A Fábula do Gavião e a Mariposa
Na beira de um campo aberto, onde o vento sopra livre e o sol ilumina as pastagens, vivia o Kauêpemba, o gavião que pairava no ar como se peneirasse o céu. Seus olhos eram tão agudos que conseguiam enxergar o menor dos ratos se movendo entre as ervas.
Chamavam-no de “A Longa Visão”, pois nada escapava de sua mirada.
Do outro lado, entre as colmeias escondidas no tronco das árvores, vivia a Panemá-eisûra, a pequena traça da cera. Embora frágil aos olhos, possuía um dom diferente: ouvia o que ninguém mais podia ouvir. Seus ouvidos captavam os sons mais secretos, até o bater de asas noturnas que escapava ao silêncio da floresta. Por isso era chamada de “A Longa Audição”.
Um dia, os dois se encontraram à beira do campo.
— Eu vejo o que está longe e descubro presas com meu olhar, disse o Kauêpemba, orgulhoso de suas asas abertas no vento.
— E eu ouço o que está oculto, mesmo quando ninguém mais percebe, respondeu a pequena Panemá-eisûra, balançando discretamente dentro da colmeia.
O gavião, curioso, perguntou:
— De que vale ouvir tanto, se não podes voar alto como eu?
A traça respondeu com calma:
— E de que vale enxergar tanto, se não podes ouvir o perigo escondido na escuridão?
Naquele instante, ambos compreenderam: a visão e a audição são forças diferentes, mas igualmente preciosas. Enquanto o Kauêpemba reinava nos céus com a vista infalível, a Panemá-eisûra dominava o silêncio com sua escuta invisível.
E assim, cada um voltou ao seu mundo, levando consigo a certeza de que a vida é feita de dons diversos, e que nenhum é maior do que o outro.
✨ Moral da Fábula
A sabedoria não está em ter apenas um dom, mas em reconhecer o valor de cada diferença. A visão e a audição, juntas, completam a harmonia do mundo.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
KAUÊPEMBA E PANEMÁ-EISÛRA,
As Longas Visão e Audição
( Versão Cordel Sextilhas )
No campo o vento soprava,
O céu limpo em claridade,
Kauêpemba ali reinava,
Pairando com majestade.
Sua visão tão certeira,
Revela toda verdade.
Na sombra da colmeia fria,
Panemá-eisûra vivia,
Pequena, mas possuía
Um dom que surpreendia:
Na escuta era rainha,
Ouvir era sua magia.
Disse o gavião altaneiro:
“Eu vejo de longe o chão,
Roedor, ave ou carneiro,
Nada escapa à minha visão.
Sou dono do céu inteiro,
Rei da caça e da amplidão.”
Respondeu a traça ligeira:
“Também tenho meu saber,
Ouço nota verdadeira
Que ninguém pode entender.
O som que a noite carrega
É segredo do meu viver.”
Pensou então o gavião:
“De que vale tanto ouvir
Se não tens grande visão
Nem poder de me atingir?”
E a traça com mansidão
Assim começou a instruir:
“Cada dom tem seu lugar,
Não existe dom maior.
Tu vês longe, és do ar,
Eu escuto o som melhor.
Quando juntos se completam,
O mundo fica melhor.”
🌿 Moral em Cordel
A visão guia o caminho,
A escuta traz proteção.
Quando os dons andam juntinhos,
Há mais força e união.
Cada ser tem seu destino,
Cada dom, sua razão.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Nenhum comentário:
Postar um comentário