quarta-feira, 14 de maio de 2025

ROCRUTSOHÓ, A ROUPA DA COMUNIDADE

 





Era uma vez, nas margens do velho São Francisco, um tempo de muita dureza. Na Rua São Vicente, nos arredores de Porto Real do Colégio, viviam os Kariri-Xocó esquecidos pelo poder e lembrados apenas pelos preconceitos. Suas casas eram humildes, feitas de barro e madeira, e a pobreza era como o vento: entrava sem pedir licença e morava com eles.


Minha mãe, Maria de Lourdes Ferreira — conhecida por todos como Indaiá — contava histórias desses dias com os olhos marejados. Era a década de 1920. Os indígenas mal tinham o que vestir. Quando algum deles precisava ir ao centro da cidade comprar farinha, açúcar ou café, sentia o peso da humilhação. Usavam bermudas rasgadas, camisas desbotadas e remendadas, e nos pés, nada. Os brancos zombavam, assobiavam, gritavam ofensas: “Lá vêm os caboclos carniceiros!”


Mas entre os nossos, havia um homem diferente. Seu nome era Gabriel Gonçalves de Oliveira, fazendeiro respeitado e de coração firme. Chamavam-no de Gravié. Era rico, sim, mas não se afastava dos seus. Um dia, cansado de ver seus irmãos passando vergonha, disse com voz decidida:


— Vou fazer a roupa da comunidade.


Foi até a feira e comprou pano cutim azul, uma bolsa de palha bem trançada e um par de tamanco de pau. Sua esposa, dona Maria Matilde, costurou tudo à mão com zelo. A roupa ficou pronta e ganhou um lugar especial: pendurada no torno da sala de Gabriel, como um símbolo sagrado.


Quando algum indígena precisava ir ao centro, batia à porta:


— Seu Gravié, vim pegar a roupa pra ir comprar fumo e farinha.


Gabriel olhava e respondia com um meio sorriso:


— Espere na fila. Já tem quatro antes de você. Sineta ainda tá na bodega de seu Barbino e não voltou.


Assim nasceu Rocrutsohó — a Roupa da Comunidade. Passava de um para outro como se fosse manto de dignidade. Era um gesto de solidariedade, um sopro de resistência em tempos de penúria. Tornou-se também a Roupa da Caridade, e por muitos anos serviu aos nossos como escudo contra a vergonha imposta.


Com o tempo, veio o Posto Indígena, criado por Padre Alfredo Damaso, e as coisas começaram a mudar. Mas a lembrança daquela roupa azul, dos tamancos de pau e da fila na casa do Gravié nunca se apagou. Ela ficou na memória de um povo como símbolo de cuidado e partilha.


E assim, o que era apenas pano, tornou-se história.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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