontecia na floresta sagrada do Ouricuri, todos os Kariri-Xocó se reuniam. O fogo aceso iluminava os rostos, e o Pajé conduzia o ritual com firmeza e humildade. Ninguém interrompia. Todos sabiam: ali falava o Guardião.


Ynorá, sentada entre os mais velhos, compreendeu então que o Pajé não era apenas um curador, mas um elo vivo entre passado, presente e futuro. Um guardião da cura, da memória e da identidade de seu povo.


E assim, enquanto houver floresta, palavra e respeito, o Bidzanuandzo continuará caminhando entre os Kariri-Xocó, curando corpos, acalmando espíritos e, junto aos outros Dzenuandzoá — Guardiões da Cura — mantendo viva a chama ancestral.



05. DZENU KATIANTSE – O GUARDIÃO DAS ABELHAS NATIVAS





Na Terra Indígena Kariri-Xocó, onde a vida caminha entre dois mundos, estendem-se os ecossistemas que nossos antigos nomearam com sabedoria. De um lado, a Retséaraí, a Floresta Branca da Caatinga; do outro, a Retsé Aindzu, a Floresta do Mar, a Mata Atlântica. Entre elas, como coração que ainda pulsa apesar das feridas, resiste a Retséantoá, a Floresta Sagrada do Ouricuri.


As cidades do Baixo São Francisco, às margens do Rio Opará, avançaram no passado como fogo sem dono, devastando florestas e silenciando cantos antigos. Restaram poucas áreas — e nelas, a memória dos seres que sustentavam a vida.


Entre esses seres estavam as Katiá, as abelhas. Não quaisquer abelhas, mas as Katiantse, abelhas nativas sem ferrão, guardadas na tradição oral como se fossem parentes próximos.


— Vovô, por que o senhor fala com tanto cuidado quando diz o nome delas? — perguntou certa vez um menino, sentado à sombra de um ouricuri.


O velho ancião Baca, de olhar profundo como a terra antiga, sorriu antes de responder:


— Porque nome é espírito, meu neto. Quando digo Jandaíra, Uruçu, Tiúba, Mandaçaia, Manduri, Jataí ou Arapuá, eu chamo quem sustenta a floresta.


Baca era conhecido como o Dzenu Katiantse, o Guardião das Abelhas Nativas. Em seu quintal viviam cortiços de Uruçu, Tiúba e Mandaçaia. Ele não as possuía — apenas cuidava.


— Elas trabalham sem ferir ninguém, dizia o ancião, enquanto observava o voo delicado das abelhas.


— E o que elas fazem, vovô?


— Elas acordam as Purúá, respondeu, apontando para as flores da floresta. Sem elas, a Retsé adoece.


As abelhas polinizavam as flores, e as flores sustentavam a vida. Assim era o equilíbrio.


Com o tempo, Baca partiu para o mundo dos espíritos ancestrais. Mas o guardião não morreu — apenas se multiplicou.


Hoje ainda existem Dzenuá Katiantse. Um deles é Nhãbojô, sobrinho de Baca, que aprendeu com o tio o silêncio, a paciência e o respeito pelos seres pequenos. O outro é Kaynamã, conhecedor profundo da Arapuá, a abelha redonda.


— O mel dela não é doce como o das outras, explicou Kaynamã a uma jovem artesã.


— Então por que cuidamos dela?


— Porque sua cera ensina nossas mãos a lembrar quem somos.


Mas nem tudo permaneceu em equilíbrio. Com a chegada dos colonizadores, vieram também as Eíraetémaîu, as abelhas estrangeiras bravas. Com ferrão e agressividade, elas tomaram espaço, atacaram as nativas, feriram pessoas e animais.


— Essas abelhas não conhecem a floresta, lamentou Nhãbojô.


— Elas não pedem licença, completou Kaynamã.


Muitas Katiantse desapareceram. Outras resistem em segredo, escondidas em troncos antigos, aguardando o tempo da volta.


Hoje, o povo Kariri-Xocó guarda uma esperança viva.


— Vamos trazer de volta nossas abelhas, diz o mais velho ao redor do fogo.


— Como faremos isso? — pergunta uma criança.


— Pedindo ajuda aos parentes que ainda guardam colmeias. E ensinando aos mais novos que cuidar da floresta é cuidar de nós mesmos.


