FALSA FOLHA DE ROSTO
RUÑOHÚ CRODÍ TSEHO
CERÂMICA RESISTÊNCIA DO POVO KARIRI-XOCÓ
Narrativas da tradição oral, memória ancestral e conhecimentos da cerâmica indígena Kariri-Xocó.
FOLHA DE ROSTO
RUÑOHÚ CRODÍ TSEHO: CERÂMICA RESISTÊNCIA DO POVO KARIRI-XOCÓ
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
Brasil
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
Copyright © Nhenety Kariri-Xocó.
Todos os direitos reservados.
Esta obra valoriza os conhecimentos tradicionais do povo indígena Kariri-Xocó, preservando narrativas da tradição oral, vocabulário ancestral e memórias culturais relacionadas à produção da cerâmica indígena.
FICHA CATALOGRÁFICA
Ficha catalográfica elaborada para fins editoriais.
Nhenety Kariri-Xocó.
Ruñohú Crodí Tseho: Cerâmica Resistência do Povo Kariri-Xocó.
Povos Indígenas.
Kariri-Xocó.
Cerâmica Tradicional.
Patrimônio Cultural.
História Oral.
Etnoconhecimento.
Memória Ancestral.
CDD: 738.089981
ISBN (Simbólico)
ISBN: 978-65-0000-000-0
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra aos nossos Tokenhé, os Antepassados Sagrados, que ensinaram às primeiras ceramistas o respeito pela Terra, pela Água, pelo Vento e pelo Fogo.
Dedico também às mulheres Kariri-Xocó, guardiãs da Ruñohú, que transformaram o barro em alimento, sustento, arte e resistência, preservando a identidade de nosso povo através das gerações.
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Grande Criador, aos ancestrais Kariri-Xocó, às mulheres ceramistas, aos anciãos que mantiveram viva a tradição oral, às famílias da aldeia e a todos que continuam preservando a memória do nosso povo.
Minha gratidão estende-se igualmente aos pesquisadores, educadores, estudantes e leitores que compreendem que proteger a cultura indígena significa proteger parte da própria história do Brasil.
EPÍGRAFE
"O barro guarda a memória da Terra. O fogo fortalece a tradição. As mãos transmitem a sabedoria. O povo preserva a eternidade."
— Sabedoria Tradicional Kariri-Xocó
PREFÁCIO DO VOLUME
Este volume reúne conhecimentos tradicionais sobre a cerâmica Kariri-Xocó apresentados na forma da narrativa oral indígena.
Cada capítulo foi construído como se um ancião estivesse contando suas lembranças ao redor do fogo, preservando não apenas técnicas artesanais, mas também valores espirituais, sociais e ambientais que acompanham essa tradição há muitas gerações.
Mais do que estudar a cerâmica, este livro convida o leitor a compreender uma maneira indígena de viver, ensinar e preservar a memória.
RESUMO
Esta obra apresenta a tradição cerâmica do povo Kariri-Xocó por meio da oralidade ancestral. São abordadas a origem sagrada da cerâmica, as fontes naturais da argila, o preparo do barro, os materiais utilizados, o processo de fabricação, sua importância histórica, as práticas de troca e comercialização e as transformações ocorridas com a chegada da modernidade. O livro também preserva vocabulário tradicional da língua Kariri-Xocó, contribuindo para o fortalecimento da memória cultural indígena.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; Cerâmica; Patrimônio Cultural; Oralidade; Memória; Povos Indígenas.
ABSTRACT
This book presents the ceramic tradition of the Kariri-Xocó people through ancestral oral narratives. It discusses the sacred origins of pottery, natural clay sources, clay preparation, traditional materials, ceramic production, historical significance, exchange and trade practices, and the transformations brought by modern society. It also preserves traditional Kariri-Xocó vocabulary, contributing to the safeguarding of Indigenous cultural heritage.
Keywords: Kariri-Xocó; Pottery; Indigenous Heritage; Oral Tradition; Memory.
APRESENTAÇÃO
A Ruñohú representa muito mais do que utensílios produzidos com barro. Ela constitui um patrimônio cultural que expressa a relação do povo Kariri-Xocó com a natureza, os ancestrais e a coletividade.
Este livro busca registrar esse conhecimento para que continue vivo entre as novas gerações e também seja conhecido por todos aqueles que desejam compreender a riqueza das culturas indígenas brasileiras.
NOTA DO AUTOR
As narrativas aqui apresentadas foram organizadas respeitando a tradição oral Kariri-Xocó.
Os vocábulos indígenas foram preservados sempre que possível, acompanhados de seus significados em português, fortalecendo a valorização linguística e cultural de nosso povo.
MEMÓRIA DO AUTOR
Desde criança acompanhei os ensinamentos dos mais velhos, ouvindo histórias ao redor das fogueiras e observando o cotidiano das mulheres ceramistas.
Compreendi que cada panela, pote ou moringa carregava muito mais do que barro endurecido pelo fogo: carregava a memória coletiva do povo Kariri-Xocó.
Escrever esta obra significa devolver às futuras gerações parte desse patrimônio recebido dos ancestrais.
