Na terra quente de Porto Real do Colégio, quando o tempo ainda corria devagar e o chão batido era cruzado por pés descalços, havia um transporte que despertava encanto e respeito: a Ibákabaru, a carroça puxada por burro.
Os mais velhos diziam que esse modo de transporte veio de longe, das terras de além-mar, trazido pelos colonizadores portugueses que por sua vez o herdaram dos antigos romanos. Mas, para os indígenas da aldeia Kariri-Xocó, aquela carroça tinha um nome próprio e um lugar de destaque na memória do povo. Era símbolo de prestígio — e por muito tempo, coisa de gente rica.
Na virada do século XX, ninguém na aldeia ousava sonhar com uma carroça própria. Era transporte dos coronéis, dos comerciantes, dos que tinham mais terra do que histórias. Até que, em 1908, um homem chamado Gravié, indígena e fazendeiro, decidiu que era hora de mudar isso. Gravié não era qualquer homem. Carregava nos olhos a firmeza do sertão e nas mãos a herança do seu povo. Com esforço e coragem, comprou uma carroça — a primeira da aldeia — para levar sua esposa, Luzia, ao ritual sagrado do Ouricuri.
A cena foi lembrada por muitos: o sol ainda nascia quando Luzia subiu com delicadeza na Ibákabaru. Os sinos tilintavam no pescoço do burro, e os olhos da comunidade acompanhavam aquele desfile como se fosse um cortejo. A carroça, antes distante e inatingível, agora fazia parte da vida indígena.
E foi assim que tudo começou. Aos poucos, outras famílias foram conseguindo suas próprias carroças. Puxadas por burros, cavalos ou jumentos, tornaram-se o motor da economia local. Na década de 1960, quando a ferrovia despejava mercadorias na estação, eram as carroças que levavam tudo até o Armazém Carnaúba. Eram tempos de fartura. Homens com suas carroças enchiam as ruas de vida e poeira, levando e trazendo mantimentos, gente, esperanças.
Entre 1970 e 1980, as carroças passaram a ter outro papel: transportar os indígenas para o Ouricuri. O som dos cascos nos caminhos de barro se misturava às cantorias e ao cheiro da mata. Era transporte, mas era também tradição, fé, caminho para o sagrado.
Mas o tempo, esse senhor que nunca para, trouxe mudanças. A partir da década de 1990, os Kariri-Xocó passaram a adquirir automóveis. O ronco dos motores começou a se sobrepor ao som dos cascos. A carroça perdeu espaço. Ficou à margem, como tantas coisas antigas.
Ainda assim, algumas Ibákabaru resistiram. Em certas manhãs, ainda se pode ver uma carroça cruzando uma rua da aldeia, puxada por um burro manso e conduzida por um ancião de chapéu de palha. E quando isso acontece, é como se o tempo desse um passo para trás, e o coração do povo Kariri-Xocó se lembrasse — com orgulho — de que aquela simples carroça de burro ajudou a construir o presente com as rodas da memória.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó


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