E assim, enquanto houver quem conte essa história, o Dzenu Katiantse continuará caminhando invisível pela Retsé, protegendo as abelhas, as flores e o futuro.



06. DUBOHERIDÉ RUÑOHÚ – A MESTRA DA CERÂMICA





Na aldeia Kariri-Xocó, o barro sempre falou pelas mãos das mulheres.


Chamavam essa arte de Ruñohú, a cerâmica que, por séculos, sustentou a economia da comunidade e guardou a memória do povo no formato de potes, panelas, pratos e talhas. Cada peça carregava o sopro da terra, o fogo do tempo e a sabedoria das anciãs.


Mas os anos passaram, e as Dubobunhá, as Mestras do Barro, foram envelhecendo. Poucas mãos jovens se aproximavam do barreiro, e a tradição começou a silenciar.


Numa tarde quieta, a jovem Saynã, ainda Tibudina — moça em tempo de aprender — percebeu a tristeza da avó Soyá, sentada à sombra, olhando o chão como quem escuta a terra chorar.


— Vovó Soyá, por que estás tão triste? — perguntou a neta.


A anciã suspirou fundo antes de responder:


— Estou triste, minha neta, porque as Ruñohú estão ficando velhas. Não vejo mais Tibudina interessada em aprender. Assim, a tradição do barro pode morrer.


Saynã sentiu o peso daquelas palavras. Aproximou-se da avó e disse com firmeza:


— Não fique triste, vovó. Eu vou aprender. E vou chamar as outras moças da aldeia para aprender comigo.


O rosto de Soyá se iluminou num sorriso antigo, daqueles que só quem carrega muitas luas conhece.


— Sim, minha neta. Vocês darão continuidade à tradição do barro. É um caminho longo, mas vale a pena. Nossas esperanças estão nas Tibudina.


No dia seguinte, ainda cedo, Soyá chamou Saynã e as outras moças.


— Vamos buscar o barro.


Pegaram o Tasípi, a enxada pequena, e o Bará, o balaio. Caminharam até o Bunhakuá, o barreiro onde nasce a argila, o bunhá. Ali cavaram o barro — Kla dó bunhá — colocaram o barro seco no balaio — Andé ti crá bunhá anra bará — e seguiram de volta para a Erá, a casa.


— Agora começa o verdadeiro trabalho, disse Soyá.


Prepararam o barro — Diteri dó bunhá — quebraram os torrões — Pedabó bunhá crærù — molharam com água — Curaempá dehó dzu — e amassaram com areia e cinza — Poroné bunhá dehó bydi andé ketci. Formaram o bolo de barro — Küdi bunhá — até ficar pronto para trabalhar — Pidé prihy aiby naté.


As mãos jovens aprenderam a sentir o tempo do barro.


Nasceram Sacrí, o pote Ruño, a panela Runhú, o prato Aribé e a grande talha Buhú, que os parentes Tupi chamam Igaçaba. Usaram o Prebúde, capeador de coité; a argila amarela Tawá; e a semente de Mucunã para alisar as peças, como ensinavam as antigas.


Depois de secas ao sol — Kuedi crá canghité bunhá andé banhe — as peças foram levadas ao forno, o Bubehó. O fogo foi preparado — Diteri dó isú anra bunhá bubehó — e a queima começou ao cair da tarde, atravessando a noite, enquanto o fogo conversava com o barro.


Só depois do esfriar veio o momento de retirar as peças, fortes e vivas.


— Pronto, minha neta, disse Soyá. Vocês aprenderam. A cerâmica mantém viva a tradição e também gera renda para o nosso povo.


Saynã sorriu e perguntou:


— E depois, vovó?


— Depois levamos a cerâmica para as cidades próximas ao rio Opará, respondeu a anciã. Lá fazemos Taiutará: trocas e vendas com os Caraí. Trazemos galinha, farinha, crueira de mandioca, vestidos, fumo e dinheiro.


Saynã olhou para as peças, para as mãos das moças e para a avó.


Naquele dia, a tradição não apenas sobreviveu.


Ela renasceu.


E o barro, mais uma vez, falou.



