( CORDEL EM SEXTILHAS )
A humanidade lutava
Buscando civilidade,
Mas sempre teve quem fosse
Atrás da facilidade,
Corrompendo a própria lei
Por ganância e vaidade.
Na Antiguidade o rei
Comandava a multidão,
Mas havia o inimigo
Que envenenava o irmão,
Tomava o trono e dizia:
“Morreu de mal-súbito, então.”
O mago fazia mistura,
Substâncias para poder,
Rompiam as leis sagradas
Buscando sempre vencer,
E povos eram jogados
Uns contra os outros a morrer.
A igreja e o próprio Estado
Criaram forma e acusação,
Para impor sua doutrina
Com força e dominação,
Incriminando culturas
E punindo tradição.
Magia é a manipulação
Do que é natural, sagrado,
Feitiçaria usa erva,
Vela e encanto buscado,
Bruxaria foi condenada
Mas hoje tem novo lado.
Da África veio o canto
Com macumba e mandinga,
A força de proteção
Que até hoje se distinga,
E no sertão do Nordeste
Catimba é fé que vinga.
Assim seguiu a história
Entre poder e engano,
Mas também resistência
De um povo soberano:
Cultura que nunca morre
E se mantém todo ano.
A modernidade chega
Com roupa engomada,
Mas trás nas entrelinhas
A trama bem urdida e calada,
Sabotagem, espionagem,
Mentira bem disfarçada.
Em gabinetes frios se faz
A manobra política sutil,
Trocando lei por interesse,
Ocultando o mal infantil,
E nomes técnicos nas atas
Cobrem o crime febril.
Há quem chame de “incidente”,
Outros falam de “anomalia”,
Mas por trás do termo fino
Mora a velha vilania:
Roubar planta e colheita,
Quebra o sustento, o dia a dia.
A desinformação corre
Pelas redes e pelas praças,
Dizendo o certo ao contrário,
Plantando dúvidas e desgraças,
Confunde povo e mercado
E desfaz laços e graças.
Espiões de gravata e terno
Traçam mapas na penumbra,
Colhem passos e segredos,
Transformam a verdade em zumba,
Para quem paga a mensagem
A justiça vira uma rumba.
Há chantagem nos cantos,
Fotografias, recados, medo,
Quem resiste é silenciado,
O poder abre o enredo,
E a ética fica ferida
No compasso do segredo.
Falando em pragas e males,
Surgem palavras de horror:
“ameaça biológica” ecoa,
Nome frio que causa pavor,
Mas o povo clama por vida,
Não por estatística nem dossiê maior.
Os campos choram saudades
Quando a colheita é roubada,
Doença que não se explica
Vem e deixa a terra calada,
E o lavrador, sem resposta,
Vê sua vida desapossada.
Tecnocracia usa dados,
Mas às vezes é fachada,
Modelos, métricas e gráficos
Cobrem a trama armada,
E o pobre na beira da estrada
Sente a mão já aprisionada.
No discurso, usam termos
Como “gestão” e “otimização”,
Mas é só artimanha velha
Pra drenar a população,
E a lei, que devia proteger,
Vira papel de ilusão.
A bruxa de outrora não morreu,
Mudou de roupa e endereço,
Agora chama-se lobby,
Advocacia de interesse e preço,
E o feitiço moderno é lucro
Que transforma o justo em tropeço.
Mas há resistência viva,
Sabe a história do cordel,
Que canta, denuncia e une,
Que não se vende por papel,
E nas feiras, no terreiro,
A verdade volta ao léu.
Que se ouça no sertão e na praça,
Do litoral ao sertão profundo:
Corrupção tem nome e rosto,
Não se esconde no vagabundo,
E a cultura que resiste
É força que salva o mundo.
Por fim, irmão, o aviso:
Olho aberto e pé no chão,
Que as coisas mudam de traje
Mas permanecem na mão,
E a memória do povo alerta
É luz pra libertação.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
🌾 CORDEL DA MAGIA MODERNA E DAS TRAMAS DO PODER
Refrão (entre as estrofes):
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
No sertão ou na cidade
Sempre tem manipulação,
Chamam de “gestão de risco”
Pra esconder corrupção,
E a mentira bem polida
Anda de terno e gravatão.
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
O caboclo planta a roça,
Mas chega a praga estranha,
Chamam de “incidente químico”
Ou de “falha na campanha”,
Mas por trás tem sabotagem
Que o lavrador não ganha.
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
Na política se enfeitam
Com palavras bem bonitas,
“Estratégia” e “otimização”
São só manobras esquisitas,
Encobrem o roubo velho
Com falas sempre infinitas.
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
A chantagem hoje é fria,
Feita em tela e papel,
Promessa de destruir
Quem não dobrar o cordel,
Mas o povo que é valente
Não se cala no quartel.
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
Agente biológico invade
A lavoura e o quintal,
Chamam de “teste de campo”
Ou “problema natural”,
Mas no fundo é arma nova
Pra o poder sempre igual.
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
O feitiço que era erva,
Reza, vela ou mandinga,
Hoje é dado em planilha,
Relatório que não vinga,
Mas no fundo é a mesma trama
Que no povo se distingue.
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
Quem canta cordel denuncia,
Abre os olhos da nação,
Mostra que a velha bruxa
Tem agora outra feição,
Mas o povo organizado
É luz pra libertação.
👉 O feitiço mudou de roupa,
Mas continua a ferir,
O povo levanta a voz,
Pra nunca mais se iludir.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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