INTRODUÇÃO
A cerâmica acompanha a história dos Kariri-Xocó desde tempos imemoriais.
Mais do que uma atividade artesanal, constitui uma expressão de resistência cultural, econômica e espiritual.
Ao longo dos oito capítulos, o leitor conhecerá os caminhos do barro, os ensinamentos das mulheres ceramistas, as mudanças provocadas pela modernidade e o permanente compromisso do povo Kariri-Xocó com a preservação de sua identidade.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Introdução
Capítulo I – Kenhé Samy Ruñohú: Cerâmica, Costumes e Cultura
Capítulo II – Ebebunhá Antse: Fontes da Argila na Natureza
Capítulo III – Diteri Bunhá: Preparar o Barro
Capítulo IV – Sanéá Buruhúá: Materiais da Cerâmica
Capítulo V – Utsoho Ruñohú: Fazer Cerâmica
Capítulo VI – Woroy Ruñohú: História da Cerâmica
Capítulo VII – Eismbé Moitará Ruñohú: Vender e Trocar Cerâmica
Capítulo VIII – Ruñohú Uché Cramenunhí: A Cerâmica e o Tempo da Geladeira
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
CAPÍTULO I - KENHÉ SAMY RUÑOHÚ: CERÂMICA COSTUMES E CULTURA
Aproximem-se do fogo, meus parentes, e escutem com atenção, porque esta é uma história antiga, contada muitas e muitas vezes pelos nossos avôs e avós, desde o tempo em que o Opará ainda ensinava seus caminhos às crianças. Não é apenas a história do barro que se transforma pelas mãos das mulheres, mas da sabedoria que nasceu com os primeiros Tokenhé e continua viva em cada geração Kariri-Xocó. Quem aprende a ouvir esta narrativa compreende que a cerâmica não é somente um trabalho, mas uma memória sagrada moldada pela Terra, abençoada pela Água, acariciada pelo Vento e fortalecida pelo Fogo, para que o nosso Kenhé jamais desapareça.
Antes de ser lembrado pelos mais velhos como um simples ofício, o fazer da cerâmica já era contado como um presente sagrado deixado pelos nossos Tokenhé, os Antepassados. Diziam os antigos que, no Uché, o Tempo das origens, a Nikedda, a Avó Terra, caminhou ao lado da Dzúnike, a Avó Água, para ensinar às Tetsiá, as mulheres, os primeiros segredos do Bunhá, o barro. Assim nasceu uma tradição que atravessou gerações e passou a fazer parte da identidade do povo Kariri-Xocó.
As anciãs contavam que cada punhado de barro carregava um pouco da força da Terra e da suavidade da Água. Por isso, antes de moldar uma panela, um pote ou qualquer outra peça, era preciso reconhecer que aquele barro não era apenas matéria, mas um presente das Avós Sagradas. Era esse respeito que transformava o trabalho das mãos em um gesto de gratidão à natureza e aos espíritos ancestrais.
Diziam ainda que a Ruñohú, a cerâmica, não servia somente para preparar alimentos ou guardar sementes e água. Cada peça guardava histórias, memórias e ensinamentos. Enquanto os dedos moldavam o barro, as palavras dos mais velhos eram repetidas, fazendo com que as crianças aprendessem, ao mesmo tempo, a arte de criar e a importância de preservar os costumes herdados dos Tokenhé.
Os antigos também ensinavam que as Sumanike Antoá, as Duas Avós Sagradas, nunca caminhavam sozinhas. Ao lado delas estavam os Sumarãtó, os Dois Avôs: Upuhto, o Avô do Vento, que secava lentamente as peças, e Duto, o Avô do Fogo, que lhes dava resistência e vida definitiva. Assim, Terra, Água, Vento e Fogo trabalhavam juntos, mostrando que a natureza inteira participava da criação da cerâmica.
É por isso que, até hoje, quando lembramos da Ruñohú, não recordamos apenas uma antiga técnica, mas um caminho de sabedoria deixado pelos nossos ancestrais. Cada peça de barro continua sendo um elo entre o passado e o presente, mantendo vivo o Kenhé, o costume, e fortalecendo a Nhenetíá, as tradições, para que as futuras gerações jamais esqueçam os ensinamentos da Nikedda, da Dzúnike e dos nossos eternos Tokenhé.
Assim termina esta lembrança, mas não termina o ensinamento, porque a palavra dos antigos continua viva sempre que uma nova peça de barro nasce das mãos do nosso povo. Enquanto houver quem conte estas histórias, quem respeite a Nikedda, a Dzúnike, os Sumarãtó e honre os Tokenhé, a Ruñohú permanecerá como um sinal da força do povo Kariri-Xocó. Que as crianças guardem estas palavras no coração, que os jovens as levem adiante e que os mais velhos continuem sendo a voz da memória, para que os costumes, a cultura e a tradição caminhem juntos, hoje, amanhã e por todo o tempo que o Opará continuar correndo em direção ao grande mar.
