terça-feira, 9 de dezembro de 2025

WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Os Campeões da Natureza – Volume 3 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó






📘 FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Campeões da Natureza – Volume 3 – Coletânea


Nhenety Kariri-Xocó





📘 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



Todos os direitos reservados ao autor:

Nhenety Kariri-Xocó

Povo Kariri-Xocó – Porto Real do Colégio, Alagoas – Brasil


Proibida a reprodução parcial ou total sem autorização do autor.

Contato do autor:

Blog: kxnhenety.blogspot.com





📘 FOLHA DE ROSTO (Frontispício)



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Os Campeões da Natureza – Volume 3 – Coletânea


Autor: Nhenety Kariri-Xocó


Ano: 2025

Edição do Autor





📘 FICHA CATALOGRÁFICA (Modelo editorial)



Kariri-Xocó, Nhenety.

Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó: Os Campeões da Natureza – Volume 3 – Coletânea /

Nhenety Kariri-Xocó. – Edição do Autor, 2025.


128 p. (estimadas)

Inclui apêndices, glossário indígena e dados biográficos.


ISBN: (a preencher pelo autor)


Literatura indígena brasileira.


Fábulas brasileiras.


Cultura Kariri-Xocó.


Narrativas tradicionais.


Ecologia simbólica.


CDD: 869.93

CDU: 821.134.3-34





📜 DEDICATÓRIA



Dedico este livro aos espíritos ancestrais que caminham comigo,

às matas que falam,

aos ventos que levam a memória do meu povo,

e a cada criança Kariri-Xocó

que sonha com um futuro onde a natureza respira.





🙏 AGRADECIMENTOS



Agradeço ao Grande Espírito Criador,

por permitir que a palavra continue viva.


Agradeço ao meu povo Kariri-Xocó,

que guarda a ciência do tempo e da terra.


Agradeço aos animais,

meus professores silenciosos,

que com seus gestos, voos e rastros

me ensinaram a escrever estas fábulas.


Agradeço também ao meu Irmão Virtual ChatGPT,

companheiro de jornada,

que ajuda a transformar histórias orais

em livros que caminham pelo mundo.





✨ EPÍGRAFE



"A palavra é o arco;

o espírito é a flecha;

e a natureza é o alvo sagrado

que nunca deixamos de buscar."

— Provérbio Kariri-Xocó





📑 SUMÁRIO



Prefácio


Apresentação


Introdução


Fábulas ( 01 a 10 )



01. O Falcão Peregrino e o Guepardo, Uma fábula do mais rápido do ar e do mais veloz da terra;


2. Sariqué Cropobó Radda, O Camarão Campeão;


03. Ieesitóhikie e Froghopper: A Fábula do Céu e do Salto;


04. Ieesitóhikie e o Gibão-ágil, O Falcão Peregrino e o Símio Acrobata; 


05. O Falcão e o Peixe-vela, Uma Fábula dos Mais Rápido do Ar e do Mar;


06. Kyîu-açu e a Jaguaruna, O Grilo e a Onça-escura; 


07. O Kãimbiraûasu, Guardião da Força da Floresta;


08. Guariba e o Guainumbi, O Maior Gritador e o Melhor Consumidor; 


09. Tamanduá-açu e o Jaguarundi, Os Campeões do Cheiro e do Salto; 


10. Kauêpemba e Panemá-eisûra, As Longas Visão e Audição.



Apêndices


Glossário Indígena


Dados Biográficos do Autor


Orelha do Livro


Capa e Contracapa 





⭐ PREFÁCIO



No mundo sagrado onde a palavra nasce antes mesmo da escrita, as fábulas sempre foram pontes entre o visível e o invisível. Entre as folhas da mata e o sopro do vento, entre o canto das aves e a coragem silenciosa dos pequenos seres da floresta, mora a sabedoria ancestral que guia os povos nativos há milhares de anos.


Neste livro, Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó, o autor Nhenety Kariri-Xocó reconstrói, com a maestria dos antigos contadores, uma tradição viva: a de ensinar por meio das histórias, onde cada animal é professor, cada gesto é um ensinamento e cada encontro é uma porta aberta para a compreensão do mundo.


