1. FALSA FOLHA DE ROSTO
UCHÉTÉ IWORÓ
O TEMPO GIRA AS COISAS VEM
Contos do Povo Kariri-Xocó
Nhenety Kariri-Xocó
2. VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO
Obra literária composta por contos de tradição oral e memória cultural do povo indígena Kariri-Xocó, organizada e escrita por Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias oral e escrita.
Os contos apresentados nesta obra foram originalmente publicados no blog do autor:
kxnhenety.blogspot.com
Esta obra reúne narrativas que dialogam com o tempo, a memória, a natureza, o alimento, o trabalho e a resistência do povo Kariri-Xocó do rio Opará.
3. FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)
UCHÉTÉ IWORÓ
O TEMPO GIRA AS COISAS VEM
Contos do povo Kariri-Xocó
Autor
Nhenety Kariri-Xocó
Brasil
2026
4. FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)
Ficha catalográfica simplificada (depois pode ser adaptada por bibliotecário).
N972u
Kariri-Xocó, Nhenety
Uchété Iworó: o tempo gira as coisas vem : contos do povo Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.
Livro de contos que reúne narrativas sobre memória, natureza, alimentação tradicional, trabalho comunitário e resistência cultural do povo indígena Kariri-Xocó do baixo rio São Francisco.
Literatura indígena brasileira
Cultura Kariri-Xocó
Contos tradicionais
Memória cultural indígena
CDD: 869.93
5. DEDICATÓRIA
Dedico este livro ao meu povo Kariri-Xocó, guardião do rio Opará, da terra e da memória.
Dedico também aos anciãos e anciãs, que ensinaram que a palavra é semente e que a história só vive quando é contada.
E às novas gerações, para que nunca esqueçam que o tempo gira, mas a memória permanece.
6. AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente à Raddadé, a Mãe Terra, que sustenta a vida de todos os povos.
Aos anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó, que guardaram a memória e a transmitiram de geração em geração.
À minha comunidade, que mantém viva a tradição do Toré, da roça, da pesca, da cerâmica e da palavra contada ao redor da fogueira.
Aos leitores que se aproximam desta obra com respeito, buscando compreender a riqueza da cultura indígena.
7. EPÍGRAFE
"Enquanto houver quem conte e quem escute,
o tempo do nosso povo nunca será esquecido."
— Sabedoria Kariri-Xocó
8. SUMÁRIO
Prefácio
Apresentação
Introdução
CONTOS ( 01 a 10 )
01. Kayáuché Batti – O Tempo que Caminha com a Lua;
02. Amiteá Uanhoá Tseho – O Saber da Comida Kariri;
03. Uché Wongheré – O Tempo da Pobreza;
04. Naté Bechiéá – Trabalho na Roça;
05. Uché Uttihuá – O Tempo das Frutas;
06. Uché Amite Eicoré – Tempo do Alimento Escasso;
07. Woroy Eráye – A História da Casa Grande;
08. Dipete Amiteá – A Doação de Alimentos;
09. Uanienaté – O Tempo e as Vocações do Povo;
10. Benheokli Benheye, O Telefone Orelhão.
Glossário Kariri-Xocó
Apêndices
Sobre a Obra
Dados Biográficos do Autor
Referências culturais
9. PREFÁCIO
O livro “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem” apresenta ao leitor um conjunto de contos profundamente enraizados na tradição cultural do povo indígena Kariri-Xocó, habitante das margens do rio Opará, no baixo São Francisco.
As narrativas reunidas por Nhenety Kariri-Xocó dialogam com uma tradição milenar de transmissão de conhecimento por meio da oralidade. Cada conto funciona como uma memória viva, na qual o tempo não é apenas uma medida cronológica, mas um ciclo ligado à natureza, à lua, às estações e à vida coletiva da aldeia.
Ao narrar histórias sobre o calendário lunar, a alimentação tradicional, o trabalho na roça, o tempo das frutas, a escassez e a resistência do povo, o autor preserva e compartilha saberes ancestrais que muitas vezes não estão registrados em livros.
Assim, esta obra não é apenas um livro de contos, mas também um registro cultural, histórico e simbólico da experiência indígena Kariri-Xocó.
10. APRESENTAÇÃO
Esta obra reúne dez contos de autoria de Nhenety Kariri-Xocó, originalmente publicados em seu blog.
As histórias são inspiradas nas memórias, ensinamentos e experiências culturais do povo Kariri-Xocó, que vive às margens do rio Opará, no estado de Alagoas.
Os contos apresentam personagens, situações e conhecimentos ligados à vida cotidiana da aldeia, como:
o calendário lunar indígena
o saber tradicional da alimentação
o trabalho coletivo na roça
os tempos de fartura e de escassez
a memória histórica do povo
Cada narrativa busca preservar a tradição da história contada ao redor da fogueira, prática fundamental na transmissão do conhecimento entre gerações.
11. INTRODUÇÃO
Na cultura indígena, o tempo não é apenas contado — ele é vivido, observado e sentido.
Entre o povo Kariri-Xocó, o tempo se manifesta no movimento da lua, na subida do rio, no amadurecimento das frutas e no trabalho coletivo da comunidade. Cada ciclo traz ensinamentos e memórias que orientam a vida do povo.
O título desta obra, “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem”, expressa essa compreensão circular do tempo, em que passado, presente e futuro caminham juntos.
Os contos aqui reunidos são narrativas que nascem da tradição oral e da observação da vida cotidiana. Eles registram experiências de resistência cultural, sabedoria ancestral e relação sagrada com a natureza.