07. DUBORUHÚÁ – OS MESTRES DOS ARTESANATOS





Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, o tempo caminhava ao ritmo do rio São Francisco e da memória dos antigos. A partir dos anos de 1990, uma nova força passou a sustentar muitas famílias: o Buruhúá, o artesanato tradicional, herança viva das mãos e dos saberes ancestrais.


Foi nesse tempo que Yakoá, rapaz recém-casado, sentiu o peso da responsabilidade crescer em seu peito. Precisava encontrar um meio de sustentar sua casa sem se afastar da cultura de seu povo. Pensando nisso, decidiu procurar Kaikurú, um dos artesãos mais respeitados da aldeia.


Ao encontrá-lo, Yakoá falou com humildade:


— Kaikurú, o senhor é o Duboruhúá, Mestre dos Artesanatos. Gostaria de aprender essa arte para melhorar minha renda.


O velho Kaikurú sorriu com serenidade, como quem carrega muitas histórias nos olhos, e respondeu:


— Yakoá, sou apenas um Duboruhú, Mestre de Artesanato. Duboruhúá, Mestres dos Artesanatos, existem muitos em nossa aldeia. Cada um guarda um saber. Posso lhe ensinar a minha arte, pois sou Duboredzé Benhekié, Mestre de Arco e Flecha de Brinquedo, que faço para vender.


Kaikurú então passou a ensinar não apenas com palavras, mas com memória. Disse a Yakoá que na aldeia existiam muitos mestres:


Havia os Dubodaklon, Mestres dos Adornos:


— o Dakloro, adorno do braço;


— o Dakloeɲe, brinco;


— o Dakloɲe, colar;


— o Daklowõ, adorno da perna.


Havia também o Duboawí, Mestre do Cachimbo de Pau;


o Duboriaru, Mestre da Zarabatana, chamada Toriaru;


o Dubouibú, Mestre do Maracá;


Duboebaté "Mestre do Colar de sementes, dentes de animais, ossos de peixe, garras ou pedrinhas";


o Duboheri Tçambusebé, Mestre do Cocal


e o Duboasá, Mestre da Saia de Palha.


— Existem muitos Duboheri, Mestres — concluiu Kaikurú —, mas todos eles formam os Duboruhúá, os Mestres dos Artesanatos.


Yakoá ouviu com atenção e respeito. Seu coração se encheu de entendimento.


— Agora compreendo, grande mestre Kaikurú. Muito obrigado por me mostrar os saberes vivos de nossa aldeia.


Kaikurú então falou com firmeza e carinho:


— Diante de tudo o que ouviu, cabe a você escolher qual caminho seguirá dentro de nossa arte e cultura.


Após um breve silêncio, Yakoá respondeu decidido:


— Grande mestre Kaikurú, desejo aprender a confeccionar o Toriaru, a Zarabatana. Quem sabe, um dia, eu possa me tornar um Duboheri, até alcançar o caminho de Duboriaru, Mestre da Zarabatana.


O ancião assentiu com aprovação:


— Fez uma boa escolha. Procure Akinoã, o ancião Duboriaru. Ele lhe ensinará a confeccionar e a manejar o Toriaru.


 Aprendendo essa arte, você encontrará sustento e dignidade, pois quem trabalha com a cultura nunca caminha sozinho.


Yakoá agradeceu profundamente. Dias depois, procurou Akinoã. Aprendeu com paciência, respeito e dedicação. Suas mãos passaram a compreender o silêncio da madeira, o sopro do vento e o equilíbrio do gesto.


Com o tempo, alcançou seu objetivo. Passou a viver de sua arte, sustentando-se com o trabalho honesto e com o amor à sua vocação, mantendo viva a sabedoria ancestral do povo Kariri-Xocó.


E assim, na aldeia, os saberes continuaram a caminhar de geração em geração, como o rio que nunca deixa de correr.



08. DUBOERETUÁ, O MESTRE DOS BALAIOS





A aldeia despertava lentamente sob o sopro do tempo novo. A globalização chegava como vento estranho, trazendo consigo objetos de plástico, metal e palavras apressadas. Mesmo assim, entre os Kariri-Xocó, havia coisas que o tempo não conseguia levar. Certos costumes permaneciam firmes como raízes antigas fincadas na terra.