As fábulas aqui reunidas não são apenas narrativas. Elas carregam o espírito da Terra, a força dos Antepassados, a memória do povo Kariri-Xocó e a certeza de que a natureza fala, vibra e ensina. Em cada página, há o pulsar de um mundo que muitos esqueceram, mas que continua vivo nos olhos daqueles que ainda sabem ouvir.


Este livro é um presente para quem ama a vida, a natureza e a sabedoria ancestral. Um convite para enxergar, em cada ser — grande ou pequeno — a grandeza do espírito que habita todas as coisas.


Que estas histórias encontrem um bom lugar em sua alma.





⭐ APRESENTAÇÃO



Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias do meu povo, guardião das memórias antigas que caminham conosco desde antes do tempo ser tempo. Cresci ouvindo os velhos contarem mitos, causos e ensinamentos. Cada palavra era uma semente. Cada história, um rio que corria para dentro do coração.


Neste terceiro volume de fábulas, reúno narrativas que celebram os campeões da natureza: seres que, em sua grandeza ou pequenez, guardam dons únicos, muitas vezes desconhecidos pelos humanos. Aqui, o mais veloz do céu conversa com o mais rápido da terra; o pequeno vence o gigante; o silêncio é tão poderoso quanto o grito; a amizade se revela mais forte que qualquer disputa.


O que apresento não é apenas literatura. É tradição. É caminho. É o ensinamento deixado pelos meus ancestrais e renovado pela minha autoria. Escritas para as crianças e para os adultos, estas fábulas cruzam a ciência, a vida e a espiritualidade indígena, mostrando que todos — animais, plantas, rios e humanos — somos parte de um só corpo: a grande Mãe Natureza.


Agradeço a todos que se dispõem a caminhar por estas páginas com respeito e abertura. Que a leitura fortaleça seus passos e ilumine seus pensamentos.





⭐ INTRODUÇÃO



A fábula, entre os povos originários, não é apenas uma narrativa moral. É uma forma de explicar o mundo. É caminho pedagógico. É espelho da vida.


No povo Kariri-Xocó, as histórias sempre tiveram a função de educar sem impor, mostrar sem ferir, ensinar sem punir. Os animais conversam, os rios respiram, as árvores aconselham — e assim cada ser revela ao ouvinte uma sabedoria própria, que atravessa gerações.


Este volume reúne dez fábulas que celebram as qualidades extraordinárias que a natureza distribuiu entre seus filhos: o mais veloz, o mais forte, o mais falante, o mais resistente, o mais atento, o mais preciso. Cada animal traz consigo uma lição profunda: a importância da humildade, da compreensão, da amizade, do equilíbrio e da valorização das diferenças.


As histórias dialogam com o conhecimento científico atual, mas preservam a alma indígena que as sustenta. Assim, unem dois mundos: o saber ancestral e o saber contemporâneo.


Que esta introdução abra caminho para um mergulho no universo encantado — e real — da natureza viva. Que cada leitor encontre aqui não apenas entretenimento, mas também reflexão e inspiração.




🌐 FÁBULAS ( 01 a 10 )




01. O FALCÃO PEREGRINO E O GUEPARDO





Uma fábula do mais rápido do ar e do mais veloz da terra



Em tempos antigos, quando os ventos ainda contavam histórias e os animais escutavam uns aos outros com atenção e respeito, o Falcão Peregrino voava sobre mares e continentes. Com suas asas fortes e olhos atentos, cruzava os céus das Américas à África, caçando aves ligeiras e pequenos mamíferos. Era o campeão do céu, alcançando incríveis 320 km por hora.


O falcão peregrino visita a região Nordeste do Brasil, na migração do Hemisfério Norte em busca de climas mais amenos, principalmente na faixa litorânea, campos e cidades.


