sábado, 7 de março de 2026

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM






FALSA FOLHA DE ROSTO

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI

VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM


Contos da vida, memória e cultura do povo Kariri-Xocó às margens do Opará — Rio São Francisco.

Autor

Nhenety Kariri-Xocó



VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Todos os contos desta obra são baseados na memória cultural, nos costumes e nas narrativas do povo indígena Kariri-Xocó, habitantes tradicionais da região do Baixo Rio São Francisco.

A obra valoriza a tradição oral indígena, integrando elementos da língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, preservando significados culturais e cosmológicos associados à natureza, ao território e à vida comunitária.

Autor:

Nhenety Kariri-Xocó

Publicação independente.

Blog do autor:

https://kxnhenety.blogspot.com⁠�



FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)

BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI

VIVER NO RIO SÃO FRANCISCO TUDO DE BOM


Contos da memória cultural do povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil



FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)


Kariri-Xocó. Nhenety,

Baiwo Opará Uohoie Canghi: viver no Rio São Francisco tudo de bom /

Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.

Livro de contos sobre memória cultural, vida ribeirinha e tradições do povo indígena Kariri-Xocó no Baixo Rio São Francisco.

Inclui glossário de termos da língua Kariri-Xocó.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

Rio São Francisco – memória cultural

Narrativas tradicionais indígenas

Povos indígenas do Nordeste brasileiro

CDD: 869.899

Literatura indígena brasileira



DEDICATÓRIA


Dedico esta obra ao meu povo Kariri-Xocó, guardião das águas do Opará, que atravessam gerações levando vida, memória e sabedoria.

Dedico também aos mais velhos, que ensinaram que a palavra não mora apenas no papel, mas no vento, na terra e nas águas.

E às novas gerações, para que nunca esqueçam que nós todos somos o rio.



AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente aos ancestrais Kariri-Xocó, guardiões da memória e da sabedoria tradicional, que ao longo das gerações transmitiram ensinamentos, histórias e conhecimentos sobre o rio, a terra e a vida, cuja memória continua viva em cada história contada às margens do Opará.


A realização deste livro nasceu do desejo de preservar e compartilhar as histórias vividas nas margens do Opará, o grande Rio São Francisco, que acompanha a vida do povo Kariri-Xocó desde tempos antigos.


Agradeço às famílias da aldeia que mantêm vivos os costumes, os ensinamentos e a convivência com a natureza.


Agradeço também às iniciativas culturais que valorizam a língua e a tradição indígena, permitindo que histórias como estas sejam registradas e compartilhadas.


Expresso também minha profunda gratidão aos alunos, professores e professoras da Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra, que diariamente fortalecem a educação indígena e ajudam a manter viva a cultura de nosso povo através do estudo, da língua, da tradição e do respeito às nossas raízes.


Que este livro possa inspirar novas gerações a conhecer, respeitar e proteger o Opará, suas histórias e os saberes que vivem nas comunidades do Baixo Rio São Francisco.


Por fim, agradeço aos leitores que se aproximam desta obra com respeito e curiosidade, permitindo que o rio das palavras continue correndo.


Com gratidão,


Nhenety Kariri-Xocó



EPÍGRAFE


“Assim como o rio corre sem esquecer sua nascente,

um povo vive enquanto guarda sua memória.”

— Sabedoria tradicional indígena



SUMÁRIO 


Falsa folha de rosto

Verso da falsa folha de rosto

Folha de rosto

Ficha catalográfica

Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio

Apresentação

Introdução

Palavra do Autor


Contos (01 a 10)


01. Hietãdé Uihoie Opará, Nós Todos Somos o Rio São Francisco; 

02. Piwonhé Ieendeá – A Reprodução das Aves; 

03. Baiwo Opará Bohé, A Vida Social no Rio São Francisco; 

04. Okendzurió – A Porta D’Água da Lagoa; 

05. Hehé Pahaempá – Escorregar no Barranco Molhado; 

06. Batim Hopele Pahankó, Salto do Barranco no Opará; 

07. Pehó Iwo Opará, A Enchente do Rio São Francisco; 

08. Taiutará Ruñohú Midzé, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe; 

09. Undéá Boighy Opará – O Caminho das Águas que Ensinam; 

10. Ubauipú Itohiquiete – A Lancha dos Viajantes. 


Apêndices

Glossário

Dados biográficos do autor

Sobre a obra

Orelha do livro



PREFÁCIO


Esta obra nasce das margens do Opará, nome indígena do Rio São Francisco, um dos maiores rios da América do Sul e verdadeiro eixo cultural de muitos povos.

Nos contos reunidos neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta narrativas que unem memória, natureza e identidade. Cada história revela não apenas acontecimentos, mas também uma forma de compreender o mundo.

Nas palavras do autor, o rio não é apenas água: é parente, é caminho, é história viva.

Os contos trazem elementos da língua Kariri-Xocó, resgatando termos e conceitos que pertencem ao universo cultural indígena e que ajudam a compreender a relação profunda entre o povo e a natureza.

Assim, este livro não é apenas literatura:

é memória cultural, registro histórico e expressão de resistência indígena.



APRESENTAÇÃO


O Rio São Francisco, chamado pelos povos indígenas de Opará, é muito mais do que um curso d’água que atravessa o Brasil. Para as comunidades que vivem às suas margens, ele é território, memória, alimento e ensinamento.


Neste livro, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da experiência direta com o rio e com a vida ribeirinha do povo Kariri-Xocó, habitante tradicional da região de Porto Real do Colégio, no Baixo São Francisco.


