Resumo
O presente artigo analisa a organização do País das Maravilhas, universo criado por Lewis Carroll em Alice’s Adventures in Wonderland (1865), a partir de uma perspectiva cosmológica e literária. Busca-se compreender como esse mundo imaginário se estrutura em níveis de realidade — da entrada de Alice no espaço onírico ao retorno ao mundo humano — e como essa narrativa revela uma cosmologia paradoxal, fluida e crítica. Além disso, discute-se o legado deixado pela obra para escritores contemporâneos, sobretudo no que diz respeito à inovação estética, à subversão da lógica e à exploração simbólica da linguagem.
Palavras-chave: Lewis Carroll; País das Maravilhas; Cosmologia Literária; Fantasia; Legado Literário.
1 Introdução
A obra Alice’s Adventures in Wonderland (1865), de Lewis Carroll, tornou-se referência incontornável da literatura ocidental, especialmente no campo da fantasia. Embora dirigida a um público infantojuvenil, a narrativa ultrapassa o mero entretenimento, revelando uma estrutura cosmológica que articula o caos, o sonho e a crítica social.
O País das Maravilhas apresenta-se como um universo de transição, onde regras lógicas do mundo humano são constantemente subvertidas. Este artigo tem como objetivo analisar sua organização cosmológica e refletir sobre o aprendizado que a obra proporciona aos novos escritores, destacando sua relevância estética, filosófica e literária.
2 Estrutura Cosmológica do País das Maravilhas
A cosmologia do País das Maravilhas não corresponde a um cosmos ordenado nos moldes clássicos, mas a uma realidade instável, caracterizada pelo paradoxo e pelo nonsense. Contudo, é possível identificar uma estrutura de níveis que articulam a narrativa:
2.1 A Porta de Entrada: a Travessia
A queda de Alice na toca do coelho constitui a transição entre a realidade humana e o espaço do maravilhoso. Este ato remete a arquétipos mitológicos da descida ao submundo, simbolizando o mergulho no inconsciente e na imaginação.
2.2 O Mundo Subterrâneo: o Caos como Ordem
O País das Maravilhas apresenta um espaço fragmentado e mutável. O tempo é instável, os corpos mudam de tamanho e as regras lógicas são continuamente questionadas. Esse universo caótico revela, paradoxalmente, uma crítica à rigidez das normas humanas.
2.3 A Corte e o Poder: Satirização da Autoridade
A Rainha de Copas e sua corte representam a caricatura do poder autoritário, onde a lei é arbitrária e a punição, desproporcional. Essa camada da cosmologia reflete o funcionamento das instituições humanas, desvelando sua fragilidade e arbitrariedade.
2.4 O Nível Filosófico-Simbólico: Paradoxo e Linguagem
O Gato de Cheshire, o Chapeleiro Maluco e outros personagens encarnam ideias abstratas, questionando a lógica, o tempo e a identidade. Nesse nível, Carroll constrói uma cosmologia baseada no nonsense, onde a linguagem é a chave para a percepção da realidade.
2.5 O Retorno ao Mundo Humano: a Integração
O despertar de Alice do sonho não dissolve o aprendizado obtido na experiência. O País das Maravilhas funciona como um espelho do mundo humano, permitindo que a protagonista (e o leitor) reflita sobre a lógica, a linguagem e a sociedade.
3 Aprendizado e Legado para Novos Escritores
A contribuição de Carroll para a literatura ultrapassa a fantasia infantil. Seu legado pode ser sintetizado em algumas lições centrais:
Subversão da lógica: demonstra a potência criativa de questionar a racionalidade dominante.
Exploração do inconsciente: evidencia como o sonho e o imaginário são fontes legítimas de criação.
Crítica social velada: o fantástico pode denunciar contradições das instituições humanas.
Inovação estética: o jogo de palavras, os paradoxos e o nonsense ampliaram os limites da narrativa literária.
Universalidade simbólica: a obra mantém relevância em diferentes contextos culturais, inspirando autores de distintas tradições.
4 Conclusão
O País das Maravilhas constitui uma cosmologia literária peculiar, marcada pelo caos, pelo nonsense e pela fluidez das regras. A queda, o caos subterrâneo, a corte, o paradoxo filosófico e o retorno ao mundo humano delineiam uma estrutura que transcende a fantasia para se tornar metáfora da própria condição humana.
Para os novos escritores, o legado de Lewis Carroll reside na ousadia de romper padrões estabelecidos, na valorização da imaginação como via de conhecimento e na exploração da linguagem como criadora de mundos possíveis. Dessa forma, a obra não apenas permanece viva na literatura, mas continua a servir de inspiração para a renovação estética e simbólica da escrita contemporânea.
Referências
CARROLL, Lewis. Alice’s Adventures in Wonderland. London: Macmillan, 1865.
MACHADO, Ana Maria. Alice no País das Maravilhas: tradução e comentários. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2009.
MENDES, Luciana. O nonsense em Lewis Carroll: literatura e filosofia em Alice. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.
RIBEIRO, João. Cosmologias literárias: mitos, sonhos e mundos possíveis. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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