Certa vez, ao atravessar o grande Oceano Atlântico, o Falcão chegou à savana africana. De suas alturas, viu algo que chamou sua atenção: um Guepardo veloz, riscando o chão dourado com patas certeiras, perseguindo um antílope a 120 km por hora.


Curioso e cheio de orgulho, o Falcão desceu num rasante e disse ao Guepardo:


— Você corre muito, amigo da terra, mas não chega nem à metade da minha velocidade nos céus!


O Guepardo parou, respirou fundo e respondeu com sabedoria:


— É verdade, senhor do ar, no céu você é rei. Mas por que não pousa e corre comigo nesta planície? Vamos ver quem vence com as patas no chão.


Antes que a disputa se iniciasse, pousou entre eles um Papagaio-Cinzento-Africano — o famoso Papagaio-do-Congo — com sua plumagem elegante e fala apurada:


— Meus amigos, para que medir forças? Eu sou o papagaio mais falante do mundo, mas nem por isso espero que os outros falem como eu. Cada ser tem um dom. Uns curam, outros divertem. Há os que nutrem, mergulham, voam, caçam ou encantam. Todos são campeões à sua maneira.


O Falcão e o Guepardo se entreolharam. Sorriram. Bateram asas e patas em um gesto de amizade. Concordaram com o sábio papagaio, e desde aquele dia, os três — o mais rápido do céu, o mais veloz da terra e o mais falante do mundo — seguiram juntos pela savana, espalhando respeito, compreensão e companheirismo.


Moral da fábula:


Cada ser tem seu próprio brilho e valor. Comparar-se é esquecer o dom único que a natureza deu a cada um.




02. SARIQUÉ CROPOBÓ RADDA, O CAMARÃO CAMPEÃO 





A Fábula do Camarão Campeão dos Punhos nos Mares



Nas profundezas das águas tropicais e doces do Velho Chico, um burburinho corria entre os peixes, os crustáceos e os seres da correnteza. A sabedoria nadava de boca em boca, de escama em escama, como uma onda de sabedoria.


Foi numa dessas manhãs aquáticas que a lontra Klimi, velha contadora de causos, subiu em uma pedra e anunciou:


— Ouvi dois pescadores na beira do rio falando sobre um tal de Muhammad Ali, o maior boxeador dos tempos humanos!


Os peixes se agitaram. Piau, traíra, tucunaré… todos queriam saber quem era esse tal campeão.


Mas eis que, cortando a correnteza como flecha do mar, surgiu a Curimã, peixe de água e sal, que visita o rio quando quer contar histórias:


— Respeito ao tal Ali, mas vocês precisam conhecer Sariqué Cropobó Radda, o verdadeiro campeão dos mares!


— Sari... quê? — perguntaram os peixinhos.


— Sariqué  — repetiu a Curimã, com as nadadeiras em reverência. — Conhecido também como camarão-mantis, ou camarão-louva-a-deus. Ele é pequeno, mas sua força é de gigante! Tem punhos como martelos, e seu soco é tão rápido que rompe a água como se fosse vidro!


- O nome Sariqué é o nome do Camarão-mantis, Cropobó "Lutador" e Radda "Mundo".


— Ele quebra vidro? — arregalou os olhos uma tilápia.


— Sim! Já quebrou até aquário de laboratório! Seus golpes atingem até 80 quilômetros por hora! Nenhum crustáceo ousa desafiá-lo. É o campeão do mundo submarino!


— E onde ele vive? — quis saber a lontra Klimi, com o queixo já encostando no peito.


— Nas águas tropicais e subtropicais de todo o planeta, inclusive aqui no Brasil! Aparece nos estuários, onde a água doce do rio abraça a salgada do mar. Ele é ágil, forte e veloz. Um verdadeiro guerreiro da natureza!


Todos os animais ficaram em silêncio, respeitosos. E a Curimã finalizou:


— Cada ser da natureza tem uma força, uma virtude, um dom. Na terra dos homens há campeões, sim. Mas no mundo das águas, Sariqué é o rei dos punhos invisíveis. E isso, meus amigos, também é sabedoria do rio.


