terça-feira, 27 de maio de 2025

AMÍNHEKIÉ, Brincar de Cozinhada







Debaixo do velho ingazeiro, onde os galhos faziam sombra e o vento cantava baixinho, a meninada se reunia para brincar de cozinhar. Era a brincadeira mais gostosa do mundo!


— Quem vai buscar a lenha? — perguntou Jandira, a menina mais velha, com as mãos na cintura e um sorriso de quem mandava bem na cozinha.


— Eu! Eu! — gritaram as meninas, já correndo para juntar gravetos e folhas secas.


Enquanto isso, Indé, o mais ligeiro dos meninos, ajeitou o chapéu de palha e chamou os amigos:


— Bora pro mato, pessoal! A mistura não vai se arranjar sozinha!


E lá se foram eles, pulando troncos e desviando de espinhos, em busca de frutas, temperos e quem sabe… alguma caça de peteca!


— Achei tomatinho! — gritou Nhakã, com a mão cheia de bolinhas vermelhas.


— E eu, alfavaca cheirosa! — falou Itauaçú, esfregando as folhas no nariz e fazendo careta.


Enquanto os meninos se aventuravam, as meninas arrumavam o chão debaixo do ingazeiro, varriam com ramos secos e preparavam as panelinhas de barro.


— Vai ficar tudo tão bonito! — disse Suinã, empilhando os gravetos com capricho.


Logo, os meninos voltaram, suados e felizes, carregando o que haviam encontrado: sardão, ciguleira, maxixe e até uns peixinhos pequenos que pegaram na lagoa.


— Olhem só quanta coisa! — exclamou Indé, mostrando o tesouro.


— Agora é com a gente! — disse Jandira, pegando a faca de madeira. — Vamos preparar tudo direitinho!


E assim, com muito cuidado, as meninas cortaram, lavaram e misturaram os ingredientes, enquanto o fogo crepitava baixinho.


Quando a comidinha ficou pronta, o cheirinho bom se espalhou pelo ar.


— Hummm… tá dando água na boca! — falou Nhakã, esfregando a barriga.


Jandira, com seu jeito de irmã mais velha, fez a divisão: colocou um tantinho em cada pratinho de barro, e quando não tinha mais, usou cacos de potes quebrados que pareciam pratinhos mágicos.


— Um para você… outro para você… e outro pra mim! — dizia ela, entregando as porções.


Todos sentaram em roda, debaixo do ingazeiro, e começaram a comer, rindo, conversando e contando histórias do mato.


— Essa foi a melhor cozinhada de todas! — falou Itauaçú, lambendo os dedos.


Jandira sorriu e disse:


— E amanhã tem mais! Porque brincar de cozinhar é também um jeito de aprender a ser do nosso povo: ajudar, partilhar e viver juntos!


O vento balançou as folhas do ingazeiro, como quem concordava. E ali, no meio das risadas e do cheirinho de comida boa, a cultura deles crescia, igual à árvore: forte, bonita e cheia de vida.


E dizem que, até hoje, quem passa pelo velho ingazeiro consegue ouvir, bem baixinho, as vozes da meninada brincando de cozinhada…




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 27 de maio de 2025



RUNHIDZÚ, O Pote de Água Fria







Desde pequeno, eu gostava de observar minha avó Júlia, sentada ao chão, moldando com as mãos firmes e calejadas o barro úmido, dando forma aos potes que serviam à aldeia. Um dia, curioso, perguntei:


— Vovó, por que a senhora faz o pote mais feio da aldeia?


Ela soltou uma risada tranquila, cheia de sabedoria:


— Meu neto, é porque só sei fazer assim. Meu pote de barro é mesmo o mais feio, como todo mundo diz.


Fez uma pausa, alisando a borda do vaso que ganhava forma. Então, completou:


— Mas este pote feio é o que mais esfria a água, deixando-a fresca e saudável. Eu o chamo de Runhidzú.


Olhei atentamente para o objeto bruto, de formas desiguais, e ela continuou:


— Já os potes da velha Luiza, que chamamos Runhican, são os mais bonitos da tribo… Mas não esfriam a água; servem apenas para enfeitar a casa.


