sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, ALDEIA NA TERRA ANCESTRAL, Contos – Volume 18 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó.






📘 WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, ALDEIA NA TERRA ANCESTRAL



Contos – Volume 18 – Coletânea

Nhenety Kariri-Xocó





📄 FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ,

ALDEIA NA TERRA ANCESTRAL

Contos – Volume 18 – Coletânea

Nhenety Kariri-Xocó





📄 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



© 2025 – Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados ao autor.


É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização prévia do autor.





📄 FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)



WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ

ALDEIA NA TERRA ANCESTRAL

Contos – Volume 18 – Coletânea


Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – AL

2025





📚 FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)



Kariri-Xocó, Nhenety

Woroy História – Kariri-Xocó, aldeia na terra ancestral: contos – volume 18 – coletânea /

Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2025.


xx p. : il.


Inclui contos tradicionais, memórias orais e registros históricos da Aldeia Kariri-Xocó.


Cultura indígena.


Kariri-Xocó – História.


Contos tradicionais.


Memória oral indígena.


I. Título.





💛 DEDICATÓRIA



Dedico este livro aos meus ancestrais,

que abriram caminhos na terra e no tempo.

À minha família, que sustenta meu caminhar.

E ao povo Kariri-Xocó, que mantém viva a chama

do espírito, da memória e da resistência.





🙏 AGRADECIMENTOS



Agradeço aos encantos da mata,

ao sopro dos ventos antigos

e ao coração de cada ancião e anciã

que preserva nossa história.


Agradeço também aos meus irmãos e irmãs de caminhada,

à minha aldeia, ao Toré que nos fortalece,

e às mãos que moldam a cultura

com barro, canto e coragem.


E por fim, agradeço ao Grande Espírito,

que permite que cada palavra aqui escrita

flua como rio sagrado.





🔥 EPÍGRAFE



"A memória é a terra onde o povo planta seu futuro."

— Sabedoria Kariri-Xocó





📑 SUMÁRIO



Prefácio


Apresentação


Introdução



Contos


01.  As Sementes do Itiúba; 


02. Cipó Cururu, A Punição dos Peixes;


03. Kaie Tsehoá Uanieá, Dia dos Povos Indígenas; 


04. Dzurineiró, A Lagoa do Cordeiro; 


05. Coração da Terra, O Pajé Júlio Suíra e o Cacique Cícero Ireçê; 


06. Wanaí, O Sonho de Aldeia; 


07. De Fazenda Modelo para Aldeia Kariri-Xocó; 


08. As Primeiras Casas da Aldeia Kariri-Xocó; 


09. Tõbozu Ruñoyé, O Tatu no Pote Grande;


10. Wãmyrá, O Guardião do Cocal e da Memória Ancestral. 



Apêndices


Glossário Indígena


Dados Biográficos do Autor


Orelha do Livro


Contracapa





🌿 PREFÁCIO



A literatura indígena é feita de terra, memória e espírito. Cada conto deste livro nasce da vivência ancestral dos Kariri-Xocó, povo que atravessou séculos de luta e resistência na beira do Rio Opará. Aqui, as histórias não são apenas narradas — são vividas, cantadas, rezadas e dançadas.


Este volume, o décimo oitavo da coletânea Woroy História, reafirma a força da escrita indígena contemporânea e o compromisso do autor com sua própria ancestralidade. Ao mesmo tempo em que preserva tradições, Nhenety Kariri-Xocó renova a forma de contar, levando ao leitor a beleza do imaginário de seu povo.





🌄 APRESENTAÇÃO



Este livro reúne contos que dialogam com a história recente e ancestral da Aldeia Kariri-Xocó. Cada narrativa traz elementos da memória oral, da vida comunitária, da espiritualidade e das lutas territoriais que marcam o povo Kariri-Xocó.


As histórias apresentadas aqui preservam o universo simbólico da aldeia, fortalecem a identidade cultural e celebram a resistência dos que lutaram e lutam pela terra, pelo nome e pelo espírito do povo.





🌱 INTRODUÇÃO



A presente obra nasce como continuidade das tradições narrativas Kariri-Xocó. São contos que trazem o eco dos antigos e o sopro do novo. Histórias de retorno às raízes, reconquista da terra, preservação das águas e memória dos líderes espirituais e políticos do povo.


Nhenety Kariri-Xocó mergulha em sua própria vivência, em relatos de anciãos, em lembranças de infância e em episódios marcantes da aldeia, transformando tudo em narrativa que honra a verdade histórica e o espírito sagrado.





📘 CONTOS





01. AS SEMENTES DO ITIÚBA





Era tempo de águas generosas e de espíritos atentos aos sinais da terra. Muito antes das cercas e dos mapas, quando os passos dos antigos ainda desenhavam caminhos livres na várzea, o povo da Aldeia do Colégio vivia em comunhão com o rio e com os ventos do Baixo São Francisco.


