quinta-feira, 4 de setembro de 2025

A COSMOLOGIA DESCRITIVA E HIERÁRQUICA DOS REINOS ESQUECIDOS: Entre o Mito, a Magia e a Literatura






1. Introdução


O universo de Forgotten Realms (Reinos Esquecidos), concebido por Ed Greenwood na década de 1960 e posteriormente incorporado pela editora Wizards of the Coast como cenário oficial de Dungeons & Dragons (D&D), apresenta uma das mais ricas cosmologias da fantasia moderna. Ambientado principalmente no continente fictício de Faerûn, situado no planeta Toril, o cenário descreve uma terra pré-industrial repleta de magia, reinos em conflito, cidades independentes e raças fantásticas, como elfos, anões, orcs e humanos.


Além de sua função lúdica como cenário de RPG e jogos digitais, os Reinos Esquecidos revelam uma cosmologia hierárquica complexa, que inclui deuses, mortais ascendidos, criaturas extra-planares e raças míticas. Sua narrativa sugere ainda uma antiga conexão entre Toril e a Terra, esquecida pelos humanos ao longo dos séculos, mas preservada como mito e memória coletiva.


Este artigo tem como objetivo analisar a organização cosmológica dos Reinos Esquecidos, destacando sua escala hierárquica de seres, a relação entre mito e narrativa, e refletir sobre as lições literárias que este universo oferece à criação de mundos ficcionais.


2. A Cosmologia de Toril


2.1 Estrutura dos Planos de Existência


A cosmologia dos Reinos Esquecidos é organizada em múltiplos planos de existência. O Plano Material, onde se localiza Toril, corresponde à realidade dos mortais e abriga tanto raças fantásticas quanto criaturas comuns. Além dele, existem:


Planos Superiores: habitações de deuses e celestiais, associados à ordem, bondade e equilíbrio.


Planos Inferiores: moradas de demônios, diabos e entidades caóticas, ligados à corrupção e destruição.


Planos Transitórios: locais de passagem, como o Plano Etéreo e o Plano das Sombras, que funcionam como dimensões intermediárias.


Essa cosmologia dialoga com mitologias antigas da Terra, sobretudo as tradições politeístas greco-romanas e nórdicas, em que os planos divinos coexistem com o mundo humano em equilíbrio instável.


2.2 O Papel de Ao, o Supremo


No topo da hierarquia encontra-se Ao, o Supremo, entidade que não é propriamente um deus, mas o guardião do equilíbrio cósmico. Ao controla a conduta dos deuses e, em momentos críticos da história de Faerûn, impôs punições severas, como durante o evento da Praga Mágica (Spellplague).¹


3. A Hierarquia dos Seres


A escala hierárquica dos Reinos Esquecidos pode ser descrita da seguinte forma:


Entidades Primordiais: forças criadoras e cósmicas, como Ao.


Deuses e Deusas: divindades ligadas a domínios específicos. Exemplos: 


Mystra – deusa da magia;


Corellon Larethian – patrono dos elfos;


Moradin – deus criador dos anões;


Gruumsh – divindade guerreira dos orcs.


Exarcas e Servos Divinos: anjos, celestiais e entidades a serviço dos deuses.


Mortais Ascendidos: personagens que, por feitos extraordinários, atingiram o status divino, como Kelemvor, deus da morte.


Criaturas Extra-planares: aberrações como os Devoradores de Mentes (Illithid) e os Beholders, que representam forças alienígenas.


Raças Fantásticas: elfos, anões, gnomos, halflings, humanos e orcs, que compõem a diversidade social e cultural de Faerûn.


Criaturas Comuns: monstros, animais e seres do ecossistema mágico.


4. O Simbolismo dos “Reinos Esquecidos”


A própria designação “Reinos Esquecidos” contém uma carga simbólica profunda. O nome sugere a existência de um passado partilhado entre o nosso mundo e Toril, em que humanos tiveram contato com a magia, os deuses e as raças fantásticas. Contudo, ao longo do tempo, tais memórias foram apagadas ou relegadas ao campo do mito, explicando o “esquecimento” do real contato entre mundos.


Esse simbolismo evidencia a função da fantasia enquanto memória coletiva da humanidade, que resgata arquétipos e estruturas míticas esquecidas pela modernidade.


5. Os Reinos Esquecidos nas Mídias


O cenário consolidou-se como um dos mais influentes da fantasia moderna por meio de diferentes mídias:


RPG de Mesa: suplementos como Forgotten Realms Campaign Setting (2001) expandiram o mundo de Faerûn.


Literatura: romances como The Crystal Shard (1988), de R. A. Salvatore, introduziram personagens icônicos como Drizzt Do’Urden.


Jogos Digitais: títulos como Baldur’s Gate, Icewind Dale e Neverwinter Nights popularizaram a experiência interativa nos Reinos Esquecidos.


Essas mídias contribuíram para que a cosmologia fosse explorada sob diferentes perspectivas narrativas e estéticas.


6. Reflexão Crítica: Lições Literárias


O estudo da cosmologia hierárquica dos Reinos Esquecidos oferece ao criador literário algumas lições essenciais:


Coerência interna: mundos fantásticos necessitam de regras próprias para se tornarem críveis.


Complexidade cultural: a convivência de diferentes raças, tradições e crenças enriquece a narrativa.


Hierarquia mítica: a estratificação entre deuses, heróis, monstros e mortais cria camadas de significado.


Conexão simbólica: o mito dos Reinos Esquecidos sugere que a fantasia dialoga com a realidade e resgata memórias arquetípicas da humanidade.


Função pedagógica da imaginação: a fantasia serve como meio de reflexão crítica sobre a sociedade, seus valores e sua história.


7. Conclusão


A análise da cosmologia dos Reinos Esquecidos permite compreender como a fantasia pode articular um universo narrativo sólido, onde o mito e a magia se entrelaçam com estruturas sociais e culturais complexas. Sua hierarquia de seres, que vai desde entidades cósmicas até raças comuns, demonstra a amplitude criativa necessária para a construção de mundos ficcionais.


Mais do que entretenimento, os Reinos Esquecidos revelam a função simbólica da literatura fantástica: resgatar memórias esquecidas, refletir sobre a condição humana e inspirar novas formas de criação narrativa.


Referências


GREENWOOD, Ed. Forgotten Realms Campaign Setting. Renton: Wizards of the Coast, 2001.


SALVATORE, R. A. The Crystal Shard. New York: TSR, 1988.


WIZARDS OF THE COAST. Dungeons & Dragons: Player’s Handbook. Renton: Wizards of the Coast, 2014.


WIZARDS OF THE COAST. Sword Coast Adventurer’s Guide. Renton: Wizards of the Coast, 2015.


ZIMMER, Mary. Cosmology and Myth in Dungeons & Dragons Worlds. Fantasy Studies Journal, v. 12, n. 2, p. 45-68, 2019.


¹ Durante a Spellplague (1385 DR), a deusa da magia Mystra foi morta, ocasionando o colapso temporário do Weave (Trama Mágica), evento que abalou a estrutura cósmica de Toril.



Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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