terça-feira, 5 de dezembro de 2023

CLASSIFICADORES / 'ÁDZE PO


Decidi voltar em uma publicação anterior que fiz com Nhenety sobre os classificadores da família Katuandí, com o estabelecimento da noção de sua conexão com outras línguas já citadas anteriormente, posso reformulá-los de forma mais coerente:


Classificadores / 'Ádze po


sá-/zá-/sé-/zé- 'classificador de objetos animados' < *ja 'animal'

lo-/ro- 'classificador de objetos inanimados' < *ro 'coisa'

we-/be-/ve- 'classificador de conversas' < *we 'dizer, mostrar'

nam-/nan- 'classificador de líquidos' < *nã 'água'

pó- 'classificador de livros' < *pó 'brotar, originar'

ha- 'classificador de roupas, peles e cascas' < *hə 'pele' 

krá- 'classificador de astros, pássaros e coisas redondas' < *krə 'pedra, redondo'

nhi- 'classificador de objetos metálicos e pontiagudos' < *ñi 'espinho'

hém-/hén- 'classificador de objetos de madeira, varas e pernas' *hẽ 'madeira'

kré- 'classificador para buracos, poços, bocas, campos, vales e espaços cercados' < *krɛ 'buraco'

nho- 'classificador de fios, cordas, cipós, cobras e objetos similares' < *ño 'corda'

du- 'classificador de aglomerados, grupos e coletivos' < *du 'inchaço'


 Os classificadores do Katuandí servirão tanto na distinção nos adjetivos:


kránanam nan-kóa 'água grande, rio grande'

téje du-yóh 'muitos indígenas, muitos povos'


 Também servem para derivar substantivos:


du- 'classificador de aglomerado' + dá' 'assentar' > dudá' 'colônia'

we- 'classificador de conversas e diálogos' + krú 'enviar, mandar' > wekrú 'ordem, comando'

krá- 'classificador de coisas redondas' + bi 'suspender' > krábi 'planeta'

ha- 'classificador de roupas, peles e cascas' + pré 'comprido' > hapré 'vestido, saia'




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 





segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

ETIMOLOGIA DE KRADZÓ 'GADO'


 A palavra kradzó tem uma estrutura típica do que presumimos ser Macro-Jê, que é o uso de encontros consonantais com a rótica (r) e uma oclusiva (normalmente k ou p, mas não t), sabe-se através do vocabulário de Martius no seu registro da variante glasaizang que seu significa era 'anta', isso nos indica que sua origem se dá na raiz Macro-Jê kryt 'anta' que surge com o prefixo ku.


 Digo aqui que essa palavra é Katuandí e tenho evidências em uma publicação passada, que foi a da palavra para 'roça', nela temos a palavra malham/malhem/mara, essa palavra volta diretamente para o Proto-Macro-Jê *mỹrỹ 'mata, veado', indicando-nos que ỹ resulta em a/ã no Katuandí, o próximo passo lógico é de que se a vogal nasal ỹ resulta em a ou ã, a sua variante oral y provavelmente resultaria em uma vogal semelhante sem a nasalização, tenho outra evidência que prova essa afirmação:


ikrá 'machado' < *kryt 'pederneira, metal'


 Essa palavra do Xocó nos demonstra que y oral resulta em a oral, portanto kryt de 'anta' resultaria no Katuandí kraʔ ou kra, confirmando sua origem Terejê, faltando somente dzó, cujo aqui também hipotetizo ser Katuandí, no entanto estudos precisam ser feitos para averiguar seu significado real, a primeira vista creio ter alguma relação com a palavra para animal *jə, vista no Natú sê/zê em sê-prun 'ovelha' e gôzê 'jacaré', no Xokó sa em saboer 'ovelha' e no Wakonã sa/ja em saquagôbê 'cachorro' e jagôitám 'boi'.




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 





domingo, 3 de dezembro de 2023

ETIMOLOGIA DE BEREIÓ


 O Wakonã registrado por Antunes possui pouquíssimos exemplares realmente nativos, boa parte das palavras são Fulniô, mas da que pude identificar como Katuandí, Bêrêió 'obrigado' e Bêriôstiá 'obrigado' são exemplos que demorei um pouco para achar uma etimologia convincente.


