sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

DUBOHERUBÁ – O MESTRE DA CANOA






O Rio São Francisco, que os antigos chamam de Opará, corria como uma serpente viva, guardando em suas águas as histórias dos povos que nasceram às suas margens. Desde as nascentes até a foz no Aindzu, o grande Mar, o rio era caminho, alimento e espírito. Era por ele que as aldeias se reconheciam como irmãs.


Na Natiá, a aldeia assentada à beira do Opará, vivia o velho Duboherubá Mhoácy conhecido por todos como o Mestre da Canoa. Seus cabelos já eram da cor da lua cheia, e suas mãos traziam os calos do tempo, marcas de quem conversava com a madeira antes de transformá-la em Ubá.


— A canoa não nasce do machado, dizia ele ao jovem Iruan, seu aprendiz.


— Ela nasce do respeito à árvore e ao rio.

Iruan escutava atento enquanto o mestre tocava o tronco escolhido, pedindo licença aos espíritos da mata. Para os Kariri, a canoa não era apenas transporte. Em Tupi, chamavam-na Ubá; entre os Kariri, Banahoya. Era extensão do corpo humano sobre a água.


Defronte à aldeia ficava o Ubacródzu, o Porto das Canoas. Ali repousavam as Ubáydzéá, canoas de pescaria que deslizavam silenciosas nas madrugadas. Algumas levavam os homens ao mydzéá, a pescaria; outras seguiam para as sitóá, as caçadas; muitas carregavam os frutos das Bechiéá, as roças que sustentavam a vida do povo.


O velho Duboherubá lembrava do tempo em que o rio era estrada viva.


— O Opará conhece nossos passos, dizia. Ele sabe quem somos.


Com a chegada dos portugueses, surgiram novas canoas, maiores, cobertas de pano. Os indígenas as chamaram de Ubácruté, as canoas de pano. Elas mudaram o comércio, levaram mercadorias e trouxeram outras formas de viver. A mais famosa foi a Canindé, imensa, capaz de carregar mil e duzentos sacos de arroz. Para muitos, ela parecia um bicho grande navegando lentamente pelo rio.


Mas o tempo, como a água, não para.

Quando a BR-101 foi construída, em 1970, o silêncio começou a ocupar o Opará. As canoas foram ficando paradas, o porto esvaziou, e muitos Mestres da Canoa seguiram para a Natiantoá, a Aldeia Sagrada, onde moram os ancestrais.

Certa tarde, Iruan perguntou ao velho mestre:


— E quando o senhor se for, quem fará as canoas?


Duboherubá sorriu, olhando o rio.

— Enquanto houver quem escute o Opará, haverá Duboherubá.


— Você será um deles.


Hoje, poucos Duboheriá, Mestres da nova geração, ainda conversam com a madeira e com o rio. Mas cada canoa que nasce carrega dentro de si a memória dos antigos, o sopro dos ancestrais e a certeza de que o Opará jamais esquecerá seu povo.


E assim, sempre que uma Ubá toca a água, o rio reconhece:

a história continua.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó






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