Certo dia, os padres jesuítas chegaram com cruzes nas mãos e sementes nos alforjes. Entre elas, traziam o arroz — um grão branco, diferente, que precisava de chão alagado para crescer. Os anciãos estranharam aquela planta nova, mas as mulheres da aldeia, com sua sabedoria silenciosa, logo entenderam o que ela pedia.


— Esta planta fala com a água — disse Tupãcy, a mais velha das lavradoras, mergulhando as mãos nas margens da Lagoa Grande.


Os jesuítas ensinavam como plantar e colher, e os indígenas, em troca, mostravam onde a terra era mais fértil, onde a lagoa sonhava com arrozais. Era uma troca de saberes e silêncios, marcada por cantos ao amanhecer e mutirões ao cair da tarde.


Mas os ventos da história nem sempre sopram em harmonia. Quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, em 1759, deixaram para trás suas cruzes... e as sementes. O povo Kariri-Xocó permaneceu. E com eles, o arroz também ficou.


As mulheres, com seus panos coloridos à cintura e os pés firmes no barro sagrado, tomaram para si a missão de cultivar a várzea. As lagoas Grande e Comprida, e o coração molhado do Itiúba, tornaram-se campos de sustento e resistência.


Mas em 1876, a aldeia virou vila. Porto Real do Colégio recebeu esse nome, mas perdeu parte de sua alma. As terras dos nativos foram tomadas, lote por lote, e os indígenas passaram a cultivar arroz em terras alheias, como meeiros, entregando metade do que colhiam aos donos que agora mandavam.


Mesmo assim, não houve lamento, apenas continuidade. O arroz era mais que comida — era herança viva. E a memória foi se alastrando como água em várzea: silenciosa, mas poderosa.


Em 1944, como broto que insiste em nascer após a seca, os Kariri-Xocó foram reconhecidos novamente como povo indígena, e o Posto Padre Alfredo Dâmaso foi fundado. Uma chama se reacendeu. Três décadas depois, em 1975, o governo desapropriou parte das terras do Itiúba. Duzentas e cem famílias foram alocadas no projeto de irrigação — entre elas, quarenta famílias Kariri-Xocó.


Por um tempo, os arrozais voltaram a florescer sob o sol forte de Alagoas. Era como se o rio cantasse de novo em nossas veias.


Mas os tempos modernos têm outras vozes. A partir do ano 2000, o arroz perdeu espaço. A cana-de-açúcar e a psicultura tomaram os campos. Muitos deixaram a plantação ancestral.


Ainda assim, quem anda pela várzea em silêncio pode ouvir. Há cantos antigos no vento, há histórias gravadas nas mãos rugosas das mulheres que ainda lembram o cheiro do arroz recém-colhido. E o povo Kariri-Xocó permanece, com a memória de suas sementes guardada como joia nas entranhas da terra.


— Este arroz tem gosto de nossa história — dizem os mais velhos.


E assim, entre lembranças e lutas, floresce este conto. Um registro vivo, como as águas que ainda irrigam o coração de Itiúba.





02. CIPÓ CURURÚ, A PUNIÇÃO DOS PEIXES 


 




Muito antes dos cercados, das comportas e da ganância dos homens, a terra era um grande tapete de mata viva. O Rio São Francisco serpenteava livre, sem barreiras, sem amarras, alimentado pelas nascentes de seus afluentes. Era o sangue da terra, levando vida a muitas aldeias espalhadas pelo vale. As lagoas ao longo do rio se enchiam nos tempos certos, como antigas mães acolhendo os filhos. Os peixes cresciam ali, e mais tarde retornavam ao rio para se multiplicar e perpetuar o ciclo da natureza.


Durante muitos invernos, assim foi. Até que os homens brancos chegaram pelo oceano.


Vieram aos poucos. Depois, como uma enchente que não respeita margens, ocuparam ambos os lados do rio. Trouxeram armas, fé imposta e correntes. Escravizaram, mataram, empurraram os povos originários para longe. Os que resistiram, tombaram. Os que fugiram, se embrenharam para o norte. E os que ficaram... esses viram as lagoas sendo cercadas, as águas represadas, os peixes aprisionados.


Entre essas lagoas havia uma chamada Coité. Nela, um branco conhecido por Machado ergueu uma comporta. Os peixes que vinham do rio ficavam presos ali, como ouro escondido em cofre. E certo dia, o velho Giló, índio acostumado à liberdade, foi até a Lagoa Coité com sua tarrafa, buscando o sustento de sempre.