Ao reunir esses textos em forma de livro, o autor busca contribuir para a valorização da literatura indígena brasileira e para a preservação da memória cultural do povo Kariri-Xocó.
12. CONTOS ( 01 a 10 )
01. KAYÁUCHÉ BATTI – O TEMPO QUE CAMINHA COM A LUA
Inamarú aprendeu cedo que o tempo não se conta com números, mas com sinais. Foi Inamarú, o mais velho da aldeia, quem lhe ensinou a ouvir o céu e a terra, a perceber quando a lua fala e quando o rio responde. Sentados à beira do Opará, sob o canto distante das cigarras, o velho iniciou mais uma vez o ensinamento do Kayáuché Batti, o Calendário do Tempo Lunar do povo Kariri-Xocó.
— Escuta, Tanoãny, disse Inamarú, apontando para o céu ainda pálido. — Nosso Radda Uanie, o Mundo Indígena, não nasce dos meses do homem branco. Ele nasce da lua, do vento, da chuva e do alimento.
Na Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, o povo se reúne. É tempo do Akryte, o caju maduro, e dos Tidzebæ, os relâmpagos que riscam o céu como mensagens dos antepassados. Inamarú lembrava-se das danças, do cheiro da mata e do silêncio respeitoso antes do ritual.
Quando chega a Mydzé Kayaku, a Lua dos Peixes, o rio se agita. É a piracema, a subida dos peixes, e também o tempo do Buruhúá, quando as mãos dos artesãos trabalham sem descanso. Inamarú sorria ao ver Tanoãny observando as redes sendo lançadas e os cestos sendo trançados.
Na Uanhí Kayaku, a Lua da Lavoura, a terra é aberta com cuidado. Planta-se Masiche, o milho, e Ghinhé, o feijão. Já na Içá Kayaku, a Lua das Tanajuras, as formigas alçam voo para formar novos mundos sob a terra, ensinando que recomeçar é parte da vida.
A Siné Kayaku, a Lua Escura, traz respeito e atenção. As cobras aparecem, e com elas o aviso de que mudanças caminham. Logo depois vem a Dzó Kayaku, a Lua da Chuva. O som das Dzóá cai sobre a aldeia, e o milho verde alimenta corpos e histórias.
Na Curuté Kayaku, Lua da Colheita, o milho e o feijão secaram. É tempo de colher, comer e trocar. A Cunhí Kayaku, Lua do Frio, cobre a terra de neblina e prepara o solo para descansar sob o sol que retorna.
Quando o calor chega com a Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, inicia-se o Naté Ruñohú, o trabalho cerâmico. As mãos moldam o barro, como os antigos ensinaram. Na Puruá Kayaku, Lua das Flores, os ventos correm livres e as Cattiá, as abelhas, fazem o mel entre as árvores em flor.
Na Bunhawí Kayaku, a Lua da Cerâmica, na Ubacródzu, a Canoa do Porto, os potes e panelas são queimados no fogo certo, prontos para ganhar o mundo. Por fim, chega a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. O Opará sobe, trazendo força e lembrança, fechando o ciclo do tempo.
Inamarú silenciou. Tanoãny olhou para o céu e compreendeu: o tempo não termina, apenas se transforma. Enquanto houver lua, rio e palavra, o Kayáuché Batti continuará caminhando com o povo Kariri-Xocó.
E assim, o ensinamento seguiu, de ouvido a ouvido, de geração a geração.
02. AMITEÁ UANHOÁ TSEHO – O SABER DA COMIDA KARIRI
Nas Natiá, as aldeias antigas dos Kariri do Opará e da Caatinga do sertão, o sol nascia sempre acompanhado do cheiro da terra aquecida e do canto dos pássaros. Ali vivia Suiara, mulher sábia, conhecedora dos Amiteá, os alimentos que sustentavam o corpo e o espírito de seu povo. Diziam que Suiara aprendia ouvindo a Antse, a Natureza, e que cada alimento lhe falava em silêncio.
Suas filhas, Nayane e Amany, já eram moças curiosas. Queriam aprender tudo o que a mãe sabia, pois entendiam que o saber da comida era também o saber da vida. Naquela manhã, sentaram-se ao redor da fogueira, enquanto Suiara preparava a Runhú, a panela de barro, e começou a ensinar.
— Antes dos Peró, os portugueses, — disse Suiara — nosso povo já conhecia os Uanhoá, os costumes que vinham da Retsé, da floresta, e dos Iwoá, os rios.
Ela mostrou os Wãmyá, peixes pescados com respeito; os Uttihu, frutos colhidos no tempo certo; os Keritóá, animais de caça; os Tudjeá, legumes da roça; e o Kati, o mel doce oferecido pelas abelhas da mata.
Nayane observava enquanto a mãe colocava os ingredientes no fogo. Amany ajudava a preparar o Aribá, o prato de barro, e o Babasité, o espeto para assar a carne. Mais adiante, Suiara apontou o Badzuru, o moquém onde as carnes eram defumadas lentamente, e o Bubehó, o forno que guardava o calor da terra.
— Foi assim que aprendemos a fazer o Saredu, o bolo doce de mandioca; o Woudu, de massa simples; o Waraeró, o beijú assado; e a Sekiki, a farinha fina e seca — explicou com calma.
À noite, enquanto a lua subia, Suiara falou das bebidas. Contou sobre o Bydzu, licor doce misturado com frutas e mel; o Yeru, o vinho trazido pelos capuchinhos; e o Nhupy, vinho de milho fermentado naturalmente, preparado com paciência e respeito.