Entre esses costumes estava o Setu, o balaio. Não era apenas um objeto. Era símbolo de fartura, de trabalho coletivo, de respeito à terra. Dentro dele iam os frutos da roça, os alimentos colhidos na floresta, a certeza de que a vida seguia seu curso natural. E, na aldeia, havia um homem que guardava esse saber como quem guarda um segredo sagrado: Duboeretuá, o Mestre dos Balaios.


A aproximação do Curuté Kayaku, a Lua da Colheita, anunciava que julho estava às portas. As espigas de masiche (milho) já se inclinavam maduras, o ghinhé (feijão) esperava ser colhido, e a bechiéá (roça) pedia mãos cuidadosas.


Foi então que o jovem Aponã, com o olhar curioso dos que caminham entre dois mundos, se aproximou do tio.


— Tio Akyná — disse ele —, vou à cidade comprar sacos de nylon para colher o milho e o feijão.


O velho Akyná ergueu os olhos com calma. O rosto carregava o tempo, mas também a memória dos ancestrais.


— Não, Aponã — respondeu com firmeza serena. — Esses sacos não me agradam. São artificiais, não conversam com a terra, eles representam a ganância capitalista de produção desenfreada. 


Fez uma pausa, como quem escuta o silêncio antes de continuar.


— Eu gosto mesmo é do Setu, do balaio que simboliza a fartura. Nasci e me criei nessa tradição. Para esta colheita, vou encomendar os Setu e os Bará ao senhor Nhãnoá, o grande Duboeretuá, Mestre dos Balaios.


E assim foi feito.


Quando chegou o dia da colheita, os caminhos da roça se encheram de passos e cantos. Os Bará, grandes balaios entrançados de cipó e taquara, carregavam masiche, ghinhé, muicú (mandioca) e idzá (frutas). Eram fortes, resistentes, feitos para sustentar não apenas alimentos, mas histórias.


Os Setu, menores, guardavam utensílios e pequenos objetos do cotidiano. E havia também a Tinhé, a cesta mais delicada, com alça de cipó, que repousava no ombro como extensão do corpo. Cada peça tinha sua função, seu espírito, sua palavra silenciosa.


Tudo aquilo saíra das mãos de Duboeretuá. Suas mãos conheciam o tempo certo do cipó, o modo correto do entrançado, o respeito necessário para transformar matéria viva em objeto de uso. Ele não fazia balaios apenas por encomenda; fazia por compromisso com os que vieram antes e com os que ainda virão.


Mesmo com tantas mudanças culturais, a tradição resistia. Os balaios ainda eram feitos, ainda circulavam na aldeia, ainda carregavam a colheita e o sentido da vida comunitária.


E enquanto houvesse alguém que lembrasse, alguém que ensinasse, e alguém que escolhesse o balaio em vez do nylon, a tradição permaneceria viva — entrançada como cipó, forte como taquara, eterna como a memória do povo Kariri-Xocó.



09. DUBOHERI TORÁ – CANTO DO MESTRE DO TORÉ





Na terra de Porto Real do Colégio, onde o rio escuta e a mata responde, vive o Toré, conjunto de cantos, danças e instrumentais do povo Kariri-Xocó. Certo dia, as crianças Mayra e Nakã se aproximaram do avô Suré e perguntaram em voz curiosa: “Vovô, como é o Toré? Por que as pessoas daqui gostam tanto de cantar e dançar? Sempre foi assim? E o teu nome, o que quer dizer?” 


O velho Suré respirou fundo, olhou a grande roda da aldeia e começou a cantar-falar: “Escutem bem, meus netos. O Toré significa o Som Sagrado da Flauta. É o sopro do Buzo, trombeta feita da Ubaúba, que traz a sonoridade que imita o trovão de Tupã, nosso Deus, por isso é som sagrado.” 


A comunidade respondeu em coro: “É som sagrado, é voz do trovão, é Tupã falando no sopro do Toré.” Suré continuou: “Meu nome, Suré, quer dizer Soprador de Toré, tocador, soprador de flauta ou buzo.


Quando eu era jovem, iniciei como tocador de flauta nos Ka, os cantos, e no Torá, as danças. Hoje sou Duboheri Torá, Mestre do Toré, Kawonhé, puxador de canto, aquele que inicia com Ebayasi, os assobios que chamam a dança e acordam a grande roda.” 