Então, com a serenidade dos anciãos, ela me ensinou:


— Os dois são necessários para o nosso povo: um pela saúde, o outro pela beleza que nos alegra os olhos.


Segurou minha mão e me aconselhou:


— Não se preocupe em fazer o mais bonito ou o mais feio. Todos fazem parte da nossa cultura. Às vezes, uma semente feia pode esconder um grande poder curativo. As aparências enganam, meu neto.


Fez uma pausa longa e olhou para o horizonte, antes de acrescentar:


— As cobras mais bonitas da floresta, com suas cores vivas, são as mais venenosas. Você não as conhece ainda… mas fique longe delas, pois sua picada pode tirar uma vida. No entanto, essas mesmas cobras caçam os ratos que infestam as plantações das nossas roças.


Apontou para a mata adiante:


— Veja aquela árvore velha, feia, enrugada pelo tempo… Como ela é linda! Viveu muitos invernos, muitas gerações passaram por aqui, e ela ainda resiste firme.


Por fim, com os olhos brilhando, concluiu:


— E o mandacaru, cheio de espinhos, esse cacto áspero e pontiagudo… guarda a água que alimentará a aldeia quando a seca chegar.


Naquele dia, entendi que na vida, como no barro, nem sempre a beleza salta aos olhos — mas é a utilidade, a resistência e a essência que sustentam a nossa existência.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 27 de maio de 2025.



DUNHÀ, A Fogueira do Morto







Na aldeia Kariri-Xocó, desde tempos que os mais velhos não sabem contar, existe um costume que atravessa as gerações como o próprio rio que serpenteia a mata. Quando alguém parte desta vida, a família do finado acende uma fogueira na porta de sua casa, uma chama que ilumina a noite e aquece as memórias.


Assim foi com o velho Aruanã, que naquela tarde descansou sua última vez sob a sombra da gameleira. Quando a noite caiu, a fogueira já ardia firme diante de sua porta. Um a um, os membros da tribo começaram a chegar, como se atraídos pelo calor das brasas e pelo chamado silencioso do finado.


Entravam na casa e ali ele estava, estendido na sala, com os pés apontando para a porta — sinal de que sua alma havia partido e jamais retornaria ao mundo dos vivos. Ninguém falava alto; apenas os olhos se cruzavam, e os passos lentos cercavam o corpo, respeitosos, atentos ao rito que se cumpria.


Do lado de fora, ao redor da fogueira, o povo se acomodava como mandava a tradição: uns traziam cadeiras de madeira, outros esteiras para se deitarem junto às crianças. Alguns preferiam permanecer em pé, sentindo o calor do fogo misturado ao frio da madrugada.


E então começava a roda de histórias.


Falavam de Aruanã como ele fora: forte nas pescarias, habilidoso na roça, incansável nos mutirões e caçadas que enfrentava mata adentro. Os mais velhos, companheiros de sua juventude, lembravam as travessuras de menino, os primeiros trabalhos, os cantares nas festas, as lutas e os feitos que marcaram sua vida entre o povo.


Enquanto isso, a família cuidava dos que ali velavam. Colocavam o café para ferver sobre o fogo, serviam pães e entregavam os canecos de alumínio, onde o café fumegante espantava o sono e aquecia o corpo — “bofes quentes”, como gostavam de dizer.


O terreiro se enchia. Uns resistiam ao sono contando causos, outros, vencidos pelo cansaço, adormeciam sobre as esteiras junto às crianças embaladas pelo crepitar das chamas. E assim a noite seguia, até que, aos poucos, a escuridão dava lugar ao primeiro brilho do dia.


Quando o Sol começava a nascer, todos sabiam: era hora de ir para casa, tomar banho e se preparar para acompanhar o morto em sua última caminhada até a terra.