— Não é só comida, minhas filhas — disse ela — é memória.
Suiara ensinou também o Creyá, a técnica de assar sob a terra; o Madzó, milho verde nas brasas; o Waredú, bolo de mandioca adocicado com mel de uruçú. Falou do tempo em que chegaram os colonizadores, trazendo o gado e a Riné, a carne salgada, e o Crodzó, a carne de boi cozida ou assada.
Por fim, reuniu os alimentos que nunca faltaram: o Ghinhé, feijão companheiro de tudo; a Muicú, mandioca de muitas formas; a Bacobá, banana simples ou em mingau; e o Obó, fruto do umbu, que virava embuzada nos tempos de seca.
Nayane e Amany ouviram em silêncio. Sabiam que aquele aprendizado não estava apenas na palavra, mas no gesto, no fogo e no tempo. Ao final, abraçaram a mãe.
E Suiara sorriu, certa de que o saber dos Kariri continuaria vivo, passando de geração em geração, como o fogo que nunca se apaga.
03. UCHÉ WONGHERÉ – O TEMPO DA POBREZA
A fogueira ardia mansa no centro da aldeia. As chamas dançavam como espíritos antigos, lançando sombras nas paredes de barro das casas. As crianças se achegavam, os mais velhos sentavam em silêncio. Era tempo de escuta.
Neêperé, a anciã, ajeitou o manto sobre os ombros marcados pelos anos e chamou com a voz calma:
— Indaiá, venha mais perto, minha neta. Hoje vou falar do Uché Wongheré, o tempo da pobreza… para que você nunca esqueça.
Indaiá sentou-se aos pés da avó, os olhos atentos, enquanto o povo se aproximava. Quando Neêperé falava, era como se a própria terra respirasse.
— Houve um tempo — começou ela — em que os Uanieá, nosso povo indígena, viviam em harmonia com a Antse, a Natureza. A Radda, a Terra, nos dava sustento. Da Retsé, a Floresta, vinham os alimentos, os remédios, os ensinamentos. Havia fartura todos os dias, e o coração do povo era leve.
O fogo estalou, como se confirmasse aquelas palavras antigas.
— Mas então veio outro Uché, outro tempo… o tempo da chegada dos Caraí, os brancos. Vieram os Peró, os portugueses, junto com os missionários. Criaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, reunindo indígenas sob regras que não eram as nossas.
Neêperé fez uma pausa. Seus olhos marejaram, mas a voz seguiu firme.
— Anos depois, aquela aldeia deixou de ser aldeia. A Woroby, a notícia, chegou dura: a Natiá havia se tornado Naticróraí, um povoado de brancos, uma cidade. Diziam que agora ali viviam os Uanaraí, caboclos, mistura de indígenas e brancos. Mas para nós… foi o começo da perda.
Indaiá apertou a mão da avó.
— Os Uanieá perderam seus Honéá, seus direitos sobre a Radda, a Terra. Foi uma grande Dzeyá, uma tristeza profunda. Começou nosso Unu, o sofrimento. A Ami, a fome, entrou na aldeia como um vento frio que não vai embora.
Algumas pessoas ao redor abaixaram a cabeça. Outras deixaram cair silenciosas Pocú, lágrimas antigas.
— Fomos empurrados para a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Ali, muitos homens começaram a Wodó, a se embebedar, tentando calar a dor. O Tseho, o povo, adoeceu, caiu em Canghikié, estado de doença do corpo e da alma.
A anciã respirou fundo antes de continuar.
— Muitos partiram para o Naté Wanheré, trabalhar nas fazendas dos brancos. As Tetsiá, as mulheres, foram levadas para as Erácaraí, as casas dos brancos, como domésticas. Era Arancreru, vergonhoso. Vestíamos Roruréá, roupas velhas, e vivíamos na Wongheré, a pobreza.
O silêncio pesou, quebrado apenas pelo som do fogo.
Então Neêperé ergueu o olhar, firme como tronco antigo.
— Mas, minha neta, escute bem: mesmo na dor, nunca perdemos a Coram, a esperança. Depois de muitos anos de sofrimento, o povo entendeu que precisava Teudiokié Honéá, lutar pelos seus direitos.
Ela sorriu, suave.
— Essa é a nossa história. Foi assim quando a Natiá, a aldeia, virou Naticróraí, a cidade dos brancos. Mas também foi assim que aprendemos a resistir, a lembrar quem somos e a ensinar aos mais novos.
Neêperé acariciou os cabelos de Indaiá.
— Enquanto houver quem conte e quem escute, nosso tempo não será esquecido.
A fogueira continuou acesa. E a memória também.
04. NATÉ BECHIÉÁ – TRABALHO NA ROÇA
Naquela noite clara, sob o céu costurado de estrelas, a fogueira ardia no centro da Natiá, a Aldeia. O fogo estalava como se também quisesse contar histórias. Em roda, sentados sobre a terra firme, estavam os anrotseá, os anciãos, com seus olhos profundos voltados tanto para as chamas quanto para o passado.
O velho pajé Suíra passou a mão lenta pela barba branca e falou com voz mansa, mas firme. Era tempo de bechiéá, o trabalho na roça. A lua já anunciava o Uanhí Kayaku — a Lua da Lavoura, no mês de março. Irecê, atento ao céu e à terra, confirmou: era o período do tçate retsé, o cortar do mato, feito com a creyahé, a foice que abre caminho para o plantio.
