quarta-feira, 24 de setembro de 2025

ENTRE LEIS, PODER E MAGIA: Um Olhar Histórico-Cultural






 ( CORDEL EM SEXTILHAS )


A humanidade lutava

Buscando civilidade,

Mas sempre teve quem fosse

Atrás da facilidade,

Corrompendo a própria lei

Por ganância e vaidade.


Na Antiguidade o rei

Comandava a multidão,

Mas havia o inimigo

Que envenenava o irmão,

Tomava o trono e dizia:

“Morreu de mal-súbito, então.”


O mago fazia mistura,

Substâncias para poder,

Rompiam as leis sagradas

Buscando sempre vencer,

E povos eram jogados

Uns contra os outros a morrer.


A igreja e o próprio Estado

Criaram forma e acusação,

Para impor sua doutrina

Com força e dominação,

Incriminando culturas

E punindo tradição.


Magia é a manipulação

Do que é natural, sagrado,

Feitiçaria usa erva,

Vela e encanto buscado,

Bruxaria foi condenada

Mas hoje tem novo lado.


Da África veio o canto

Com macumba e mandinga,

A força de proteção

Que até hoje se distinga,

E no sertão do Nordeste

Catimba é fé que vinga.


Assim seguiu a história

Entre poder e engano,

Mas também resistência

De um povo soberano:

Cultura que nunca morre

E se mantém todo ano.


A modernidade chega

Com roupa engomada,

Mas trás nas entrelinhas

A trama bem urdida e calada,

Sabotagem, espionagem,

Mentira bem disfarçada.


Em gabinetes frios se faz

A manobra política sutil,

Trocando lei por interesse,

Ocultando o mal infantil,

E nomes técnicos nas atas

Cobrem o crime febril.


Há quem chame de “incidente”,

Outros falam de “anomalia”,

Mas por trás do termo fino

Mora a velha vilania:

Roubar planta e colheita,

Quebra o sustento, o dia a dia.


A desinformação corre

Pelas redes e pelas praças,

Dizendo o certo ao contrário,

Plantando dúvidas e desgraças,

Confunde povo e mercado

E desfaz laços e graças.


Espiões de gravata e terno

Traçam mapas na penumbra,

Colhem passos e segredos,

Transformam a verdade em zumba,

Para quem paga a mensagem

A justiça vira uma rumba.


Há chantagem nos cantos,

Fotografias, recados, medo,

Quem resiste é silenciado,

O poder abre o enredo,

E a ética fica ferida

No compasso do segredo.


Falando em pragas e males,

Surgem palavras de horror:

“ameaça biológica” ecoa,

Nome frio que causa pavor,

Mas o povo clama por vida,

Não por estatística nem dossiê maior.


Os campos choram saudades

Quando a colheita é roubada,

Doença que não se explica

Vem e deixa a terra calada,

E o lavrador, sem resposta,

Vê sua vida desapossada.


Tecnocracia usa dados,

Mas às vezes é fachada,

Modelos, métricas e gráficos

Cobrem a trama armada,

E o pobre na beira da estrada

Sente a mão já aprisionada.


No discurso, usam termos

Como “gestão” e “otimização”,

Mas é só artimanha velha

Pra drenar a população,

E a lei, que devia proteger,

Vira papel de ilusão.


A bruxa de outrora não morreu,

Mudou de roupa e endereço,

Agora chama-se lobby,

Advocacia de interesse e preço,

E o feitiço moderno é lucro

Que transforma o justo em tropeço.


Mas há resistência viva,

Sabe a história do cordel,

Que canta, denuncia e une,

Que não se vende por papel,

E nas feiras, no terreiro,

A verdade volta ao léu.


Que se ouça no sertão e na praça,

Do litoral ao sertão profundo:

Corrupção tem nome e rosto,

Não se esconde no vagabundo,

E a cultura que resiste

É força que salva o mundo.


Por fim, irmão, o aviso:

Olho aberto e pé no chão,

Que as coisas mudam de traje

Mas permanecem na mão,

E a memória do povo alerta

É luz pra libertação.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




🌾 CORDEL DA MAGIA MODERNA E DAS TRAMAS DO PODER 


Refrão (entre as estrofes):

👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.


No sertão ou na cidade

Sempre tem manipulação,

Chamam de “gestão de risco”

Pra esconder corrupção,

E a mentira bem polida

Anda de terno e gravatão.


👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.


O caboclo planta a roça,

Mas chega a praga estranha,

Chamam de “incidente químico”

Ou de “falha na campanha”,

Mas por trás tem sabotagem

Que o lavrador não ganha.


👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.


Na política se enfeitam

Com palavras bem bonitas,

“Estratégia” e “otimização”

São só manobras esquisitas,

Encobrem o roubo velho

Com falas sempre infinitas.


👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.


A chantagem hoje é fria,

Feita em tela e papel,

Promessa de destruir

Quem não dobrar o cordel,

Mas o povo que é valente

Não se cala no quartel.


👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.


Agente biológico invade

A lavoura e o quintal,

Chamam de “teste de campo”

Ou “problema natural”,

Mas no fundo é arma nova

Pra o poder sempre igual.


👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.


O feitiço que era erva,

Reza, vela ou mandinga,

Hoje é dado em planilha,

Relatório que não vinga,

Mas no fundo é a mesma trama

Que no povo se distingue.


👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.


Quem canta cordel denuncia,

Abre os olhos da nação,

Mostra que a velha bruxa

Tem agora outra feição,

Mas o povo organizado

É luz pra libertação.


👉 O feitiço mudou de roupa,

Mas continua a ferir,

O povo levanta a voz,

Pra nunca mais se iludir.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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