As narrativas apresentam diferentes dimensões da convivência com o Opará:


a infância nas margens do rio, as pescarias, as enchentes, os costumes antigos, a cerâmica tradicional, as travessias e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


A presença da língua Kariri-Xocó ao longo dos contos fortalece o caráter cultural da obra e reafirma a importância da preservação das línguas indígenas como guardiãs de conhecimento ancestral.


Mais do que literatura, esta obra é um registro de memória cultural, uma forma de manter viva a relação entre o povo e o rio que sustenta sua história.



INTRODUÇÃO



O Rio São Francisco é um dos principais rios do Brasil e atravessa diferentes regiões, culturas e paisagens. Entre os povos indígenas que vivem em suas margens está o povo Kariri-Xocó, cuja história está profundamente ligada ao rio e às lagoas que formam o território do Baixo São Francisco.


Para esse povo, o rio não é apenas um elemento natural. Ele é considerado parte da própria vida comunitária, influenciando a alimentação, os costumes, as formas de trabalho, as brincadeiras das crianças e as práticas espirituais.


Os contos reunidos neste livro apresentam fragmentos dessa convivência com o Opará. Cada narrativa revela uma experiência ou lembrança relacionada ao rio: a chegada das aves migratórias, a vida social nas margens, os antigos barrancos onde as crianças brincavam, as grandes enchentes, o comércio tradicional de cerâmica e peixe e as mudanças trazidas pela modernidade.


Ao registrar essas histórias, o autor contribui para preservar elementos importantes da memória cultural Kariri-Xocó, fortalecendo a tradição oral que durante séculos foi o principal meio de transmissão de conhecimento entre as gerações.



PALAVRA DO AUTOR



Escrever estas histórias foi como voltar muitas vezes às margens do Opará, o grande Rio São Francisco que acompanha a vida do meu povo Kariri-Xocó desde os tempos mais antigos.


Cada conto deste livro nasceu da memória, da observação e das palavras que escutei dos mais velhos, aqueles que sempre ensinaram que o rio não é apenas água correndo, mas também um ser vivo que orienta a vida das pessoas.


Nas margens do Opará aprendemos a pescar, a brincar, a plantar, a respeitar os animais, a ouvir o vento e a observar os sinais da natureza. O rio nos ensina paciência, convivência e respeito pelos ciclos da vida.


As histórias aqui reunidas falam de momentos simples do cotidiano: crianças escorregando no barranco molhado, pescadores trabalhando nas águas do rio, mulheres moldando o barro da cerâmica, travessias em canoas e lanchas, enchentes que transformam a paisagem e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


Ao registrar essas lembranças, meu desejo é contribuir para preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó e mostrar às novas gerações que nossa história continua viva.


O Opará sempre foi mais que um rio para nós. Ele é caminho, alimento, memória e espírito de resistência.


Se estas histórias conseguirem fazer o leitor sentir um pouco da vida que pulsa nas margens do São Francisco, então o rio também terá encontrado um novo caminho através das palavras.


Nhenety Kariri-Xocó



CONTOS ( 01 a 10 )



01. HIETÃDÉ UIHOIE OPARÁ, NÓS TODOS SOMOS O RIO SÃO FRANCISCO





Na Aldeia Kariri-Xocó, quando o Ukie, o Sol, começa a se deitar no lado Oeste, a luz dourada repousa sobre o Opará. O grande rio segue seu caminho antigo, correndo do Norte ao Sul, até encontrar o Aindzu, o Mar. Assim ele atravessa os Undéá, os Lugares do mundo, carregando histórias pelo Uché, o Tempo que nunca para.


Era nesse entardecer, quando o vento soprava manso e as Dzuá, as Águas, murmuravam palavras antigas, que Mayara, moça curiosa e atenta aos sinais da vida, aproximou-se de sua mãe, Nancy. Seus olhos brilhavam como quem deseja compreender o que não se vê apenas com os olhos.


— Mãe — perguntou — o rio Opará representa o quê?


Nancy silenciou por um instante. Olhou para o horizonte, onde o céu se encontrava com as águas, e então falou com a voz mansa de quem carrega saber antigo:


— Minha filha, o Opará não é apenas as Dzuá que correm aqui diante de nossa Natiá, a Aldeia. Ele é muito mais do que parece.


Ela então explicou que a conexão do Opará nasce da própria Antse, a Natureza. Vem do Aranke, o Céu profundo, das Battiá, as Estrelas que vigiam a noite, e do Ukie, o Sol, que aquece o Aindzu, o Mar. Do encontro desses seres surgem as Arankedzoá, as Nuvens, que viajam pelo céu e alimentam muitos Iwoá, os Rios, até que todos retornem ao grande Opará.


— É no Uché das Dzoá, Tempo das Chuvas — continuou Nancy — que a Radá, a Terra, se torna fértil. É nela que plantamos os Uanhí Tdjeá, nossas lavouras e legumes. Eles alimentam nosso Buiehoho, o Corpo, assim como as Dzuá que bebemos, todas vindas do Opará.


Mayara ouvia em silêncio, sentindo que cada palavra da mãe corria dentro dela como o próprio rio.


— Olhe bem, minha filha — disse Nancy, com firmeza e doçura — Hietãdé uihoie Opará. Nós todos somos o Rio São Francisco.


Ela explicou que o Opará vive nas Atse, as Pessoas; nos Keríá Retsé, os Animais Silvestres; nas Ubuá, as Plantas; nos Boêdoá, os Montes; nas Naticróbeá, as Cidades Ribeirinhas; e nos Uanieá, os Povos Indígenas.


