segunda-feira, 23 de junho de 2025

DZURINEIRÓ, A Lagoa do Cordeiro






Entre duas lagoas vivia uma rua antiga, conhecida como Rua dos Índios. Atravessava o mundo de oeste a leste, como se fosse um caminho sagrado entre águas. De um lado, a grande Dzuriyé; do outro, mais próxima, a Lagoa do Cordeiro, chamada pelos mais velhos de Dzurineiró.


Dzurineiró era mais do que um espelho d’água. Era ventre, era alimento, era infância e memória. Ficava tão perto das casas dos indígenas que parecia fazer parte de cada quintal. Ali, homens pescavam quando o Rio Opará — o poderoso São Francisco — transbordava entre novembro e janeiro. Crianças corriam em volta da lagoa, inventando mundos em suas brincadeiras, caçando, jogando bola. As mulheres criavam galinhas, porcos, e colhiam o necessário para alimentar seus filhos.


E havia um velho companheiro silencioso: um pé de umari, árvore frutífera de sombra generosa. Nos tempos difíceis, quando a fome rondava os lares, era ele quem oferecia seus frutos amarelos. As mães cozinhavam os umaris com carinho e os partilhavam entre as famílias, como se o próprio tempo tivesse guardado alimento nas raízes.


O lado norte e leste da lagoa pertencia aos quintais indígenas. O lado oeste e sul, aos brancos da cidade de Porto Real do Colégio. Mas era na parte indígena que Dzurineiró vivia em plenitude. Era livre, aberta, acolhedora. Até que o tempo chegou com seus dentes de ferro e cimento. Com a criação da cidade, vieram as cercas, os muros, e as tomadas de terra.


A comunidade perdeu muito. Perdeu casas, caminhos, espaços de brincar, de rezar, de plantar. Perdeu, inclusive, a lagoa. Mas não perdeu a memória.


E o velho pé de umari? Ah, esse ficou.


Mesmo quando os Kariri-Xocó foram morar na Fazenda Modelo, o umari permaneceu como guardião. De pé, silencioso, vendo o tempo passar. Testemunha das partidas e dos retornos. Guardião da esperança.


Até hoje, quem passa por ali sente que há algo mais naquela árvore. Não é só raiz. É história. É espírito. É resistência.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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