CAPÍTULO II – EBEBUNHÁ ANTSE: FONTES DA ARGILA NA NATUREZA
Toda boa caminhada começa ouvindo a voz da terra, assim diziam os anciãos ao redor do fogo. Antes mesmo de moldar o primeiro pote, era preciso conhecer os caminhos do barro, sentir o perfume da argila molhada e agradecer aos espíritos da natureza pelos dons recebidos. Assim, reunidas à sombra das árvores, as crianças escutavam os ensinamentos dos anciãos, que apontavam as margens do Opará e as lagoas sagradas como lugares onde a própria Mãe Terra revelava seus tesouros. Foi dessa maneira que o povo Kariri-Xocó aprendeu que cada fonte de argila possui sua história, sua força e sua missão na continuidade da arte da cerâmica.
Nossos anciãos contavam que a terra nunca escondia seus presentes de quem sabia conversar com ela. Nas margens do Opará, o grande Rio São Francisco, e nas Radá Dzurió, as Terras de Lagoa, repousam as Ebebunhá, as Fontes da Argila. Não são apenas lugares de onde se retira o barro, mas espaços sagrados onde a natureza oferece a matéria que, pelas mãos do povo, ganha nova vida na Ruñohú, a arte da cerâmica.
Na Dzurichi, a Lagoa Comprida, encontra-se o Bunhakuá, o barreiro conhecido pelas mulheres ceramistas desde os tempos dos antepassados. É dali que elas retiram o Buncotçó, o barro preto, forte e resistente, que dá forma aos belos Ruño, os potes que guardam água, alimentos e a memória das famílias. Cada retirada acontece com respeito, pois sabem que a terra é generosa quando também é cuidada.
Mas a natureza oferece muitos outros presentes. Em outro ponto encontra-se a Bunhé, a argila vermelha, ideal para moldar as Runhú, as panelas e outras peças tradicionais. Mais adiante repousa o Becunan, a argila branca, usada para criar pinturas e enfeites que tornam cada cerâmica única. Há também a Bunerã, a argila amarela, utilizada para alisar e dar acabamento às peças antes que recebam o calor do fogo.
Os anciãos também ensinavam que a boa cerâmica nasce da união de muitos elementos. Por isso, no leito do Iwo, o rio, recolhe-se a Kitci, a areia fina, que é misturada ao Bydi, a cinza, fortalecendo o barro e evitando que as peças se quebrem durante a secagem e a queima. Assim, cada elemento da natureza participa da criação, como se todos trabalhassem juntos para transformar a terra em arte.
Por isso, até hoje, as Ebebunhá permanecem vivas na lembrança do povo Kariri-Xocó. Cada fonte de argila, cada barreiro, cada punhado de areia e cada porção de cinza carregam os ensinamentos dos mais velhos. Quem aprende a conhecer esses lugares compreende que a verdadeira cerâmica não nasce apenas das mãos, mas do respeito pela natureza, da sabedoria ancestral e da gratidão ao Opará, que continua alimentando a cultura e a memória de seu povo.
E quando a história chegava ao fim, os anciãos lembravam que as Ebebunhá jamais seriam apenas lugares de retirar barro, mas verdadeiras escolas da natureza, onde cada grão de argila ensina paciência, respeito e gratidão. Enquanto o Opará continuar correndo e as novas gerações caminharem pelos antigos barreiros com o mesmo cuidado de seus antepassados, a Ruñohú permanecerá viva, moldando não apenas potes e panelas, mas também a memória, a identidade e o espírito do povo Kariri-Xocó, que segue guardando na terra a sabedoria de seus ancestrais.
CAPÍTULO III – DITERI BUNHÁ: PREPARAR O BARRO
Quando os mais velhos se reuniam ao redor da conversa, costumavam dizer que a terra também ensina aqueles que sabem escutá-la. Contavam que nenhuma panela, pote ou vasilha surgia apenas da habilidade das mãos, mas do respeito ao tempo da natureza e à sabedoria herdada dos ancestrais. Era assim que começavam a narrar o antigo caminho do Diteri Bunhá, o preparo do barro, um conhecimento guardado pelas mulheres ceramistas Kariri-Xocó e transmitido de geração em geração como um dos mais preciosos tesouros do povo.
Os antigos sempre ensinavam que toda boa cerâmica começa muito antes das mãos moldarem a panela ou o pote. Ela nasce no Bunhakuá, o barreiro sagrado, lugar onde repousa o Bunhá, o barro oferecido pela Mãe Terra. Ainda nas primeiras horas do dia, a ceramista seguia o caminho conhecido pelos antepassados, levando consigo o Bará, o balaio de cipó, enquanto recordava que cada passo era também um gesto de respeito à natureza.
Ao chegar ao barreiro, iniciava-se o trabalho de Kla bunhá, cavar o barro com paciência e cuidado. Aos poucos surgiam os Craerù Bunhá, os torrões de barro, retirados um a um e colocados delicadamente no balaio. Não havia pressa, pois os mais velhos diziam que o barro reconhece as mãos de quem trabalha com serenidade e gratidão, oferecendo sua força apenas àqueles que sabem esperar o tempo da terra.
