Antes que os homens de além-mar chegassem, a terra era um mundo vivo. O sol, a lua e as estrelas dançavam no céu, e o horizonte era uma linha circular sagrada onde o céu beijava a terra. A floresta retsé sussurrava segredos antigos, e o rio Opará corria forte como o sangue do mundo. Era ali, no cimo de uma colina verdejante, que vivia Natiá — a aldeia original do povo Kariri de Porto Real do Colégio, em Alagoas.
Natiá não era apenas morada, era coração pulsante. As crianças brincavam à beira da lagoa dzurióye, as mulheres preparavam os alimentos com canto e sabedoria, os anciãos contavam histórias que vinham de antes do
tempo. Era um tempo de solidez, de raízes profundas, de conexão com tudo o que existia.
Mas um dia, os ventos mudaram.
Vieram os homens de roupa escura, com cruzes nas mãos e palavras que soavam como pedra. Eram jesuítas. Suas promessas eram doces, mas os atos, duros. Trouxeram uma nova fé, um novo modo de viver, e com isso, o desmantelamento da aldeia.
Os Kariri foram forçados a deixar Natiá.
A dor não foi apenas nos pés que se afastavam da colina, mas na alma que ficava. Sob a sombra da cruz, perto de uma capela dedicada à Senhora da Conceição, no dia 3 de maio de 1661, ergueu-se uma nova vida, mas com cor de luto. As raízes foram arrancadas do solo e transplantadas à força.
Naquela despedida, nasceu um canto.
"Bohoiwiró Eicó Natiá..."
“Vamos embora, vamos embora, da aldeia...”
A voz do povo se ergueu em toré. Não como lamento apenas, mas como promessa de memória. O canto ecoou entre os troncos da floresta retsé, cruzou o espelho da lagoa dzurióye e acompanhou as águas do Opará.
Até hoje, esse toré é cantado. É símbolo de encerramento, de reverência, de lembrança viva.
Porque mesmo arrancada da colina, Natiá nunca deixou o povo Kariri. Ela vive na memória, na língua, no canto, no coração.
Autor: Nhenety KX


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