O narrador então diz que o Ebayasi ecoa no ar e o povo responde: “Ebayasi, Ebayasi, o Toré vai começar.” Suré segue contando: “Antigamente, antes dos brancos chegarem, cantávamos o Toré com Rouanie, a roupa indígena. 


O corpo era canto: Bukencré "Pintura Corporal"; Sasá, a saia de palha; Daklotsebu Songaá, o cocar de penas; Dakloro, adorno do braço; Dakloeɲe, o brinco; Dakloɲe, o colar; e Daklowõ, o adorno da perna.” 


Mayra e Nakã perguntam com voz triste: “E por que não é sempre assim, vovô?” Suré responde: “Porque os jesuítas proibiram nossos costumes e tradições, tentaram calar o Toré. Mas ele não morreu.” A comunidade afirma forte: “O Toré não morreu, o Toré resistiu.” 


Suré então explica: “Para não perder nossa tradição, passamos a cantar o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, vestes trazidas pelo colonizador. Na Dzó Kayaku, lua da chuva de junho, com a colheita do Masichi Erã, o milho verde, cantamos o Torá Rocruté para comemorar Santo Antônio, São João e São Pedro, nas fogueiras da aldeia.” 


O narrador diz que na Iworoyé, a grande roda, o povo acende o Buyê mó torá Toré, a fogueira para dançar, e ali, nos intervalos, são assados milho verde, carne e peixe para alimentar o povo durante os festejos. Suré continua: “O Toré é cantado em muitas ocasiões: no Torá Diparí, o Toré do morto, nos despedimos de quem partiu; no Torá Curoté, agradecemos à Mãe Terra pela colheita; no Torá Sacrí, damos boas-vindas à criança que nasce; e no Torá Piwonhé, abençoamos o casamento dos recém-casados.” 


Mayra e Nakã perguntam com alegria: “Então o Toré é tudo, vovô?” E Suré responde firme: “Sim, meus netos. O Toré é nossa história cantada, é memória viva, é resistência do povo Kariri-Xocó.” O narrador encerra dizendo que no Batti, final de ano, na Pehó Kayaku, lua da enxurrada de dezembro, havia um grande Toré na festa de Nossa Senhora da Conceição, cantado a noite inteira até o dia amanhecer, enquanto a comunidade canta em uníssono: “Toré vive, Toré resiste, Toré é Kariri-Xocó.”



10. DUBOHERUBÁ – O MESTRE DA CANOA





O Rio São Francisco, que os antigos chamam de Opará, corria como uma serpente viva, guardando em suas águas as histórias dos povos que nasceram às suas margens. Desde as nascentes até a foz no Aindzu, o grande Mar, o rio era caminho, alimento e espírito. Era por ele que as aldeias se reconheciam como irmãs.


Na Natiá, a aldeia assentada à beira do Opará, vivia o velho Duboherubá Mhoácy conhecido por todos como o Mestre da Canoa. Seus cabelos já eram da cor da lua cheia, e suas mãos traziam os calos do tempo, marcas de quem conversava com a madeira antes de transformá-la em Ubá.


— A canoa não nasce do machado, dizia ele ao jovem Iruan, seu aprendiz.


— Ela nasce do respeito à árvore e ao rio.


Iruan escutava atento enquanto o mestre tocava o tronco escolhido, pedindo licença aos espíritos da mata. Para os Kariri, a canoa não era apenas transporte. Em Tupi, chamavam-na Ubá; entre os Kariri, Banahoya. Era extensão do corpo humano sobre a água.


Defronte à aldeia ficava o Ubacródzu, o Porto das Canoas. Ali repousavam as Ubáydzéá, canoas de pescaria que deslizavam silenciosas nas madrugadas. Algumas levavam os homens ao mydzéá, a pescaria; outras seguiam para as sitóá, as caçadas; muitas carregavam os frutos das Bechiéá, as roças que sustentavam a vida do povo.


O velho Duboherubá lembrava do tempo em que o rio era estrada viva.


— O Opará conhece nossos passos, dizia. Ele sabe quem somos.


Com chegada dos portugueses, surgiram novas canoas, maiores, cobertas de pano. Os indígenas as chamaram de Ubácruté, as canoas de pano. Elas mudaram o comércio, levaram mercadorias e trouxeram outras formas de viver. A mais famosa foi a Canindé, imensa, capaz de carregar mil e duzentos sacos de arroz. Para muitos, ela parecia um bicho grande navegando lentamente pelo rio.


