sábado, 2 de março de 2024

ETIMOLOGIA DE UBUMANA 'VEGETAL' DO KIPEÁ

 

A palavra é um composto entre duas palavras UBU 'cabeça', cognato do Galibi upu 'cabeça' + MANA 'jardim de vegetais', cognato do Galibi maina 'jardim de vegetais'. A palavra UBU é um arcaismo, sendo uma conversação de uma palavra do Proto-Macro-Caribe, com uma função não tão dissimilar ao que é visto no inglês 'head of lettuce', pra se referir a uma unidade de vegetal, portanto temos duas palavras novas:



Proto-Kariri *ubu 'cabeça'


Dzubukuá: ubbu

Kipeá: ubù

Sapuyá: uppú

Kamurú: ubbù

Katembri: ubu

Kariri-Xocó: ubú



Proto-Kariri *mana 'jardim de vegetais, campo'


Dzubukuá: manna

Kipeá: manà, menà

Sapuyá: manná

Kamurú: mannà

Katembri: mana

Kariri-Xocó: maná, mená



 

Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE BUDEWÓ 'SEPULTURA'

 

Mamiani descreve um circunfixo em sua gramática na página 70: Nó-X-dewó, partícula que denota negação com sentido de enfado (aborrecimento, zanga), essa palavra surge novamente na língua, demonstra que se trata possivelmente de um verbo DEWÓ 'estar enfadado, estar aborrecido, estar aflito'


 A palavra BU-DEWÓ portanto seria BU 'cabaça' + DEWÓ 'enfado, aborrecimento, estar aborrecido' = BU-DEWÓ 'cabaça do enfado'


 Reconstruo como:


Proto-Kariri *bu-dewó 'sepultura'


Dzubukuá: buddewo

Kipeá: budewò

Sapuyá: puttewó

Kamurú: buddewò

Katembri: budevó

Kariri-Xocó: budewó



 

Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE UKÈWO 'PEÇONHA' DO DZUBUKUÁ

 

A palavra parece ser nativa do Kariri, sendo cognata distante do Galibi ỳkako 'peçonha, peçonhento', indicando que o U- na frente não é o marcador da quarta declinação do Dzubukuá (quinta do Kipeá), e sim uma vogal propriamente da palavra. A sílaba -wo deriva da memsa que deriva o -ko do Galibi, sofrendo lenição de -ko para -go, desse para -ɣo e por último -wo, reconstruo como:


Proto-Kariri *ykago 'peçonha'


Dzubukuá: ukèwo

Kipeá: ukaewò

Sapuyá: ukaiwó

Kamurú: ukaiwò

Katembri: ukéwó

Kariri-Xocó: ukéwó



 

Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DA PALAVRA BAEKÈ 'SOBRINHA'


A palavra para neto TÈ também serve para definir os sobrinhos na língua Kipeá, pelo visto sobrinha BAEKÈ também deriva de uma palavra para neto(a), composto entre BAE 'neto, neta' + -KÈ 'sufixo que marca o gênero feminino', reconstruo como:


Proto-Kariri *pa-ke 'neta'


Dzubukuá: boèke

Kipeá: baekè

Sapuyá: paikkúi

Kamurú: paittzùi

Katembri: béké

Kariri-Xocó: boeké, baeké



 

Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DA PALAVRA RUTÈ 'MULHER VELHA' DO KIPEÁ


 A palavra é um composto entre RU, um verbo nativo do Kariri, herdado do Proto-Macro-Caribe, cujo o significado é de 'estar cansado, cansar, cansar-se', com um sufixo -TÈ que indica o gênero feminino, derivado da mesma raiz que criou TIDZI 'mulher, fêmea' do Kipeá e TEDZI do Dzubukuá, assim formando


RU-TÈ 'ser feminino que é/está cansado'


Reconstruo como:


Proto-Kariri *ru-te 'mulher velha'


Dzubukuá: rutte

Kipeá: rutè

Sapuyá: rutté

Kamurú: ruttè

Katembri: ruté

Kariri-Xocó: ruté



 

Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




sexta-feira, 1 de março de 2024

TRÊS NOVOS ACHADOS DA LÍNGUA KARIRI E SUA CONEXÃO ANCESTRAL


 Em resumo do que conclui nos últimos meses, o Kariri é resultado de múltiplas fusões étnicas ao longo dos séculos e milênios, em algum momento no passado, os Kariri se misturaram com povos Terejê do Cerrado brasileiro e migraram rumo ao Rio Opará, da onde muitos ou desceram até sua foz pelo lado de cima, migrando subsequentemente para os Estados de Pernambuco e Ceará, enquanto outros grupos cruzaram o rio e adentraram onde hoje se encontram Alagoas, Sergipe e a Bahia, antes mesmo disso, os Kariri eram um grupo que divergiu e tornou-se um grupo independente da família Macro-Caribe, muitos dos vocábulos mais básicos do Kariri são identificados como cognatos daqueles encontrados nas línguas que hoje vivem no Escudo das Guianas.


 Hoje trago mais achados dessa procedência nortenha de uma das duas parcelas que formaram os Kariri que foram registrados nos séculos 17 e 18:


*A palavra UNAE 'sonhar' não é empréstimo*


 A palavra UNAE 'sonhar' não se trata de um empréstimo, aquele U- na frente da palavra não é um marcador da quinta declinação real, trata-se na verdade de uma sílaba que realmente faz parte da palavra, o cognato distante dessa palavra pode ser encontrado na língua Carib (a língua cujo a família possui o mesmo nome), também conhecida como Galibi ou Kali'na, o cognato sendo (w)onety 'sonhar', é fácil ver como a palavra mudou:


one > oné > uné > unæ



*A palavra MENNE 'ira' do Dzubukuá*


 A palavra para ira do Dzubukuá é imennete 'coisa de menne', enquanto a palavra paciência é imennequiete 'coisa de não menne', menne ao que parece é completamente nativo do Kariri, vindo do Proto-Macro-Caribe, seu cognato é extremamente óbvio no Galibi, sendo mene 'ruim, enorme', é possível ver como menne se desenvolveu para 'ira', um estado acima da raiva, pois o Proto-Macro-Caribe talvez possuía *mene com os significados de 'muita raiva'.



*A palavra DZÓ 'chuva'*


 A palavra para chuva DZÓ não era originalmente chuva, ao que parece, seu significado antigo era de 'derramar, jorrar, despejar', isso explica também por que o substantivo precisa do verbo TI em TIDZÓ 'chuver' para adquirir o sentido de ação, pois TI significa 'por, colocar, botar, estabelecer', assim dando o sentido de TI DZÓ 'pôr a jorrar', semelhante ao inglês pour down, essa estrutura que usa o verbo TI é herdada do Terejê, como visto em seu sinônimo Xerente titaka que também usa *TI* 'estabelecer' com *TA* 'chuva', mas DZÓ se trata de um cognato do Carib, como visto no Galibi so 'borrifar' e soka 'fazer jorrar'.



 

Autor da matéria: Suã Ari Llusan 




ETIMOLOGIA DE TINHÈ 'ALCOFA'


 Uma alcofa é um cesto flexível bem comumente usado para bebês, pode vir com sua própria base de apoio, rodas ou ser portátil, a palavra que define esse cesto em Kipeá deriva de dois verbos, um que já temos registrado graças a Mamiani, que é TI 'colocar, botar' e o outro que só é registrado em compostos como E-YEME 'balsa', nesse caso sendo NHÈ 'meter, colocar', ambos sendo verbos Terejê comparados diretamente com o Xavante ti 'colocar' e *nhẽre 'colocar, meter, pôr', portanto é um composto de dois verbos que indicam a função do cesto, 'colocar algo/alguém dentro' TI-NHÈ


Reconstruo como:


Dzubukuá: tiñe

Kipeá: tinhè

Sapuyá: tinyé

Kamurú: tinyè

Katembri: tiñé

Kariri-Xocó: tinhé


Terejê

Xocó: tinhê

Natú: tiñê

Wakonã: tinhê



 

Autor da matéria: Suã Ari Llusan