— Todos carregamos o Opará dentro de Hietãdé, de Nós — concluiu — seja nas Dzuá que sustentam a vida, seja no Amíá, o Alimento que a Natureza nos oferece por meio dele.


Quando a noite caiu, a Kaiaku, a Lua, surgiu no céu, chamando as marés do mar. Com ela vinham os Wãmyá, os Peixes, que subiam pelo Opará. Era o tempo das Mydzéá, as Pescarias, tradição antiga passada de geração em geração, ligando o passado ao presente como o curso do rio.


E assim, enquanto o Opará seguia seu caminho eterno, Mayara compreendeu que o rio não corre apenas pela terra: ele corre dentro de todos os seres que vivem, respiram e lembram.



02. PIWONHÉ IEENDEÁ – A REPRODUÇÃO DAS AVES





Antigamente, quando o Opará ainda conversava com o céu em águas largas e mansas, o Baixo São Francisco se tornava caminho de asas. Era tempo de anúncio, tempo sagrado. As Parari, ligeiras e numerosas, riscavam o firmamento em grandes revoadas. Os mais antigos as chamavam de Arribaçã, e diziam que sua chegada era sinal de fartura, de renovação da vida.


O céu escurecia de movimento, e o som das asas parecia um canto coletivo, um chamado antigo que vinha de longe para cumprir o ciclo da reprodução. Elas pousavam, descansavam, procriavam, e depois partiam, deixando no ar a lembrança de sua passagem.


Junto delas vinham outras parentes do vento. A Pukûa-tinga, a Rolinha-cinzenta, chegava em bandos numerosos, mas diferente das Parari, permanecia mais tempo. Fazia morada, observava o chão, escutava a mata. Seu canto fino atravessava as manhãs como um fio invisível ligando céu e terra.


Na Terra Indígena Kariri-Xocó, entre Porto Real do Colégio e São Brás, a mata do Ouricuri ainda guarda esse segredo vivo. Ali, a Caatinga respira diversidade. Entre galhos retorcidos e folhas resistentes, muitas espécies de aves fazem sua morada, conhecendo cada sombra, cada fruto, cada silêncio.


Na Várzea do Itiúba, onde a terra se deixa inundar pelas águas do rio, a vida se multiplica o ano inteiro. As aves aquáticas conhecem bem esse território. O Socó-Yobi, o Socó azul, caminha lento pelas margens. A Guaraúna, ave carão, anuncia sua presença com voz forte. Marrecas e paturis deslizam sobre a água como se fossem parte do próprio rio, cumprindo ali o mistério eterno da reprodução.


Para o indígena, tudo isso não é apenas paisagem. É convivência. É parentesco. Viver com a natureza é respeitar o tempo de cada ser, é proteger a flora e a fauna, porque na cultura Kariri-Xocó os Keríá — os Animais — não são apenas criaturas: são seres sagrados, guardiões do equilíbrio e geradores da vida.


Assim, quando uma ave cruza o céu do Opará, ela não passa sozinha. Leva consigo a memória dos antigos, o espírito da terra e a certeza de que, enquanto houver respeito, o ciclo continuará.



03. BAIWO OPARÁ BOHÉ, A VIDA SOCIAL NO RIO SÃO FRANCISCO





O sol ainda nascia por trás das matas quando Kawany acordou com o canto distante das aves. Da porta da Erá, ela avistou o brilho do Iwo Opará, o velho Rio São Francisco, que seguia seu curso calmo, como quem conhece todos os segredos do tempo. Para o povo Kariri-Xocó, o rio não era apenas água: era vida, memória e caminho.


Kawany tomou o Ruño, o pote de barro, e seguiu em passos firmes para o Tadzu Iwo, pegar água no rio. No caminho encontrou Manawá, sua amiga, que equilibrava o Setu, cesto na cabeça. Dentro dele iam o Runhú, panelas e o Aribé, pratos utensílios de barro que logo seriam Uanikutsu Iwo, lavados no rio. As duas riam baixinho, sentindo a areia fresca sob os pés, enquanto o rio as recebia como um parente antigo.


Mais adiante, Tawã, ainda menino, corria pela margem do Opará. Ele gostava de Bydihekié, brincar na areia, e não perdia uma chance de Buiempá, tomar banho em Bohé, junto com outros Inurá, filhos que acompanhavam suas Deá, as mães. Aquele era um Uaɲo, um costume antigo: crescer junto ao rio, aprender com ele, ouvir suas histórias silenciosas.


As Tetsiá, mulheres da aldeia, lavavam as Roácruté, as roupas de pano, enquanto conversavam sobre o dia, a colheita e os sonhos. O som da água batendo nas pedras misturava-se às vozes, criando uma canção que só o Opará sabia cantar. Para muitos, aquele momento era mais que trabalho: era encontro, partilha e alegria.


Na outra margem, alguns homens Mydzéá, pescavam com Yaentá yaclaro, a vara de anzol. Próximo dali ficava o Ubacródzuá, o porto das canoas, onde repousavam as Ubáydzé, canoas de pesca moldadas pela mão e pelo saber do povo. Manawá observava atenta, aprendendo também a Mydzé Jereré, pescar com rede de arco, prática ensinada pelas mulheres mais velhas.


O dia seguia leve. O rio acolhia quem queria Ponhú, nadar, quem buscava alimento e quem apenas desejava sentir a água correr pelo corpo. Todos eram Atseá, pessoas ligadas entre si pelo Opará e pela Antse, a Natureza.


