terça-feira, 13 de maio de 2025

MUNEWO ÃMBÁ, O CABOCLO DE CASCO

 






Nas vastas matas que um dia cobriram as terras do povo Kariri-Xocó, existiam segredos que se escondiam entre as sombras das árvores centenárias. Eram tempos antigos, em que o canto dos pássaros era a melodia do amanhecer e o sussurro do vento trazia histórias de seres que não eram deste mundo.


Juarez Itapó, velho conhecedor das lendas de seu povo, costumava lembrar o relato de seu pai, Kirino, caçador experiente que conhecia cada rastro e cada silêncio da floresta. Certa vez, Kirino subira em um pé de kruirí, esperando pacientemente a passagem de um bando de porcos-do-mato. O dia inteiro passou em vão. Nenhuma presa. Só o calor e os pensamentos.


Mas, ao cair da tarde, algo mudou. O canto dos pássaros cessou de repente, como se o tempo tivesse prendido a respiração. Um silêncio espesso cobriu a mata. Foi então que Kirino ouviu. Ao longe, um som estranho: "Eiii... Eiii..." — gritos que se aproximavam, ganhando força, como se arrastassem o próprio mundo consigo.


As árvores pareciam estremecer. Galhos se partiam. Animais corriam em debandada. O coração de Kirino acelerou.


Do meio da mata surgiu uma criatura indescritível. Um ser gigantesco, de pele encouraçada como casco de jabuti, com um único olho flamejante cravado no meio da testa. Tinha apenas uma perna, mas saltava com a rapidez de um veado. No centro do corpo, o umbigo brilhava em vermelho vivo, abrindo e fechando toda vez que soltava um grito que fazia as folhas tremerem.


Kirino reconheceu de imediato: era ele, Munewo Ãmbá, o temido Caboclo de Casco. Desde menino ouvira as histórias — de como o ser era invulnerável a flechas e balas, de como muitos caçadores haviam desaparecido na floresta ao cruzar seu caminho, deixando esposas e filhos apenas com a dor da ausência.


O Caboclo farejou o ar, procurou ao redor com seu único olho. Não viu Kirino, que permanecia imóvel, colado à árvore, silencioso como o musgo. Não encontrando o que buscava, o ser soltou um último grito aterrador e desapareceu novamente entre os galhos e os caminhos secretos da mata.


Kirino desceu da árvore com o coração disparado e as pernas trêmulas. Correu de volta para a aldeia, sem presa, sem palavras. Quando enfim contou o ocorrido, os mais velhos o cercaram espantados.

— Home, você teve a maior sorte do mundo, disse um.

— Escapou do Caboclo de Casco!


Kirino apenas assentiu:

— Escapei porque tava em cima do pé de kruirí. Fiquei quietinho, nem respirei direito...


Hoje, a grande mata não existe mais. Derrubada pelo tempo e pelas mãos do progresso. Mas dizem que o Caboclo de Casco seguiu adiante, procurando novas florestas virgens para habitar. E quem sabe, entre as sombras de algum outro mundo verde, ainda ecoem seus gritos, assustando quem ousar desafiar os segredos da mata.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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