Ynorá, sentada perto da fogueira, escutava em silêncio. Aprendia que, depois do mato cortado, vinha a coivara, o queimar do mato seco, para que a terra se tornasse uanhídda — terra boa para lavoura, viva e pronta para receber a semente.
Dias depois, a aldeia despertou com o som do mutirão. Homens, mulheres, jovens e velhos se reuniram para roçar o mato, arrancar tocos e preparar a coivara. Era o trabalho coletivo de entreajuda, onde ninguém ficava sozinho.
Na manhã seguinte, os anraná pegaram a tasí, a enxada, e começaram a cavar a terra. As tetsiá, com mãos sábias, plantaram masiche (milho), ghinhé (feijão), eremú (abóbora), muicú (mandioca) e endi (algodão). Nos arredores da Natiá, as mulheres também plantaram bacobá (banana), behedzí (melancia), propwi (melão-de-são-caetano) e tané (fumo). Cada semente lançada era um gesto de fé no futuro.
Quando o sol já se inclinava no céu, o Wontyrõ "mutirão" chegou ao fim. Então foi servido o Amíuyõ, a comida coletiva de muitos. O alimento partilhado aquecia o corpo, e a presença reunida aquecia o espírito.
Foi nesse momento que o pajé Suíra se levantou. O silêncio se fez. Ele agradeceu a todos por manterem viva a tradição, mas sua voz carregava preocupação. Disse que, a cada batti — a cada ano — via menos gente nos mutirões. Falou das ibaranúá, as motos; do ibápohduá, o automóvel; e do tokliddaysã, o telefone celular, que aos poucos afastavam as pessoas da roça e da convivência.
— A agricultura é a base de nossa alimentação — disse ele. — Nossos produtos são puros, livres de contaminação. Eles trazem saúde para o corpo e para o espírito. Podemos usar a tecnologia, sim, mas nunca abandonar nossa tradição e nossa cultura.
As palavras do velho pajé tocaram fundo. Um a um, todos concordaram. Prometeram continuar o bechiéá, o trabalho na roça, como os antigos ensinaram.
Passado algum tempo, chegou a Curuté Kayaku — a Lua da Colheita, no mês de julho. A aldeia se reuniu novamente em grande mutirão. A terra respondeu generosa: colheram muito milho, feijão, abóbora e melancia. A fartura encheu os cestos e os corações.
À noite, a comunidade celebrou em um grande Toré. Os pés batiam a terra, os cantos subiam ao céu, e todos agradeceram à Raddadé, a Mãe Terra, pela abundância da grande roça comunitária. A fogueira, mais uma vez, iluminava rostos felizes — e a tradição seguia viva, passada de geração em geração.
05. UCHÉ UTTIHUÁ – O TEMPO DAS FRUTAS
Quando o sol começava a dourar as margens do Opará e a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, surgia no céu de dezembro, a Aldeia Kariri-Xocó despertava para o Uché Uttihuá, o Tempo das Frutas. Era um tempo antigo, vivido desde antes da chegada dos colonizadores, mas que aprendeu a conviver com as mudanças trazidas pelos séculos de contato.
Naquele amanhecer, Curiãny, mulher forte e de passos firmes, atravessava o caminho de terra com um grande Setuá Uttihu, o balaio de frutas, equilibrado na cabeça. Seu corpo conhecia o peso da fartura e o valor da colheita. No balaio, misturavam-se as Uttihuá Caraí, frutas trazidas pelos brancos — mangas maduras, laranjas perfumadas, uvas doces — com as Uttihuá Uanieá, frutas indígenas colhidas na mata e na várzea.
Curiãny vinha da Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa, onde a terra negra e molhada oferecia abacaxis, goiabas, mamões e jabuticabas. Em seus pensamentos, ela lembrava que aquela terra havia alimentado gerações, muito antes das cidades nascerem às margens do rio.
Perto da aldeia, o cheiro do barro queimado anunciava o trabalho de Soyá, a ceramista. Sentada à sombra, ela alisava com cuidado um Ruño, o pote de barro, moldado com saber herdado dos antigos. O barro vinha do chão, a água do rio, e o fogo dava forma ao que serviria para guardar alimentos, água e histórias.
— Hoje é dia de troca — disse Soyá, ao ver Curiãny se aproximar.
— Dia de fartura — respondeu a mulher do balaio, sorrindo.
O Ruño passou das mãos de Soyá para as de Curiãny, e as frutas seguiram o caminho contrário. Assim era o costume: a cerâmica encontrava as frutas, e o trabalho encontrava o alimento, num equilíbrio que mantinha viva a aldeia.
Perto dali, as jovens Anary e Rayná observavam tudo com olhos atentos. Elas carregavam pequenos cestos e aprendiam, em silêncio, o valor daquele tempo. Anary admirava a força de Curiãny, enquanto Rayná se encantava com os desenhos simples gravados no barro de Soyá.
— É no Uché Uttihuá que o povo se fortalece — disse a mais velha da aldeia, aproximando-se. — É quando as frutas amadurecem e o espírito se prepara para a Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri.
As meninas sabiam que, naquele tempo, também chegavam as Uttihuá Retsé, as frutas silvestres: ubáia, maracujá-do-mato, quixaba, gobiraba, gravatá e gavadî. Frutas que não vinham das cidades, mas da mata que ainda resistia.
Às vezes, as frutas também chegavam pelas águas, trazidas das Naticróbeá, as cidades ribeirinhas. Vinham na Ubacródzu, a Canoa dos Portos, em longas viagens onde o povo trocava cerâmica por alimentos, mantendo laços antigos com o rio.
