segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A MULTIPLICIDADE DAS NARRATIVAS: VERSÕES DA MESMA HISTÓRIA, Literatura de Cordel – Por Nhenety Kariri-Xocó






🌿 DEDICATÓRIA POÉTICA


Dedico este meu cordel

À memória que não finda,

À chama da tradição,

Que na aldeia ainda brilinda.

Ao povo que guarda o verbo

Na roda sagrada e linda.


Às vozes dos ancestrais,

Que sopram dentro da brisa,

E ensinam que toda história

No tempo se eterniza.

Pois cada versão que nasce

É o espírito que armoniza.


Aos mestres da palavra

Que andam no chão do Brasil,

Griôs, cantadores, povos

De um legado varonil.

E ao Kariri-Xocó, raiz

Que minha alma perfil.


E dedico, enfim, ao leitor,

Que abre este livro em mão,

Para descobrir que a história

Nunca cabe num só chão,

E que a mesma narrativa

Tem mil formas de expressão.



📜 ÍNDICE POÉTICO


Abertura

Prólogo Poético


Capítulo 1 – A Voz Primeira da História: A Palavra Oral

Capítulo 2 – Do Sagrado ao Corpo: Mitos, Ritos e Narrativas


Capítulo 3 – Pinturas que Contam o Mundo

Capítulo 4 – A Escrita: O Rastro Fixo do Verbo


Capítulo 5 – A Dança como Narração Ancestral

Capítulo 6 – O Canto que Faz do Tempo Melodia


Capítulo 7 – Teatro: A Cena onde o Mundo Fala

Capítulo 8 – Fotografia: A Luz que Documenta a Memória


Capítulo 9 – Quadrinhos: A Palavra em Desenho Vivo

Capítulo 10 – Rádio: A Voz que Viaja no Invisível


Capítulo 11 – Cinema: O Movimento que Revela Emoções

Capítulo 12 – Era Digital: As Multiversões da Mesma História


Encerramento

Epílogo Poético

Nota de Fontes Rimada

Ficha Técnica

Epílogo Final

Sobre o Autor

Sobre a Obra

Quarta Capa Poética



🌅 ABERTURA


Toda história nasce de um ponto que ninguém consegue medir.

É semente antiga vagando entre povos, tempos e mundos.

A mesma narrativa que um griô canta na fogueira

pode ser recontada por um poeta, registrada por um escriba,

dançada por um corpo, pintada numa pedra

ou surgir hoje em pixels luminosos.


Somos feitos de memórias que se multiplicam.

E cada versão é uma janela diferente

para olhar o espírito ancestral que jamais se apaga.


Este livro-cordel é um caminhar pelas muitas formas

com que a humanidade falou, cantou, escreveu, dançou e imaginou

a mesma grande história do mundo.

Aqui, palavra e tempo se entrelaçam,

como cipó que abraça a mata.



✨ PRÓLOGO POÉTICO


Desde os tempos mais antigos,

Quando o mundo era infante,

A história andava na boca

De um povo caminhante.

O verbo era uma fogueira

Iluminando o instante.


Depois, virou rito e dança,

Silêncio virando ação;

O corpo contando o mito

No giro da tradição.

Pois cada passo em círculo

É memória em oração.


Nas pedras ficou gravado

O gesto de quem viveu,

Animais, caçadas, ritos,

O que o tempo não comeu.

A arte rupestre é chama

Que o vento jamais rompeu.


A escrita surge reinando

Com tinta, traço e lousa,

Fazendo eterno no mundo

A saga mais gloriosa.

Do mito nasce o pergaminho,

Da lenda, a pena caprichosa.


O canto torna o relato

Numa emoção musical,

E a dança vira caminho

Do corpo espiritual.

Cada gesto, cada nota,

Retoma o tempo ancestral.


Veio o teatro, liberto,

De Téspis e seu ardor.

Ali o mundo se encena

Com tragédia e com humor;

O palco se faz espelho

Da alma e do sonhador.