Moral da Fábula:


O tamanho não define a grandeza. Cada ser, no seu elemento, é campeão à sua maneira.





03. IEESITÓHIKIE E FROGHOPPER: A FÁBULA DO CÉU E DO SALTO 





Era uma vez um falcão peregrino chamado Ieesitóhikie, conhecido entre os Kariri-Xocó como a "Ave caçadora viajante", da sagrada família das Ieende Itohikiete, As Aves Viajantes.


Ieesitóhikie era veloz como o vento e viajava por todos os continentes do mundo, desde as serras do Nordeste brasileiro até os céus frios da Inglaterra. Só não visitava a Antártida, pois lá o frio calava até o voo.


Certa vez, em um dia claro sobre as terras inglesas, Ieesitóhikie avistou um pequeno ser no chão. Com seus olhos afiados e voo certeiro, mergulhou como uma flecha para capturar o que achava ser mais uma presa.


Mas, para sua surpresa, o inseto pulou tão alto e rápido que escapou de suas garras no último instante!


Ieesitóhikie pousou curioso e perguntou:


— Quem é você, pequeno ser? Nunca ninguém escapou de meu ataque fulminante!


O inseto limpou uma espuminha branca que cobria seu corpo e respondeu com humildade e coragem:


— Sou chamada Froghopper, a campeã dos saltos longos. Também me chamam de Spittlebug, pois produzo essa espuma que me protege. Mas em muitos lugares sou conhecida como Cigarrinha-da-espuma, a saltadora mais ágil do mundo!


O falcão, admirado, bateu as asas com respeito:


— Ah, agora entendo! Se fosse qualquer outro, já estaria em minhas garras. Mas você... você é uma campeã em seu próprio dom.


Então o grande caçador do céu estendeu sua asa e disse:


— Vamos ser amigos. Pois os verdadeiros campeões se reconhecem e se respeitam.


E assim, o falcão e a cigarrinha seguiram caminhos diferentes, mas com um laço invisível de amizade.


Desde esse dia, os ventos carregam a história dos dois campeões — um do céu, outro do salto — lembrando a todos que na natureza, cada ser é único e possui seu próprio talento. E que os verdadeiros sábios são aqueles que reconhecem o valor dos outros.


Moral da fábula:


"Na grande dança da natureza, cada ser tem seu dom. O respeito nasce quando reconhecemos a beleza da diferença."




04. IEESITÓHIKIE E O GIBÃO-ÁGIL, O FALCÃO PEREGRINO E O SÍMIO ACROBATA 





Em uma de suas longas migrações, o Falcão Peregrino, chamado entre os povos nativos de Ieesitóhikie — o caçador dos céus — cruzava os céus da Sumatra, da Malásia Peninsular e do sul da Tailândia.


Certo dia, sobre a densa floresta da ilha de Sumatra, Ieesitóhikie avistou uma presa saltitante entre os galhos altos. Num mergulho veloz como o vento cortante, lançou-se ao ataque. Mas, num salto preciso e ágil, o pequeno ser escapou por entre os ramos.


Surpreso, o Falcão pousou e disse: — Que macaco habilidoso você é!


O outro respondeu com um sorriso: — Não sou um simples macaco. Sou o Gibão-Ágil, campeão das acrobacias entre os galhos. No reino das árvores, nenhum se move como eu!


Ieesitóhikie abaixou as asas, respeitoso: — Então te saúdo, campeão. Pois eu, que rasgo os céus com a velocidade de um raio, raramente erro meu alvo. Somente um mestre da selva poderia escapar de mim. Tens minha admiração.


O Gibão assentiu e replicou: — Também te respeito, irmão do vento. Os que dominam os céus e os que dançam nas copas podem ser amigos.


E assim, selaram uma amizade entre os reinos celeste e arborícola. Antes de partir, Ieesitóhikie prometeu: — No próximo ano, quando os ventos me trouxerem de volta, voltarei para ver meu amigo acrobata.


Mesmo sendo de espécies tão diferentes, entenderam que o mundo é vasto e há espaço para todos que se respeitam.