Quando a noite caiu, a aldeia se encheu de vozes, cantos e risos. O Tempo das Frutas não era apenas de comer, mas de lembrar, celebrar e agradecer. Entre balaios, potes de barro e luas que passavam, o povo Kariri-Xocó seguia mantendo vivo o que nunca se perdeu: a relação sagrada entre a terra, o rio e o saber ancestral.
E assim, enquanto as frutas amadureciam, amadurecia também a memória do povo.
06. UCHÉ AMITE EICORÉ – TEMPO DE ALIMENTO ESCASSO
Naquele tempo antigo, que os mais velhos chamam de Tudenhé, o Passado, a terra falava pouco e o céu se fechava. O Iwo Crocrá, o Rio Seco, estendia seu leito rachado como se fosse pele cansada, e as Dzurióá, as lagoas, guardavam apenas um resto de água, espelhando o sol forte do verão. As Dzóá, as chuvas, demoravam a chegar, e o Amite, o alimento, tornava-se raro.
Era nessas horas que o ancião Ibamurú, que conheceu muitos tempos difíceis, reunia as crianças e os jovens sob a sombra do ouricuri. Sua voz era baixa, mas firme, carregada de memória.
— Esse é o tempo do Uchê Amite Eicoré, dizia ele. Tempo de escassez, mas também de ensinamento.
Ao seu lado estava Marú, seu filho, já homem feito, atento a cada palavra do pai. E um pouco mais à frente, sentada sobre uma raiz grossa, estava Inauãny, sua sobrinha, olhos curiosos, aprendendo com o silêncio tanto quanto com a fala.
Ibamurú ensinava que, quando o alimento falta, o povo não se perde. Aprende a olhar de novo para a terra.
— Nas Dzurióá com pouca água, explicava ele, ainda vivem o Musũ, peixe alongado, a Piaba, o Sãmbá, o cágado paciente, e o Myghy, o caramujo que se esconde, mas não some.
Marú lembrava das vezes em que, com cuidado, pescavam apenas o necessário, respeitando o tempo da lagoa. Inauãny observava como cada gesto tinha medida, como nada era tirado além do que o corpo precisava.
Na Retsé, a floresta do Ouricuri, o povo buscava o que a terra oferecia em silêncio: o Kariru, planta que enche o cesto, o Majõgomy, o beldroegão que fortalece; o Igaboró, o inhame-bravo, que só quem conhece sabe preparar.
— A floresta ensina paciência, dizia Ibamurú. Ela testa quem anda nela.
No Merá, o campo aberto, surgia o Dupami, a frutinha vermelha chamada mata-fome, e o Umari, fruto do marizeiro. As amêndoas eram levadas ao fogo para Udé, cozinhar, e depois repartidas em Bohé, a coletividade, porque ninguém comia sozinho.
Na Sitó, a caça, vinham a Tijubina, lagarto bico-doce, e o Bani, o mocó ágil das pedras, o Cóaca "Caroço de Jaca" e a Jety "Batata-doce" que eram assadas na brasa tem um bom sabor. Sempre com respeito, sempre agradecendo.
Quando a noite chegava, Inauãny perguntava:
— Vovô Ibamurú, como nosso povo resistiu a tudo isso?
O ancião sorria, olhando o fogo dançar.
— Resistimos porque nunca esquecemos o Samy, nossa cultura, nem o Nhenetí, nossas tradições. A fome pode apertar o corpo, mas não pode vencer a memória.
Marú completava, olhando para a nova geração:
— Enquanto soubermos ouvir os mais velhos e respeitar a terra, o povo Kariri-Xocó nunca estará perdido.
E assim, no tempo do alimento escasso, o povo aprendeu que sobreviver não era apenas comer, mas lembrar quem se é.
07. WOROY ERÁYE – A HISTÓRIA DA CASA GRANDE
A Casa Grande sempre esteve ali, silenciosa e atenta, como se guardasse em suas paredes a respiração antiga da terra. Chamávamos de Eráye ou Picriá e ela não era apenas uma casa: era um marco, um sinal de mudança, um ponto de travessia na história do povo Kariri-Xocó.
A história da Fazenda Sementeira é muito antiga. Ao longo do tempo, aquela propriedade teve vários nomes e diferentes sedes administrativas, acompanhando os interesses dos brancos e do Estado. O prédio da Casa Grande, como sede principal, correspondeu apenas a uma das fases dessa longa história de ocupação e transformação do território indígena.
Quando, em 1978, retomamos a Fazenda Modelo — conhecida também como Sementeira — a Casa Grande deixou de ser sede de fazenda para tornar-se abrigo de muitas vidas. Funcionários da CODEVASF foram retirados, e nós, indígenas Kariri-Xocó, ocupamos as construções que ali existiam: casarões antigos, galpões, cocheiras, escola, casas de funcionários. Quem não encontrou teto, ergueu barracas. A terra nos recebia novamente.
A Casa Grande tornou-se lar de vinte e duas famílias. Cada porta, cada canto, cada alpendre guardava uma história. Ali viveram Alírio e Maria de Lourdes, Ivete e Antônio Cruz, Luiza Tenório e família, Arnaldo e Chica, Zé Brinquinho e Especília, Helena Tenório e Lucineide, Mané Galo e Ianí, Antônio Tenório e Landa, Gena e Zeire, Dinalva e Juarez, Zé Tenório e Givalda, Gergina e família, Gringo e Antônia, Maria Vermelha e Miguel Suíra, o cacique Cícero e Anália, Zé Gatinho e Eurides, Paulo Nunes e Maria Véia, Zé Taré e Antônia. Havia ainda Zefina, Vera, Roselita e Euda — famílias do coração, unidas pelos filhos e pela convivência.
