Nas margens do sagrado Opará, o velho rio que os não indígenas chamam de São Francisco, a água não corre apenas — ela conversa.
O Opará lembra.
Ele viu passar gerações Kariri-Xocó. Viu crianças se tornarem anciãos. Viu histórias nascerem ao redor da fogueira. E foi ele quem primeiro ouviu a voz de Nhenety.
Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, vivia o Worobü Woroyá Toklikli — o Contador de Histórias Oral. Seu nome era Nhenety, que significa tradição, ser lembrado.
Desde cedo, os mais velhos diziam: — Esse menino carrega memória nos olhos.
Quando Nhenety narrava as histórias dos antigos, o vento parecia diminuir para escutar. As crianças sentavam ao seu redor. Jovens, pesquisadores e estudantes vinham de longe para ouvir sobre os Kariri-Xocó e os povos do Baixo São Francisco.
Mas um dia o próprio Opará percebeu algo diferente no ar.
No ano de 2004, chegaram à aldeia fios invisíveis. Chamavam-se Pité Uanieá Piteiatekié — Rede Índios On-Line. Junto veio a Piteiatekié — Internet — e o Crametekié — Computador.
Alguns temeram que a máquina silenciasse a palavra.
Mas naquela noite, sentado à beira do rio, Nhenety escutou o sussurro das águas:
— A tradição não morre quando muda de forma. Ela apenas encontra novos caminhos.
Foi então que, em 2007, ele deu nome ao novo tempo: Seridsã — o Arco Digital.
Se antes o arco lançava flechas, agora lançaria palavras.
Se antes a canoa deslizava pelas águas do Opará, agora navegaria pelas águas invisíveis da rede.
Nasceu o Kaie Pitéibá — o Diário na Rede em Bordo.
Cada texto publicado era como uma oferenda ao rio. Cada conto era uma reza escrita. Cada cordel era uma flecha lançada para além das fronteiras.
O blog KX Nhenety tornou-se canoa digital.
KX de Kariri-Xocó.
Nhenety, o guardião da memória.
E o Opará sorriu.
Porque entendeu que agora as histórias não viajariam apenas pelo vento, mas também pela luz.
E assim, tradição e tecnologia passaram a caminhar juntas, como dois pés na mesma trilha.
Enquanto o rio correr, enquanto houver palavra, o Kaie Pitéibá continuará navegando.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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