Mas o tempo, como a água, não para.


Quando a BR-101 foi construída, em 1970, o silêncio começou a ocupar o Opará. As canoas foram ficando paradas, o porto esvaziou, e muitos Mestres da Canoa seguiram para a Natiantoá, a Aldeia Sagrada, onde moram os ancestrais.


Certa tarde, Iruan perguntou ao velho mestre:


— E quando o senhor se for, quem fará as canoas?


Duboherubá sorriu, olhando o rio.


— Enquanto houver quem escute o Opará, haverá Duboherubá.


— Você será um deles.


Hoje, poucos Duboheriá, Mestres da nova geração, ainda conversam com a madeira e com o rio. Mas cada canoa que nasce carrega dentro de si a memória dos antigos, o sopro dos ancestrais e a certeza de que o Opará jamais esquecerá seu povo.


E assim, sempre que uma Ubá toca a água, o rio reconhece:


a história continua.



11. DUBOHERI MYDZÉ – O MESTRE DA PESCARIA





O Rio São Francisco, o grande Opará, corria manso naquela manhã, refletindo o céu como um espelho antigo. Suas águas guardavam segredos profundos, histórias de ancestrais e o movimento silencioso dos Wãmyá, os peixes que sustentam a vida do povo Kariri-Xocó. Às suas margens, Anamy trabalhava com calma, moldando varas e fibras para construir seus Pãri, os artifícios de pesca herdados dos mais velhos.


De repente, chegaram rapazes e moças alunos da Escola Indígena, entre eles Tanawany e Kawrã, atentos a cada gesto do pescador. O som do rio misturava-se ao riso dos alunos e ao canto distante das aves. De repente, Tanawany olhou e disse, com os olhos brilhando:


— Olá seu Anamy o Senhor é o Duboheri Wãmy, o Mestre dos Peixes!


Anamy sorriu com ternura, sem parar o trabalho, e respondeu com voz serena:


— Não, moça. Os verdadeiros mestres dos peixes são Ipupiara, o Ser que surge das águas profundas, o Negro D’Água, e Yara, a Mãe D’Água, guardiã do Opará. Eu sou apenas Duboheri Mydzé, o Mestre da Pesca, porque trabalho, faço Naté, e respeito os saberes que nos foram ensinados.


Curioso, Kawrã se aproximou ainda mais e perguntou:


— Anamy quais são esses Pãri que o senhor faz?


Anamy apoiou as mãos no joelho e começou a ensinar, como quem acende uma fogueira de conhecimento:


— São muitos, rapaz . Temos o Cuvú, feito de vara, afunilado para guiar o peixe. O Pari, uma esteira que prende o peixe na lagoa. O Iarú, a flecha; o Seridzé, o arco; o Cludimu, covo cilíndrico de taboca para pequenos peixes e camarões. Há também o Yaclaro, o anzol com linha e chumbada; a Yaentá, a vara de pescar; o Puçá, para os camarões; o Jereré, em forma de arco; e o Muhé, a grande rede feita de algodão ou fibra de tucum.


Os alunos ouviam em silêncio, sentindo que aquelas palavras não eram apenas nomes, mas caminhos antigos.


— Na pescaria — continuou Anamy — usamos o Matapi, a armadilha; a Mupunga, para espantar o peixe com a batição da água; o Setu, para juntar os Wãmyá; e o Ubáydzé, nossa canoa, que repousa no Ubacródzuá, o porto das canoas. Tudo isso faz parte do Piratýpe, a linguagem e o sistema de conhecimento da pesca.


Antes de lançar qualquer armadilha no rio, Anamy fechou os olhos por um instante. Os estudantes da escola aprenderam que aquele silêncio era sagrado.


— O Mydzé, o pescador, sempre pede proteção e autorização à Yara, a dona espiritual dos peixes — explicou. — Para agradá-la, plantamos Masichi, o milho, e Ghinhé, o feijão, para que ela coma ainda verde, à beira do Opará. As Mydzédzí, as mulheres pescadoras, fazem o mesmo, mas com o Ipupiara.


O rio pareceu responder com um leve movimento, como se tivesse escutado.