Na aldeia, ninguém via a "Fogueira do Morto" apenas como um momento de tristeza. Era, antes, um tempo de lembrança, de memória viva. Ali, ao redor do fogo, se celebrava não apenas a morte, mas a vida que Aruanã deixara marcada na cultura da tribo — seja pela sua luta, pela arte, pelo canto, pela dança, ou simplesmente pelo fato de ter sido quem foi: um homem, com virtudes e falhas, mas que, como as brasas daquela fogueira, jamais seria totalmente apagado.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 27 de maio de 2025




TSEHOUKIE, Cada Povo Com Um Sol







Na aldeia Kariri-Xocó, quando o orvalho ainda bordava as folhas e o vento soprava preguiçoso sobre a várzea do Itiúba, os anciãos se reuniam ao redor do fogo. As chamas dançavam como serpentes douradas, e o crepitar da madeira parecia acompanhar o canto dos pássaros que anunciavam o novo dia.


Certo dia, o pequeno Yúri, curioso como são as crianças que carregam o mundo nos olhos, puxou a mão enrugada do avô e perguntou:


— Avô, por que o sol sempre nasce ali, atrás do morro, e nunca em outro lugar?


O velho Txopan sorriu, os olhos refletindo as brasas vivas.


— Porque aquele é o nosso sol, meu neto. Ele se chama Ukie. Ele nasce do ventre sagrado do morro da várzea do Itiúba e adormece lá longe, no seio do Jundiaí, depois de beijar as águas do Opará.


Yúri franziu a testa, tentando entender.


— Mas avô… o sol não é o mesmo para todos?


O ancião olhou o céu que se avermelhava e, com a voz carregada da sabedoria de muitas luas, respondeu:


— Não, meu pequeno. Cada povo tem o seu sol. Aqui, em nossa terra, Ukie nos guia, aquece nossa pele, ilumina nossos caminhos. Ele conhece cada árvore da mata, cada peixe do rio, cada história que contamos ao luar. É por isso que dizemos: Tsehoukie… Cada povo com um sol.


Yúri arregalou os olhos, maravilhado.


— Então, lá longe, em outras terras, há outros sois?


O avô assentiu com um gesto solene.


— Sim, meu neto. Outros povos têm seus próprios sóis, que nascem em montanhas distantes, se escondem atrás de florestas que nunca vimos, e aquecem gentes que falam línguas que não conhecemos. Cada um com sua terra, seus rios, suas estrelas… e o seu próprio sol.


O menino ficou em silêncio, olhando para o horizonte onde Ukie já surgia, dourando as copas das árvores e pintando a aldeia com luz. Parecia que, naquele instante, o próprio sol sorria para ele.


— Eu gosto do nosso sol… — murmurou Yúri, aconchegando-se ao avô.


O velho Txopan acariciou seus cabelos e disse, com voz serena:


— E ele gosta de você, meu neto. Porque vocês pertencem um ao outro. Assim foi, assim será.


E, enquanto o dia se abria em cores sobre o mundo Kariri-Xocó, a sabedoria de Tsehoukie seguia viva, passando de boca em boca, de coração a coração, como a luz que nunca se apaga: Cada povo tem seu sol, e cada sol pertence ao seu povo.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 27 de maio de 2025




segunda-feira, 26 de maio de 2025

ÇASONSÉ O OLHO DE DEUS, A Criação Segundo a Tradição







No princípio dos tempos, quando o vazio ainda era silêncio e escuridão, Sonsé, o Grande Criador, ergueu-se no infinito.


E com voz profunda e poderosa, proclamou ao nada:


— "Que se faça o mundo sagrado, a aldeia espiritual de onde tudo brotará: Raddanantoan!"


Num instante, luzes de pura essência se acenderam, dançando em espirais, formando a aldeia invisível aos olhos futuros, mas eterna na morada dos espíritos. Era um lugar de equilíbrio, onde o tempo não corria e o ser não precisava de forma.


Contemplando sua obra, Sonsé sentiu que era bom, mas incompleto.


Então, novamente, elevou sua palavra criadora:


— "Que da essência invisível brote também o mundo material, para que os seres possam tocar e ser tocados: Raddasanè!"


E assim surgiram os rios que rasgaram a terra, as montanhas que se ergueram até o céu, e os ventos que sopraram os primeiros cantos da existência.


Mas Sonsé, sábio, sabia que a criação precisava de guardião, alguém capaz de ver com olhos que nenhum outro ser possuiria. Assim, retirou de si uma centelha viva, moldando com suas próprias mãos a figura luminosa de seu filho.