 Primeiro de tudo, eu tenho certeza que disse anteriormente que seria um composto entre bêrê 'falar' + ió 'muito', no entanto quero agora propor outra percepção, já que creio que seria não impossível, mas um pouco difícil o verbo 'dizer' ter facilmente derivado o sentido de 'obrigado, gratidão'. Se seguirmos a relação linguística próxima que o grupo Terejê tem com o grupo Akuwẽ, podemos ver de onde o significado de bê e rê vieram:


BÊ cognato de:

Xavante: wẽ 'bom, belo, bondade, beleza'

Xerente: wẽ 'gostar, permitir'


RÊ possivelmente cognato de:

Xavante: ré 'cheio de, com, contendo'

Xerente: re 'com, durante, enquanto'


IÓ foi um pouco difícil, talvez não seja só cognato, mas sim o ancestral dos sufixos -ye e -yó do Dzubukuá e Kipeá que significam 'muito', assim a palavra seria bê-rê-yó 'com muito gosto, com muito agrado', portanto 'gratidão'.




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 





ETIMOLOGIA DE ROÇA


A palavra para roça do Wakonã, um dos membros do grupo Terejê, possui três variantes, nessa publicação discutirei sobre a primeira parte desta palavra, que é malham/malhem/mara.


Como é possível ver nas imagens, as palavras para mata, floresta nas línguas Xerente (mrã) e Xavante (marã) batem diretamente com a palavra Wakonã, além do fato dos dicionários providenciarem os seguintes significados para roça:


4. terreno com muito mato.

5. mato crescido, ger. em terreno acidentado.


 Já se sabe também através do nome da aldeia dos Natú, a Natuba, que -bá é um sufixo que denota locais, portanto malham-bá é o 'local de mato', isso confirma uma suspeita que eu tinha do Katuandí, de que os LH derivavam de antigos R lateralizados e palatalizados (ra > la > lya (lhá)) e também ajuda-nos a recuperar a palavra Katuandí para floresta e mais uma vez facilita o processo de reconstituição da língua.




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 





AS VOGAIS E CONSOANTES DA LÍNGUA GWRAL DOS TEREJÊ (KATUABDÍ) E A CONSOLIDAÇÃO DE ALFABETO LATINO PADRONIZADO


 A língua Katuandí herda de suas três fontes as seguintes vogais:


a, com o valor de á

e, com o valor de ê

ae, com o valor de é

o, com o valor de ô

oa, com o valor de ó

oe, com o valor de â

u, com o valor de ú

ý, com o valor de i grosso do Tupi Antigo ou ŷ do Kipeá


As consoantes herdadas das três fontes primárias são:


b, com valor de b

v, com valor de v

p, com valor de p

f, com valor de f

k, com valor de k

g, com valor de g de gato, jamais g de gente

ng, com valor de uma junção entre a nasal n e a velar g, como em ma-nga ou poranga do Tupi

t, com valor de t

d, com valor de d

s, com valor de s de sapo

z, com valor de z de zipper

ds, com valor de t + s, como em tsunami, formando um som só

dz, com valor de d + z, como em dezoito, que quando pronunciado rápido vira dzoito

sh, com valor de x de xícara

j, com valor de j de janela

r, com valor de r de Pará, jamais r de rato ou carro

l, com valor de l

lh, com valor de lh como em lhama

m, com valor de m

n, com valor de n

nh, com valor de nh como em nhoque

h, com valor de h

y, com valor de i de iate ou y de you do inglês

w, com valor de w de water do inglês



o alfabeto possui 28 letras, sua ordem normal segue o padrão latino com a adição dos dígrafos que representam um som só:


A, OE, B, D, E, AE, F, G, H, I, J, K, L, LH, M, N, NH, O, OA, P, R, S, DS, T, U, V, W, SH, Ý, Y, Z, DZ




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 





sábado, 2 de dezembro de 2023

REGRAS DO KATUANDÍ EM RELAÇÃO AO SUBRAMO JÊ CENTRAL PARTE 1


 Ainda estou no processo de estabelecer de forma concreta todas as regras vigentes entre os grupos Terejê, Akuwẽ e Kariri, uma palavra que Andrey Nikulin reconstruiu no subramo Central que usarei de exemplo dos estudos que estou fazendo é:


Proto-Jê Central *krada 'base, velho, ancestral' > Xavante 'rada e Xerente krda


 Essa palavra foi estendida de sua forma original que era *krat, virando *krada no Akuwẽ, o Katuandí até onde sabemos parece não ter herdado essa palavra dessa forma, a palavra que surge no Kipeá para peito é krabu, um composto entre kra 'peito, base, tronco' + bu 'pele', note a diferença semântica, onde o Akuwẽ herdou o sentido de antepassado, o Terejê herdou o sentido anatômico e também herdou uma forma que ou era */kraʔ/ ou */krat/ na fala Katuandí cujo qual a consoante final foi perdida ao entrar no léxico Kariri, ou talvez já na época dos Katuandí essa consoante já teria sido perdida, indicando um desenvolvimento completamente distinto entre os dois grupos do subramo Central, mais estudos serão feitos para estabelecer melhor essa relação





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 





sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

BOM DIA / KANGRI KAYE / CANGHÍ CAYẼ / KANGLÍ KAYÉ / KANNÍ KAYÈNG


 Nos últimos meses venho publicando sobre os povos Xokó, Natú e Wakonã, cujos quais nomeamos eu e Nhenety de Katuandí, de tudo que fui capaz de elaborar e encontrar em comparação triádica do Kariri, Katuandí e o subramo Jê Central do tronco Macro-Jê, fui capaz de encontrar uma conexão maravilhosa na história desses povos. Descobri que muitas palavras do Kariri são diretamente cognatas com aquelas do grupo Central Jê, que é um dos grupos do qual eu teorizei ano passado terem sido uma das influências que legou o vocabulário que conhecemos hoje do Kariri e nos faz perceber nossa língua como pertencente ao Macro-Jê.


 Não é que o Kariri pertença diretamente ao Macro-Jê, a situação é semelhante ao do inglês, do qual tem uma base germânica e um extenso vocabulário greco-franco-latino, o Kariri tem uma base Macro-Caribe (mesma base que o Boróro e a família Caribe) com extenso vocabulário Macro-Jê, tal base ainda é perceptível na sua gramática através da construção do partícipio com o pronome di- e um sufixo nominalizador -li/-ri, como em di-pa-ri 'aquele que é morto, vítima', tal construção só surge novamente na família Caribe, indicando a proximidade maior dessas duas famílias entre si.


 Quando os Kariri migraram para o centro do Brasil, talvez na região onde hoje é o Estado de Tocantins ou o Estado do Piauí, seja no Rio Tocantins ou no Parnaíba, estes se assentaram e se casaram com grupos daquela região que participavam linguisticamente da família Macro-Jê, a região central do Brasil é dominada pelo ramo Cerrado, que se subdividiu entre o subramo Central e o Setentrional (ou do Norte), hoje discutirei sobre o Central. Este grupo também se subdividiu entre suas próprias ramificações, o grupo Akuwẽ, que compõem os Xavantes, Xerentes, Xakriabás e Akroás e o grupo que ao que se pode perceber através dos vocabulários restantes do povo Kariri-Xocó e do povo Wakonã, se chamavam de Aterejê ou Terejê, com suas próprias subdivisões, como me foi dito por Nhenety, com o caso de que o pajé Suíra do povo Kariri-Xocó preservou um nome antigo de seu povo: "Mõteregê", literalmente "os Terejê que andam" (cf. Proto-Macro-Jê *mũ 'ir').


 De forma resumida, os povos Terejê são muito importantes para a formação do que conhecemos como Kariri hoje, no sentido de língua e cultura, todos os aspectos que vemos do povo Kariri que se assemelham ao que é visto nas culturas Jês muito possivelmente derivam das relações amistosas que estes tiveram com os Terejê, logo mais irei publicar alguns cognatos que fui capaz de encontrar que demonstram essa relação próxima destes três grupos supracitados, eu discuti de forma breve sobre alguns cognatos que já fui capaz de encontrar nesta publicação: https://kxnhenety.blogspot.com/2023/11/os-katuandi-sao-do-ramo-central.html?m=0




Autor da matéria: Suã Ari Llusan