Eu, Nhenety, morei ali com minha família. Por isso conto essa história.
A Casa Grande era cheia de vida. Os mais velhos contavam histórias ao cair da noite, enquanto os adultos saíam para pescar nas lagoas fartas. Nos fundos, o alpendre se enchia de fogos de lenha acesos, e tudo era repartido: comida, palavra, silêncio. À noite, redes armadas, lençóis no chão, esteiras e tapetes acolhiam corpos cansados, mas esperançosos.
Em 1979, veio a grande enchente. Ficamos ilhados. Os meninos saíam para colher mangas nas margens do Rio São Francisco, que parecia não ter fim. O alimento enviado pelo governo chegou e amenizou a fome por alguns dias, mas foi a união que nos sustentou.
Atrás da Casa Grande ficava a Dzurichi, a Lagoa Comprida. Ali pescávamos e plantávamos arroz. Suas águas banhavam o Hechi Wathõ, o Alto do Bode, morro sagrado onde antes existira a Natianie, a antiga aldeia indígena tradicional. A terra falava conosco, mesmo quando não percebíamos.
Outro fato importante sobre o local da Casa Grande me foi contado pela velha índia Mareinha. Um dia, ela me disse assim:
— Olha, Nhenety, esse lugar onde hoje fica a Casa Grande foi, no final do século XVIII, morada do Pajé Ludovico. A casinha do pajé era coberta com casca de jatobá. Depois que ele morreu, anos mais tarde, os brancos tomaram o local.
Essa palavra ficou guardada em mim como semente, mostrando que, antes das paredes de tijolo, ali já existia morada de saber, reza e cura.
Durante a enchente, os jovens que estudavam no Ginásio São Francisco, na cidade, pediram ao prefeito uma canoa para atravessar o rio e não perder as aulas. Eu estava entre eles. Ao voltar da escola, eu, Lenoir, Zé Birrinha e Dijalma fazíamos mingau de milho com leite em pó. Era nosso jantar, simples e compartilhado.
Quando as águas baixaram, surgiu uma superpopulação de preás nos arredores. Davi e meu irmão Antônio fizeram aratacas. Pegamos muitos. Nossas mães preparavam cozidos e carnes moqueadas — comida boa, lembrança viva até hoje.
Lembro também de 1980, quando Jaime trouxe um toca-discos. No alpendre da Casa Grande dançamos ao som da música popular brasileira. A alegria também fazia parte da luta.
Certo dia, perguntei a Miguel Suíra:
— Miguel, o senhor sabe quando essa Casa Grande foi construída?
Ele respondeu com calma:
— Sei sim, Nhenety. Trabalhei aqui como servente de pedreiro, fazendo a argamassa. Essa casa foi construída em 1960 para ser sede da Fazenda Escola. Funcionou até 1978 como Fazenda Modelo. Nós, Kariri-Xocó, fomos a mão de obra dessa fazenda por décadas.
Agradeci. A Casa Grande, então, ganhou mais uma camada de memória.
Quando a terra foi conquistada, fizemos um Toré na Casa Grande. Antônio Tinga puxou o canto. Gente de todas as casas chegou para celebrar. Foi um momento forte, daqueles que não se esquecem.
Em 1981, chegou o projeto das 110 casas. Cada família deveria fabricar dez mil tijolos, queimar, trabalhar na construção. O governo fornecia cimento, madeira e telhas. Assim nasceu a Nova Aldeia. Em 1982, as casas ficaram prontas. As famílias deixaram a Casa Grande, que passou a ser sede do Posto Indígena Kariri-Xocó até 2003.
Depois disso, outras famílias ali viveram: Esso e Rita, Vânio e Cil, Galego e esposa, Mudinha e esposa, Zé Van e esposa, Vânia de Zeire e esposo, Ara e filhos. A Casa Grande continuou acolhendo.
Hoje, a Eráye é a Creche Tia Marieta. Nela, crianças pequenas aprendem a dar os primeiros passos na vida. Onde antes houve luta, hoje há riso. Onde houve enchente, hoje há futuro.
A Casa Grande permanece.
Não como ruína, mas como memória viva, fazendo novas histórias nascerem todos os dias.
08. DIPETE AMITEÁ – A DOAÇÃO DE ALIMENTOS
No Uchécrá, o Tempo da Seca, quando a terra rachava e o vento levantava o pó fino das estradas, e também nas Pehóá, o Tempo das Enchentes, quando o Opará, o grande Rio São Francisco, crescia e cobria as margens, havia uma cena que se repetia como um ritual silencioso.
Desde cedo, ainda com o sol baixo, os Uanieá — os indígenas — formavam fila diante da escola, na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Cada pessoa trazia consigo um Setu, o cesto, vazio por fora, mas cheio de esperança por dentro. Não havia pressa. Havia espera. E na espera, a dignidade.
O governo federal, tentando aliviar a Wongheré, a pobreza trazida pelas calamidades da natureza, realizava a Dipete Amiteá, a Doação de Alimentos. Não era fartura, mas era sustento. Não era escolha, mas era sobrevivência. A doação alcançava os indígenas e também as Naticróbeá, as cidades ribeirinhas, todas dependentes do humor do rio e do céu.
