terça-feira, 20 de julho de 2021

DOIS IRMÃOS NO MUNDO

 

Literatura de Cordel

Autor: Nhenety

Parte Única


O lugar que todos nascemos
Nunca podemos esquecer
Onde ficam nossas origens
Devemos mesmo fortalecer
Ouvindo velhas histórias
A memória vai estabelecer .

Há muito tempo atrás
Contam os mais antigos
Na Aldeia Kariri-Xocó 
De dois irmãos e amigos
Nas bandas do São Francisco
Longe de todos perigos .

Eram filhos da Mãe Terra
Os dois irmãos no mundo
Um era Patã o outro Porã
Do povo indígena oriundo
Viviam alí sempre juntos 
Fruto do amor profundo .

Na oca onde Patã vivia
Porã também morava
A Mãe Terra toda orgulhosa
Dessa união que brotava
Era bonito ver eles assim
Numa tradição que acreditava .

Na aldeia meio a floresta
Um belo dia uma novidade
Chegou a escola civilizada
Com estudo na urbanidade
Serviço de Proteção ao Índio
Havia chegado na comunidade .

Patã logo se interessou
A Mãe Terra pediu permissão
Para frequentar a escola
O mundo queria compreensão
Como seria fora da aldeia
Estudar e ter profissão .

A Mãe Terra tudo sabendo
Que Patã logo continuaria
Percorrendo seu caminho
Na opinião não recuaria
Aceitou a decisão do filho
Portanto ela respeitaria .

Porã não entendia porque 
O irmão dava importância
Tanto para aquela escola
A aldeia tem na abundância
Tudo que poderiam aprender
Nós temos em predominância .

No dia a dia na natureza
Nossos anciões ensinavam
Na escola que Patã gostava 
A felicidade alí mostravam
Da vida bem fora da aldeia
Nossa Mãe aqui presenteavam .

Aos poucos o menino foi
Através dos livros conhecendo
Paisagens de Terras distantes
Os estudos lhes esclarecendo
Cidades, carros e tudo mais
Um mundo novo reconhecendo .

E a cada dia que passava
Ele sonhava em um dia poder
Quando atingir maioridade
Sair da aldeia e compreender
Tudo que os olhos viu pelos livros
Para aquilo ele empreender .

Em um dia de chuva Patã foi 
Embora sem se despedir
Apareceu uma oportunidade
No avexame teve que decidir
Não pode ver seu irmão
Saiu pelo mundo sem iludir .

Foi conhecer o que era novo
Para trás sem menos olhar
Os dois irmãos se separaram
Muitas coisas não partilhar
Seria uma despedida breve
Nem isso pode compartilhar .

Seguiram rumos diferentes
Porã cresceu prestando atenção
Tudo que acontecia na aldeia
Para sua cultura a manutenção
Aprendia histórias com anciões
De toda a tribo ela tinha benção .

Porã foi muito dedicado
Um aprendiz da sua tradição
Casou teve família na mata
Com coragem e disposição
Ao lado de seus parentes
Os animais como contribuição .

Patã conheceu o mundo inteiro
Ficou rico muito famoso
Casou vivendo feliz na cidade
Tinha carro além de charmoso
Às vezes pensava na aldeia 
Sem parentes ficava lacrimoso .

Com essa nova realidade
Patã estava convencido
Que seu lugar agora era ali 
A riqueza do mundo oferecido
Um vida cheia de mordomia
Nem tudo havia desvanecido .

Patã sentia que faltava algo 
Mas o que poderia de fato ser 
Sentia um vazio imenso 
O imaginário a contradisser 
Não tinha solução do caso 
Deixou o tempo se depuser .

Um dia visitou o zoológico
Com seus filhos acompanhado
Avistou uma onça pintada
Lembrou do tempo aldeado 
Onde a felina era sua irmã
Do seu clã no significado .

Resolveu tirar férias e viajar
Para o lugar onde tinha nascido
Lembrar quando era menino
Onde saiu bem crescido 
Queria chegar logo na tribo
Do São Francisco querido .

Ao chegar na aldeia correu
Para Porã ele encontrar 
Os irmãos se reconheceram
No longo abraço a demonstrar
Chorando de tanta saudade
Começaram logo a palestrar .

No passeio os dois irmãos
Patã diz tem casa para abrigar
Um emprego que lhe sustenta
Carro do bom para viajar
Mas ainda sinto um vazio 
Que não consigo enxergar .

Porã respondeu sou a Natureza
Me abriga do Sol que me aquece
O rio que sempre me alimenta
Na tradição nativa que fortalece
Ainda assim sinto um vazio 
A precariedade me desfavorece .

Um irmão olhou para o outro
Ao mesmo tempo falaram:
Patã como é a Terra lá de fora?
As coisas que os povos contemplaram
Porã como é a Terra aqui de dentro?
Na cultura que sempre continuaram .

Os dois irmãos se uniram 
Ensinando que tinha aprendido
Um ao outro novamente
O que ambos havia regredido 
Durante esses anos todos 
Do tempo que passou sucedido .

Porã devolveu para Patã
A Terra que o irmão esqueceu
E Patã apresentou a Porã
Na Terra do irmão não conheceu
Mãe respirou novamente feliz
Toda comunidade compareceu .


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