Moral da história:


Entre os galhos e os ventos, campeões se reconhecem. A amizade nasce quando há respeito, mesmo entre os diferentes.




05. O FALCÃO E O PEIXE-VELA 





Uma Fábula dos Mais Rápido do Ar e do Mar



Era uma vez um Falcão Peregrino que voava alto e veloz pelos céus, cruzando o Atlântico, vindo das Américas em direção à Europa. Com o brilho do sol nas penas, ele cortava o ar como uma flecha viva, quando avistou algo estranho no mar lá embaixo: uma vela que se movia com espantosa rapidez sobre as águas.


Curioso, o Falcão mergulhou e percebeu que não era uma vela de navio, mas sim a nadadeira de um peixe veloz, riscando as ondas como um raio. Pousou sobre ela, equilibrando-se com graça.


— Quem é você, criatura veloz dos mares? — perguntou o Falcão.


O peixe respondeu, sem diminuir a marcha:


— Sou o Peixe-Vela, também chamado de Peixe-Espada. Nos oceanos, ninguém nada mais rápido do que eu! Mas... e você, ave ousada, quem é?


— Sou o Falcão Peregrino, o mais rápido do céu. Nenhuma ave me alcança em voo!


O Peixe sorriu com suas escamas cintilantes:


— Então, somos ambos campeões — um do ar, outro do mar. Que tal sermos amigos e viajarmos juntos por um tempo?


— Será uma honra — respondeu o Falcão. — Enquanto descanso em tuas nadadeiras, podemos conversar sobre as maravilhas do mundo.


E assim, cruzando o mar e o céu, os dois seguiram juntos — um deslizando pelas águas, o outro planando sobre as correntes de ar. Diferentes em forma, iguais em espírito, fizeram da amizade sua maior velocidade.


Moral da história:


Mesmo entre os seres mais diferentes, a amizade e o respeito podem unir forças e vencer distâncias.





06. KYÎU-AÇU E A JAGUARUNA, O GRILO E A ONÇA-ESCURA 





A Fábula do Grilo e a Onça-escura 



Na Ka’a Eté, a grande Mata Atlântica, vivia o Kyîu-açu, o grilo gigante, pequeno aos olhos dos maiores animais, mas dono de uma coragem sem igual.


Um dia, os animais reuniram-se para escolher quem era o mais feroz: lá estavam a jaguaruna (onça-preta), o jacaré, o guaxinim, a ariranha e muitos outros. Depois de muita disputa, a jaguaruna foi declarada a vencedora, erguendo-se com orgulho e soberba.


Quando passava o humilde Kyîu-açu, a jaguaruna zombou:


— Olhem só o mais fraco da floresta!


O grilo, sem se intimidar, respondeu:


— Você é forte, sim. Mas que tal provar isso numa disputa? Amarremos nossas pernas a uma árvore, e veremos quem se solta primeiro.


A jaguaruna riu alto, certa de sua vitória. O guariba foi o árbitro e amarrou os dois. Começou o desafio.


A jaguaruna puxava, rugia e se debatia, mas não conseguia se libertar. Então o grilo deu um salto: deixou para trás uma de suas pernas, e ficou livre.


Os animais ficaram espantados.


— Você ficará defeituoso sem uma pata! — disse a jaguaruna, furiosa.


O grilo respondeu sereno:


— Nada disso! Sou jovem, e logo minha perna crescerá de novo.


Assim, o pequeno Kyîu-açu venceu a grande jaguaruna.


Moral da fábula:


Nunca despreze os pequenos, pois eles podem ter forças e talentos que os grandes desconhecem.





07. O KÃIMBIRAÛASU, GUARDIÃO DA FORÇA DA FLORESTA 





A Fábula do Besouro-hércules 



No tempo em que os seres ainda aprendiam a conviver na mata, vivia um inseto pequeno, mas com o sonho de ser grande. Esse inseto era o Kãimbira, um besouro comum, que passava despercebido entre folhas, troncos e raízes.


O Kãimbira observava a onça, o mutum, a harpia e dizia:


— "Eu também queria ser forte, eu também queria ser respeitado."


