sábado, 21 de junho de 2025

UTSOHO CUNUBÓ, Fazer Farinha







Um conto de tradição Kariri-Xocó



O céu de março se abria em gotas serenas sobre a terra quente da Colônia Indígena Kariri-Xocó. As primeiras chuvas não vinham apenas molhar o chão: elas despertavam o tempo da mandioca, ou como os antigos diziam, muicú. Era o início do ciclo sagrado.


Homens, mulheres, crianças — todos sabiam que a vida na roça estava em movimento. A terra, cuidadosamente limpa e arejada, recebia as hastes da mandioca com respeito. Levava tempo. Sete, doze meses, às vezes mais. A paciência era parte do cultivo.


Quando chegava o tempo do utsoho cunubó — o fazer da farinha — um chamado ecoava pelos quintais da aldeia. Era a hora do mutirão.


Ali, entre os caminhos de barro batido, os homens saíam cedo. De enxadas nas mãos e força nos ombros, arrancavam as raízes grossas da mandioca e as levavam até a casa de farinha, a erá cunubó. Nossa casa de farinha tradicional era de palha, guardava histórias nas paredes de taipa e cheiro de fumaça no teto, muito depois o Posto Indígena fez a casa de alvenaria em 1960.


As mulheres, de mãos ágeis e firmes, raspavam uma a uma as mandiocas, transformando casca em brilho branco. Então começava o trabalho do caititú, o moedor de madeira forte. A massa era moída, prensada e levada ao forno aquecido, onde dois homens mexiam a farinha com cuidado, como se embalassem um segredo ancestral.


O tempo da farinha não tinha pressa. Dois, três dias. Dependia da abundância da mandioca, da alegria dos cantos, da resistência dos corpos. Quando pronta, era guardada em sacos ou em potes de barro. Cada um recebia sua parte, mas o dono da roça ficava com a maior quantidade — era justo, era tradição.


Entre uma fornada e outra, as mulheres preparavam delícias. Usavam o forno ainda quente para assar o waraeró, o beiju feito da massa fresca. Em seguida, vinham o woudu, um bolo firme, natural e cheiroso, e o doce saredu, preparado com massa fina e sabor adocicado, feito para celebrar.


Ao fim do trabalho, o terreiro da casa de farinha virava festa. Panelas de carne ferviam no centro, bolos de mandioca se espalhavam entre risos e histórias. Os cantos de trabalho viravam cantos de agradecimento. As crianças corriam, os velhos contavam os dias de outrora.


Hoje, poucos ainda fazem farinha. Mas a mandioca continua nas roças. E o saber... ah, o saber permanece. Vive na memória das mãos, nos olhos dos mais velhos, no espírito de quem ainda sonha com o cheiro da farinha assando ao cair da tarde.


Porque utsoho cunubó não é só trabalho. É caminho. É união. É tradição viva do povo Kariri-Xocó.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






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