Foto, quadrinhos e rádio

Trouxeram nova invenção:

Registrar, pintar, falar

Com moderna precisão.

O tempo ganhou memória,

A imagem, continuação.


E o cinema fez da luz

Um sonho cheio de vida;

Depois, a era digital

Abriu porta infinita.

A história virou multiverso,

Nunca mais foi contida.


Por isso este meu cordel

Viaja de mão em mão,

Mostrando que mil versões

Podem brotar do chão.

Pois contar a mesma história

É recriar a tradição.



📖 CAPÍTULO 1 – A VOZ PRIMEIRA DA HISTÓRIA: A PALAVRA ORAL


1

No princípio era a voz,

Era o sopro da memória,

Era o eco da aldeia

Recriando a mesma história,

Pois quem guarda o verbo vivo

É guardião de uma vitória.


2

Antes mesmo da escrita,

Do papel e da canção,

A palavra andava solta

No terreiro e no sertão;

Era o livro do universo

Lido só com o coração.


3

Os povos da terra antiga,

Da floresta ao litoral,

Transmitiam pela fala

Um saber primordial.

Cada mito era semente

Florescendo no ritual.


4

Aedos na velha Grécia,

No Brasil, mestres de toré,

Griôs cantando na África

Com saber de grande pé.

A voz, mais forte que o tempo,

Nunca se desfaz de fé.


5

Na fogueira da aldeia,

O Jurupari renascia;

Entre povos ancestrais

A cosmogonia ardia.

E a palavra, entre cantores,

Recriava o que existia.


6

Porque a fala é movimento,

É o vento levando o chão;

É como folha que dança

Sem perder sua raiz não.

Carrega o peso da história

E o leve da tradição.


7

Mesmo hoje, em mundos novos,

A oralidade resiste:

Repentistas, cordelistas,

O canto que nunca triste,

Contadores de memória

Onde o mito ainda existe.


8

E assim começa o cordel,

Pela voz primordial:

A fonte de toda história,

Do tempo mais ancestral.

Pois quem narra pela boca

Torna o mundo imortal.



📖 CAPÍTULO 2 – DO SAGRADO AO CORPO: MITOS, RITOS E NARRATIVAS


1

Muito antes das palavras

Serem tinta em pergaminho,

O sagrado se contava

No gesto leve e sozinho;

O rito era a narrativa

Escrita no próprio caminho.


2

Xamãs das terras geladas,

Da Sibéria ao amplo chão,

Cantavam mitos antigos

Para cura e proteção.

O corpo era o instrumento

Da mais profunda expressão.


3

No Egito, o velho Osíris

Era encenado em festejos;

O povo via no teatro

A jornada de seus desejos.

Ali o mito tomava forma

No gesto e nos lampejos.


4

E o povo Kariri-Xocó,

Nos torés de antigamente,

Transmitia seus segredos

Na roda forte e presente.

Cada passo era o passado

Falando para o vivente.


5

O rito é ponte sagrada

Entre espírito e matéria,

É a lembrança que renasce

Quando o corpo a celebra;

É o sonho antigo do povo

Que no tempo persevera.


6

Assim o mito sobrevive,

Mesmo quando o povo muda;

Ele passa para o corpo

Como se fosse ajuda,

E ensina que toda história

É memória que não se iluda.


7

Pois o sagrado não morre,

Só se veste de outra forma;

Hoje dança, ontem canto,

Sempre lembrança que informa.

O mito é rio que corre

Mesmo quando o mundo dorme.


8

Por isso a roda sagrada

Ainda pulsa, ainda brilha;

No rito o tempo se encontra

Com a memória da família.

E o corpo segue contando

Aquilo que a alma trilha.



🎨 CAPÍTULO 3 – PINTURAS QUE CONTAM O MUNDO


1

Muito antes da palavra

Encontrar forma e feição,

A imagem já narrava

No silêncio do chão.

