segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A ETIMOLOGIA DE KOBÊ ‘ESTRANGEIRO’


Discuti no passado, quando pensava que o Terejê era uma língua paralela ao Akuwẽ, que o nome kobê ‘estrangeiro’, indica que eles não se identificavam como Akuwẽ, demonstrando que a afiliação linguística deve estar, ao menos primariamente, atrelada a outro grupo do Jê Cerratense.


O fato da palavra ser pronunciada com -b- ao invés de -w- como A-kuwẽ ‘endônimo Akuwẽ’ ou -p- como no Panará it-ppe ‘estrangeiro’ aproxima esse lexema do Jê Setentrional, que tem esse termo reconstruído como *kubẽ ‘estrangeiro’, a única língua dessa ramificação que a ainda preserva o fonema /b/, ao invés de torná-lo /p/, é o Mẽbêngôkre ou Kayapó.


Isso, como já repeti várias vezes, não invalida a presença de vocábulos de origem claramente Akuwẽ, como:


mè zikèò ‘homem’, lit.: ‘gente que luta entre si’ (esse sendo misto de Akuwẽ e Setentrional, por conta da presença de mè, que não é usado dessa forma no Akuwẽ, o que pode implicar na relação de povos durante a formação das nações Xokó, Natú e Wakonã).


zitok ‘inimigo’, cognato do Xavante tsitob’ru ‘enraivecido, inimigo’ (< *tsitobkru).


bari ‘tabaco’, cognato do Xavante warĩ ‘tabaco’. 


O nome sîo ko ‘Xokó’, cognato do Xavante tsihö’wa ‘cortador, combatente’ (< *tsihə-kʷa, que evoluiu como: *tsihə-kʷa > *tse(h)ó-kó > tseó-kó > seó-kó > syó-kó > xó-kó). 


O nome pea gasîi nan ‘andarilhos’, cognato do Xavante pahö ‘andar longe’ + ‘atsi ‘andar’ (< *katsi) e um sufixo pluralizador de origem desconhecida até o momento.


A relação dos povos que originaram os Terejê talvez reflita nas migrações tanto de povos Jê Setentrionais, como os Kayapó, que são visto em locais distantes de seu ponto de origem, como no sul do país (Nimuendajú, 2017), possivelmente um grupo deles migrou para o Nordeste, por meio do São Francisco. Também se tem notícias no mesmo mapa de Nimuendaju dos Akroá, presentes nas proximidades do São Francisco na margem esquerda.


O argumento que faço é que o kobê indique-nos que a identidade majoritária do povo estivesse atrelada a uma antiga população dos Jês do Norte, o conceito de fusão étnica não é descartável aqui, podendo ser exemplificado pela existência do povo Eyeri nas Antilhas, que são o resultado de uma fusão étnica entre Arawaks e Caribes por intemeio de guerras. Sabe-se que, na documentação histórica, os Kayapó são um povo guerreiro (Neme, 1969, p. 108), e o fato dos Xokó serem nomeados de ‘cortadores, combatentes’, os homens serem chamados de ‘gente que luta entre si’, o nome micéagê ‘cacique’ ser derivado de *mẽ tsihö-dzé ‘gente do instrumento de combate (Nome de uma arma ? Borduna ?)’, cognato do Xavante tsihö-dzé ‘coisa de combate’, talvez sejam pistas de uma guerra que precedeu a fusão étnica.





Autor da matéria: Ari Llusan 

A PALAVRA PARA VENTO MÀNUSÌ


A palavra para vento não possui etimologia Jê, todas as palavras que chequei em todos os ramos são completamente diferentes dessa palavra, daí resta a dúvida de onde ela veio. Relativamente recente é minha descoberta do documento de Goeje sobre os Arawak das Guianas (1928), nele encontro a palavra awadu-li ‘vento’, que possui todos os fonemas possíveis que podem se tornar mànusì ‘vento’, explicarei abaixo:


Com apenas uma mudança sonora, comprovada por uma letra dessa palavra, é possível ver como ela passa de awadu-li > mànu-sì, essa mudança é nasalização:


awadu-li > wadu-li > wãdũ-lῖ (a partir daqui, as consoantes são assimiladas) > mãnũ-ñῖ (depois desnalizadas) > manu-ñi > manu-ci (essa mudança de ñ > c possivelmente ocorrendo na época em que a língua ainda preservava suas africadas, o Xokó sendo o que melhor as preserva entre as três línguas Terejê, cf. a-tsa ‘fogo’ em comparação o Natú sha-kisha ‘fogo’) > mànu-sì


Assim, argumento que havia uma presença Arawak entre os Xokó, assim como há nos vocábulos do Kariri, como em wana-dzi ‘remédio’, do Arawak bana ‘folha’.