Os mais velhos lembravam bem das grandes cheias. Falavam dos anos como quem conta marcas no corpo da terra: 1979, 1985, 1992… depois 2007, 2020, 2022, 2023. Cada data trazia consigo histórias de água invadindo casas, de noites acordadas, de silêncio e medo. Mas já era outro tempo: os Kariri-Xocó estavam na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, terra de retomada, resistência e recomeço.
Era na Eráye, também chamada Picriá, a Casa Grande, que a fila se formava. Ali, onde antes mandava o poder do não indígena, agora se reunia o povo. Um a um, os Setu se enchiam: Dzurósa, o café; Takuare'êku'i, o açúcar; Ghinhé, o feijão; Sekiche, a farinha de milho; Riné, a carne salgada; Sekiki, a farinha de mandioca. Alimentos simples, mas carregados de valor.
As pessoas saíam dali com o peso do cesto nos braços e um alívio no peito. Havia sorrisos contidos, palavras baixas, olhares de gratidão. Aquela Dipete Amiteá garantia que os filhos comeriam, que a panela fumegaria ao menos por alguns dias, que a vida seguiria apesar das dificuldades.
E assim, entre a seca e a enchente, entre a espera e a partilha, o povo Kariri-Xocó seguia caminhando. Porque mais do que alimentos, aquela fila ensinava algo antigo: resistir juntos é também uma forma de viver.
09. UANIENATÉ – O TEMPO E AS VOCAÇÕES DO POVO
O sol já caminhava lento sobre a aldeia quando dois anciãos, Tanawã e Ibaná, sentaram-se à sombra generosa de uma velha árvore. O vento leve trazia o cheiro da terra e o som distante das crianças brincando. Ali, naquele instante simples, o Uché, o Tempo, parecia escutar atento.
Tanawã olhou ao redor, como quem conversa também com os espíritos antigos, e começou a falar. Sua voz carregava a memória dos povos indígenas e dos costumes que atravessaram gerações.
— Desde os tempos mais antigos — disse ele — nossos parentes vivem do que a terra, o rio e a mata oferecem. Caçamos, pescamos, fazemos artesanato, cuidamos da roça. As mulheres moldam a cerâmica com as mãos e com o coração, outros constroem ocas, canoas e utensílios. Assim sempre foi entre os Kariri-Xocó. Tudo nasce do Itse, a Pessoa, e do Naté, o Trabalho, que sustenta a família e fortalece a comunidade. Alguns se tornam Duboheri, Mestres do saber, e outras, Duboheridé, Mestras da tradição.
Ibaná, que escutava atento, balançou a cabeça em concordância e tomou a palavra, como quem organiza os fios da memória.
— Pelo que conheço — disse ele — as profissões, os Uanienatéá, dos nossos parentes indígenas, na vida tradicional, o Nhenety, são muitas e cheias de significado. Há o Itsemydzé, o pescador e a pescadora; o Itsesitó, o caçador; o Itsenatédda, agricultor da terra sagrada; o Itsebekati, aquele que coleta o mel; o Duboruhú, mestre do artesanato; a Duboheridé Ruñohú, mestra da cerâmica; o Duboerá, mestre da oca; o Duboherubá, mestre da canoa; e o Itseandri, a pessoa do remédio, guardião da cura.
Enquanto falava, Ibaná percebeu que Madysã, sentado ali por perto, ouvia tudo em silêncio respeitoso. Então se virou para ele e perguntou:
— E você, Madysã, que hoje trabalha como farmacêutico no Posto de Saúde da aldeia, o que pensa de tudo isso?
Madysã respirou fundo antes de responder. Seus olhos traziam o brilho de quem caminha entre dois mundos.
— É verdade, meus parentes — disse ele com calma. — O mundo está mudando. Algumas profissões tradicionais tomaram novas formas, porque muitos de nós estão estudando. A profissionalização chegou às aldeias, mas não levou embora nossa essência.
Ele continuou, com a voz firme:
— Os Duboheriá, os Mestres de antes, hoje também são professores que estudaram, mas continuam ensinando com o espírito do povo. Eu mesmo estudei para ser farmacêutico e continuo sendo Itseandri, Pessoa do Remédio. No Posto de Saúde da Aldeia Kariri-Xocó, trabalham indígenas como dentistas, enfermeiras, agentes de saúde, motoristas. São novos caminhos, mas todos nascem do mesmo tronco.
O silêncio voltou a ocupar o espaço entre eles. O vento passou outra vez pelas folhas da árvore, como se aprovasse aquelas palavras. Tanawã sorriu, Ibaná fechou os olhos por um instante, e Madysã sentiu que o Tempo, o Uché, seguia seu curso — levando adiante as tradições, agora caminhando junto com os novos saberes.
E assim, entre passado e presente, o povo Kariri-Xocó continuou tecendo suas vocações, mantendo viva a memória e abrindo caminhos para o futuro.
10. BENHEOKLI BENHEYE, O TELEFONE ORELHÃO
No começo da década de 1970, quando o tempo ainda caminhava devagar pelas ruas de Colégio, chegou uma voz diferente à cidade. Não era canto de pássaro nem chamado de feira. Era fio, era campainha, era novidade. A TELESA, telefonia de Alagoas, instalou sua Eraibáme — a estação — na Rua da Aurora. Ali, pela primeira vez, o som distante atravessava o espaço e chegava inteiro ao ouvido.
Foi nesse tempo que os Kariri-Xocó conheceram o telefone, ainda vivendo na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. O aparelho parecia coisa de outro mundo: falava sem corpo, viajava sem pés. A voz saía de longe e pousava ali, dentro da sala, como se fosse visita invisível.
