A Fábula do Rato e o Pássaro do Arroz
Há muito tempo, nas florestas sombreadas e cobertas por altos dosséis, vivia Guaiápi, o rato do capim. Era pequeno, ágil e astuto, sempre atento às sementes que a mata lhe oferecia. Entre folhas caídas e frutos vermelhos, corria sem descanso, alimentando-se do que a natureza lhe dava.
Não muito longe dali, nos brejos e taboais, vivia Guiráapi, o pássaro-do-capim. Suas penas negras brilhavam ao sol e, no peito, trazia a marca vermelha de fogo, como se carregasse o coração da mata. Ele cantava alegre, vivendo em bandos, alimentando-se de grãos, insetos e frutos.
Por muitos ciclos, Guaiápi e Guiráapi não se encontravam, cada qual em seu mundo de florestas e águas. Mas um dia, os homens chegaram. Cortaram árvores, queimaram capinzais, secaram os brejos. O alimento natural começou a faltar.
— O que será de nós? — chorava Guaiápi. — As sementes da mata estão rareando, e até os frutos vermelhos sumiram.
— Também sofro — respondeu Guiráapi. — Onde havia água e taboal, agora há fogo e fumaça.
Os homens, contudo, trouxeram um novo alimento, vindo de terras distantes: o arroz. Plantaram-no em grandes campos alagados, onde antes a floresta e o brejo reinavam.
Guaiápi, faminto, aproximou-se e descobriu grãos fartos espalhados pelo chão.
— Que sementes são estas? Não vêm da mata, mas alimentam bem!
Guiráapi, curioso, voou baixo e bicou um punhado.
— São duras e diferentes… mas saborosas! Talvez este seja o presente que a terra nos dá para sobreviver.
Assim, o rato e o pássaro passaram a visitar os campos dos homens. De inimigos naturais, tornaram-se companheiros de banquete, dividindo o arroz que não lhes pertencia. Os homens, porém, os chamaram de praga e tentaram expulsá-los.
Certa tarde, enquanto comiam juntos, Guaiápi disse a Guiráapi:
— Não fomos nós que mudamos a terra. Foram os homens que mudaram nossos caminhos. Se comemos o arroz, é porque eles nos tiraram o capim e as sementes da mata.
Guiráapi, erguendo o peito vermelho, respondeu:
— Sim, irmão. Somos parte da mesma história. Não somos pragas, somos sobreviventes.
E assim, entre plantações e perseguições, Guaiápi e Guiráapi aprenderam a dividir não apenas os grãos, mas também a mesma sorte. Unidos pelo destino, lembravam em silêncio que um dia foram filhos livres da floresta e do brejo, e que ainda guardavam em seus nomes o sopro antigo do Tupi:
Guaiápi, o roedor do capim. Guiráapi, o pássaro do capim.
🌱 Moral da Fábula:
Quando o homem muda a terra para satisfazer sua fome, muda também o destino das criaturas.
O que chamamos de praga pode ser apenas sobrevivência.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
📜 Cordel em Sextilhas
GUAIÁPI E GUIRÁAPI, O Rato e o Pássaro-do-Arroz
Na floresta encantada e bela,
Viviam bichos em união,
Guaiápi corria na relva,
Procurando semente no chão.
E Guiráapi, pássaro forte,
Cantava nos brejos em tom.
Mas o homem, com fogo e machado,
Derrubou a mata sem dó,
Secou o banhado sagrado,
Fez da terra um campo só.
E trouxe o arroz estrangeiro,
Mudando o destino do pó.
Guaiápi chorava com fome,
As frutas da mata sumiam,
As sementes antes tão fartas
No chão da floresta escassiam.
E Guiráapi, peito vermelho,
Viu suas águas que fugiam.
Nos arrozais novos plantados
Os dois se encontraram afinal,
O rato correndo ligeiro,
O pássaro em canto triunfal.
E juntos comeram os grãos
De um banquete desigual.
Mas o homem, ao vê-los unidos,
Chamou-os de praga daninha,
Perseguindo com redes e pedras
A vida tão frágil que tinha.
Sem lembrar que a própria mudança
Os pôs na colheita mesquinha.
Guaiápi falou ao amigo:
— Não fomos nós que mudamos, não!
Foi o homem quem feriu a terra,
E alterou nosso coração.
Comer arroz não é pecado,
É pura sobrevivência, irmão.
Guiráapi, erguendo seu canto,
Respondeu com firmeza e fé:
— Somos filhos do capim antigo,
Do brejo, da mata e da maré.
Não somos pragas, mas vida,
Que resiste e sempre é.
🌱 Moral em Verso
Quem destrói a natureza
Muda o rumo do viver,
E os bichos, buscando o sustento,
Precisam se refazer.
Chamam de praga inocente,
Que só quer sobreviver.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
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