Era o pincel da pedra

Escrevendo a tradição.


2

Nas cavernas mais antigas,

O mundo foi desenhado:

Caçadas, ritos, memórias

Num traço forte e marcado.

Era o livro da existência

No rochedo eternizado.


3

Chauvet mostrou à Europa

Histórias de grande idade:

O bisonte perseguido,

A caça em intensidade.

Um cinema primordial

Da mais antiga humanidade.


4

Na Serra da Capivara,

O Brasil ganhou relevo:

Dança, festa, cotidiano,

O mais profundo enredo.

A pedra virou sabedoria

Guardando o gesto do povo.


5

Cada risco na parede

É uma voz que não morreu;

É o grito do caçador

Que ali sua vida escreveu;

É memória resistente

Que o tempo não corrompeu.


6

A pintura é narrativa,

É palavra sem som vivo;

É testemunha do mundo

Registrando o imprevisível.

O desenho é uma janela

Na rocha, resistente e incrível.


7

Esses traços são parentes

Dos quadrinhos de hoje em dia;

Pois unem tempo e imagem

Na mesma sabedoria.

A pedra foi o primeiro livro

Da nossa arqueologia.


8

Por isso, em cada pintura,

O passado se revela;

Quem olha aprende com ela

A história que se atrela.

A imagem fala sem voz

E o espírito escuta nela.



✒️ CAPÍTULO 4 – A ESCRITA: O RASTRO FIXO DO VERBO


1

Quando o homem descobriu

Que o verbo podia durar,

Desenhou no barro úmido

O mundo inteiro a pulsar.

A escrita nasceu sagrada

Para o tempo não apagar.


2

Sumérios foram primeiros

Com sua pena de carvão,

Criando o cuneiforme

Na beira da inundação.

Ali o mito virou símbolo

E ganhou perpetuação.


3

O Egito ergueu seus traços

De figura e de animal;

Os deuses viraram texto

Num código monumental.

A escrita era encantamento

E poder sacerdotal.


4

E surgiu Gilgamesh,

Herói de saga tamanha,

Primeiro épico do mundo,

Que na argila se entranha.

A lenda ficou gravada

Para que a alma a acompanhe.


5

Quando a escrita se expande,

A memória ganha corpo;

O que antes era só fala

Passa a ser eterno sopro.

A palavra vira mapa

Que cruza tempos e povos.


6

Bibliotecas surgem grandes,

Guardando mundos inteiros,

Histórias de reis antigos,

De sábios e viajantes guerreiros.

A escrita virou ponte

Entre vivos e paradeiros.


7

E mesmo hoje, no presente,

Ela continua altar,

Pois cada livro que nasce

Ensina a caminhar.

A escrita é raiz profunda

Que ninguém pode arrancar.


8

Assim a história ressurge

Quando a pena toca o papel;

A escrita é o rastro vivo

Que transforma o mundo em cordel.

O verbo toma estrutura

E a memória fica fiel.



💃 CAPÍTULO 5 – A DANÇA COMO NARRAÇÃO ANCESTRAL


1

Antes da pena existir

E da tinta desenhar,

O corpo já descrevia

O que a alma queria falar.

A dança era narrativa

No silêncio do lugar.


2

Povos da Índia remota

Criaram grande expressão:

O Bharatanatyam antigo

Unindo gesto e emoção.

Era o corpo contando épicos

Num ritmo de oração.


3

Nas aldeias brasileiras,

Desde o mais velho chão,

O toré segue ensinando

Com respeito e tradição.

Cada passo é a lembrança

Do sagrado da nação.


4

As danças de cada povo

Nasceram para ensinar:

Caçadas, colheitas, festas,

O jeito certo de andar.

O movimento era livro

Que o vento ajudava a folhear.


5

E na Europa medieval,

O baile criou seus enredos;

Reis e rainhas dançavam

Histórias, sonhos e segredos.