Machado o viu e, sem piedade, o expulsou aos gritos e pancadas. Disse que aquela terra agora tinha dono, e peixe ali só seria tirado com sua permissão. Giló, ferido no corpo e na alma, voltou à aldeia calado, levando consigo a dor e a humilhação.


Passaram-se algumas luas. Enquanto seu corpo cicatrizava, Giló ruminava a mágoa. E então, lembrou-se de um velho segredo da mata: o cipó Cururú, mais venenoso que o Tinguí. Segundo os antigos, seu leite branco afugenta até os peixes, e sua casca se parece com a pele gosmenta do sapo cururu, de onde herdou o nome.


Silencioso, Giló fez uma rodilha com o cipó e, certa noite, enterrou-a no lodo da Lagoa Coité. Em poucos dias, os peixes começaram a sumir. Os que ficaram, morreram. A água virou silêncio. Por sete anos, a lagoa permaneceu vazia, estéril, como se carregasse luto. Machado, agora dono de uma poça inútil, desesperou-se. Lamentou o que fizera, reconheceu sua injustiça.


Foi então que mandou chamar o velho índio. De olhos baixos, prometeu-lhe que, se os peixes voltassem, ele poderia pescar ali sempre que quisesse. Naquela mesma noite, sem que ninguém visse, Giló mergulhou na lagoa e retirou a rodilha de cipó.


Com o tempo, os peixes voltaram. O ciclo da natureza se restabeleceu. Mas o velho Giló, mesmo podendo lançar sua tarrafa outra vez, carregava no olhar o que verdadeiramente desejava: uma lagoa livre, correndo para o rio, como nos tempos antigos.






03. KAIE TSEHOÁ UANIEÁ, DIA DOS POVOS INDÍGENAS  





Conto Sobre O Dia do Índio



Era no tempo do calendário dos brancos, por volta do ano de 1970, quando os ventos sopravam mudanças e os espíritos dos antigos ainda cantavam no fundo da mata e das lagoas.


Na aldeia Kariri-Xocó, ali na Rua dos Índios, o sol já clareava o terreiro quando chegou a notícia: o chefe Ademir, do Posto Indígena da FUNAI, queria falar com o cacique Otávio e com o pajé Francisco Suíra. Os dois homens respeitados, com seus passos firmes e olhar sábio, foram até o chefe.


— Chamei os senhores para dizer que gostaria de fazer uma festa para vocês — disse Ademir, com a fala cheia de vontade.


O cacique Otávio franziu a testa, coçou o queixo e perguntou com firmeza:


— Festa de quê?


Ademir respondeu com entusiasmo:


— Para comemorar o Dia do Índio, agora todo 19 de abril.


O pajé Francisco Suíra, com a calma dos que escutam o vento e a terra, levantou a mão, pediu licença e falou:


— Olhe, seu Ademir, aqui nunca fizemos festa de Dia do Índio não. A escola fala disso pros meninos, mas nós nunca comemoramos.


Ademir insistiu:


— Pois é por isso mesmo. Agora vamos fazer uma festa bonita, com a aldeia toda, e divulgar na cidade. O povo precisa saber que os indígenas têm seu dia, e precisam ser respeitados.


A conversa espalhou-se como fumaça de toré. A aldeia se levantou com alegria. As mulheres prepararam os trajes, os homens cuidaram das pinturas, as crianças observavam encantadas. Cocar de penas, tangas de palha feitas do junco das lagoas, pinturas nos corpos, arcos e flechas enfeitados. Toda a Rua dos Índios foi ornada como se os encantados viessem visitar.


No dia marcado, o padre Hidelbrando rezou uma missa ali mesmo, na porta da escola. Depois, ao som dos maracás e do toré, o povo seguiu pelas ruas da cidade de Porto Real do Colégio. Visitaram os amigos, passaram pelas autoridades e foram recebidos com alegria por muitos moradores. Era como se, por um dia, a cidade parasse para escutar o coração indígena bater.


Na língua ancestral, aquele dia ficou marcado como Kaie Tseho, o "Dia do Índio". Mas os tempos mudaram, e com a Lei 14.402 de 2022, nós Kariri-Xocó passamos a dizer Kaie Tsehoá Uanieá, "Dia dos Povos Indígenas", honrando a diversidade de cada nação originária desse chão.


Mas ali, naquele primeiro dia de festa, ficou no coração do povo como o Toré do Mestre Junça — porque as tangas eram feitas do junco aquático das lagoas. Foi um dia que brilhou como fogo sagrado na memória dos Kariri-Xocó.


E assim foi escrita, não só com palavras, mas com passos, cantos, gestos e flechas, a história do nosso Dia dos Povos Indígenas.