Com o tempo, vieram as mudanças. A água encanada, os banheiros, as lavanderias e a tecnologia alteraram muitos costumes. Mas Kawany, Tawã e Manawá — assim como tantos outros — guardaram o rio dentro de si. Pois quem viveu o Opará na pele e no coração jamais esquece.


O Iwo Opará continua correndo. E enquanto houver memória, palavra e respeito, ele seguirá vivo na história do povo Kariri-Xocó, como símbolo de uma vida simples, saudável e profundamente feliz. 



04. OKENDZURIÓ – A PORTA D’ÁGUA DA LAGOA





Nas Beáiwo Opará, as margens antigas do Rio São Francisco, Teipó gostava de se sentar ao entardecer, olhando o espelho quieto das Dzurióá, as lagoas que a Antse, a Natureza, moldara com paciência desde o princípio do mundo. Ao seu lado vinha sempre Sãbuá, mais jovem, curioso, atento às palavras que não estavam nos livros, mas na terra, na água e no vento.


— Vovô Teipó, — dizia Sãbuá — por que essas lagoas parecem adormecidas?


Teipó respirava fundo, como quem chama a memória dos antigos.


— Elas não dormem, meu neto. Elas lembram.


E então começava a história.


No tempo antigo, quando as lagoas eram cobertas por Retséá, as florestas densas, chegava a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. Em dezembro, o Opará crescia, transbordava e abria caminhos invisíveis, enchendo as lagoas com água viva e com Wãmyá, os peixes do rio. Entravam livres, sem medo, porque ali era berçário, era começo de vida.


— Os peixes sabiam — continuava Teipó — que ali era casa do crumatá, traíra, lambiá, aragú, piaba, mandim, pitú, piranha, cumbá, surubim e outros mais. Além disso nas lagoas estava também jacaré, capivara, jaçanã e o cágado d'água. 


Na Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, os peixes cresciam fortes, engordavam, aprendiam a nadar contra a corrente. Quando o Uché, o tempo certo, chegava, eles voltavam ao Opará. Era então que o povo pescava, nunca antes, nunca além. A pesca era coletiva, celebrada, respeitosa. Ninguém tirava mais do que a lagoa podia dar.


Sãbuá imaginava o povo reunido, os risos, os cestos cheios, a fartura partilhada.


Mas a voz de Teipó mudava quando chegava outro tempo.


— Depois vieram os colonizadores.


As lagoas foram fechadas. Construíram o Okendzurió, a Porta D’Água da Lagoa. Duas Onhancróá, paredes de pedra, erguidas frente a frente, e entre elas a Ybyrápeba, a tábua de madeira, controlando o que antes era livre. A água passou a obedecer à mão do homem, não mais ao chamado da lua.


A Naticróraí, a Aldeia de Pedra dos Brancos, cresceu onde antes era território indígena. A Natiá virou cidade, Porto Real do Colégio. Até o nome da terra mudou: Alagoas, que na língua antiga sempre foi Dzurióá, as Lagoas.


Sãbuá apertava a terra com os dedos.


— E nós, vovô?


Teipó sorriu com tristeza e firmeza.


— Nós resistimos.


Depois da criação do Posto Indígena, em 1944, o povo Kariri-Xocó começou a refazer seus caminhos. Em 1978, retomaram lagoas importantes: a Dzurichi, Lagoa Comprida, e a Dzucuréá, Lagoa dos Porcos. Cada retomada era como abrir novamente uma porta da memória.


Hoje, o Opará já não inunda as lagoas como antes. As grandes enchentes são raras, acontecem talvez a cada dez anos. A pescaria coletiva, que era festa e cultura, tornou-se lembrança e ensinamento.


Teipó levantou-se devagar, apoiando-se no bastão.


O governo federal demarcou e homologou a Terra Indígena Kariri-Xocó, ainda faltam receber as outras lagoas: Dzurunhá "Lagoa do Barro" e a Dzurité "Lagoa do Coité" e a Dzurye "Lagoa Grande". 


— Mas enquanto alguém contar essa história, Sãbuá, o Okendzurió não estará fechado por completo. A palavra também é uma porta.


Sãbuá olhou para a lagoa e entendeu:


algumas águas correm no rio,


outras correm na memória. 



05. HEHÉ PAHAEMPÁ – ESCORREGAR NO BARRANCO MOLHADO





Quando vinham as Pehóá, as grandes enchentes do Opará, ainda não existia na Naticróraí, a cidade, o Oncródzu, o cais de pedra. Naquele tempo, o rio falava direto com a terra, e o Pahankó, o barranco de barro cru, era parte da nossa vida. Era ali que acontecia o Hehé Pahaempá — escorregar no barranco molhado.


Assim que as águas começavam a subir, a alegria também subia junto. Os Inghéá, os meninos, os Mynhekiá, os rapazes, e as Tibudinã, as moças, se reuniam naquele antigo Kenhé, um costume passado de geração em geração, como se o próprio rio ensinasse.


Primeiro vinha o preparo. Com o Dehebá, o cavador, moldávamos a rampa no barro vivo. Abríamos uma cavidade funda, depois malhávamos a superfície com os pés e com as mãos, alisando o caminho até ficar perfeito para Craraidyó, descer. O barranco ficava liso, escuro, brilhando de água, pronto para o Hehé — o escorregar ligeiro que terminava no abraço frio das Dzuá, as águas do Opará.


Era queda, riso e grito. A Curaempá, roupa toda molhada, e o Dimy Bunhá, o corpo sujo de barro, não eram problema — eram motivo de alegria. Aquele era o tempo da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro. Tempo bom para Buiempá, tomar banho no rio, lavar o corpo e também o espírito.