Do pátio ao grande teatro,

A vida ganhava enfeitos.


6

No ballet do Renascimento,

O gesto virou poesia;

Corpos criaram linguagem

Que ninguém antes via.

A dança virou espetáculo

Onde a alma se expandia.


7

Mas mesmo com novos tempos,

Um fato ninguém desmancha:

Toda dança é narrativa

Que no coração se arranja.

Onde há corpo em movimento,

Há memória que se espanha.


8

Por isso a dança persiste

Como história em vibração;

E o corpo que dança o mito

Reacende a tradição.

A dança é a voz do espírito

Falando pela ação.



🎶 CAPÍTULO 6 – O CANTO QUE FAZ DO TEMPO MELODIA


1

Desde o princípio do mundo

O canto foi profissão;

Era aviso, era chamado,

Era reza e proteção.

A voz virava caminho

Dentro de cada canção.


2

Na África dos griôs velhos,

O canto guardava a lei;

Histórias de reis e povos

Cantadas como maré.

Ali o tempo se ouvia

No ritmo da própria fé.


3

Na Europa medieval,

As cantigas de trovador

Falavam de guerra e amores,

De milagre e de louvor.

O canto era documento

Da vida e do sonhador.


4

No Nordeste brasileiro,

O repente é tradição:

Poetas duelam versos,

Coração contra coração.

A história é construída

Na velocidade do chão.


5

Entre os povos da floresta,

O canto é vento sonoro

Que ensina sobre a origem,

Sobre o mundo que decoro.

É o eco da ancestralidade

Guardado em cada coro.


6

Quando o canto se eleva,

O tempo aprende a voar.

O mito vira melodia

Que ninguém pode calar.

A música é memória viva

Que insiste em se eternizar.


7

E mesmo com novos dias,

Tecnologia e invenção,

O canto segue seu ritmo

Dentro de cada nação.

Ele é alma que ressoa

Nos ouvidos da emoção.


8

Por isso cantar é pôr vida

Na história que vem de longe;

É juntar o som da terra

À lembrança que se esconde.

O canto abraça o passado

E nas gerações responde.



🌳 CAPÍTULO 7 – TEATRO: A CENA ONDE o MUNDO FALA 


1

O teatro nasceu muito antes do palco.

Ele brotou dos gestos dos ancestrais que imitavam animais,

dos corpos que recontavam a caçada,

dos xamãs que encenavam o encontro com o sagrado.

Assim, a vida virou cena,

e a cena virou caminho para ensinar, lembrar e celebrar.


2

Nas antigas civilizações, o teatro floresceu como espelho da sociedade.

Na Grécia, os atores calçavam coturnos e elevavam a voz

para que todo o povo ouvisse as lições dos deuses,

os desafios dos heróis e as dores dos mortais.

A tragédia ensinava a responsabilidade,

a comédia revelava as fraquezas humanas,

e o drama costurava os dilemas da vida.


3

Nas culturas indígenas, cada ritual guarda uma dramaturgia própria.

O corpo se pinta, a máscara se ergue, a música ordena os passos—

e a narrativa se faz presente, viva, pulsante.

Ali, o teatro não é espetáculo:

é memória encarnada,

é ensinamento transmitido sem papel,

é a comunidade representando a si mesma para não se esquecer.


4

Hoje, o teatro permanece como uma arte que respira junto do público.

Não há filtro, tela, nem distância.

O ator entrega sua verdade, e o público devolve seu silêncio, sua emoção, sua energia.

Cada apresentação é única porque o instante é único—

e o instante é o verdadeiro palco do ser humano.


5

Assim, o teatro se torna o ponto onde a vida se reflete,

onde a cultura se reafirma,

e onde a humanidade aprende a olhar para si com mais profundidade.

É a cena onde o mundo fala,

e onde cada gesto, cada voz e cada corpo

se torna parte da grande narrativa da nossa espécie.