04. DZURINEIRÓ, A LAGOA DO CORDEIRO 





Entre duas lagoas vivia uma rua antiga, conhecida como Rua dos Índios. Atravessava o mundo de oeste a leste, como se fosse um caminho sagrado entre águas. De um lado, a grande Dzuriyé; do outro, mais próxima, a Lagoa do Cordeiro, chamada pelos mais velhos de Dzurineiró.


Dzurineiró era mais do que um espelho d’água. Era ventre, era alimento, era infância e memória. Ficava tão perto das casas dos indígenas que parecia fazer parte de cada quintal. Ali, homens pescavam quando o Rio Opará — o poderoso São Francisco — transbordava entre novembro e janeiro. Crianças corriam em volta da lagoa, inventando mundos em suas brincadeiras, caçando, jogando bola. As mulheres criavam galinhas, porcos, e colhiam o necessário para alimentar seus filhos.


E havia um velho companheiro silencioso: um pé de umari, árvore frutífera de sombra generosa. Nos tempos difíceis, quando a fome rondava os lares, era ele quem oferecia seus frutos amarelos. As mães cozinhavam os umaris com carinho e os partilhavam entre as famílias, como se o próprio tempo tivesse guardado alimento nas raízes.


O lado norte e leste da lagoa pertencia aos quintais indígenas. O lado oeste e sul, aos brancos da cidade de Porto Real do Colégio. Mas era na parte indígena que Dzurineiró vivia em plenitude. Era livre, aberta, acolhedora. Até que o tempo chegou com seus dentes de ferro e cimento. Com a criação da cidade, vieram as cercas, os muros, e as tomadas de terra.


A comunidade perdeu muito. Perdeu casas, caminhos, espaços de brincar, de rezar, de plantar. Perdeu, inclusive, a lagoa. Mas não perdeu a memória.


E o velho pé de umari? Ah, esse ficou.


Mesmo quando os Kariri-Xocó foram morar na Fazenda Modelo, o umari permaneceu como guardião. De pé, silencioso, vendo o tempo passar. Testemunha das partidas e dos retornos. Guardião da esperança.


Até hoje, quem passa por ali sente que há algo mais naquela árvore. Não é só raiz. É história. É espírito. É resistência.






05. O CORAÇÃO DA TERRA, O PAJÉ JÚLIO SUÍRA E O CACIQUE CÍCERO IREÇÊ 





Sob o céu sagrado do São Francisco, onde o vento leva os cânticos antigos e as águas sussurram os segredos dos ancestrais, nasceu uma história de coragem e esperança.


Francisco Suíra era mais que um pajé. Era guardião da sabedoria, mestre dos cantos sagrados e defensor da vida. Seu espírito conversava com as folhas e com os rios, e sua voz, firme e serena, guiava os passos da comunidade Kariri-Xocó. Ao lado dele, o cacique Cícero Ireçê, homem de fala reta e coração forte, lutava pelo futuro do povo, empunhando não armas, mas a palavra justa.


Quando os ventos da história sopraram a oportunidade de reconquistar a Fazenda Modelo, os dois líderes ergueram seus bastões de comando com dignidade. Foi uma longa jornada. Reuniões, viagens e esperas. Anos se passaram, e com a idade avançando, o velho pajé Francisco Suíra sentiu que era hora de passar o bastão. Chamou então seu filho: Júlio Suíra.


Júlio não herdou apenas o nome, mas o dom e o compromisso com a terra e com os espíritos. Assumiu o papel com humildade e coragem. Ao lado do cacique Cícero Ireçê, que permanecia firme como tronco de angico, seguiram juntos numa nova caminhada. As estradas até Brasília pareciam infinitas, mas cada passo era guiado por um propósito: fazer florescer o futuro dos filhos da terra.


Ali, diante dos muros frios do poder, os dois guerreiros de palavra contaram a história do povo Kariri-Xocó, exigiram respeito e pediram reestudo das terras. Com sabedoria, não cederam ao cansaço. A demarcação, sonhada por gerações, começou a tomar forma. Da antiga área de 699,9 hectares, surgiu uma nova proposta: 4411 hectares. Um salto, uma vitória plantada com fé e colhida com coragem.


O presidente Lula homologou a terra, mas ainda faltava o último passo: a saída dos posseiros. A terra estava prometida, mas não totalmente devolvida. Mesmo assim, a esperança renascia.


Na aldeia, os mais velhos contavam para os mais novos:


— Cada geração faz sua história. A nossa tem nomes gravados na memória da terra: Pajé Júlio Suíra e Cacique Cícero Ireçê.


Seus feitos não estão apenas nos documentos oficiais, mas nos tambores do toré, nos cantos do entardecer, nos olhos das crianças que crescem sabendo que o chão onde pisam foi conquistado com dignidade.


O legado desses homens é motivo de orgulho. Eles não apenas lutaram por terras — lutaram por identidade, memória e vida.


