A Fábula do Gafanhoto e a Saúva
No coração do sertão, sob a sombra amarela de um ipê florido, viviam muitos seres em busca de alimento.
Um bando de Tanhyra Tîbíra, os gafanhotos-soldados, pousou nos galhos verdes e começou a devorar as folhas tenras. Saltavam de um lado a outro, armados de mandíbulas, como pequenos guerreiros do mato.
De repente, um exército de Saúvas, as temidas içás cortadeiras, começou a subir pelo tronco, organizadas em fileiras apressadas. Logo surgiu a disputa:
— Essas folhas são nossas! — gritaram os Tanhyra Tîbíra. — Chegamos primeiro!
As Saúvas, firmes e trabalhadeiras, responderam:
— Ninguém é dono das árvores! A floresta é livre e quem trabalha merece colher!
A briga estava prestes a começar, quando apareceu o Sagui-de-tufos-brancos, esperto e ligeiro, saltando de galho em galho. Com olhar vivo e voz firme, ele declarou:
— Escutem, amigos! Vejo gafanhotos e formigas brigando por folhas, mas saibam que eu como tanto uns quanto outros. Se não houver acordo, talvez eu seja o único a me fartar.
Os insetos silenciaram. O sagui então completou:
— Vi que os Tanhyra Tîbíra chegaram primeiro ao ipê. É justo que fiquem aqui. As Saúvas, com sua força e união, podem encontrar outra árvore para cortar. Assim, cada qual terá seu sustento sem guerras.
As Saúvas, embora contrariadas, aceitaram a palavra do sagui. Os Tanhyra Tîbíra continuaram a refeição, e a paz voltou à floresta.
🌱 Moral da fábula:
Na natureza e na vida, cada um tem seu espaço. A sabedoria está em dividir, não em destruir.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
TANHYRA TÎBÍRA E A SAÚVA, Os Comedores de Folhas
( Versão Cordel Sextilhas )
No sertão de luz amarela
No ipê todo em florado
Pousou bando de soldado
Tanhyra Tîbíra na vela
Comendo folha tão bela
No galho ensolarado.
Mas eis que a Saúva ligeira
Subiu no tronco apressada
Com a tropa organizada
Formiga forte e guerreira
Quis disputar a bandeira
Das folhas tão cobiçadas.
— “Chegamos primeiro ao chão!”
— disseram os gafanhotos.
“Estas folhas são os nossos
Tesouros desta estação.”
Mas a Saúva em união
Falou: “Nada é de poucos.”
Chegou o sagui ligeiro
De tufos brancos na testa
Saltando na grande festa
Disse: “Eu como os dois primeiro,
Formiga e gafanhote inteiro,
Se briga virar floresta!”
E com a voz bem madura
Falou do que tinha visto:
“Os soldados chegaram disto
Primeiros na rama pura.
Saúva busque outra altura,
Assim se cumpre o justo.”
A tropa então concordou,
O acordo foi selado.
Cada qual no seu lado
Em paz a vida ficou.
E o sertão todo ensinou:
Partilhar é o bom legado.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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