Para ter segurança de não ter ferimentos havia uma grande minúcia na verificação de pedras no barro, retirando detritos pedregosos ficando somente a argila macia umedecida com água,  assim a rampa estava pronta para a brincadeira. 


O Opará corria forte, largo, como se sorrisse com a nossa brincadeira. Cada escorregada era um desafio, cada mergulho uma vitória. O barro grudava na pele, o riso ecoava pelas margens, e a memória se escrevia sem papel, direto no coração.


Depois, o tempo mudou. Veio o prefeito, veio o Oncródzu, o cais de pedra. O barranco desapareceu, e com ele aquele lugar exato da brincadeira. Mas o Opará continuou grande. O rio não esquece seus filhos.


E quando as águas voltarem a subir, nós saberemos: acharemos outros barrancos, outros caminhos, outros lugares para viver de novo o Hehé Pahaempá — porque enquanto o rio existir, a memória não morre.



06. BATIM HOPELE PAHANKÓ, SALTO DO BARRANCO NO OPARÁ





Yakoá cresceu ouvindo o rio antes mesmo de aprender a falar. Diziam os mais velhos que, ainda menino, ele reconhecia o som das Dzuá, as Águas, como quem reconhece o chamado de um parente antigo. Agora, já com os cabelos prateados pelo Uché do tempo, sentava-se à sombra de um ingazeiro, à beira do Iwo Opará, observando o rio crescer com a chegada da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada.


Ao seu lado estavam Taré, o neto curioso, e Namara, a irmã dele, atenta aos mínimos movimentos das águas.


— Vovô — perguntou Taré, com os olhos brilhando — é verdade que o rio fala mais alto nessa lua?


Yakoá sorriu. Apontou o braço firme para o barranco úmido.


— É agora que acontece o Hopele Pahankó, meu neto. O estrondo das águas no barranco. Costume antigo dos nossos Tokenhé, os Antepassados. Quando o Opará enche, ele chama o povo para brincar, nadar e voar por um instante antes de cair nas Dzuá, águas.


Namara observava as Ubacroté, canoas de pano, subindo e descendo o rio, enquanto outras repousavam no Ubacródzuá, o porto das canoas. As mulheres, as Tetsiá, lavavam roupas cantando baixinho; as Tibudiná, moças ágeis, cuidavam dos pratos; e as Inghéá, crianças como eles, mergulhavam e nadavam em alegria.


— Eu quero saltar, vovô — disse Taré, sentindo o coração bater como o tambor da aldeia.


Yakoá se levantou devagar. Caminhou até a borda do barranco, onde tantas gerações haviam saltado antes dele.


— O Pahankó não é só pular — explicou —. É respeito. É confiar nas Dzuá. É saber que o rio te recebe se teu coração estiver limpo.


Ele contou então como, em sua juventude, praticava o Batim Piedi, pescando de mergulho, com o arpão artesanal firme na mão. Saltava do Cró, mergulhava fundo e voltava com os Wãmyá, os peixes, como presente do Opará para a aldeia.


— Nosso povo sempre viveu assim — continuou —. Somos os Tseho Dzubukuá, Povos das Ribeiras. Mas o mundo mudou…


Yakoá silenciou. O olhar ficou distante.


— As Maecrótçawo, as hidrelétricas, prenderam o pulso do rio. Hoje o Opará já não cresce como antes. O Hopele Pahankó ficou raro, quase uma lembrança.


Namara segurou a mão do avô.


— Então a gente tem que guardar isso na memória, né, vovô?


Ele assentiu.


— Na memória, na palavra e no coração. Enquanto alguém lembrar e contar, o Pahankó continua vivo.


Naquele dia, Taré não saltou do barranco. Mas aprendeu algo maior: que nem todo salto é do corpo. Alguns são feitos para atravessar o tempo.


E o rio, mesmo contido, pareceu murmurar em resposta.



07. PEHÓ IWO OPARÁ, A ENCHENTE DO RIO SÃO FRANCISCO





No Uché, o Tempo antigo que caminha junto com a memória do povo, os Kariri-Xocó deixaram a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, e seguiram para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira.


Era a Puruá Kayaku, a Lua das Flores, outubro de 1978, quando a terra ainda respirava mudança e esperança.


Moacy, indígena pescador do Opará, acompanhou aquele deslocamento com o olhar atento de quem conhece os sinais da água e do céu. Seu remo era extensão do braço, e sua canoa, uma velha companheira. Além de pescar, Moacy tinha uma missão que carregava orgulho: atravessar os estudantes da aldeia pelo rio, levando-os até o Ginásio, na cidade de Porto Real do Colégio. A educação, dizia ele, também era um tipo de pesca — lançava-se a rede hoje para colher amanhã.


Quando chegou a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro, o Opará começou a mudar de voz. As Dzuá, as águas, cresceram dia após dia, subindo silenciosas, depois fortes, até alcançarem o tempo da Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, em janeiro de 1979. O rio, que sempre foi pai e caminho, tornara-se vasto e inquieto.


As Naticróbeá, cidades ribeirinhas, ficaram submersas. As Maecrótçawoá, hidrelétricas, abriram suas Okendzuá — as grandes Portas D’Água — e o Opará espalhou-se sem pedir licença. Na nova aldeia Wanheré Uanhícó, na  Fazenda Sementeira o povo Kariri-Xocó ficou ilhado. A Dzurye, a Lagoa Grande, a Dzurichi, a Lagoa Comprida, a Dzucuréá, a Lagoa dos Porcos, e o próprio rio formaram um grande espelho de água em volta da aldeia.