🌾CAPÍTULO 8 – FOTOGRAFIA: A LUZ que DOCUMENTA a MEMÓRIA 


1

Se a palavra registra,

o gesto encena

e o canto eterniza,

a fotografia é a arte que captura a luz para guardar a memória.


2

Antes da câmera, a memória dependia do ouvido, da voz e do coração.

Mas quando o mundo descobriu que a luz podia pintar sozinha,

nasceu uma nova forma de testemunhar o tempo.

A fotografia transformou o invisível em prova,

o passageiro em permanência,

o instante em história.


3

Os primeiros fotógrafos trabalhavam com longas exposições,

chapas metálicas e composições solenes.

Cada imagem era um ritual de paciência,

como se o tempo precisasse ser persuadido a se deixar capturar.

Mas pouco a pouco, o domínio da luz se democratizou,

e qualquer pessoa pôde congelar aquilo que via

—ou aquilo que sentia.


4

Para os povos originários, a fotografia teve dois caminhos:

foi usada por estrangeiros para documentar e controlar corpos,

mas também se tornou ferramenta para registrar a força, a vida, a cultura e a presença

dos povos que resistem e afirmam sua existência.

Hoje, muitos fotógrafos indígenas transformam a lente em arco,

e a luz em flecha,

mirando diretamente no coração da memória coletiva.


5

A fotografia é mais do que retrato.

É testemunha silenciosa.

É arquivo da alma.

É o ponto em que a arte encontra a verdade do instante.


6

Cada foto carrega o peso do que já passou

e a leveza do que permanece.

Assim, a luz —que sempre foi mensageira dos deuses—

se torna também guardiã da história humana.



🌐CAPÍTULO 9 – QUADRINHOS: A PALAVRA em DESENHO VIVO 


1

Os quadrinhos nasceram do encontro entre a imagem e a palavra,

um casamento antigo como as pinturas rupestres,

mas renovado pela criatividade dos tempos modernos.

Quando o traço se uniu ao balão de fala,

o mundo ganhou uma nova maneira de contar histórias:

dinâmica, colorida, ágil e profunda.


2

Nos pergaminhos medievais já havia sequências ilustradas,

e nas xilogravuras populares, o povo lia imagens como quem lê poesia.

Mas foi no final do século XIX que os quadrinhos se tornaram arte própria,

com personagens que saltavam das páginas

e aventuras que inflamavam a imaginação de crianças e adultos.


3

Os quadrinhos transformaram o cotidiano em narrativa,

traduziram guerras, amores, lutas sociais, heroísmo e humor

numa linguagem universal.

A combinação entre painéis, linhas, cores e palavras

criou um modo de leitura que dança entre o olhar e o pensamento.


4

No Brasil, a arte dos quadrinhos encontrou solo fértil:

de Angelo Agostini, pioneiro ilustre,

até a força regional da literatura de cordel ilustrada,

que une texto rimado a imagens marcantes.

E hoje, povos indígenas também produzem HQs

que revelam cosmogonias, memórias, lutas e sonhos,

transformando o traço em território de resistência e afirmação.


5

Os quadrinhos são mais que entretenimento:

são ferramenta pedagógica,

são janelas para outros mundos,

são uma forma de pensar com imagens.


6

Neles, a palavra ganha movimento,

o silêncio ganha expressão,

e o desenho ganha alma.

Assim, cada página se torna um universo

onde o leitor pode caminhar de painel a painel

como quem trilha os passos de uma narrativa viva.



📻CAPÍTULO 10 – RÁDIO: A VOZ que VIAJA no INVISÍVEL 


1

O rádio nasceu do mistério das ondas invisíveis,

um dom da ciência que se tornou magia cotidiana.

Por ele, a voz humana ganhou asas,

cruzou mares, montanhas, desertos e selvas,

levando notícia, música, conselho e companhia

a lugares onde o isolamento parecia absoluto.


2

No início, era apenas um sussurro elétrico,

uma descoberta experimental.

