domingo, 25 de maio de 2025

A TRAVESSIA ÉPICA DOS XOCÓ, A Última Jornada da Caiçara







No alvorecer sombrio do século XIX, quando as estruturas do Império do Brasil se erguiam indiferentes aos povos originários, uma tragédia silenciosa abatia-se sobre as margens do Baixo São Francisco. Entre as aldeias esquecidas, a Missão dos Índios Xocó, na Ilha de São Pedro, Porto da Folha, na Província de Sergipe, viu-se traída pela História: suas terras, consagradas pelo sangue e pela memória de gerações, foram postas à venda, leiloadas como mercadoria, arrancadas de seus legítimos guardiões.


Diante da ruína iminente, ergueu-se a figura altiva do cacique Inocêncio Muirá — homem de sabedoria ancestral, guerreiro de fibra e guardião das tradições de seu povo. Sob sua liderança, os Xocó tomaram a mais difícil das decisões: partir. Deixar para trás o solo sagrado, os roçados, os cemitérios, as árvores que sussurravam as histórias de seus antepassados.


Reunidos, com seus pertences mais essenciais — os adornos rituais, os arcos, as cuias, os remédios da floresta —, embarcaram na monumental Canoa de Tolda Caiçara, símbolo de resistência e esperança. A embarcação, robusta e venerável, era mais que madeira e vela: era o ventre que os acolheria na travessia para um novo destino.


Assim, no dia 4 de janeiro ano de 1882, rompeu-se o elo físico com a Ilha de São Pedro, mas fortaleceu-se o vínculo espiritual entre o povo Xocó e o grande rio. Navegaram sob o olhar severo das matas e o canto solene das águas do Velho Chico, enquanto os anciãos entoavam preces aos antepassados e protetores invisíveis que, desde tempos imemoriais, zelavam pela jornada de seus filhos.


A travessia não foi apenas geográfica, mas cósmica: um rito de passagem coletivo, no qual um povo inteiro renunciava à sua terra para preservar sua dignidade.


Finalmente, após dias de jornada extenuante, a proa da Caiçara cortou as águas diante da aldeia Kariri, em Porto Real do Colégio, já na Província de Alagoas. Lá, erguia-se com nobreza o pajé Manoel Paulo, líder espiritual dos Kariri, que, com maracá em punho e olhos plenos de compaixão, saudou os exilados como irmãos de sangue e de luta.


Não houve resistência, não houve estranhamento: o abraço fraterno selou a aliança entre dois povos que, embora marcados pelas dores da colonização e do abandono imperial, mantinham viva a chama da ancestralidade.


Este episódio — a travessia dos Xocó pela Caiçara, o acolhimento pelos Kariri — não foi apenas um movimento de fuga, mas um ato épico de resistência, de afirmação cultural e de esperança, preservado na tradição oral como um dos capítulos mais honrosos da história indígena do Baixo São Francisco.


E assim, enquanto os livros oficiais silenciaram, as águas do São Francisco eternizaram o feito. Até hoje, quando a noite cai sobre as margens do rio e as estrelas se refletem nas águas calmas, há quem escute, entre o murmúrio das folhas e o assobio do vento, o eco longínquo dos remos da Caiçara e a voz do cacique Inocêncio Muirá, conduzindo seu povo à imortalidade.



Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho da capa no dia 25 de maio de 2025.





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