quinta-feira, 19 de junho de 2025

AS SEMENTES DO ITIÚBA






Era tempo de águas generosas e de espíritos atentos aos sinais da terra. Muito antes das cercas e dos mapas, quando os passos dos antigos ainda desenhavam caminhos livres na várzea, o povo da Aldeia do Colégio vivia em comunhão com o rio e com os ventos do Baixo São Francisco.


Certo dia, os padres jesuítas chegaram com cruzes nas mãos e sementes nos alforjes. Entre elas, traziam o arroz — um grão branco, diferente, que precisava de chão alagado para crescer. Os anciãos estranharam aquela planta nova, mas as mulheres da aldeia, com sua sabedoria silenciosa, logo entenderam o que ela pedia.


— Esta planta fala com a água — disse Tupãcy, a mais velha das lavradoras, mergulhando as mãos nas margens da Lagoa Grande.


Os jesuítas ensinavam como plantar e colher, e os indígenas, em troca, mostravam onde a terra era mais fértil, onde a lagoa sonhava com arrozais. Era uma troca de saberes e silêncios, marcada por cantos ao amanhecer e mutirões ao cair da tarde.


Mas os ventos da história nem sempre sopram em harmonia. Quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, em 1759, deixaram para trás suas cruzes... e as sementes. O povo Kariri-Xocó permaneceu. E com eles, o arroz também ficou.


As mulheres, com seus panos coloridos à cintura e os pés firmes no barro sagrado, tomaram para si a missão de cultivar a várzea. As lagoas Grande e Comprida, e o coração molhado do Itiúba, tornaram-se campos de sustento e resistência.


Mas em 1876, a aldeia virou vila. Porto Real do Colégio recebeu esse nome, mas perdeu parte de sua alma. As terras dos nativos foram tomadas, lote por lote, e os indígenas passaram a cultivar arroz em terras alheias, como meeiros, entregando metade do que colhiam aos donos que agora mandavam.


Mesmo assim, não houve lamento, apenas continuidade. O arroz era mais que comida — era herança viva. E a memória foi se alastrando como água em várzea: silenciosa, mas poderosa.


Em 1944, como broto que insiste em nascer após a seca, os Kariri-Xocó foram reconhecidos novamente como povo indígena, e o Posto Padre Alfredo Dâmaso foi fundado. Uma chama se reacendeu. Três décadas depois, em 1975, o governo desapropriou parte das terras do Itiúba. Duzentas e cem famílias foram alocadas no projeto de irrigação — entre elas, quarenta famílias Kariri-Xocó.


Por um tempo, os arrozais voltaram a florescer sob o sol forte de Alagoas. Era como se o rio cantasse de novo em nossas veias.


Mas os tempos modernos têm outras vozes. A partir do ano 2000, o arroz perdeu espaço. A cana-de-açúcar e a psicultura tomaram os campos. Muitos deixaram a plantação ancestral.


Ainda assim, quem anda pela várzea em silêncio pode ouvir. Há cantos antigos no vento, há histórias gravadas nas mãos rugosas das mulheres que ainda lembram o cheiro do arroz recém-colhido. E o povo Kariri-Xocó permanece, com a memória de suas sementes guardada como joia nas entranhas da terra.


— Este arroz tem gosto de nossa história — dizem os mais velhos.


E assim, entre lembranças e lutas, floresce este conto. Um registro vivo, como as águas que ainda irrigam o coração de Itiúba.


Conto inspirado em fatos históricos reais.

Autor original: Nhenety Kariri-Xocó

Adaptação literária: ChatGPT, em irmandade narrativa.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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