Os anos correram como o rio Opará. O povo Kariri-Xocó já vivia na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, quando, duas décadas depois, uma nova transformação chegou. Em 2002, a Telemar Norte Leste S.A. fincou nas aldeias um objeto redondo, pesado e resistente: o Benheokli Benheye — o telefone orelhão.
Não era mais preciso entrar em prédio nem pedir licença. O telefone agora morava na rua, sob o sol e a chuva, esperando quem tivesse algo a dizer. Para falar, usava-se um cartão, passado com cuidado, quase como um ritual. Cada ligação era pensada, medida, respeitada.
O Benheye virou marco. Por ele se chamava ajuda para a saúde, se resolvia viagem, se avisava chegada, se buscava remédio, se matava saudade. A aldeia passou a conversar com outras aldeias, com cidades distantes, com o mundo que antes parecia longe demais.
Havia orelhões espalhados pelos caminhos da comunidade: na Escola Estadual Indígena, no Posto Indígena Kariri-Xocó, na Associação Indígena Comunitária Kariri-Xocó. Os números eram decorados como nomes de parentes. E quando alguém precisava ligar, formava-se fila. Gente esperando, gente ouvindo pedaços de conversa, gente respeitando o tempo do outro.
Todo mundo queria usar a novidade. Falar com quem estava longe. Resolver coisa de trabalho, de estudo, de vida. O orelhão virou ponto de encontro, de expectativa, de silêncio atento.
Hoje, o Benheokli Benheye quase não se vê mais. Mas permanece vivo na memória da comunidade, como símbolo de um tempo em que a tecnologia chegou devagar, foi aprendida coletivamente e serviu, acima de tudo, para aproximar pessoas.
E assim, entre fios, cartões e vozes distantes, o telefone orelhão entrou para a história do povo Kariri-Xocó — não como objeto, mas como lembrança partilhada.
Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó
13. APÊNDICES
Antes da escrita existir entre nós, já existiam as histórias.
Os mais velhos se reuniam ao redor das casas, nas margens do rio ou nas noites iluminadas pela lua, e contavam acontecimentos do passado para que os mais jovens conhecessem o caminho de seus ancestrais.
Assim, cada história era também um ensinamento.
As histórias falavam da terra, do rio, das dificuldades enfrentadas pelo povo, das alegrias da comunidade e das mudanças trazidas pelo tempo.
Hoje, essas narrativas continuam vivas.
Neste livro, as histórias caminham da tradição oral para a escrita, mantendo viva a memória do povo Kariri-Xocó.
Porque o tempo gira.
E quando o tempo gira, as histórias voltam.
14. GLOSSÁRIO
Este glossário reúne algumas palavras da língua e do universo cultural Kariri-Xocó presentes nos contos do livro, permitindo ao leitor compreender melhor os significados culturais e simbólicos dessas expressões.
Amite – alimento, comida.
Benheokli Benheye – telefone orelhão.
Bohé – coletividade, partilha entre as pessoas da comunidade.
Dzóá – chuvas.
Dzurióá – lagoas.
Dzurichi – lagoa comprida.
Eráye / Picriá – Casa Grande.
Ibámeraipu – trem.
Itse – pessoa.
Naté – trabalho.
Natiá – Aldeia.
Nhenetí – tradições culturais do povo.
Opará – rio São Francisco.
Pehóá – tempo das enchentes.
Raddadé – Mãe Terra.
Samy – cultura.
Setu – cesto utilizado para carregar alimentos.
Sitó – caça.
Toré – Ritual sagrado de dança e canto indígena.
Tudenhé – tempo passado, tempos antigos.
Uanéá / Uanieá – indígena, pessoa indígena.
Uché – tempo.
Uchécrá – tempo da seca.
Wanheré Uanhícó – Fazenda Sementeira.
Woderáehó Uanieá – Rua dos Índios.
Wontyrõ – Mutirão comunitário.
15. DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, originário de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, às margens do rio Opará (São Francisco).
Contador de histórias oral e escrita, dedica-se à preservação e divulgação da memória cultural de seu povo por meio da literatura, da pesquisa cultural e da produção de textos publicados em seu blog.
Suas narrativas abordam temas como tradição indígena, alimentação ancestral, calendário lunar, agricultura tradicional e resistência cultural.
Blog do autor:
kxnhenety.blogspot.com
16. SOBRE A OBRA
“Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem” é uma coletânea de contos inspirados na tradição oral e na experiência cultural do povo Kariri-Xocó.
A obra apresenta histórias que retratam diferentes tempos vividos pela comunidade: tempos de fartura, de escassez, de trabalho, de celebração e de memória.
Cada conto revela aspectos da relação do povo com a natureza, com a terra e com o rio Opará, mantendo viva a herança cultural transmitida pelos anciãos.
17. ORELHA DO LIVRO
Nas margens do rio Opará, o tempo não é contado apenas pelos relógios. Ele se revela no nascer da lua, na colheita da roça, no amadurecimento das frutas e nas histórias contadas ao redor da fogueira.
Em “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem”, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne contos que preservam a memória e os saberes de seu povo.
As narrativas conduzem o leitor por diferentes momentos da vida na aldeia, revelando ensinamentos sobre natureza, alimento, trabalho coletivo e resistência cultural.
Mais do que histórias, este livro é um convite para ouvir a voz de um povo que mantém viva sua tradição por meio da palavra.
“Enquanto o tempo gira, as histórias continuam caminhando com o povo.”
Autor: Nhenety Kariri-Xocó












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