E enquanto o vento ainda sopra sobre as folhas do jenipapeiro, pode-se ouvir, com o coração atento, o canto ancestral:


— A terra vive, e nós vivemos com ela.






06. WANAÍ, O SONHO DE ALDEIA 





Um Conto do Sonho



Na beira da cidade, onde o cimento engole a terra e o barulho cala os cantos antigos, vivia o povo Kariri, na Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, Alagoas. A vida ali era apertada, abafada, sem espaço para os sonhos crescerem. Não havia terra para plantar, nem barro para moldar os potes da tradição.


Ali, no meio da luta calada, nasceu uma menina.


O ancião Iraminõ, com os cabelos brancos como a fumaça do cachimbo sagrado, segurou a criança nos braços e disse em voz firme:


— O nome dela será Wanaí, que em nossa língua vem de warakidzã, o sonho, e natiá, a aldeia.


Wanaí, o Sonho de Aldeia, cresceu ouvindo histórias sobre tempos antigos, quando seu povo andava livre, pescava nos rios, colhia frutos da mata e cantava Toré ao redor da fogueira, com os pés firmes na terra dos ancestrais.


Durante três invernos, a esperança se enraizou como semente guardada. Em 1978, os Kariri e os Xocó, juntos como irmãos, decidiram retomar a Fazenda Modelo — antiga terra dos seus avós, tomada pelos brancos há gerações.


Foi ao som do Toré que marcharam, levando Wanaí pela mão, como se ela fosse o próprio futuro caminhando entre eles. E ela era. A menina-símbolo, a luz entre os passos, o sonho encarnado de uma nova aldeia.


Um dia, a notícia chegou: o governo federal reconheceu a luta.


A terra dos antepassados, enfim, voltaria a ser morada dos seus filhos. A Nova Aldeia Kariri-Xocó começava a nascer.


O tempo passou, como o rio corre entre pedras. Wanaí tornou-se mulher e casou-se com Nhenety, guerreiro contador de histórias. Tiveram quatro filhos, e agora, já com cabelos prateados, Wanaí e Nhenety sentam com os netos sob a sombra do juazeiro, contando as memórias vividas.


— O sonho, warakidzã, nunca morre — diz Wanaí. — Ele vive na aldeia, no barro das ceramistas, na terra arada, nas escolas que ensinam a nossa língua, nas crianças que brincam com arcos e flechas, no canto do Toré.


Hoje, a aldeia cresceu. Tem escola, tem creche, tem posto de saúde. Tem o cheiro do barro molhado das lagoas, transformado em potes e arte.


Mas acima de tudo, a aldeia tem o que sempre sonhou:


Wanaí.


O sonho que virou chão, canto, e lar.






07. DE FAZENDA MODELO PARA ALDEIA KARIRI-XOCÓ





Conto de memória por Nhenety Kariri-Xocó


Naquela manhã morna de outubro, os primeiros raios de sol atravessavam o véu da mata, banhando a velha estrada de terra com luz dourada. As folhas dos eucaliptos sussurravam segredos antigos, como se saudassem os passos firmes de um povo que retornava à terra dos sonhos.





Os Kariri-Xocó saíram do ritual do Ouricuri com o coração aquecido e a alma acesa. Era 31 de outubro de 1978. Mas, naquele dia, algo estava diferente. Não voltaram à Rua dos Índios, onde viviam havia tantos anos. Tomaram um novo rumo. Um rumo antigo.


A caminhada foi silenciosa, mas carregada de força. A cada passo, os mais velhos sentiam o chão reconhecer seus pés. O destino era a Fazenda Modelo, aquela terra outrora arrancada de suas mãos, mas jamais esquecida.





Por décadas, a Fazenda Modelo foi chamada por muitos nomes: Campo Experimental das Plantas Têxteis em 1924, Campo das Sementes nos anos 1940, Fazenda Escola em 1952, e, por fim, Fazenda Modelo até 1978. Nomes impostos por outros, funções criadas sem consulta, mas a terra... ah, a terra sempre soube a quem pertencia.





Ali havia o portão de ferro que rangia como se lamentasse o tempo, a casa grande silenciosa, os antigos galpões de madeira, a escola esquecida entre árvores frutíferas, a baía e a maternidade, os tanques da piscicultura, os quartos dos antigos funcionários e o mirante da caixa d’água. Tudo ali contava histórias, tudo ali esperava por um novo tempo.


Os Kariri-Xocó entraram como quem reencontra um parente perdido. Não foi uma invasão, foi um retorno. As crianças correram pelos campos, os mais velhos tocaram nas paredes e choraram baixinho. As árvores, com seus galhos antigos, pareciam inclinar-se em reverência. A memória dos antepassados sorria naquele vento quente.