Mesmo assim, Moacy não deixou seu ofício. Com a canoa firme, enfrentava a correnteza para buscar mantimentos, notícias e, quando possível, atravessar quem precisava. Os estudantes, agora sem aulas, olhavam o rio com respeito dobrado. Moacy lhes dizia:


— O Opará ensina. Hoje ele cobre a terra, amanhã ele devolve.


O governo federal enviou Dipete Amiteá, doação de alimentos, para os ribeirinhos e para os indígenas. A ajuda chegava, mas o povo também buscava força na própria terra. Havia Utuá, frutas abundantes, que nasciam mesmo depois da água passar, como sinal de que a vida sempre retorna.


Na Içá Kayaku, a Lua das Formigas Grandes, em abril, o Opará começou a baixar. As marcas da enchente ficaram gravadas nas paredes, nos caminhos e na lembrança. As famílias começaram a reconstruir casas, roçados e histórias.


Moacy voltou a atravessar os estudantes com mais frequência. O rio já não rugia; murmurava conselhos antigos.


E assim, entre luas, águas e remadas, o povo Kariri-Xocó seguiu adiante. O Opará continuou sendo rio, estrada e memória.


Moacy, com sua canoa, permaneceu como testemunha viva de um tempo em que a enchente ensinou resistência, e a travessia se tornou lição para as gerações futuras.



08. TAIUTARÁ RUÑOHÚ MIDZÉ, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe





A velha Soyá acordava antes do sol. Suas mãos, marcadas pelo tempo, conheciam o barro como quem conhece o próprio corpo. Sentada à sombra de um juazeiro, às margens do Opará, ela amassava a argila com calma, enquanto a neta Aramã observava em silêncio, aprendendo mais com o gesto do que com as palavras.


— Vê, Aramã… — dizia Soyá, sem levantar os olhos. — O barro escuta a gente. Se a mão estiver pesada, ele racha. Se estiver mansa, ele vira ruñohú.


A cerâmica sempre foi assim para o povo Kariri-Xocó: mais que trabalho, era vida. Desde antiga data, as mulheres moldavam potes e panelas de barro, o ruñohú, e seguiam em taioiará, vendendo e trocando com os carai, os brancos. Em troca vinham o taiu, o dinheiro; a sabucá, a galinha; e o sekiki, a farinha que sustentava a casa.


Soyá lembrava bem do tempo da Rua dos Índios, quando ainda não tinham a terra reconquistada. As mulheres seguiam pelo rio na Ubacródzu, a canoa do Porto das Pedras, levando a cerâmica para os Atserácroraí, os povoados ribeirinhos. O rio era estrada, mercado e companhia.


Depois veio a retomada da Terra Indígena,  já nos anos de 1990. 


A aldeia se firmou às margens do Opará, cercada por lagoas fartas de midzé, os peixes. A vida mudou. Agora, junto com os potes de barro, as mulheres carregavam setu, balaios cheios de peixe fresco, para vender e trocar nos Atserácaddá, os povoados do interior.


— Foi o tempo mais bonito, Aramã — contou Soyá certa vez. — A terra voltou pra gente, e o peixe vinha como presente.


Já não era mais a canoa. As mulheres seguiam nos Ibáchiddá, os carros compridos da terra, atravessando Apreaca, Angico, Girau, Salomé e Xinaré. 


A Nova Aldeia trouxe estrada, luz elétrica, casa de alvenaria e água encanada. Trouxe conforto, mas também trouxe silêncio para o barro.


Agora, Soyá estava aposentada. Muitas das velhas ceramistas também. As mãos cansaram, os olhos falharam, e poucas jovens quiseram aprender o ofício. O barro começou a esfriar.


Aramã, porém, escutava tudo com atenção. Naquele dia, ajoelhou-se ao lado da avó e pediu:


— Ensina de novo, vó. Quero aprender a ouvir o barro.


Soyá sorriu. Um sorriso lento, profundo, como quem vê o futuro respirando.


— Então senta, minha neta. Enquanto houver mão jovem pra aprender, o ruñohú não morre. A tradição só dorme quando ninguém chama por ela.


E ali, entre o barro úmido, o rio antigo e a memória viva, Soyá passou à neta não apenas a técnica da cerâmica, mas a história de um povo que troca, vende, resiste e permanece.



09. UNDÉÁ BOIGHY OPARÁ – O CAMINHO DAS ÁGUAS QUE ENSINAM





O sol ainda se espreguiçava por trás do Boêdohe, o Morro Vermelho, quando Miraguaya, pescador antigo e conhecedor das Dzuá, águas do Opará, empurrou sua canoa para fora do Ubacródzuá, o Porto das Canoas. Seus pés sabiam o caminho antes mesmo de seus olhos acordarem por completo. O rio era casa, era estrada, era palavra antiga.


Naquele dia, Miraguaya não pescaria sozinho.


Vindos do sertão, chegaram Aruanã, Jatobá e Rizalva, três visitantes que nunca tinham visto o rio de perto. Conheciam apenas a terra seca, o chão rachado e o céu pedinte de chuva. Para eles, o Opará era mais que água: era um espanto.


— Aqui é a Natiá Kariri-Xocó, aldeia — disse Miraguaya, apontando o Ibiró Honé, o lado direito do rio. — Esses Undéá, lugares existem desde o tempo dos Tokenhé, antepassados. Cada curva do rio guarda um ensinamento.


