Era manhã de 7 de abril de 1935 quando Carlos Estêvão de Oliveira, renomado pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, chegou à pequena cidade de Porto Real do Colégio, às margens do Rio São Francisco, em Alagoas. Trazia consigo cadernos, instrumentos de anotação e um profundo respeito pelas culturas originárias do Brasil. Seu destino era a antiga Rua dos Índios, um espaço esquecido pelas autoridades, mas vivo na memória e na resistência dos povos que ali habitavam.
Ao caminhar pela rua de terra batida, Carlos Estêvão observava atentamente os rostos, os modos de viver, os pequenos sinais que indicavam a continuidade silenciosa de povos que, embora dispersos e forçados à invisibilidade, persistiam: Natu, Prakiô, Kariri e Xocó. Cada expressão, cada palavra ouvida, parecia confirmar o que suspeitava — ali, no coração do Nordeste brasileiro, as raízes indígenas estavam profundamente fincadas, apesar das dores e das perdas.
Foi então que conheceu Maria Tomasia, uma anciã de semblante firme, cabelos trançados e olhar sábio, que aceitara lhe contar as histórias de seu povo. Ela se apresentou como avó de Indaiá, uma menina de apenas nove anos que brincava descalça entre os quintais, alheia à solenidade daquele encontro, mas já parte viva daquela memória ancestral.
Sentados à sombra de um velho juazeiro, Carlos escutou, com o respeito de quem sabe que o conhecimento verdadeiro nasce da escuta. Maria Tomasia falou do tempo antes da criação do município, em 1876, quando seu povo vivia livre nas terras que lhes pertenciam por direito e tradição. Contou sobre as expulsões silenciosas, sobre o avanço das cercas e das escrituras frias que apagavam, nos papéis, o que seguia vivo na alma de cada indígena dali.
Carlos anotou meticulosamente: "Os povos Natu, Prakiô, Kariri e Xocó resistem na Rua dos Índios, Porto Real do Colégio. As marcas da identidade permanecem no idioma, nos ritos, na memória transmitida pelos anciãos."
Enquanto Maria falava, a pequena Indaiá se aproximava curiosa, tocava as folhas do caderno do pesquisador, sorria e ouvia, sem saber que também ela, naquele momento, se tornava um elo imprescindível na corrente da memória de seu povo.
A visita de Carlos Estêvão não foi apenas um estudo etnográfico; foi um gesto de reconhecimento e dignidade. Sua presença naquela manhã quente de abril selou um compromisso silencioso entre o saber acadêmico e a resistência indígena.
Anos depois, em 1944, aquele estudo serviria como um dos pilares para o reconhecimento oficial da existência dos povos indígenas em Porto Real do Colégio, culminando na fundação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso.
A grande anciã Maria Tomasia viveu até 1953 com 115 anos, deixou uma família numerosa em Kariri-Xocó, também era conhecida por Nega de Pereira, o nome de seu esposo chamado João Custódio conhecido por Pereira.
A Rua dos Índios, que por décadas fora símbolo de esquecimento e perda, transformava-se, assim, num espaço de afirmação, memória e luta. E, nas lembranças de Indaiá, já adulta, sobrevivia a imagem daquele homem de fala calma e olhar atento, que um dia viera de longe para ouvir sua avó e, sem saber, ajudara a garantir que sua identidade jamais fosse apagada.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho, em 24 de maio de 2025 e a capa no dia 25 de maio de 2025.


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