De volta à aldeia, começava a etapa de Diteri dó bunhá, preparar o barro. Primeiro vinha o Pedabó bunhá, quebrar os torrões até que perdessem toda a dureza. Depois seguia-se a Curaempá Bunhá, molhar o barro, despertando sua maciez e devolvendo-lhe a vida. Cada movimento era acompanhado por ensinamentos transmitidos de geração em geração, como uma verdadeira escola da memória indígena.
Então a Tetsi, a mulher ceramista, iniciava o trabalho de transformar o barro em matéria viva. Suas mãos amassavam o Bunhá Poroné, misturando cuidadosamente Bunhá Bydi Ketci — barro, areia e cinza — até alcançar a consistência perfeita. Era um trabalho silencioso, mas cheio de sabedoria, pois cada ingrediente possuía sua função e cada gesto carregava o conhecimento herdado dos ancestrais.
Tudo estava pronto, surgia o Küdi bunhá, o bolo de barro, firme, macio e preparado para dar origem à Ruñohú, a cerâmica tradicional Kariri-Xocó. Assim, os mais velhos ensinavam que antes de nascer um objeto, nasce uma história; antes da beleza da cerâmica, existe o diálogo entre as mãos da ceramista, a força da terra e a memória viva dos antepassados, que continuam falando por meio de cada peça moldada.
Os anciãos encerravam essa lembrança, dizendo que preparar o barro era muito mais do que uma etapa do fazer cerâmico; era renovar a aliança entre o povo e a Mãe Terra. Em cada torrão quebrado, em cada punhado de areia misturado e em cada bolo de barro cuidadosamente amassado, permanecia viva a voz dos antepassados. Por isso, toda vez que uma nova peça de Ruñohú nascia das mãos da Tetsi, renasciam também a memória, a identidade e a força do povo Kariri-Xocó, para que esse saber jamais deixasse de caminhar com as futuras gerações.
CAPÍTULO IV – SANÉÁ BURUHÚÁ: MATERIAIS DA CERÂMICA
Naquele tempo, quando o sol ainda despertava lentamente sobre as margens do Opará, os mais velhos reuniam crianças e jovens ao redor das ceramistas para revelar um ensinamento precioso. Diziam que o barro, por mais generoso que fosse, jamais se transformaria sozinho em Buruhúá. Era preciso conhecer cada Sanéá, cada material que acompanhava a criação da cerâmica, pois todos possuíam um espírito de serviço e uma missão herdada dos ancestrais. Assim, antes mesmo de aprender a moldar uma panela, aprendia-se a respeitar os instrumentos que caminhavam ao lado das mãos, tornando possível o nascimento de obras que atravessariam muitas gerações.
O barro já havia sido preparado e estava pronto para ganhar vida, as anciãs chamavam os mais jovens para perto e diziam que nenhuma Buruhúá, a cerâmica sagrada, nascia apenas das mãos. Ela surgia da união entre o conhecimento, a paciência e os Sanéá, os materiais que acompanhavam o trabalho desde o princípio. Cada objeto possuía um nome, uma função e uma história, ensinada de geração em geração como um presente deixado pelos antepassados.
No centro do trabalho repousava o Aribá Ruño, o prato do pote, colocado sobre a Ybyrápeba, a tábua de madeira. Antes de receber o barro, a superfície era coberta com Bydi, a cinza, e Kitci, a areia bem Kiniki, cuidadosamente peneirada. Assim o barro podia girar livremente sem se prender, como se aprendesse a dançar ao ritmo tranquilo das mãos da ceramista, obedecendo ao compasso da tradição.
Mas quando o corpo da panela começava a crescer, entrava em ação o Prebúde, o capeador feito de coité, que acariciava o bojo até lhe dar forma harmoniosa. Depois vinha o Preretá, o capeador de ferro, retirando com delicadeza cada pequena imperfeição. Os mais velhos ensinavam que uma boa ceramista não lutava contra o barro; conversava com ele, corrigindo seus caminhos com calma, respeito e sabedoria.
Ao lado permanecia sempre a Runhú Tauá, a panela com argila amarela misturada à água. Com um Cruté, o pano, a peça era banhada lentamente, recebendo um brilho suave. Em seguida, surgia o precioso Cópiné Mucunã, a semente de alisar, que deslizava sobre a superfície como quem acaricia um filho, revelando a beleza escondida dentro do barro e preparando a cerâmica para sua longa existência.
Por fim, cada detalhe recebia sua identidade. O Bakiribú, o pente, desenhava marcas delicadas nas bordas das panelas, enquanto o capucho de Endi, algodão servia como pincel para aplicar os pigmentos naturais que davam cor e vida às peças. Assim ensinavam os antigos: nenhuma ferramenta era apenas um instrumento. Todas guardavam a memória dos ancestrais e transformavam o simples barro em Buruhúá, uma cerâmica que carregava a história, a arte e a alma do povo Kariri-Xocó.