Autor da matéria: Ari Llusan 

O PREFIXO DE ARGUMENTO GENÉRICO DO XOKÓ


O Xokó preserva um prefixo das línguas Jê Setentrionais, que é o prefixo de argumento genérico a(w)-, tal prefixo surge no Apãniekrá para criar formas genéricas de certos substantivos, significando algo como ‘qualquer’, é desse prefixo que surge a palavra a-tse ‘natureza, indígena Kariri’ no Dzubukuá (Queiroz, 2012, p. 399), por meio do Mehime a-kêt ‘mato, floresta’ (Pompeu Sobrinho, 1931, p. 14), que no Apãniekrá é aʔ-kêt ‘mato (genérico)’ (Alves, 2004, p. 78).


Esse prefixo surge na palavra ‘fogo’, que surge na primeira forma como tsa ‘fogo’, e depois na forma a-tsa ‘fogo (genérico)’, não havendo uma grande diferença entre os dois. Esse prefixo me foi de grande confusão na época que eu associava o Terejê ao Akuwẽ, pois no Akroá-Mirim, a- codifica o argumento humano ao invés de genérico, o que daria o sentido de ‘fogo de gente’, como o sufixo -à no Kariri (Mamiani, 1877, p. 94), o que semanticamente não faria muito sentido do fogo ser algo exclusivamente marcado com o argumento humano, agora que sei que se trata do argumento genérico, isso facilita descobrir a etimologia de algumas palavras aqui e no Kariri.


No etnônimo Xokó e Xukuru é preciso observar que os Xokó já foram denominados Siocoses e Xukuru tem a Varuanre Sukuru.


Isso abre precedente para que a pronuncia do X ou Ch  tenha se originado num fonema próprio da Língua. Si ou Tsi, Tsiokó - Tchiokó - Txokó - Xokó. Tsihö > seó (queda do h) seó > sió > xó (palatalização). E o X ser pronunciado como Si ou Tsi ou Tchi. 


Julgando pelo fato de que os Xokó pronuncia 'fogo' como tsá enquanto os Natú como shá (xá). Indica que o Xokó melhor preservou os sons africados (tx, dj, ts e dz).


Pode se introduzir o grafema Ć para substituir Tx e Tch sem perda fonética.




Autor da matéria: Ari Llusan 

ETIMOLOGIA DE MERÉKIÁ


A palavra é cognata do Puri-Coroado mretetêna ‘ouro’ (Lemos, 2012, p. 64). Essa palavra também significa ‘prata’ (Loukotka, 1937, p. 208).


A palavra mirêtatey deriva de um cognato do Xavante prétede, sendo pré ‘vermelho’ e tede ‘duro’, o uso de vermelho para indicar ‘ouro’ também é visto no Dzubukuá (be-he ‘CL-vermelho’ = ouro (tonalidade dourada, Queiroz, 2012, p. 160).


Com isso, meré deriva da nasalização e depois quebra do encontro consonantal *mré, derivado de pré ‘vermelho, brasa’. A etimologia de kia continua sendo a que prôpus em publicações passadas, assim temos: mre-kîa ‘vermelho-pedra’ > ‘ouro, dinheiro’.





Autor da matéria: Ari Llusan 

ETIMOLOGIA DE TU ‘ROSTO’ DE TULHUSÔ ‘OLHO’ E TULHUSO ‘DENTE’



A palavra é cognata do Puri-Coroado adarà ‘cara humana, figura’, derivado de um cognato do Xavante adö ‘defunto, falecido, cadáver, morte’


Provavelmente não pela raiz dö’ö ‘morrer’ (< *dəkə), mas sim por dörö ‘morrer’, com a terminação na coda -r, assim a-dörö ‘coisa humana da morte’ > ‘cara humana, figura’. A forma adö’ö ‘rãi hi ‘caveira’ é impossível de associar no momento, visto que depende da mudança de krãi > rã, que só aconteceu no Xavante no final do século 19, ter acontecido no Puri-Coroado simultaneamente.