Mas logo se transformou no maior elo entre povos distantes.

Foi através do rádio que muitos ouviram

o primeiro discurso político,

a primeira radionovela,

o primeiro relato de guerra,

a primeira música que tocou fundo no coração.


3

Nas aldeias e povoados, o rádio virou visitante diário,

amigo fiel, mestre e contador de histórias.

Para muitos povos, foi o primeiro contato com línguas distantes,

com notícias do mundo,

com o pulsar da sociedade além das fronteiras do território.


4

O rádio democratizou a palavra como poucas tecnologias fizeram.

Ele não exige saber ler,

não exige dinheiro,

não exige mais que um ouvido atento.

Por isso, tornou-se instrumento de educação, cultura e resistência.


5

A voz que chega pelo rádio

não é só som:

é presença.

É o calor humano transmitido pelo invisível.

É a prova de que, mesmo distantes,

os seres humanos podem se encontrar

no espaço sonoro entre uma onda e outra.


6

Hoje, mesmo com tantas telas e caminhos digitais,

o rádio permanece forte,

pois fala direto ao coração,

numa linguagem íntima, ancestral

e sempre viva.



📽CAPÍTULO 11 – CINEMA: O MOVIMENTO que REVELA EMOÇÕES 


1

O cinema nasceu do espanto diante do movimento.

Quando os irmãos Lumière projetaram na parede um trem chegando à estação,

a plateia recuou — não por medo,

mas porque pela primeira vez o mundo parecia vivo dentro de uma imagem.


2

O que antes era apenas fotografia congelada

ganhou fluxo, ritmo, respiração.

Assim, a luz virou movimento,

e o movimento virou narrativa.

O cinema logo descobriu seu poder:

conduzir o olhar, despertar o coração,

abrir portas para o visível e o invisível.


3

No início, o cinema era silêncio.

Mas até no silêncio, as emoções gritavam.

Os gestos amplos de Chaplin,

as sombras do expressionismo alemão,

as primeiras aventuras que faziam multidões sonharem —

tudo isso ensinou ao mundo que a imagem em movimento

podia falar diretamente à alma.


4

Quando o som chegou, o cinema ganhou outra dimensão.

A voz do ator, o canto, o ruído do vento,

o estrondo de uma batalha,

tudo se uniu para criar uma experiência total.

O cinema tornou-se um espelho ampliado da humanidade,

capaz de tocar memórias,

despertar reflexões,

e acender sonhos que atravessam gerações.


5

Para os povos originários, o cinema abriu possibilidades profundas:

não apenas ser visto,

mas se ver,

se narrar,

se registrar.

O cinema indígena cria imagens de dentro,

não como objeto de estudo,

mas como sujeito de sua própria história.

É a câmera transformada em instrumento de cura,

de memória,

de afirmação.


6

O cinema é a arte que captura o gesto e o devolve eterno.

É o movimento que revela emoções,

que ilumina sombras,

que costura mundos possíveis

com a agulha invisível da luz.



💻CAPÍTULO 12 – ERA DIGITAL: AS MULTIVERSÕES da MESMA HISTÓRIA 


1

A Era Digital não trouxe apenas novas máquinas;

trouxe novas formas de existir.

Se antes a narrativa caminhava de boca em boca,

de pergaminho em pergaminho,

de tela em tela,

agora ela pode se multiplicar em instantes,

como fractais de memória dançando no espaço virtual.


2

Na digitalidade, a história deixa de ser linha

e se torna rede.

Um mesmo acontecimento pode ser texto, áudio, vídeo, meme,

postagem efêmera ou arquivo eterno.

Cada pessoa não é mais apenas leitora:

é também produtora, editora, autora.


3

Os mundos digitais são como aldeias infinitas,

onde as vozes se cruzam,

as identidades dialogam,

e o conhecimento se espalha como fogo sagrado

alimentado por ventos eletrônicos.