Anamy concluiu, olhando para os alunos:


— Seguindo esses Subatekié, esses conhecimentos, nunca faltará peixe no Opará. É assim que nosso povo mantém a vida e guarda a memória.


Tanawany e Kawrã compreenderam, naquele instante, que o Duboheri Mydzé não era apenas um pescador. Era guardião de saberes, ponte entre os ancestrais, os espíritos das águas e as gerações que ainda viriam.


E o Opará continuou a correr, levando consigo a história viva do povo Kariri-Xocó.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



CONCLUSÃO


As histórias reunidas neste livro revelam muito mais do que narrativas sobre personagens da aldeia. Elas representam fragmentos vivos da memória cultural do povo Kariri-Xocó, preservados ao longo das gerações por meio da tradição oral.

Cada conto apresenta figuras simbólicas fundamentais dentro da vida comunitária: os Dzenuá, guardiões, e os Duboheriá, mestres de saberes. Esses personagens expressam conhecimentos construídos ao longo do tempo na convivência com a natureza, com o rio Opará e com os ensinamentos dos ancestrais.

Nas histórias surgem mestres do artesanato, da pesca, da canoa, dos balaios, da cerâmica, da cura e dos cantos do Toré. Todos eles representam diferentes caminhos de aprendizado que sustentam a vida coletiva e a identidade cultural do povo Kariri-Xocó.

Ao registrar essas narrativas em forma escrita, o autor realiza um gesto importante: transformar a memória oral em documento cultural, permitindo que essas histórias possam alcançar novas gerações e leitores de diferentes lugares.

Assim como o rio Opará continua seu curso atravessando o tempo, os saberes aqui apresentados também seguem seu caminho, renovando-se na palavra, na prática e na memória coletiva.

Que estas histórias sirvam como convite ao respeito, à escuta e à valorização das culturas indígenas que continuam vivas no Brasil.



GLOSSÁRIO


(Palavras e expressões presentes nos contos)

Aindzu – O grande mar.

Banahoya – Nome usado entre os Kariri para canoa.

Bará – Balaio grande utilizado para transportar colheitas.

Bechiéá – Roça, área de plantio.

Batti – Tempo ou ciclo do ano.

Bukencré – Pintura corporal indígena.

Buyê mó torá – Fogueira usada nas celebrações do Toré.

Cuvú – Armadilha de pesca feita com varas.

Cludimu – Covo cilíndrico usado para capturar pequenos peixes e camarões.

Daklotsebu Songaá – Cocar de penas.

Dzenhéá ou Dzenuá – Guardião ou protetor de determinado saber ou elemento da natureza.

Ebayasi – Assobio usado para iniciar os cantos do Toré.

Ghinhé – Feijão.

Iworoyé – Grande roda ou círculo da comunidade.

Ka – Cantos tradicionais.

Kawonhé – Puxador de canto do Toré.

Masiche / Masichi – Milho.

Muhé – Grande rede de pesca.

Mydzé – Pescador.

Naté – Trabalho ou prática de pesca.

Opará – Nome ancestral do rio São Francisco.

Pãri – Artifícios ou armadilhas tradicionais de pesca.

Piratýpe – Sistema de conhecimento da pescaria tradicional.

Rouanie – Vestimenta indígena tradicional.

Setu – Balaio ou cesto utilizado no cotidiano.

Subatekié – Conjunto de ensinamentos ou conhecimentos tradicionais.

Torá / Toré – Conjunto de cantos, danças e rituais do povo Kariri-Xocó.

Ubá – Canoa.

Ubacródzu – Porto das canoas.

Wãmyá – Peixes.



REFERÊNCIAS CULTURAIS


ALBUQUERQUE, Marcos. Os povos indígenas do Nordeste brasileiro: história e resistência. Recife: Editora Universitária, 2007.


CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2012.


MELATTI, Júlio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Hucitec, 2007.


RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


SILVA, Aracy Lopes da. História dos povos indígenas no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Memória oral do povo Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio – Alagoas.



NOTA SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, Brasil. Contador de histórias na tradição oral e escrita, dedica-se ao registro e à valorização da memória cultural de seu povo.

Seu trabalho reúne narrativas inspiradas nos saberes ancestrais transmitidos pelos mais velhos da aldeia, abordando temas como espiritualidade indígena, tradição oral, práticas culturais e relação com a natureza.

