sexta-feira, 20 de junho de 2025

BAERÁ UANIE, Viver na Casa Indígena






Na alvorada de um tempo que ainda vive na memória da mata e no coração dos mais velhos, existia uma aldeia chamada Natiá. Lá, o centro do mundo era formado por quatro grandes erá, as casas coletivas onde os sonhos e os dias das famílias se entrelaçavam como cipós na floresta.


As sumarã, como também eram chamadas, não tinham paredes que separassem um do outro. Os grandes troncos de madeira que sustentavam os tetos não serviam apenas de estrutura, mas de base para as redes onde cada família balançava suas histórias. Em cada canto quadrado do espaço, acendia-se um pequeno fogo — o fogo de cada grupo familiar, onde o alimento era preparado, as conversas brotavam e os afetos aqueciam a vida.


A maior das casas media cerca de 60 metros de comprimento, 8 metros de largura e 4,5 metros de altura. Sua cobertura era feita com capim sapé ou palha de aricuri, materiais retirados com sabedoria da floresta, sabendo que durariam por muitos anos antes de precisar serem renovados.

Ali dentro, espalhavam-se os objetos do cotidiano: pilões, urupemas, arcos e flechas, balaios de cipó, bancos de madeira, girau de moquear e jererés de pescar. A casa não era apenas morada — era mundo.


Nos finais de tarde, as fogueiras internas se tornavam centros de encantamento. Os anciãos sentavam-se ao redor e contavam histórias que vinham de tempos longos, entre risos das crianças, o tilintar de cuias e o murmúrio das mulheres modelando a cerâmica ou preparando os pratos típicos do povo. Havia também o silêncio das dores e as lágrimas que escorriam em momentos de luto. Mas tudo era vivido junto, na grande morada da vida.


Chamávamos esse modo de viver de Baerá Uanie, o Viver na Casa Indígena. Uma forma de existir em comunhão, com respeito e harmonia, onde ninguém era sozinho.


Mas o tempo mudou... Com a chegada dos jesuítas, os casais foram separados, cada família posta em uma casa distinta. Um novo modelo de viver foi imposto para quebrar o elo sagrado da coletividade. As quatro grandes erá de Natiá, que antes formavam um terreiro quadrado quase circular com fogueiras centrais, aos poucos desapareceram da paisagem.


Hoje, no meio da mata sagrada que ainda resistiu, construímos os Picriá — galpões cobertos com telhas de barro. Já não usamos mais as folhas do aricuri como antigamente, pois a floresta está menor, e é preciso preservá-la.


Contudo, quando chegam os momentos de ritual, voltamos todos juntos ao nosso território sagrado. Reunimos-nos em casas de madeira, evocamos os tempos antigos, reacesos os fogos coletivos. Ali, por um instante que escapa do tempo dos brancos, vivemos novamente o Baerá Uanie.


Pois viver na Casa Indígena não é apenas habitar um espaço.

É compartilhar o espírito, o alimento, a dor e a alegria, sob o mesmo teto, em torno do mesmo fogo, com os pés na terra e o coração no coletivo.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 


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