Enquanto a canoa deslizava, Miraguaya mostrava as Beá, margens do rio como quem conta histórias vivas. Falou da Tseka, a grande Pucá Kitci, banco de areia onde o povo se banha e onde as crianças aprendem a rir com o rio. Aruanã, o mais jovem dos visitantes, mergulhou os pés na água e se calou — sentia algo que nunca havia sentido.


— Ali é a Yaraitá, — sussurrou Miraguaya, quase em respeito. — Pedra da Mãe D’água. Ela aparece à noite, quando o silêncio fala mais alto.


Rizalva estremeceu. Jatobá fez o sinal de respeito que aprendera com os mais velhos. Miraguaya continuou:


— Perto dali é o Perau, canal profundo. É morada de Camurupim, o Dono do Rio. Quem pesca sem pedir licença, o rio cobra.


Mais abaixo, surgia a Naticróraí, Porto Real do Colégio, com suas casas, suas igrejas e seus santos. No meio das águas, a Itapytera, Pedra do Meio, agora guardava a imagem de Bom Jesus dos Navegantes.


— Antes da imagem, a pedra já era sagrada, — disse Miraguaya. — O rio aceita muitos nomes, mas não esquece os primeiros.


A canoa passou pelo Crodzu Waré, o Porto dos Padres, e pelo Crodzudzi, o Porto de Baixo, onde antigamente rangia a Eyemé Merata, a balsa de ferro que cruzava histórias e destinos.


Ao longe, a Uocró Idabacrú, a ponte de pedra sobre o rio, ligava terras e separava modos de viver. Do outro lado, Propriá. Ali, Miraguaya apontou:


— Undé Piau. Lugar dos peixes. O rio é generoso com quem sabe esperar.


Mais adiante, os Piripiri balançavam com o vento, junco aquático que vira Tupé, esteira de descanso, nas mãos das mulheres da aldeia. E, por fim, o Boêdohe, Morro Vermelho oferecia sua tinta encarnada, memória da terra que também ensina a pintar o corpo e o tempo.


Quando o sol já ia alto, os visitantes do sertão estavam em silêncio. Não era cansaço. Era transformação.


— Agora vocês viram o rio, — disse Miraguaya. — Mas só entende o Opará quem deixa ele entrar por dentro.


E o rio, antigo e atento, seguiu seu caminho, levando consigo mais três histórias para guardar.



10. UBAUIPÚ ITOHIQUIETE – A LANCHA DOS VIAJANTES





O Uché, o Tempo, não caminhava: ele deslizava manso sobre as Dzuá, as águas do Opará. E quem soubesse olhar percebia que algo estava mudando. As antigas Ubácruté, canoas de pano que durante décadas cortaram o rio com paciência e coragem, começavam a ceder espaço a uma nova forma de viajar.


Chegavam as Ubauipú Itohiquiete, as Lanchas dos Viajantes. Eram canoas transformadas, agora com cobertura firme e motor a diesel no ventre, rompendo a correnteza com mais ligeireza. O rio era o mesmo, mas o jeito de atravessá-lo ganhava outro ritmo.


No Baixo São Francisco, quase toda Ubauipú carregava uma história anterior. Antes lancha, fora Ubácruté. As mãos que um dia esticaram pano e confiaram no vento, agora aprenderam a domar o motor. Não era abandono do passado, mas continuação — evolução que respeita a origem.


No antigo Radamy Cródzu, o Porto de Baixo, onde antes repousavam as canoas de pano, o cenário se renovava. As Ubauipúá alinhavam-se à margem, prontas para a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá. De um lado e do outro do rio, pessoas, histórias, mercadorias e esperanças cruzavam juntas.


Cada lancha levava quarenta passageiros e três tripulantes. Custava pouco atravessar: três reais para quem escolhia o rio, seis para quem seguia pelo Ibápohduá, o automóvel, pelas estradas de terra e asfalto. Mas não era só o preço que pesava na escolha. Havia quem preferisse o balanço das águas, o vento no rosto, o cheiro do rio vivo.


Mesmo com as rodovias cortando a paisagem e os transportes terrestres acelerando o mundo, as Ubauipúá continuavam essenciais. Não apenas como meio de transporte, mas como elo cultural. Para muitos, entrar numa lancha não era só atravessar: era Tuyokié, passear com o rio, conversar com o Opará, lembrar que a vida também sabe fluir.


E assim, enquanto o Tempo seguia mudando, as Lanchas dos Viajantes continuavam indo e vindo, levando no casco não apenas pessoas, mas a memória viva de um povo que aprendeu a transformar sem esquecer.



Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 




APÊNDICES 


CONTEXTO CULTURAL DO POVO KARIRI-XOCÓ


O povo Kariri-Xocó habita tradicionalmente a região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, às margens do Baixo Rio São Francisco.


Sua história está marcada por processos de resistência cultural, retomada territorial e preservação da identidade indígena no Nordeste brasileiro.


A relação com o Opará sempre foi central para o modo de vida Kariri-Xocó. O rio fornece alimento, orienta práticas sociais e aparece também em narrativas míticas e ensinamentos transmitidos pelos mais velhos.


Entre as práticas tradicionais destacam-se:


a pesca artesanal


a cerâmica indígena


a coleta de frutos da região


as travessias fluviais


os rituais associados ao ciclo da natureza


Os contos deste livro dialogam diretamente com essas práticas, apresentando episódios do cotidiano que refletem o conhecimento tradicional do povo.



GLOSSÁRIO



Palavras da Língua Kariri-Xocó presentes nos contos


Este glossário ajuda o leitor a compreender melhor algumas palavras e expressões usadas pelo povo Kariri-Xocó, preservando o significado cultural dentro das histórias.