Nesse momento os antigos encerravam seus ensinamentos dizendo que a verdadeira riqueza da Buruhúá não estava apenas na beleza das panelas, mas na união entre as mãos da ceramista, os Sanéá e a sabedoria dos antepassados. Cada prato, cada capeador, cada semente, cada pente e cada pequeno pedaço de algodão guardava uma lembrança viva da caminhada do povo Kariri-Xocó. Enquanto esses conhecimentos continuarem sendo contados, aprendidos e praticados, a cerâmica jamais será apenas barro moldado: continuará sendo a voz silenciosa da memória ancestral, preservando a identidade, a cultura e a resistência de um povo que nunca deixou de transformar a terra em vida e em história.
CAPÍTULO V – UTSOHO RUÑOHÚ: FAZER CERÂMICA
A fogueira lançava sua luz sobre a aldeia e o silêncio da noite se misturava ao canto dos insetos e ao murmúrio do Opará, os mais velhos reuniam crianças e jovens para recordar que toda arte nasce primeiro no espírito antes de tomar forma nas mãos. Diziam que o barro escutava quem se aproximava com respeito e que somente os corações pacientes eram capazes de despertar a vida escondida na terra. Assim começava a antiga narrativa sobre o Utsoho Ruñohú, o fazer cerâmica, um conhecimento sagrado herdado dos antepassados, no qual cada gesto unia trabalho, memória e pertencimento ao povo Kariri-Xocó.
Em reunião com os jovens ao cair da tarde, os mais velhos diziam que o barro nunca foi apenas terra molhada. Ele guardava a memória do povo e esperava pelas mãos pacientes de quem conhecia seus segredos. Assim nascia o Naté Ruñohú Bunhá, o trabalho cerâmico de barro, do qual surgiam o Ruño, o pote que conservava a água fresca e o mel; a Runhú, a panela onde eram preparados os Amí, os alimentos da família; o Aribé, o prato que reunia todos ao redor da comida; e o Buiú, a urna funerária que acolhia os entes queridos em sua última morada, com respeito e reverência.
Os anciãos ensinavam que cada peça possuía um corpo semelhante ao de um ser vivo. Primeiro era moldada a Barú, a base que sustentava toda a obra. Depois crescia o Ibuehohó, o corpo firme e resistente. Em seguida surgia a Ubiro, a barriga generosa que guardaria água, alimento ou mel. Por fim, era formada a Waridzá, a boca da vasilha, por onde a utilidade encontrava a vida. Nada era feito às pressas, pois cada etapa exigia calma, atenção e sabedoria.
No tempo que a peça estava completamente moldada, ela era colocada sob o calor do Crá Ukie, secando lentamente ao sol. Somente depois recebia a beleza dos desenhos. As mãos habilidosas realizavam o Kuatçó, pintando cuidadosamente cada objeto com o Purúhe, a pintura floral que trazia a lembrança das flores, das folhas e da própria floresta. Assim, cada cerâmica deixava de ser apenas um utensílio para tornar-se também uma expressão da arte e da identidade do povo.
Chegava então o momento mais delicado do trabalho. O Muncuisú, o homem queimador, organizava cuidadosamente todas as peças dentro do Bubehó, o forno cerâmico. Ali, durante o Umah Ruñohú, a queima da cerâmica, o fogo do Buyê transformava o barro em resistência, alimentado pela Héisú, a lenha seca retirada com respeito da Retsé, a floresta. O calor completava aquilo que as mãos haviam iniciado.
Nesse instante os antigos lembravam que fazer cerâmica era muito mais do que fabricar objetos. Era conversar com a terra, caminhar ao lado do fogo, do sol e da floresta, unindo os ensinamentos dos antepassados ao trabalho das novas gerações. Cada pote, panela, prato ou urna carregava consigo a história de um povo que moldava o barro enquanto também moldava sua própria memória, preservando viva a tradição dos Kariri-Xocó através do tempo.
Ao terminar a narrativa, os anciãos sorriam serenamente e lembravam que o barro continua ensinando aqueles que desejam aprender. Enquanto houver mãos que amassem a terra, olhos que observem o fogo e corações que respeitem a floresta, o saber dos antigos jamais desaparecerá. Cada peça moldada será sempre mais do que um objeto: será um testemunho vivo da sabedoria ancestral, da força da memória coletiva e do compromisso das novas gerações em manter acesa a chama da tradição cerâmica do povo Kariri-Xocó, para que ela continue atravessando os tempos como um legado de identidade, resistência e vida.
CAPÍTULO VI – WOROY RUÑOHÚ: HISTÓRIA DA CERÂMICA
A noite cobria a aldeia e o fogo aquecia os rostos dos mais novos, os anciãos chamavam todos para perto e diziam: "Escutem bem, porque cada pedaço de barro guarda uma lembrança do nosso povo." Então começavam a contar que a Ruñohú, a cerâmica, não nasceu apenas das mãos humanas, mas da união entre a terra, a água, o fogo e a sabedoria deixada pelos antepassados. E ensinavam que, antes de conhecer a forma dos potes e das panelas, era preciso conhecer a história de coragem que vive dentro de cada grão de argila.