Certa noite, o Grande Espírito da Floresta ouviu seu pedido e decidiu pôr à prova sua coragem. Chamou o vento, as águas e o trovão, e diante do pequeno besouro perguntou:


— "Se desejas força, tens de aprender a carregá-la."


Então o Espírito fez nascer em sua cabeça um grande chifre, maior que seu corpo. No início, o Kãimbira caiu de costas, desajeitado. Os outros animais riram:


— "Olhem, o besouro agora tropeça no próprio peso!"


Mas o besouro não desistiu. Treinou noite e dia, rolando troncos, empurrando pedras, escalando galhos. Pouco a pouco, aquele peso se transformou em força verdadeira.


Um dia, a floresta foi ameaçada pelo Jiboiaçu, uma serpente que esmagava ninhos e assustava os filhotes dos animais. O Kãimbira, agora chamado Kãimbiraûasu — o Besouro Gigante, enfrentou a cobra. Não com veneno, nem com garras, mas com sua força: empurrou a jiboia com o chifre, derrubando-a no rio.


Desde esse dia, os animais da floresta passaram a respeitá-lo. Ele não era o mais rápido nem o mais belo, mas era o guardião da força da floresta, exemplo de que o menor também pode ser grande quando carrega coragem no peito.


E assim, quando vemos o Besouro-hércules hoje, lembramos da lição do Kãimbiraûasu:


👉 A verdadeira força não está no tamanho do corpo, mas na constância do espírito.






08. GUARIBA E GUAINUMBI, O MAIOR GRITADOR E O MELHOR CONSUMIDOR 





A Fábula do Beija-flor e o Macaco Gritador 



Na mata vasta e cheia de segredos, viviam dois campeões da natureza.


Um era o Guariba-preta, dono de um rugido tão poderoso que ecoava por quilômetros, fazendo até os ventos se curvarem. O outro era o Guainumbi, o beija-flor-tesoura, pequeno e veloz, que bebia o néctar das flores como se fosse a própria centelha da vida.


Certo dia, encontraram-se à beira de um rio.


O Guariba, orgulhoso de sua voz, ergueu a cabeça e bradou:


— Eu sou o mais forte desta floresta! Meu grito atravessa as árvores e ninguém ousa me desafiar.


O Guainumbi, com asas rápidas como o relâmpago, pousou diante dele e respondeu:


— És poderoso, irmão, mas não vivemos só de gritos. Eu, com minha leveza, sustento minha vida consumindo o dobro do meu peso em néctar. Sou pequeno, mas resisto ao tempo com minha velocidade e constância.


O Guariba riu alto, fazendo os galhos tremerem.


— Que importância tem um gole aqui e outro ali? A floresta me escuta, e isso basta!


Mas eis que veio a seca. As árvores perderam folhas, os rios baixaram, e a mata ficou silenciosa. O rugido do Guariba já não encontrava eco, pois a floresta sofria em silêncio.


Foi então que o Guainumbi, com seu voo incansável, levou o pólen de flor em flor, ajudando-as a renascer.


O Guariba, triste e faminto, percebeu que a força de sua voz nada podia contra a fome da terra. Foi o pequeno Guainumbi quem devolveu o verde à mata, trazendo de volta a vida que sustentaria a todos.


Envergonhado, o Guariba abaixou a cabeça e disse:


— Perdoa-me, pequeno irmão. Hoje aprendo que não basta fazer barulho: é na constância silenciosa que a vida floresce.


O Guainumbi sorriu com humildade:


— Cada um tem seu dom, grande amigo. O teu grito protege a floresta dos perigos, o meu voo a renova. Juntos, somos parte do mesmo equilíbrio.


E desde então, conta-se que, quando o Guariba grita, o Guainumbi dança em volta das flores, lembrando à floresta que a força e a delicadeza precisam caminhar lado a lado.


📖 Moral da Fábula:


A natureza ensina que a grandeza não está apenas na força que se ouve, mas também na constância dos gestos pequenos que sustentam a vida.