Baiwo – Viver, morar, existir em determinado lugar.


Opará – Nome ancestral do Rio São Francisco, usado por diversos povos indígenas da região.


Uohoie – Tudo, totalidade, aquilo que abrange o conjunto das coisas.


Canghi – Bom, agradável, positivo, aquilo que traz alegria ou bem-estar.


Baiwo Opará – Viver no Rio São Francisco; expressão que representa o modo de vida ligado ao rio.


Canghi Opará – A bondade ou generosidade do rio, quando ele oferece fartura de peixe e boas águas.


Nhenety – Nome indígena; associado à ideia de quem observa, escuta e transmite histórias.


Toré – Ritual sagrado praticado por vários povos indígenas do Nordeste, envolvendo canto, dança e espiritualidade.


Aldeia – Território tradicional onde vive o povo indígena.


Barranco do rio – Margem de terra do rio onde muitas atividades do cotidiano acontecem.


Canoa – Embarcação tradicional usada para pesca e travessia no rio.


Barro da cerâmica – Terra retirada das margens ou lagoas para produção de peças artesanais.


Dzuá – águas.


Opará – nome indígena do Rio São Francisco.


Uché – tempo.


Kayaku – lua ou período lunar associado aos ciclos naturais.


Tokenhé – antepassados.


Wãmyá – peixes.


Tetsiá – mulheres.


Inghéá – crianças.


Pahankó – barranco.


Ruñohú – utensílios de cerâmica.


Ubacródzuá – porto das canoas.


Boêdohe – morro ou elevação de terra.


Natiá – aldeia.


Undéá – lugares.



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, Brasil.

É contador de histórias oral e escrita, pesquisador da memória cultural indígena e autor de diversos textos sobre a vida, os costumes e a história de seu povo.

Por meio da literatura e de seu blog, dedica-se à preservação da cultura, da língua e das narrativas tradicionais associadas ao Rio São Francisco, conhecido entre os povos indígenas como Opará.

Blog do autor:

https://kxnhenety.blogspot.com⁠�



SOBRE A OBRA


Este livro reúne contos que retratam a vida cultural, social e espiritual do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.


As histórias revelam práticas antigas, como pescarias coletivas, brincadeiras de infância, observação da natureza e o respeito aos ciclos da vida.


A obra também apresenta termos da língua Kariri-Xocó, fortalecendo o processo de valorização e revitalização cultural.


Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom reúne dez contos que retratam a vida cultural e social do povo Kariri-Xocó às margens do Rio São Francisco.


As histórias percorrem diferentes momentos da vida ribeirinha: a infância nas margens do rio, as pescarias tradicionais, as enchentes que transformam a paisagem, o comércio de cerâmica e peixe, os ensinamentos dos mais velhos e as mudanças trazidas pela modernidade.


Cada narrativa revela a profunda ligação entre o povo Kariri-Xocó e o Opará, mostrando que o rio não é apenas um elemento geográfico, mas um verdadeiro eixo de identidade cultural.



ORELHA DO LIVRO (TEXTO)


Nas margens do grande Opará, o Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.

Neste livro, Nhenety Kariri-Xocó apresenta contos que nascem da memória de seu povo e da convivência com a natureza.

As narrativas mostram a vida ribeirinha, os ensinamentos dos mais velhos, as brincadeiras de infância, a relação sagrada com os animais, as lagoas e as águas do rio.

Cada conto é uma pequena porta aberta para o universo cultural Kariri-Xocó, onde tradição, memória e natureza caminham juntas.

Ler estas histórias é navegar pelo Opará — um rio que corre não apenas pela terra, mas também pelo coração de quem o conhece.



CONTRACAPA



Nas margens do grande Opará, nome ancestral do Rio São Francisco, vivem histórias que atravessam gerações.


Neste livro, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne dez contos que nascem da memória viva de seu povo e da convivência profunda com o rio que sustenta a vida no Baixo São Francisco.


As narrativas revelam cenas do cotidiano ribeirinho: crianças brincando nos barrancos molhados, pescadores enfrentando as águas do rio, mulheres lavando roupas nas margens, aves que anunciam os ciclos da natureza e antigas lagoas que guardam segredos da terra.


Entre lembranças de enchentes, pescarias, travessias de canoa, comércio tradicional de cerâmica e histórias transmitidas pelos mais velhos, o autor apresenta uma visão de mundo em que natureza, cultura e memória caminham juntas.


Misturando a língua Kariri-Xocó com a língua portuguesa, os contos preservam expressões e significados culturais que revelam a profunda ligação entre o povo indígena e o Opará, o rio que corre não apenas pela terra, mas também dentro das pessoas.


Baiwo Opará Uohoie Canghi – Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom é mais do que um livro de contos: é um testemunho de identidade, resistência cultural e amor pelo território.


Uma obra que convida o leitor a navegar pelas águas do São Francisco e descobrir que cada curva do rio guarda uma história.


Sobre o autor


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da região de Porto Real do Colégio, Alagoas.


É contador de histórias oral e escrita e dedica-se ao registro da memória cultural de seu povo, valorizando a tradição, a língua e os saberes transmitidos pelas gerações.


Blog do autor:


kxnhenety.blogspot.com



LOMBADA LATERAL DO LIVRO 



A lombada é a parte lateral do livro que aparece quando ele está na estante.


Texto sugerido para a lombada:


BAIWO OPARÁ UOHOIE CANGHI


Viver no Rio São Francisco Tudo de Bom


Nhenety Kariri-Xocó


(se houver logotipo da editora ou publicação independente ele pode ir na parte inferior)






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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