Os nossos mais velhos sentavam ao redor da palavra e diziam que, ao longo dos Battiá, os anos que atravessaram o Uché Caraí, o tempo dos brancos, muitas Buangheté, muitas coisas más, chegaram às terras de nossos antepassados. Onde antes havia silêncio das matas, canto dos pássaros e passos dos caçadores, começaram a surgir as Naticróraí, as cidades, que derrubavam as Retseá, as florestas, e transformavam a paisagem que nossos ancestrais conheciam desde tempos antigos.
Com a chegada dessas mudanças, as Radá, as terras de nosso povo, foram sendo tomadas pouco a pouco. As Uapluá, as caças, tornaram-se cada vez mais raras, e já não era possível abrir as Bechiéá, as roças, como faziam os antigos. Vieram dias de grande dificuldade, e muitas famílias conheceram o Unu, o sofrimento, provocado pela falta de Amí, o alimento necessário para sustentar a vida.
Mas foi justamente nos tempos mais difíceis que brilhou a força das nossas Tetsiá, as mulheres Kariri-Xocó. Enquanto muitos caminhos se fechavam, elas mantiveram vivas as mãos ensinadas pelas avós e bisavós. Do barro retirado da terra moldavam a Ruñohú, a cerâmica, transformando a argila em potes, panelas, moringas e outros utensílios que carregavam não apenas utilidade, mas também a memória de nosso povo.
As mulheres caminhavam por feiras, povoados e comunidades levando suas peças. Algumas eram vendidas, outras trocadas por alimentos, tecidos, ferramentas e tudo aquilo que ajudava na sobrevivência das famílias. Assim, cada objeto de barro levava consigo um pedaço da história Kariri-Xocó, mostrando que a sabedoria ancestral podia vencer até mesmo os tempos mais difíceis.
É por isso que os anciãos nos ensinam que a Ruñohú nunca foi apenas cerâmica. Ela é a memória moldada pelas mãos das nossas mulheres, a resistência que nasceu do barro e do coração do povo. Enquanto existir alguém para contar essa história e alguém para moldar a argila com respeito aos ensinamentos dos antigos, a força dos Kariri-Xocó continuará viva, atravessando os Battiá e alcançando as futuras gerações.
E assim os mais velhos encerravam sua palavra, olhando para as crianças e para os jovens como quem entrega um tesouro. Diziam que, enquanto houver uma mulher Kariri-Xocó moldando o barro com respeito, uma família preservando esse saber e uma voz contando a história da Ruñohú, nossos ancestrais jamais serão esquecidos. Porque o barro pode endurecer no fogo, mas também fortalece a memória do povo, unindo passado, presente e futuro, para que os Kariri-Xocó continuem caminhando com dignidade pelos Battiá, levando adiante a herança sagrada de seus antepassados.
CAPÍTULO VII – EISMBÉ MOITARÁ RUÑOHÚ: VENDER E TROCAR CERÂMICA
Meus parentes, aproximem-se do fogo e escutem o que guardam as brasas da memória. Antes que os caminhos de terra se transformassem em estradas e antes que o dinheiro se tornasse o centro das trocas, nossos ancestrais já conheciam a força do trabalho compartilhado e da confiança entre os povos. Hoje vou contar como as mulheres Kariri-Xocó faziam da Ruñohú muito mais do que simples cerâmica: faziam dela alimento, dignidade e um elo vivo entre a aldeia, o sagrado Opará e as terras por onde caminhavam.
Nas fogueiras os mais velhos contam que havia um tempo em que as Tetsiá, as mulheres Kariri-Xocó, acordavam antes mesmo do nascer do sol para preparar a Ruñohú, a cerâmica moldada com as próprias mãos. Cada panela, pote, moringa ou alguidar carregava o barro da aldeia, o calor do fogo e a sabedoria ensinada pelas avós. Quando chegava o dia da viagem, elas seguiam rumo às Naticróraí, as cidades do Radami, o interior, levando consigo não apenas suas peças, mas também a história de seu povo.
A caminhada era longa e cheia de desafios. Algumas viajavam em Ibákabaru, a carroça de cavalo, cruzando caminhos de terra, enquanto outras embarcavam nas Ubacródzu, as canoas do porto, deslizando pelas Dzuá do sagrado Opará, o Rio São Francisco. O rio era companheiro de jornada, abrindo caminhos e conduzindo aquelas mulheres corajosas que transformavam o barro da aldeia em sustento para suas famílias.
Quando chegavam às cidades, acontecia o antigo Moitará, a troca respeitosa entre diferentes povos. A Ruñohú era oferecida aos Caraí, os não indígenas, e em troca recebiam Amíá para alimentar seus lares. Voltavam trazendo Uttihu, as frutas, Ghinhé, o feijão, Sabucá, as galinhas, Cunobó, a farinha e tantos outros mantimentos que garantiam a fartura da comunidade. Era uma troca que unia trabalho, confiança e amizade.
Com o passar dos anos, novos caminhos surgiram. A abertura de grandes estradas, como a BR-101, transformou a forma de viajar. As antigas carroças e muitas canoas foram sendo substituídas pelo Ibáchiddá, o ônibus, que levava as artesãs para mercados cada vez mais distantes. Assim, continuaram a Eismbé, vender suas cerâmicas, conquistando Tayu, o dinheiro necessário para fortalecer suas casas e manter viva a tradição.