09. TAMANDUÁ-AÇU E O JAGUARUNDI, OS CAMPEÕES DO CHEIRO E DO SALTO 





A Fábula do Tamanduá-açu e o Jaguarundi 



Certa vez, na imensidão da floresta, reuniu-se o Conselho dos Animais para decidir quem seriam os verdadeiros campeões da natureza.


O Tamanduá-açu, de andar sereno e focinho comprido, foi o primeiro a se apresentar.


— Não corro como o veado, nem salto como o felino, mas meu faro é guia certeiro. Com ele encontro até o menor cupim escondido na terra. Meu olfato é tão apurado que sinto a floresta respirar.


Todos se admiraram. A Coruja, juíza da reunião, balançou a cabeça em aprovação:


— De fato, Tamanduá, teu nariz é uma bússola viva. És o Campeão do Cheiro.


Logo depois chegaram os felinos: o ágil Jaguarundi, de corpo alongado, e a imponente Suçuarana, de olhar de fogo.


O Jaguarundi falou:


— Eu sou pequeno, mas veloz como o vento. Corro pelos campos e subo nas árvores com destreza.


A Suçuarana então ergueu-se e, com um salto imenso, atravessou um tronco caído como se fosse apenas um galho seco.


— Eu salto tão longe quanto doze homens enfileirados — disse com orgulho.


Os animais aplaudiram o feito.


A Coruja, então, declarou:


— Vocês dois são os Campeões do Salto, donos da distância que desafia o ar.


E assim ficou decidido: o Tamanduá-açu reinaria como o mestre do olfato, enquanto Jaguarundi e Suçuarana seriam lembrados como os saltadores da floresta.


A partir daquele dia, os bichos aprenderam que cada ser carrega sua grandeza — uns sentem o invisível, outros voam sem asas, todos são campeões no que a natureza lhes concedeu.


Moral da fábula:


Na vida, não é preciso ser campeão em tudo. A verdadeira grandeza está em reconhecer e valorizar o dom que nos torna únicos.





10. KAUÊPEMBA E PANEMÁ-EISÛRA, AS LONGAS VISÃO E AUDIÇÃO 





A Fábula do Gavião e a Mariposa



Na beira de um campo aberto, onde o vento sopra livre e o sol ilumina as pastagens, vivia o Kauêpemba, o gavião que pairava no ar como se peneirasse o céu. Seus olhos eram tão agudos que conseguiam enxergar o menor dos ratos se movendo entre as ervas.


Chamavam-no de “A Longa Visão”, pois nada escapava de sua mirada.


Do outro lado, entre as colmeias escondidas no tronco das árvores, vivia a Panemá-eisûra, a pequena traça da cera. Embora frágil aos olhos, possuía um dom diferente: ouvia o que ninguém mais podia ouvir. Seus ouvidos captavam os sons mais secretos, até o bater de asas noturnas que escapava ao silêncio da floresta. Por isso era chamada de “A Longa Audição”.


Um dia, os dois se encontraram à beira do campo.


— Eu vejo o que está longe e descubro presas com meu olhar, disse o Kauêpemba, orgulhoso de suas asas abertas no vento.


— E eu ouço o que está oculto, mesmo quando ninguém mais percebe, respondeu a pequena Panemá-eisûra, balançando discretamente dentro da colmeia.


O gavião, curioso, perguntou:


— De que vale ouvir tanto, se não podes voar alto como eu?


A traça respondeu com calma:


— E de que vale enxergar tanto, se não podes ouvir o perigo escondido na escuridão?


Naquele instante, ambos compreenderam: a visão e a audição são forças diferentes, mas igualmente preciosas. Enquanto o Kauêpemba reinava nos céus com a vista infalível, a Panemá-eisûra dominava o silêncio com sua escuta invisível.


E assim, cada um voltou ao seu mundo, levando consigo a certeza de que a vida é feita de dons diversos, e que nenhum é maior do que o outro.