Naquela terra havia dor, sim. Havia o registro histórico de quando, entre 1924 e 1932, o governo havia expropriado as terras indígenas, vendendo-as a colonos. Mas também havia resistência. A terra guardava em silêncio a esperança enterrada por gerações. E ali, em 1978, essa esperança brotou de novo, viva e forte.





Naquele 31 de outubro, a Fazenda Modelo deixou de ser apenas lembrança. Tornou-se novamente lar. E ali, nas proximidades da Rua dos Índios e da cidade de Colégio, nasceu a Nova Aldeia Kariri-Xocó. Um marco. Um gesto de reconquista. Um recomeço.



Hoje, ao descrever esses fatos, sinto que revivo cada momento. A escrita é minha terapia, meu ritual de memória, minha forma de ensinar. Porque contar a história do nosso povo é plantar sementes na mente e no coração das futuras gerações.


E assim, a antiga Fazenda Modelo tornou-se o chão fértil onde floresceu o sonho dos Kariri-Xocó.





08. AS PRIMEIRAS CASAS DA ALDEIA KARIRI-XOCÓ





Foi num tempo em que a esperança era plantada com o suor da resistência que nasceram as primeiras moradas da Aldeia Kariri-Xocó. Corria o ano de 1978 quando o povo decidiu retomar o que por direito ancestral já lhes pertencia: a antiga Fazenda Modelo. Ali, entre casas abandonadas e galpões esquecidos, a comunidade se fez novamente presente. Homens, mulheres e crianças voltaram a erguer suas vidas sobre a terra fértil de Porto Real do Colégio, nas margens do sagrado rio São Francisco.


No início, nem todas as famílias tinham um teto firme. Muitos cobriam seus sonhos com lonas e plásticos, vivendo em barracas improvisadas, resistindo ao vento e à chuva, ao sol escaldante do sertão e ao descaso dos poderes de fora. Assim foi até 1980, quando a solidariedade cruzou fronteiras. Em 1981, a Embaixada do Canadá, em união com a FUNAI, estendeu a mão à comunidade Kariri-Xocó. Nasceu então o primeiro grande projeto residencial da aldeia: 110 casas começaram a ser erguidas, não apenas com cimento e tijolo, mas com o sentimento coletivo de reconstrução.





O tempo seguiu seu curso, e a aldeia crescia como crescem as raízes de uma árvore viva. Em 1985, um novo projeto foi implantado — desta vez com olhos voltados para o sustento e o bem viver: a irrigação das roças, a criação de peixes para alimentação, e mais 25 casas para aqueles que ainda esperavam um lar. Foi mais que um abrigo, foi dignidade para as famílias que mantinham viva a cultura e a língua de seus ancestrais.





Mas o clamor por moradia não cessava, pois o povo não parava de florescer. Em 1991, os ventos da transformação sopraram mais uma vez. A aldeia, agora mais fortalecida, conquistou um novo projeto para mais 45 casas, com água encanada, luz elétrica gratuita e, pela primeira vez, os próprios indígenas sendo contratados para trabalhar nas obras — erguendo com as próprias mãos as paredes que protegeriam os seus filhos.


Assim, tijolo por tijolo, ergueu-se mais do que casas: construiu-se memória, reconstruiu-se identidade. As primeiras casas da Aldeia Kariri-Xocó não foram apenas moradias — foram marcos de luta, raízes fincadas no solo da ancestralidade.


E ali, entre o calor da terra e a força do povo, a aldeia continuou a pulsar viva, como sempre foi.






09. TÕNBOZU RUÑOYÉ, O TATU NO POTE GRANDE  





No tempo em que os caminhos ainda eram trilhados com os pés descalços da sabedoria, aconteceu uma história que ecoa até hoje entre o povo Kariri-Xocó.


Era o ano de 1974. Durante a grande caminhada do ritual do Ouricuri, saindo da mata em direção à Aldeia na Rua Índios, o jovem Nhenety seguia ao lado do velho cacique Otávio Nidé. Cruzavam os domínios da antiga Fazenda Modelo, ainda sob o poder da CODEVASF, quando o cacique apontou com o dedo firme o Alto do Bode, um morro solitário que parecia guardar segredos ancestrais.


— Ali, — disse Otávio com a voz carregada de memória — era o lugar do nosso ritual sagrado. Ao lado do morro, nossos antepassados enterravam os mortos nas igaçabas, grandes potes de barro que chamamos de Ruñoyé.


Nhenety ouviu em silêncio. Aquela fala do cacique era mais do que lembrança; era um chamado.