É por isso que os anciãos dizem que cada peça de Ruñohú guarda uma longa viagem em sua memória. Nela vivem o barro, o fogo, o rio, as estradas, o esforço das mulheres e a esperança de um povo que nunca deixou de caminhar. Enquanto houver mãos moldando a cerâmica e vozes contando essas histórias, permanecerão vivos o Eismbé, o Moitará e a ancestral sabedoria do povo Kariri-Xocó.
Assim termina esta lembrança, mas sua caminhada continua em cada geração que aprende a moldar o barro com respeito aos ensinamentos dos mais velhos. Que nunca se apaguem as pegadas deixadas pelas Tetsiá, nem o brilho do fogo que endurece a Ruñohú, pois enquanto houver quem conte esta história e quem carregue consigo o espírito do Eismbé e do Moitará, o povo Kariri-Xocó continuará mostrando ao mundo que sua maior riqueza não está apenas nas peças que cria, mas na sabedoria ancestral que transforma trabalho, solidariedade e memória em herança para os filhos, netos e para todos os que ainda virão.
CAPÍTULO VIII – RUÑOHÚ UCHÉ CRAMENUNHÍ: A CERÂMICA E O TEMPO DA GELADEIRA
O povo se reunia ao cair da tarde, enquanto o fogo estalava e o vento do Opará passeava entre as árvores, os mais velhos costumavam dizer que o tempo nunca caminha sozinho. Ele sempre traz novidades nas mãos, mas também leva consigo lembranças que não podem ser esquecidas. Foi assim que chegaram as novas invenções ao Radda e à nossa Natiá. Algumas transformaram a maneira de viver, enquanto outras colocaram à prova os antigos saberes. E entre todas essas mudanças, a história da Ruñohú, nossa cerâmica sagrada, tornou-se um ensinamento para que as novas gerações compreendessem que o verdadeiro valor de um povo não está apenas naquilo que é novo, mas naquilo que permanece vivo em sua memória.
Houve um tempo em que muitas novidades começaram a chegar ao Radda, o nosso mundo, e também à nossa Natiá, a aldeia. Primeiro veio a Hinebakró, a luz elétrica, iluminando as noites como nunca antes. Depois apareceram o Crameupudu, o fogão a gás, e as Runhúmerá, as panelas de ferro e de alumínio. Cada novidade parecia trazer um jeito diferente de viver, despertando a curiosidade de todos, principalmente dos mais jovens.
Mas foi a chegada da Cramenunhí, a geladeira, que muitos passaram a chamar de "Caixa Que Esfria", que mudou profundamente os costumes. Aquilo que antes era conservado na sabedoria da natureza passou a depender do frio. Nas cidades, as pessoas deixaram de Dembé, comprar ou trocar, a Ruñohú, a cerâmica, com seus Ruño, os potes, e as Runhú, as panelas de barro, que por tantas gerações haviam servido às famílias.
Os Woroby Kenhéá, os novos costumes, espalharam-se depressa. As panelas de barro foram sendo substituídas pelas Runhúmerá de ferro, consideradas mais modernas. Muitos acreditaram que o tempo da cerâmica havia chegado ao fim. Porém, os anciãos diziam que um povo jamais abandona aquilo que guarda a memória de seus antepassados, pois os objetos também carregam histórias e ensinamentos.
Ao redor das fogueiras, os velhos continuavam a lembrar que a Ruñohú nunca foi apenas barro moldado pelas mãos humanas. Cada pote, cada panela e cada vasilha guardava o sopro da terra, da água, do fogo e das mãos pacientes das mulheres e dos homens que aprenderam esse saber com os seus ancestrais. A cerâmica era muito mais do que um utensílio: era um elo vivo entre as gerações.
Aqui ainda permanece viva a Coram, a esperança, de que nossa Samy, nossa cultura, jamais será esquecida. A Ruñohú é Antoá, sagrada, porque nasceu junto com a caminhada do nosso povo e continua acompanhando nossas vidas até os dias de hoje. Enquanto houver alguém para moldar o barro, contar essas histórias e ensinar às crianças o valor da tradição, a cerâmica continuará aquecendo não apenas o alimento, mas também a memória e o coração do povo Kariri-Xocó.
Agora termina esta lembrança, mas não termina a caminhada da Ruñohú. Sempre que uma criança tocar o barro com respeito, ouvir um ancião contar estas histórias ou contemplar um velho pote guardado na casa de sua família, os antepassados voltarão a caminhar ao seu lado. Porque o barro guarda o calor da terra, o fogo conserva a força da tradição e a memória nunca se deixa esfriar pelo tempo. Enquanto existir o povo Kariri-Xocó honrando seus ancestrais, a Ruñohú continuará sendo Antoá, sagrada, unindo passado, presente e futuro na grande roda da vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Ruñohú permanece como um dos maiores símbolos da resistência cultural Kariri-Xocó.
