segunda-feira, 2 de março de 2026

KAIE PITÉIBÁ — O DIÁRIO NA REDE EM BORDO






Nas margens do sagrado Opará, o velho rio que os não indígenas chamam de São Francisco, a água não corre apenas — ela conversa.


O Opará lembra.


Ele viu passar gerações Kariri-Xocó. Viu crianças se tornarem anciãos. Viu histórias nascerem ao redor da fogueira. E foi ele quem primeiro ouviu a voz de Nhenety.


Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, vivia o Worobü Woroyá Toklikli — o Contador de Histórias Oral. Seu nome era Nhenety, que significa tradição, ser lembrado.


Desde cedo, os mais velhos diziam: — Esse menino carrega memória nos olhos.

Quando Nhenety narrava as histórias dos antigos, o vento parecia diminuir para escutar. As crianças sentavam ao seu redor. Jovens, pesquisadores e estudantes vinham de longe para ouvir sobre os Kariri-Xocó e os povos do Baixo São Francisco.


Mas um dia o próprio Opará percebeu algo diferente no ar.


No ano de 2004, chegaram à aldeia fios invisíveis. Chamavam-se Pité Uanieá Piteiatekié — Rede Índios On-Line. Junto veio a Piteiatekié — Internet — e o Crametekié — Computador.


Alguns temeram que a máquina silenciasse a palavra.


Mas naquela noite, sentado à beira do rio, Nhenety escutou o sussurro das águas:

— A tradição não morre quando muda de forma. Ela apenas encontra novos caminhos.


Foi então que, em 2007, ele deu nome ao novo tempo: Seridsã — o Arco Digital.

Se antes o arco lançava flechas, agora lançaria palavras.


Se antes a canoa deslizava pelas águas do Opará, agora navegaria pelas águas invisíveis da rede.


Nasceu o Kaie Pitéibá — o Diário na Rede em Bordo.


Cada texto publicado era como uma oferenda ao rio. Cada conto era uma reza escrita. Cada cordel era uma flecha lançada para além das fronteiras.

O blog KX Nhenety tornou-se canoa digital.

KX de Kariri-Xocó.


Nhenety, o guardião da memória.

E o Opará sorriu.


Porque entendeu que agora as histórias não viajariam apenas pelo vento, mas também pela luz.


E assim, tradição e tecnologia passaram a caminhar juntas, como dois pés na mesma trilha.


Enquanto o rio correr, enquanto houver palavra, o Kaie Pitéibá continuará navegando.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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