— "Meu filho, Çasonsé, tu serás o Olho de Deus. Verás tudo: o que nasce e o que morre, o que cresce e o que se desfaz. A ti confio Raddasanè, para que continues minha obra e mantenhas o equilíbrio entre o espírito e a matéria."


Çasonsé abriu os olhos pela primeira vez, e ao fazê-lo, a luz se espalhou ainda mais pelo mundo recém-criado. Olhou para o pai e disse:


— "Honrarei tua vontade, meu pai. Onde houver movimento, ali estarei. Onde houver vida, ali verei. Serei a vigília eterna entre o que é e o que será."


Sonsé sorriu, e com um sopro suave lançou Çasonsé sobre Raddasanè. O filho pousou entre as árvores e as pedras, caminhou pelos rios, escalou as montanhas e mergulhou nas profundezas da terra, abençoando cada lugar com sua visão protetora.


Durante eras incontáveis, Çasonsé trabalhou silenciosamente, guiando as forças da natureza, até que, um dia, voltou-se para o céu e perguntou ao pai:


— "Pai, e quanto àqueles que herdarão esta terra? Não é chegada a hora?"


E Sonsé, com voz serena como o sopro da brisa sobre as águas, respondeu:


— "Sim, meu filho. Agora que a casa está pronta, chamemos aqueles que irão caminhar sobre ela."


Então, Sonsé, com seu hálito divino, soprou sobre Raddasanè, e do barro e da folha, da água e da chama, surgiram os primeiros humanos. Homens e mulheres despertaram, ouvindo no fundo de suas almas a voz ancestral:


— "Filhos e filhas da terra, lembrai-vos: fostes criados do mundo visível, mas trazem em si a centelha do mundo espiritual. Çasonsé, o Olho de Deus, sempre vos verá e protegerá."


E desde então, o povo Kariri-Xocó carrega em sua memória sagrada esta história, sabendo que há olhos invisíveis que os guiam, e que o mundo é um encontro perpétuo entre o espiritual e o material.


E quando os pajés, ao redor do fogo, contam esse mito, dizem em uníssono:


— "Ainda hoje, Çasonsé observa. Ainda hoje, Raddanantoan brilha. E ainda hoje, Sonsé cria."




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



 

Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 26 de maio de 2025





IÇAMIKARAÍ, As Formigas Comem Como Brancos







Nas florestas e campos, os animais silvestres sempre viveram do que a natureza generosamente oferecia. Frutos, raízes, folhas, flores… e, às vezes, até outros animais. Assim também era com o meu povo, os Kariri-Xocó. Quinzenalmente, seguimos para a mata do Ouricuri, onde praticamos nossas tradições, renovamos o espírito e alimentamos o corpo com o que a terra nos oferece.


Mas o tempo passou… vieram os colonizadores, derrubaram as florestas para construir cidades, estradas, muros. A mata do Ouricuri foi a única que resistiu em nosso município de Porto Real do Colégio, Alagoas. Agora, seus produtos silvestres já não bastam para alimentar a todos. E assim, compramos arroz, macarrão, biscoitos e outros alimentos artificiais, embalados e empilhados nas prateleiras do comércio.


Certa vez, caminhava sozinho pelas redondezas, perto das casas onde moramos. O chão de terra batida, as folhas secas espalhadas… quando, de repente, parei. Meus olhos não acreditavam: ali, uma trilha apressada de formigas içá carregava grãos de arroz, pedaços de biscoito, fios quebrados de macarrão.


— Olha só… — falei em voz baixa, me agachando para observar melhor.


Nesse momento, meu avô, que vinha logo atrás com sua bengala de pau-ferro, se aproximou e, percebendo meu olhar curioso, perguntou:


— O que vês, meu neto?


— As içás… elas não carregam mais folhas e sementes… Olhe, vô! Agora levam arroz, biscoito… até macarrão!


Ele sorriu, ajeitou o chapéu de palha e disse com a sabedoria de quem guarda muitas histórias:


— Ah… Içamikaraí…


— Içamikaraí? — perguntei, sem entender.


