Nas margens sagradas do Rio São Francisco, nasceu uma dupla de irmãos na aldeia Kariri-Xocó: Patã e Porã. Vieram ao mundo sob o mesmo céu, respiraram o mesmo ar, aprenderam com o mesmo rio. Desde pequenos eram inseparáveis — nadavam, corriam entre as árvores, pescavam com as mãos e com riso fácil. O tempo era feito de brincadeiras e descobertas.
Quando a escola chegou à aldeia, Patã logo se encantou. Havia um brilho em seus olhos diante dos livros, das letras, dos mapas. Queria saber do mundo grande, das cidades com muitos carros, das terras além das matas. Porã, ao contrário, torceu o rosto. Não queria escola de branco. Preferia as lições do vento, da mata, dos velhos sábios. Ele via beleza nas palavras ancestrais, nas histórias dos espíritos e nas danças do povo.
O tempo passou, como o rio que nunca para. Patã foi embora um dia, sem muitas palavras. Partiu para conhecer o mundo dos livros, das cidades, das novidades. E conheceu. Viajou muito, trabalhou, enriqueceu, casou-se com uma mulher branca e construiu uma família grande.
Porã ficou. Plantou, caçou, escutou. Casou-se também, formou sua família e aprendeu, pouco a pouco, os cantos da floresta, o nome das estrelas, os sinais do tempo. Tornou-se sábio na tradição do seu povo.
Décadas se passaram até que um dia, quando o sol se deitava lento no horizonte do rio, Patã retornou. Trazia no rosto rugas de saudade. Porã o reconheceu de imediato, e os dois se abraçaram como se a vida inteira coubesse naquele gesto. Patã trouxe presentes, lembranças do mundo lá fora, e alegria à família do irmão.
Conversaram longamente ao redor da fogueira. Patã disse, com os olhos marejados:
— Irmão, vi o mundo, conheci cidades imensas, aprendi línguas, costumes. Mas sinto um vazio em mim. Falta-me a alma da aldeia, as histórias do nosso povo que eu nunca vivi...
Porã então respondeu, com a mesma emoção:
— E eu, irmão, que fiquei, carrego outro vazio. Sinto falta de saber como é o mundo lá fora, as coisas que o branco criou, as pontes, as máquinas, os caminhos que nunca vi...
Silenciaram por um tempo. E então, com a sabedoria que só os rios e os reencontros ensinam, disseram quase ao mesmo tempo:
— Me ensina o mundo de fora?
— Me ensina o mundo de dentro?
E assim fizeram. Um passou a ensinar ao outro. Patã contava das cidades, das invenções, do outro jeito de viver. Porã ensinava os cantos antigos, os rituais, as plantas, os espíritos. Era uma grande troca. Um aprendizado duplo. O saber da aldeia e o saber do mundo.
Descobriram então que mesmo aquele que nasceu na tribo podia estar distante dela — e mesmo o que foi embora podia trazer algo de volta. Compreenderam que todos os povos da Terra foram criados e são necessários.
E ali, nas margens do velho rio, os dois irmãos fundaram um novo tempo — onde os saberes se abraçam e caminham juntos.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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