Introdução
A presença de cães na história do Brasil está profundamente ligada ao processo de colonização. Entre as raças trazidas pelos portugueses, destaca-se o Rafeiro do Alentejo, cão molosso usado para guarda de rebanhos e propriedades em Portugal. Sua introdução no Brasil no período colonial não apenas reforçou a segurança dos engenhos e fazendas, como também deixou descendência genética que contribuiu para a formação do Fila Brasileiro, uma das raças nacionais mais emblemáticas. Paralelamente, a miscigenação espontânea de cães importados deu origem ao popular “cão vila-lata”, símbolo da resistência e da mestiçagem no território brasileiro.
Linha do tempo histórica
Séculos XVI–XVII – Colonização e chegada dos cães ibéricos
Colonos portugueses trazem cães de grande porte da Península Ibérica, entre eles o Rafeiro do Alentejo.
Função: guarda de engenhos, fazendas e proteção contra invasores humanos e animais selvagens.
Adaptação: esses cães suportaram bem o clima e se espalharam pelo território colonial.
Século XVIII – Consolidação do cão alentejano no Brasil
O Rafeiro do Alentejo se torna um cão de guarda essencial em áreas rurais.
Surge o cruzamento com outros cães trazidos da Europa (mastins espanhóis, bloodhounds ingleses e cães de caça portugueses).
Esse processo inicia a formação de um “tipo brasileiro” de cão guardião.
Século XIX – Formação do Fila Brasileiro
Em fazendas de Minas Gerais e São Paulo, a miscigenação entre cães alentejanos, mastins e bloodhounds consolida o Fila Brasileiro.
O Fila é utilizado na guarda de propriedades, na caça de animais de grande porte e, de forma negativa, na captura de escravizados fugidos.
O cão alentejano é reconhecido como uma das matrizes genéticas mais importantes dessa raça nacional.
Século XIX–XX – O surgimento do “cão vila-lata”
Nos centros urbanos e vilas rurais, a miscigenação desordenada de cães sem controle gera os “cães de rua”, conhecidos como “vira-latas” ou “cães vila-lata”.
O termo “vira-lata” aparece pela observação desses cães revirando latas de lixo em busca de alimento.
Diferente do Fila Brasileiro, que teve padronização, o vira-lata representa a diversidade genética sem pedigree, mas com grande resistência e inteligência adaptativa.
Século XX – Reconhecimento cultural
O Fila Brasileiro ganha reconhecimento nacional e internacional como raça oficial, registrada pela Confederação Brasileira de Cinofilia e pela FCI.
O “cão vila-lata” se torna símbolo popular, exaltado na literatura, na música e até na política como representação da mestiçagem e da rusticidade do povo brasileiro.
Comparação entre Rafeiro do Alentejo, Fila Brasileiro e Cão Vila-Lata
AspectoRafeiro do AlentejoFila BrasileiroCão Vila-LataOrigemPortugal (Alentejo)Brasil colonial (séc. XIX)Brasil (miscigenação livre)FunçãoGuarda de rebanhos e fazendasGuarda, caça, defesaCompanhia e sobrevivência urbana/ruralPorteGrande, robustoGrande, musculosoVariávelTemperamentoVigilante, calmo, lealExtremamente fiel, “ojeriza” a estranhosInteligente, rústico, adaptávelReconhecimentoRaça oficial (FCI)Raça oficial (FCI)Não é raça, mas símbolo popular
Conclusão
A presença do Rafeiro do Alentejo no Brasil colonial foi essencial para a organização da vida rural, garantindo a segurança dos engenhos e fazendas. Sua contribuição genética foi determinante para o surgimento do Fila Brasileiro, raça que sintetiza a herança luso-ibérica adaptada ao território brasileiro. Paralelamente, o cão vila-lata, fruto da miscigenação espontânea, tornou-se o retrato da resistência, da adaptabilidade e da mestiçagem cultural do país. Dessa forma, o Brasil carrega em sua história canina tanto a herança dos cães de raça trazidos pelos colonizadores quanto o legado dos mestiços, que se tornaram verdadeiros símbolos nacionais.
Referências (ABNT)
CORRÊA, Sérgio. O Fila Brasileiro: história e tradição. Belo Horizonte: Ed. Cinofilia Nacional, 2005.
CUNHA, António. Raças de cães de Portugal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1998.
SILVA, Carlos T. Animais e a colonização portuguesa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.
DIAS, Reinaldo. História do cão no Brasil: dos engenhos coloniais ao cão de companhia. Rio de Janeiro: Mauad, 2012.
FEDERAÇÃO CINOLÓGICA INTERNACIONAL (FCI). Padrão Oficial – Rafeiro do Alentejo (Fila de Alentejo). Bruxelas: FCI, 2020.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
CORDEL DOS CÃES DO BRASIL
No tempo da colonização
Portugal trouxe o guardião,
Era o cão do Alentejo,
Forte, leal e sem pejo,
Defendia engenho e gado,
Sempre atento e respeitado.
Na lida dura da fazenda
Sua presença era emenda,
Guardava noite e dia
Com coragem e ousadia,
Nos sertões e nos caminhos,
Protegia os peregrinos.
Do cruzar de várias raças
Nas terras de muitas praças,
Surge o Fila Brasileiro,
Valente cão justiceiro,
De Minas fez-se a raiz,
Patrimônio do país.
Grande, firme e imponente,
Ao dono sempre obediente,
Com estranhos, desconfiado,
Mas no lar, fiel aliado,
Herança lusa e ibérica,
Raça forte, tão genérica.
Mas nas ruas da cidade,
Nascem cães sem identidade,
Misturados, sem fronteira,
De pelagem verdadeira,
São os nossos vira-latas,
Companheiros de bravatas.
Sem ter título ou brasão,
Vivem só do coração,
Guardam casas, seguem gente,
São astutos, persistentes,
E no peito do Brasil
Virou símbolo sutil.
Assim conta-se a memória
Dos cães dentro da história:
O Alentejo foi raiz,
O Fila marca o país,
E o Vila-Lata é prova
De uma nação sempre nova.
👉 Esse cordel pode ser usado em livro, blog ou até em roda de leitura, pois mistura memória histórica com linguagem popular.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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