— Sim… — ele respondeu, olhando para o horizonte como quem vê além do tempo. — "As comem como os brancos". Assim diziam nossos ancestrais, quando viam os costumes mudando, a mata diminuindo… As formigas, meu neto, estão apenas seguindo o que restou. Como nós também seguimos…


Fiquei em silêncio, olhando as pequenas içás que sumiam em suas tocas com os alimentos. Uma sensação estranha me invadiu: de admiração, de tristeza… e de respeito.


Meu avô, então, pousou a mão em meu ombro e completou:


— O mundo muda… mas a memória do nosso povo continua. E sempre que vires as içás carregando arroz e biscoito, lembra-te: elas são como espelhos da nossa história.


E assim seguimos, caminhando de volta para casa, com a certeza de que, mesmo diante das mudanças, nossa essência resiste, como a mata do Ouricuri, firme e viva.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 26 de maio de 2025


ARÃKIERUTÉ, O Pano do Céu







Desde o princípio dos tempos, quando ainda não existia a separação entre os mundos, a natureza foi consagrada como mãe e mestra de todas as coisas. Para nós, os nativos, cada ser carrega um sopro do sagrado, e cada fenômeno é um sinal da presença viva dos espíritos. Nada existe que não tenha, ao mesmo tempo, sua forma material e sua essência espiritual.


Assim nos ensinaram os mais velhos, guardiões das palavras ancestrais: “Tudo o que vês, também é o que não vês”. O vento não é apenas ar em movimento, mas o hálito dos antigos; a água não é apenas líquido, mas o sangue primordial da Terra-Mãe. E o céu… ah, o céu! O céu é o mais sublime dos mistérios.


Dizem que, no tempo do começo, quando a escuridão e a luz ainda dançavam em harmonia, Sonsé, o Deus criador, sentou-se sobre a grande pedra do mundo e, com paciência infinita, começou a tecer. Não tecia com fios comuns, mas com linhas de energia luminosa, extraídas do próprio ventre do universo. Cada estrela que hoje cintila foi um nó apertado de seus dedos divinos; cada nuvem, um sopro delicado que afrouxava o tecido; cada raio de luar, uma franja solta de sua criação.


Quando terminou, estendeu sobre nós o grande manto azul-escuro, e assim nasceu arãkié: a abóbada celeste, o véu que nos cobre e nos protege, o espelho das nossas esperanças e temores. O céu, para nós, nunca foi apenas cenário, mas o testemunho vivo da arte de Sonsé.


Então, para celebrar e lembrar deste gesto criador, nossos ancestrais deram origem ao cruté, o pano que, para nós, representa o próprio céu. Não é um tecido qualquer. Ao ser fiado e tingido, ele carrega a memória do manto sagrado, e ao ser vestido, transforma quem o usa. Passamos, assim, a caminhar cobertos não apenas de tecido, mas da espiritualidade que dele emana.


Por isso, cada vez que vestimos o cruté, sentimos Sonsé mais próximo, como se estivéssemos enlaçados ao céu com os fios invisíveis da criação. Vestir-se do pano é, portanto, um rito de passagem entre o mundo terreno e o mundo espiritual; é habitar, mesmo que por um instante, o espaço onde os deuses moram e as estrelas repousam.


E assim nasceu a palavra sagrada: arãkieruté, que dizemos com solenidade e respeito. Ela significa: “o pano é o tecido do céu”. Não há entre nós quem não saiba deste significado, pois ele é transmitido de geração em geração, como um fio que nunca se rompe.


Quando os jovens são iniciados, aprendem que, ao vestir o cruté, estão se revestindo do próprio céu; que cada dobra do pano é uma dobra do tempo, e cada costura, uma linha que os liga aos que vieram antes e aos que ainda virão.


Assim seguimos, caminhando sob e com o céu, fiéis àquilo que Sonsé nos ensinou: que tudo está tecido junto, inseparável, como o pano ao corpo, como o espírito à matéria, como nós ao cosmos.


E enquanto houver quem conte esta história, enquanto houver quem pronuncie arãkieruté, o céu nunca deixará de nos vestir, e nós nunca deixaremos de pertencer a ele.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 26 de maio de 2025