Os anos passaram. Em 1986, a Fazenda Modelo já estava sob domínio dos Kariri-Xocó. E foi então que Akinoá, caçador respeitado da aldeia, saiu para a mata com seu fiel cachorro e seu filho Kayany. Seguiam em busca de caça, como era costume. O cachorro logo farejou um tatu, e Akinoá começou a cavar o chão seco com as mãos firmes, ajudado por Kayany.


A terra se abriu, e ali, meio escondido entre as raízes, repousava um Ruñoyé. Um grande pote de barro, uma antiga urna funerária esquecida pelo tempo, mas não pela terra.


Akinoá estacou. O silêncio da mata se fez profundo.


— Pai... e o tatu? — perguntou Kayany.


O velho não respondeu de imediato. Cobriu com cuidado a abertura da terra, como quem fecha os olhos de um ancião adormecido.


— Esse tatu não é caça, meu filho. Ele é mensageiro. Ele veio nos mostrar o que havíamos esquecido — disse por fim, com os olhos úmidos.


Descendo o morro, a lagoa se abriu diante deles, espelhando o céu. Estava repleta de peixes, e foi com o presente das águas que retornaram à aldeia. Não havia carne de caça naquele dia, mas havia fartura e revelação.


À noite, ao redor da fogueira, Akinoá contou sua história. Homens, mulheres, crianças e anciãos ouviram em silêncio, como se o próprio tempo estivesse sentado entre eles. E assim, os Kariri-Xocó souberam do reencontro com o cemitério sagrado dos antigos, guardado pelos Ruñoyé e revelado pelo espírito do tatu, o Tõnbozu.


Desde então, quando se vê um tatu caminhando sozinho na mata, diz-se que talvez ele seja um guia. Um guardião dos caminhos do passado.






10. WÃMYRÁ, O GUARDIÃO DO COCAL E DA MEMÓRIA ANCESTRAL 


 




Que os ventos ancestrais abençoem este conto,


Que a força da terra o sustente,


Que as águas o levem adiante,


E que o fogo sagrado do espírito indígena nunca se apague.


Que toda palavra aqui dita renasça como semente,


E floresça como árvore no coração de quem ouvir.


No alvorecer dos tempos, quando os ventos sopravam livres sobre a floresta infinita e os rios corriam serenos como veias da Terra, os povos originários viviam em perfeita harmonia com tudo que respirava, rastejava, nadava ou voava.


As árvores frondosas, com copas que tocavam o céu, ofereciam abrigo e alimento; os peixes dançavam nas águas cristalinas, seguindo o compasso do tempo; as roças, abençoadas pelo espírito da chuva e pelo calor generoso do sol, brotavam fartas, alimentando corpos e almas.


Mas então, o mar, outrora apenas horizonte distante, cuspiu os Karaí, os homens brancos. Eles não ouviram o sussurro das folhas nem compreenderam a língua dos rios. Vieram armados com ferro e fogo, derrubaram árvores milenares que guardavam a memória da floresta, envenenaram as águas sagradas, aprisionaram os ventos e asfaltaram a terra.


O mundo, antes pleno e orgânico, se fragmentou.


Foi nesse tempo de transição e dor que nasceu Wãmyrá, cujo nome significa "Peixe Dançador", do povo Kariri-Xocó, criatura que, como ele, deslizava entre mundos com graça e resistência. Wãmyrá era filho da terra vermelha, do som dos pássaros e do perfume das flores silvestres; conhecia o segredo do voo das araras e a dança das antas na beira do rio.


Mas a fome e o cerco aos territórios obrigaram-no a uma escolha difícil: partiria da aldeia, deixando para trás a mata onde seu espírito se forjou, para buscar o sustento de sua família no mundo dos Karaí.


Antes de partir, ajoelhou-se à beira do grande rio, tocou a água fria, ouviu a última canção do sabiá, e prometeu que a floresta, embora distante, jamais seria esquecida. Levou consigo o que nenhum invasor poderia destruir: seu cocal de penas — fragmentos das aves que guardavam os céus; sua maracá — o eco dos trovões e do balançar das folhas; o cachimbo — feito da argila sagrada que o vento e a água moldaram; e sua sabedoria — herança dos antigos, que escutaram a voz da terra desde o começo do mundo.


Ao adentrar as cidades de concreto e fumaça, Wãmyrá parecia um ser de outro tempo. Os homens das máquinas e dos prédios de ferro se assombraram com sua presença. Queriam ver de perto aquele que carregava na pele o tom da terra e, nos olhos, o brilho dos rios.


E Wãmyrá, mesmo longe da mata, permaneceu firme: não tirava o cocal da cabeça, que agora era sua morada espiritual. Quando agitava a maracá, fazia vibrar o som do vento cortando as copas das árvores; quando fumava o cachimbo, evocava a névoa das manhãs na floresta; quando contava histórias, ressuscitava jaguatiricas, capivaras, tamanduás, e os cantos ancestrais do toré ressoavam, mesmo entre muros frios e estradas de asfalto.