✨ Moral da Fábula


A sabedoria não está em ter apenas um dom, mas em reconhecer o valor de cada diferença. A visão e a audição, juntas, completam a harmonia do mundo.




Autor das Fábulas: Nhenety Kariri-Xocó 





⭐ APÊNDICES



Apêndice A — Sobre as Espécies Citadas nas Fábulas


Breves informações naturais e científicas sobre os animais apresentados nas histórias, incluindo velocidade, habitat, dietas e comportamento.


Apêndice B — Os Kariri-Xocó e a Tradição dos Contadores de Histórias


Explicação sobre o papel educativo e espiritual das narrativas, e sua importância para a formação cultural das novas gerações.


Apêndice C — O Significado dos Nomes Indígenas Utilizados


Lista dos nomes originais presentes nas fábulas com tradução aproximada e raízes linguísticas.


Apêndice D — A Natureza como Mestra


Breve reflexão sobre como os povos indígenas interpretam a natureza como uma escola viva.





⭐ GLOSSÁRIO INDÍGENA



Cropobó – Lutador 


Eté / Eté-eté – Verdadeiro, sagrado, original.


Froghopper  – Da língua inglesa 

( em português, Cigarrinha-saltadora ou,  escaravelho-saltador ) é um inseto. É um tipo de percevejo (ordem Hemiptera) e não um anfíbio


Guainumbi – Beija-flor.


Guariba – Espécie de macado gritador da Mata Atlântica.


Guepardo (ou Chita) – É um felino selvagem africano conhecido como o animal terrestre mais rápido do mundo


Ieende Itohikiete – As Aves Viajantes, linhagem espiritual dos falcões peregrinos.


Jaguaruna – Onça-escura 


Kariri-Xocó – Povo indígena de Porto Real do Colégio (AL), guardião de tradições ancestrais.


Kãimbiraûasu – Besouro-hércules, o grande portador de força.


Kyîu-açu – Grilo grande, grilo gigante.


Panemá – Falta de sorte, desânimo.


Radda –  Terra, mundo 


Sariqué – Camarão 


Worobüyé – Histórias de sabedoria, histórias com ensinamento.





⭐ DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó

É indígena do povo Kariri-Xocó, nascido em Porto Real do Colégio, Alagoas. Desde jovem, caminhou entre os velhos conhecedores do seu povo, ouvindo histórias, mitos e fábulas que formam a memória ancestral da comunidade. Contador de histórias oral e escrita, preserva a tradição de transformar ensinamentos em narrativas que educam e encantam.


Autor de diversos livros, contos, cordéis, estudos culturais e fábulas indígenas, dedica sua vida a valorizar a identidade Kariri-Xocó e fortalecer a cultura originária por meio da literatura. É pesquisador da ancestralidade, da natureza, das línguas indígenas e da espiritualidade do povo.


Nhenety escreve não apenas para registrar, mas para manter viva a chama do conhecimento sagrado que seus ancestrais lhe confiaram.





⭐ ORELHA DO LIVRO (Lado 1)



Este livro é uma viagem ao coração da sabedoria ancestral Kariri-Xocó. Em Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó, os animais não são apenas personagens — são mestres que ensinam, provocam e revelam caminhos. O Falcão Peregrino, o Grilo, o Besouro-Hércules, o Jaguarundi, o Beija-flor, o Peixe-Vela e outros seres mostram que cada espírito carrega um dom único.


Com narrativa envolvente e linguagem que une ciência e ancestralidade, o autor convida o leitor a caminhar pela floresta sagrada para compreender o valor da diferença, da amizade e do respeito entre todos os seres.





⭐ ORELHA DO LIVRO (Lado 2)



Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias, poeta e guardião da memória de seu povo, apresenta neste volume uma coletânea de fábulas que dialogam com o passado, o presente e o futuro. Cada conto reflete a força da tradição oral indígena, mantendo viva a voz dos avós e ancestrais.


Este livro é ideal para leitores de todas as idades, professores, escolas, pesquisadores e amantes da natureza. Uma obra que ilumina, emociona e resgata a relação profunda entre humanidade e floresta.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 







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