segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

WOHOERÁ NATIÁ – O QUINTAL DE INDAIÁ E NAMOÂNY






Na antiga Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, havia uma Erá, uma casa simples, mas viva, porque atrás dela pulsava o Wohoerá Natiá, o quintal na aldeia onde as mulheres conversavam com a terra.


Ali moravam Indaiá, mulher de mãos firmes e olhar sereno, e sua filha Namoâny, ainda jovem, mas já atenta aos sinais da natureza. Todas as manhãs, antes que o sol se erguesse por completo, as duas caminhavam descalças pelo quintal, sentindo o frescor da terra acordando.


— A terra fala cedo, Namoâny — dizia Indaiá. — Quem aprende a ouvir, cura.

O Wohoerá era amplo e bem cuidado. Perto da casa, as Ubudzoá, plantas medicinais, cresciam em canteiros organizados pelas mãos de Indaiá. Ela ensinava à filha os nomes e os usos, não apenas como remédio, mas como respeito.


— Esta é a Ainpeân, arruda, protege a casa e o espírito.


— A Jpâkuaçû, erva-cidreira, acalma o sono inquieto.


— A Caacica, mastruz, fortalece o peito e devolve o fôlego.


Namoâny aprendia observando. Sabia que não se colhe uma folha sem pedir licença, nem se prepara um chá sem intenção boa.

Entre os canteiros, passeavam os Keríerá, animais domésticos criados com cuidado feminino. O Bucuté, cão fiel, seguia Indaiá por todo o quintal; o Poió, gato atento, dormia à sombra da Bacobá; o Sabucá, galo altivo, anunciava o amanhecer; e o Kaplan, jabuti antigo, caminhava devagar, como quem guarda histórias mais velhas que a própria aldeia.


— Cada Keríerá tem um espírito — dizia Indaiá. — Eles cuidam da casa tanto quanto nós cuidamos deles.


Mais adiante estavam as Sutuá Uttihu, árvores frutíferas plantadas por gerações de mulheres. O Bucrenké, urucu, oferecia a cor do corpo e do ritual; o Mé, jenipapo, guardava o preto da pintura ancestral; o Akryte, caju, alimentava os dias de partilha; e o Obó, imbu, resistia aos tempos difíceis, ensinando paciência e força.


No fundo do quintal ficava a Uanhí Tdjeá, a lavoura. Indaiá mostrava a Namoâny como plantar o Madiki, a mandioca, com tempo e silêncio; o Ghinhé, feijão, que cresce em conjunto; e o Masiche, milho, que une famílias em colheita e festa.


— Mulher é raiz, filha — dizia Indaiá, enquanto cobria as sementes com a terra. — Quando cuidamos do Wohoerá, cuidamos do povo inteiro.


Namoâny guardou aquelas palavras como se guarda um colar antigo. Com o passar dos anos, ela entendeu que o quintal não era apenas espaço atrás da casa, mas um lugar de memória, cura e continuidade.


E assim, enquanto existirem mulheres como Indaiá e Namoâny, o Wohoerá Natiá continuará vivo — ensinando, curando e sustentando o povo Kariri-Xocó, em silêncio, junto à terra.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó





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