Mesmo diante das profundas transformações sociais e tecnológicas, a tradição continua viva nas mãos das ceramistas, na memória dos anciãos e na curiosidade das crianças que aprendem a respeitar os ensinamentos dos antepassados.
Preservar a cerâmica significa preservar uma forma indígena de compreender a vida, o território, a natureza e a coletividade.
GLOSSÁRIO
Amí - Alimento.
Amíá - Alimentos.
Antoá - Sagrada.
Aribá - Prato de barro.
Aribé - Prato grande.
Bakiribú - Pente.
Bará - Balaio.
Barú - Base.
Battiá - Anos.
Becunan - Argila branca.
Bechiéá - Roças.
Buiú - Urna funerária.
Bubehó - Forno cerâmico.
Buncotçó - Barro preto.
Bunerã - Argila amarela.
Buangheté - Muitas coisas más ).
Bunhá - Barro.
Bunhakuá - Barreiro.
Bunhé - Argila vermelha.
Buruhúá - Cerâmica.
Buyê - Fogo.
Bydi - Cinza.
Caraí - Brancos.
Cópiné - Semente.
Crá - Secar.
Craerù - Torrões.
Crameupudu - Fogão a gás.
Cramenunhí - Geladeira.
Cruté - Pano.
Cunobó - Farinha de mandioca.
Curaempá - Molhar.
Diteri - Preparo.
Duto - Avô do Fogo.
Dzuá - Águas.
Dzúnike - Avó Água.
Dzurió - Lagoa.
Dzurichi - Lagoa Comprida.
Ebebunhá - Fontes da Argila.
Eismbé - Vender.
Endi - Algodão.
Ibáchiddá - Ônibus.
Ibákabaru - Carroça de cavalo.
Ibuehohó - Corpo.
Iwo - Rio.
Ghinhé - Feijão.
Héisú - Lenha seca.
Hinebakró - Luz elétrica.
Kenhéá - Costumes.
Kla - Cavar.
Kitci - Areia.
Kiniki - Peneira.
Kuatçó - Pintar.
Küdi - Bolo.
Moitará - Troca de produtos.
Mucunã - Semente de alisar.
Muncuisú - Homem queimador.
Naté - Trabalho.
Natiá - Aldeia.
Nikedda - Avó Terra.
Naticróraí - Cidade.
Opará - Rio São Francisco.
Pedabó - Quebrar.
Poroné - Misturar.
Prebúde - Capeador de coité.
Preretá - Capeador de ferro.
Purúhe - Pintura floral.
Radá - Terra.
Radda - Mundo.
Radami - Terras do interior.
Retsé - Floresta.
Retseá - Florestas.
Runhú - Panela de Barro.
Runhúmerá - Panelas de ferro.
Ruño - Pote de Barro.
Ruñohú - Cerâmica.
Sabucá - Salinhas.
Sanéá - Materiais.
Samy - Cultura.
Sumanike - Duas Avós Antepassadas.
Sumarãtó - Dois Avôs Antepassados.
Tauá - Barro amarelo.
Tayu - Dinheiro.
Tetsiá - Mulheres.
Tetsi - Mulher.
Tokenhé - Antepassados.
Uapluá - Caças.
Ubacródzu - Canoas do porto.
Ubiro - Barriga.
Uché - Tempo.
Ukie - Sol.
Umah - Queimar.
Unu - Sofrimento.
Upuhto - Avô do Vento.
Utsoho - Fazer.
Uttihu - Fruta.
Ybyrápeba - Tábua.
Waridzá - Boca.
Woroby - Novos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/06/tokenhe-antoa-biheuche-os-antepassados.html?m=0 . Acesso em: 7 jul. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Kariri-Xocó, Crenças do Mundo Espiritual, Contos - Volume 12 - Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/11/woroy-historia-kariri-xoco-crencas-do.html?m=0 . Acesso em: 6 jul. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Mekuá, O Grafismo na Marca Viva do Povo. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/06/mekua-o-grafismo-na-marca-viva-do-povo.html?m=0 . Acesso em: 6 jul. 2026.
SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. 2025. 338 f. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Departamento de Linguística, Literatura e Artes, Universidade do Estado da Bahia, Alagoinhas, 2025. Disponível em:
https://www.poscritica.uneb.br/wp-content/uploads/2025/12/Suzart-Elizabete-Costa.-DICIONARIO-CULTURAL-KARIRI-XOCO_Forma-de-ocupar-a-lingua-portuguesa-como-direito-a-memoria-e-.pdf . Acesso em: 7 jul. 2026.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador indígena, escritor, memorialista e contador de histórias da tradição oral de seu povo.
Dedica-se ao registro da memória ancestral, da língua, da história, da cultura e dos conhecimentos tradicionais dos Kariri-Xocó, produzindo obras voltadas à valorização do patrimônio cultural indígena brasileiro.
Sua produção literária constitui um importante instrumento de preservação da identidade indígena e de fortalecimento da educação intercultural, contribuindo para que as futuras gerações mantenham viva a herança deixada pelos Tokenhé, os Antepassados Sagrados.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó









Nenhum comentário:
Postar um comentário