Muito antes dos cercados, das comportas e da ganância dos homens, a terra era um grande tapete de mata viva. O Rio São Francisco serpenteava livre, sem barreiras, sem amarras, alimentado pelas nascentes de seus afluentes. Era o sangue da terra, levando vida a muitas aldeias espalhadas pelo vale. As lagoas ao longo do rio se enchiam nos tempos certos, como antigas mães acolhendo os filhos. Os peixes cresciam ali, e mais tarde retornavam ao rio para se multiplicar e perpetuar o ciclo da natureza.
Durante muitos invernos, assim foi. Até que os homens brancos chegaram pelo oceano.
Vieram aos poucos. Depois, como uma enchente que não respeita margens, ocuparam ambos os lados do rio. Trouxeram armas, fé imposta e correntes. Escravizaram, mataram, empurraram os povos originários para longe. Os que resistiram, tombaram. Os que fugiram, se embrenharam para o norte. E os que ficaram... esses viram as lagoas sendo cercadas, as águas represadas, os peixes aprisionados.
Entre essas lagoas havia uma chamada Coité. Nela, um branco conhecido por Machado ergueu uma comporta. Os peixes que vinham do rio ficavam presos ali, como ouro escondido em cofre. E certo dia, o velho Giló, índio acostumado à liberdade, foi até a Lagoa Coité com sua tarrafa, buscando o sustento de sempre.
Machado o viu e, sem piedade, o expulsou aos gritos e pancadas. Disse que aquela terra agora tinha dono, e peixe ali só seria tirado com sua permissão. Giló, ferido no corpo e na alma, voltou à aldeia calado, levando consigo a dor e a humilhação.
Passaram-se algumas luas. Enquanto seu corpo cicatrizava, Giló ruminava a mágoa. E então, lembrou-se de um velho segredo da mata: o cipó Cururú, mais venenoso que o Tinguí. Segundo os antigos, seu leite branco afugenta até os peixes, e sua casca se parece com a pele gosmenta do sapo cururu, de onde herdou o nome.
Silencioso, Giló fez uma rodilha com o cipó e, certa noite, enterrou-a no lodo da Lagoa Coité. Em poucos dias, os peixes começaram a sumir. Os que ficaram, morreram. A água virou silêncio. Por sete anos, a lagoa permaneceu vazia, estéril, como se carregasse luto. Machado, agora dono de uma poça inútil, desesperou-se. Lamentou o que fizera, reconheceu sua injustiça.
Foi então que mandou chamar o velho índio. De olhos baixos, prometeu-lhe que, se os peixes voltassem, ele poderia pescar ali sempre que quisesse. Naquela mesma noite, sem que ninguém visse, Giló mergulhou na lagoa e retirou a rodilha de cipó.
Com o tempo, os peixes voltaram. O ciclo da natureza se restabeleceu. Mas o velho Giló, mesmo podendo lançar sua tarrafa outra vez, carregava no olhar o que verdadeiramente desejava: uma lagoa livre, correndo para o rio, como nos tempos antigos.
Autor: Nhenety KX

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