Com isso, tur (escrito com a coda implicando a pronuncia de tulîu) significa ‘cara, figura’, visto que não possui o prefixo de marcação humana a-. sô ‘ver, olho’, deriva de um cognato do Xavante tsãmri ‘ver’, enquanto so ‘morder, dente’, deriva de um cognato do Xavante tsa ‘morder’.





Autor da matéria: Ari Llusan 

UMA DISCUSSÃO SOBRE A ETIMOLOGIA DE SABUE ‘ARCO’


A palavra sa-bûè é composta de dois morfemas, suspeitei primeiro que bûè poderia ter relação com o Kariri buicu ‘flecha’ e o Boróro boeiga ‘arco’, ao menos nesse caso, não vejo uma semelhança salvo uma reanálise da proposta de Albissetti (1962, p. 483), que é boe ‘coisa’ + iga ‘arco’. Não pode ser flecha, pois a palavra ikrô ‘flecha’ já existe no Xokó, e é derivado do Jê Setentrional.


Sugiro que o primeiro morfema seja cognato direto do Xavante tsãmra ‘atirar, jogar, lançar’, enquanto o segundo elemento ainda gera dúvidas, pode ser que realmente seja cognato do boeiga e signifique ‘coisa’, assim sa-bûè ‘atirar-coisa’ ou ‘coisa de atirar’, pode ser que esse morfema necessite reanálise, daí teríamos sa-bûè ‘atirar-arco’ ou ‘arco de atirar’. Por último, o que no momento acho menos provável é que derive de pahö ‘andar longe, atirar longe’, mas vimos que esse foi quem derivou o pea de Peagaxinã ‘endônimo do povo Natú’, o que dificulta esse ser o caso, pois já sabemos seu resultado fonético nessas duas línguas aproximadas.


Há um outro problema, boe se desenvolveu como ‘mato, floresta, coisa, indígena Boróro, mundo, tempo’ na língua Boróro, no Kariri foi preservado em algumas instâncias como boe/be ‘mato, floresta’, como no Kipeá be-ne-te ‘borda da mata’ e no Dzubukuá boe-tte ‘coisa do mato’ > ‘roça’, ambas essas palavras derivam de um morfema bõ ‘capim’ do Jê Setentrional (Nikulin, 2020, p. 488), o desenvolvimento semântico para ‘coisa’ talvez tenha sido feito pelo Boróro, mas não é fácil dizer se o Xokó o compartilha, o que novamente dificulta relacionar bûè com boe ‘coisa’ e exatamente por isso que digo que buicu ‘flecha’ e boeiga ‘arco’ talvez precisem de uma nova análise de seus morfemas.





Autor da matéria: Ari Llusan 

ETIMOLOGIA DE TIPIA E A COMPROVAÇÃO DA PALATALIZAÇÃO DE -R- > -Y-


Fiquei com algumas dúvidas se o Xokó e Natú formavam mesmo um grupo com o Wakonã por um certo tempo (após a descoberta da relação Wakonã-Cayapó do Sul), essas publicações em seguida são resultado de minha busca para ver o que posso encontrar que possa reforçar o argumento dessa relação. Além do substantivo a-ti-’a ‘incêndio’ (lit.: ‘AG.GEN-3-queimar’), cujo só existe nessa forma no Cayapó do Sul, como tikaa ‘queimar’, também existe outra palavra desse grupo linguístico que também passou por processos de palatalização.


A palavra é tipîà ‘cabeça’, composta de duas palavras vistas no ramo Panará: ti ‘grande’ e piə ‘grande’ (esse último sendo um cognato do Tarairiú pró ‘velho, chefe’, que preserva o -r- medial). Isso comprova que o Xokó está diretamente ligado ao Wakonã, como uma língua de caráter misto entre Jê Setentrional, Panará e Akuwẽ, e julgando pela frase “kalicê bêlêtsiê”, é muito provável que os elementos mais fortes e mais presentes na gramática fosse primeiramente o Cayapó do Sul, depois o Jê Setentrional e por último, o Akuwẽ.





Autor da matéria: Ari Llusan