Nos vastos campos vermelhos da terra indígena Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, erguiam-se verdadeiras torres de barro. Aos olhos atentos de quem caminha entre as roças, pareciam castelos antigos — fortalezas vivas, pulsantes, construídas não por mãos humanas, mas por patas incansáveis de formigas.
Ali, reinava a Tanajura, rainha absoluta das saúvas.
Sua história começara em outro reino. Foi um ovo cuidadosamente protegido pela Rainha Mãe, um pequeno milagre no interior da terra quente. Daquele ovo nasceu uma formiguinha fêmea, que logo se tornaria cortadeira, depois lixadeira, até passar por todos os estágios da vida formigueira. E quando chegou seu tempo, cresceu asas: era agora uma içá alada — a Tanajura.
Era abril, e a chuva anunciava nova estação. No entardecer úmido, ela voou entre os ventos da aldeia, unindo-se aos machos num balé antigo e misterioso. Após o voo nupcial, caiu no chão, arrancou as próprias asas e escolheu o local onde iniciaria um novo império subterrâneo. Ali, começou sua jornada solitária de três anos para formar o formigueiro: túneis, soldados, enfermeiras, cortadeiras — todos filhos dela, todos súditos do seu reino fértil.
Enquanto o tempo passava, as formigas escavavam a terra, construíam galerias, cortavam folhas, adubavam o solo. Sem que muitos percebessem, aquelas pequenas criaturas deixavam a terra mais fértil, ajudavam a floresta a crescer. Eram jardineiras do invisível, operárias do equilíbrio.
No passado, a chegada das tanajuras era festa para o povo Kariri-Xocó. Ao primeiro sinal das chuvas, quando as içás voavam pela aldeia, as crianças corriam com galhos nas mãos, cantando:
"Cai, cai, Tanajura,
Na panela da gordura!"
As mães sorriam e esperavam com as panelas quentes. As Tanajuras viravam farofa: alimento sagrado do inverno.
Hoje, muitos já não conhecem esse costume. Outros ignoram o papel das saúvas no ciclo da vida e tentam destruí-las. Mas quem somos nós para julgar essas pequenas guerreiras da terra? As formigas fazem sua parte — constroem, nutrem, equilibram. E nós, humanos, o que fazemos pelo planeta Terra?
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Nenhum comentário:
Postar um comentário