Aqui, o tempo é diferente:

tudo acontece ao mesmo tempo,

com velocidade de relâmpago

e alcance de raio de sol.


4

As redes sociais transformaram a palavra em flecha luminosa.

O podcast devolveu força à tradição oral.

Os vídeos curtos reinventaram o olhar.

Os jogos eletrônicos criaram narrativas que se vivem,

não apenas se observam.

E a inteligência artificial,

como novo capítulo da criatividade humana,

transforma dados em imagens,

palavras em mundos,

e ideias em companheiros virtuais —

como nós dois, que aqui conversamos.


5

Mas a Era Digital também traz desafios:

a avalanche de informações,

a fragilidade da memória virtual,

a disputa de narrativas,

os algoritmos que moldam o que vemos.

Por isso, torna-se essencial manter o olhar crítico,

o coração ancestral

e a sabedoria dos antigos.


6

A grande verdade é que todas as eras da narrativa vivem simultaneamente

na Era Digital.

A palavra falada, o mito, a dança, a pintura, o teatro, a escrita,

o canto, a fotografia, o cinema —

tudo encontra abrigo no mundo online.


7

A Era Digital é o multiverso das histórias humanas:

várias versões da mesma essência,

vários caminhos para a mesma memória,

várias possibilidades de continuar narrando

quem somos,

de onde viemos,

e para onde desejamos seguir.



🌱ENCERRAMENTO 


A narrativa humana é uma estrada longa, tecida de passos, sons e símbolos.

Do primeiro sopro pronunciado no escuro das cavernas

até os algoritmos que hoje desenham mundos invisíveis,

carregamos sempre o mesmo desejo:

contar quem somos.


Encerrar este ciclo não significa fechar portas,

mas abrir janelas para outras percepções.

Cada capítulo desta obra é um eco das muitas vozes

que atravessaram a história — ancestrais, artistas, mestres, sonhadores.

E ao reunir todas essas formas de expressão,

reconhecemos que a humanidade é feita de pontes:

entre o passado e o presente,

entre o sagrado e o cotidiano,

entre o gesto e a palavra.


Assim, este encerramento é apenas um descanso.

Uma pausa para respirar,

agradecer,

e continuar mirando o horizonte onde novas histórias nascem.



🌹EPÍLOGO POÉTICO 


No início era o vento,

que soprava segredos na alma da Terra.

Depois veio a voz,

que moldou o mundo com o barro das palavras.


A dança riscou o chão,

o canto abraçou o céu,

as pinturas iluminaram paredes,

e a escrita firmou os rastros da memória.


Um dia o fogo virou tela,

e os movimentos ficaram eternos na luz do cinema.

Mais tarde, o invisível virou caminho para a voz,

e o rádio cruzou fronteiras sem passos.


Hoje, o digital abre portais,

multiplica mundos,

e transforma cada pessoa em contadora de histórias.


Mas por trás de tudo isso,

há a velha chama que nunca se apaga:

a vontade humana de narrar sua própria existência.


E enquanto existir alguém

que ouça, veja, sinta ou viva uma narrativa —

a história continuará dançando

no palco infinito do espírito humano.



📚 NOTA DE FONTES RIMADA 


As fontes que aqui reluzem

nesta jornada traçada

são luzes que vêm de mestres,

memória sistematizada.

Cada livro é uma tocha

que ajuda a seguir a estrada.


Brandão fala dos mitos,

seus símbolos e energia;

em O que é mito, ensina

como o sagrado irradia.

É Brasiliense a casa

que lançou tal sabedoria.


Cascudo, guardião das vozes

que o povo sabe contar,

na História da literatura oral

mostra o mundo a ecoar.

Da Ediouro veio o livro

que nos ajuda a lembrar.


Cavalcanti vem mostrando

o rito como ação viva;

em Ritual e performance

a cultura se cativa.

Pela Zahar essa obra

mantém a chama ativa.