Porém, em meio aos aplausos e à curiosidade, Wãmyrá sentia a ausência latejante dos rios que conhecia pelo nome, das trilhas que seus pés descalços sabiam de cor, do cheiro da terra molhada após a chuva.


E num entardecer, quando o céu se tingia com as cores que só a floresta sabia pintar, Wãmyrá ergueu sua maracá e, com a voz carregada de saudade e força, cantou:


“Tçambusebé erá, buibú keru, paewí sambéá”


"O cocal é minha casa, a maracá meu coração, o cachimbo um instrumento de união."


As árvores invisíveis, os rios calados e os ventos ausentes o escutaram.


Cumprida sua missão entre os homens do asfalto, Wãmyrá retornou à aldeia, trazendo não apenas recursos para o sustento de sua gente, mas também novos saberes sobre o mundo que o cercava e amigos que acreditaram na sua causa.


Ali, de volta à floresta, o vento voltou a cantar para ele, as águas o saudaram com peixes saltando em festa, e as árvores se curvaram, reconhecendo o retorno do filho da terra.


Wãmyrá, o Peixe Dançador, tornara-se mais que homem: era agora lenda viva, guardião do cocal e da memória ancestral, ponte entre mundos, defensor da floresta e do seu povo.


Que as palavras de Wãmyrá voem como sementes levadas pelo vento,


Que seu canto ecoe entre as árvores e corra com os rios,


E que sua história jamais se perca, enquanto houver alguém que a conte,


E alguém que a escute, com o coração aberto para a floresta e seus mistérios.


Assim seja, assim se ouça, assim se viva.





Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 






📚 APÊNDICES




Apêndice A — Sobre a Língua Kariri-Xocó

Apêndice B — Sobre a Reconquista da Fazenda Modelo

Apêndice C — Tradições e Espiritualidade





🪶 GLOSSÁRIO INDÍGENA (KARIRI-XOCÓ)



Cipó Cururu – O cipó venenoso que tem a casca parecida com a pele do sapo cururu.


Cururu – O sapo grande.


Dzurineiró – Lagoa do Cordeiro.


Kaie Tsehoá Uanieá – A frase vem do Kariri que significa "Dia dos Povos Indígenas".


Natiá – Aldeia.


Opará – Rio São Francisco


Ouricuri – Ritual sagrado de renovação.


Pajé – Líder espiritual.


Ruñoyé – O vaso cerâmico chamado pelos Kariri-Xocó. 


Tõbozu – O nome do tatu em Kariri. 


Toré – Dança, canto e ritual sagrado do povo.


Wãmyrá – O Guardião do Cocal e da Memória Ancestral. 


Wanaí – Sonho de Aldeia.


Warakidzã – Sonho.


Woroy – História, narrativa.





🖋️ DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó

Indígena do povo Kariri-Xocó, nascido e criado em Porto Real do Colégio, Alagoas. Contador de histórias, escritor, pesquisador da memória oral, guardião da cultura ancestral e defensor da preservação territorial e espiritual de seu povo.


Autor dos volumes da série Woroy História, dedica sua escrita à valorização da oralidade indígena, às lutas territoriais, aos contos tradicionais e às experiências vividas na aldeia. Sua obra é marcada pela força da identidade Kariri-Xocó e pelo compromisso com a ancestralidade.





📖 ORELHA DO LIVRO



Woroy História – Volume 18 é um mergulho no universo sagrado do povo Kariri-Xocó. Aqui, cada conto é uma semente plantada na memória, germinando histórias que atravessam o tempo — desde as primeiras sementes do Itiúba até a reconquista da terra ancestral na Fazenda Modelo.


Escrito por Nhenety Kariri-Xocó, guardião de seu povo e contador de histórias, este livro preserva o sopro dos antigos, honra os líderes espirituais, registra lutas e vitórias, e celebra a vida da aldeia em todos os seus ciclos.


Uma obra para quem deseja compreender a alma indígena por dentro, com verdade, poesia e resistência.





📘 CONTRACAPA (TEXTO)



Este livro é uma travessia pelas águas, terras e memórias do povo Kariri-Xocó. Os contos apresentados aqui narram conflitos, conquistas, saberes e espiritualidades que moldam a identidade ancestral da aldeia.


Da força feminina que plantou o primeiro arroz do Itiúba, ao velho Giló que reivindicou a liberdade dos peixes; da primeira comemoração do Dia dos Povos Indígenas à reconquista da Fazenda Modelo — cada história ecoa um tempo vivido e um futuro sonhado.


Uma coletânea indispensável para quem deseja conhecer o Brasil indígena além dos livros oficiais.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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