Por meio de textos, contos e pesquisas culturais, busca fortalecer a identidade indígena e contribuir para a preservação dos conhecimentos tradicionais das comunidades originárias.

Também compartilha parte de suas produções em seu blog cultural, voltado à divulgação da história e da cultura indígena.



SOBRE A OBRA


Dzenuá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará é uma coletânea de contos inspirados na memória cultural do povo Kariri-Xocó.

As narrativas apresentam personagens que representam diferentes conhecimentos tradicionais da comunidade: guardiões da natureza, mestres da cerâmica, da pescaria, do artesanato, da construção de canoas e dos cantos sagrados do Toré.

Cada conto revela aspectos da relação profunda entre o povo Kariri-Xocó, o rio Opará e os saberes transmitidos pelos ancestrais.

Mais do que histórias, esta obra é um registro cultural que busca preservar e compartilhar a riqueza da tradição indígena brasileira.



CONTRACAPA / ORELHA DO LIVRO


Nas margens do grande rio Opará, onde a água guarda a memória dos ancestrais e a terra sustenta a vida da comunidade, vivem os Dzenhéá e os Duboheriá — guardiões e mestres dos saberes do povo Kariri-Xocó.

Neste livro, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó apresenta uma série de contos inspirados na tradição oral de sua comunidade, revelando histórias de mestres que preservam conhecimentos ancestrais transmitidos ao longo de gerações.

Entre as narrativas, o leitor encontrará o mestre da cerâmica, o mestre da pescaria, o mestre dos balaios, o mestre da canoa e o mestre do Toré, personagens que representam diferentes dimensões da cultura indígena e da relação profunda entre o ser humano, a natureza e o sagrado.

Cada conto revela um fragmento da memória coletiva do povo Kariri-Xocó, mostrando como os saberes tradicionais continuam vivos na prática cotidiana, na espiritualidade e na convivência comunitária.

Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará é um convite para conhecer histórias que atravessam o tempo e reafirmam a força da cultura indígena brasileira.



PALAVRA DO AUTOR


Escrever este livro foi como caminhar novamente pelas trilhas da memória de meu povo.

Cada história aqui registrada nasce das lembranças, das conversas com os mais velhos, das observações da vida na aldeia e da relação profunda que o povo Kariri-Xocó mantém com o rio Opará, com a terra e com os ensinamentos dos ancestrais.

Durante muito tempo, esses saberes foram transmitidos principalmente pela tradição oral, nas rodas de conversa, nas festas culturais, nas atividades da roça, da pesca e das práticas comunitárias. Ao transformar essas memórias em contos escritos, procurei preservar um pouco dessa riqueza cultural para que ela possa chegar também às novas gerações.

Os personagens que aparecem nestas histórias representam mestres e guardiões do conhecimento tradicional. São pessoas que, por meio de seu trabalho e de sua sabedoria, mantêm vivos os ensinamentos recebidos dos antigos.

Este livro não é apenas uma obra literária. É também um gesto de respeito à memória de meu povo e um convite para que mais pessoas conheçam a cultura Kariri-Xocó.

Assim como o rio Opará segue seu caminho ao longo do tempo, espero que estas histórias também possam continuar sua jornada, levando consigo a voz, a memória e os saberes de nossa comunidade.

Nhenety Kariri-Xocó



MODELO DE REGISTRO EDITORIAL DO LIVRO


(Este é um modelo padrão usado em publicações)

Título:

Dzenhéá Duboheriá – Guardiões e Mestres dos Saberes do Opará

Autor:

Nhenety Kariri-Xocó

Edição:

1ª edição

Ano de publicação:

2026

Local de publicação:

Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil

Direitos autorais:

© 2026 – Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio ou forma sem autorização do autor, exceto para citações em trabalhos acadêmicos ou resenhas, desde que indicada a fonte.



MODELO DE ISBN


O ISBN (International Standard Book Number) é o número internacional que identifica um livro.

Formato padrão:

ISBN: 978-65-XXXX-XXXX-X


Importante:

Esse número precisa ser registrado oficialmente na Agência Brasileira do ISBN, ligada à Câmara Brasileira do Livro.

Atualmente o registro é feito pelo site oficial:

https://isbn.org.br⁠�






Autor: Nhenety Kariri-Xocó