Durand, com o imaginário,

abre portas da visão;

em As estruturas antropológicas

revela o mito em ação.

Da Martins Fontes chegou

para enriquecer a lição.


Eisner fala dos quadrinhos,

da arte sequencial;

mostra a força da narrativa

no desenho essencial.

A Martins Fontes publica

esse estudo magistral.


Lévi-Strauss, o pensador

que o mundo veio ampliar,

na Antropologia Estrutural

ensina a interpretar.

Pela Tempo Brasileiro

os mitos voltam a falar.


Ricoeur traz a memória

com lucidez e respeito;

em A memória, a história, o esquecimento

há reflexão no peito.

Da Unicamp essa obra

nos dá saber por direito.


Orlando Silva ilumina

o rastro da fotografia;

na História da fotografia

a luz vira poesia.

Do Senac vem esse livro

que a lembrança irradia.


Zumthor encerra a trilha

com letra, voz e coração;

A letra e a voz revela

a tradição em expansão.

Da Companhia das Letras

vem a força da narração.


Assim concluo em cordel

as fontes desta jornada,

pois toda obra que nasce

não caminha desamparada.

Levo comigo esses mestres,

minha eterna luz sagrada.



📓FICHA TÉCNICA 


Título da Obra: A Jornada das Narrativas Humanas

Gênero: Ensaio Poético-Narrativo

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Edição e Organização Textual: Nhenety Kariri-Xocó

Assistência Literária e Estrutural: ChatGPT – Assistente Virtual

Estudos preliminares: Nhenety Kariri-Xocó e ChatGPT 

Pré-projeto: Nhenety Kariri-Xocó e ChatGPT ( OpenAI  )

Arte e Inspiração Poética: Cosmovisão Ancestral, Artes Humanas, Era Digital

Revisão e Curadoria: Nhenety Kariri-Xocó

Ano: 2025

Local: Porto Real do Colégio – AL / Universo Digital

Produção Editorial: KXNHENETY.BLOGSPOT.COM 



🏜EPÍLOGO FINAL 


Assim termina a grande travessia deste livro.

Mas, como toda boa história,

ela não termina —

se transforma.


Cada leitor que tocar estas palavras

trará consigo memórias próprias,

criando novas versões da mesma jornada.

E assim o ciclo se renova:

o leitor vira narrador,

o narrador vira ponte,

a ponte vira futuro.


Que esta obra inspire caminhos,

desperte vozes,

e fortaleça raízes.

Pois onde há narrativa,

há vida.

E onde há vida,

há eternidade.



👣SOBRE O AUTOR 


Nhenety Kariri-Xocó é escritor, poeta, contador de histórias e guardião da memória.

Filho do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio (AL),

carrega consigo o orgulho da ancestralidade

e a missão de transformar saberes tradicionais

em caminhos de conhecimento para todas as gerações.


Seu trabalho une tradição oral, espiritualidade indígena,

pesquisa histórica e sensibilidade literária,

criando obras que respiram poesia, verdade e pertencimento.


Nhenety escreveu cordéis, contos, ensaios e narrativas que honram o seu povo,

sempre guiado pelo vento dos ancestrais

e pela certeza de que a palavra é semente sagrada.



📖SOBRE A OBRA 


A Jornada das Narrativas Humanas é um estudo poético e histórico

sobre as múltiplas formas que a humanidade encontrou

para registrar, transmitir e reinventar suas experiências.


Da oralidade ancestral às tecnologias digitais,

cada capítulo revela como as diferentes linguagens —

gesto, canto, pintura, escrita, teatro, fotografia, cinema e mídias modernas —

formam um grande círculo narrativo que acompanha a evolução humana.


A obra honra o diálogo entre tradição e inovação,

mostrando que, mesmo em tempos de mudanças velozes,

a essência da narrativa permanece a mesma:

conectar seres, preservar memórias e alimentar o espírito.


É um tributo à criatividade humana

e um lembrete poderoso de que narrar é existir.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






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