sábado, 27 de dezembro de 2025

DUBOHERI MYDZÉ – O MESTRE DA PESCARIA






O Rio São Francisco, o grande Opará, corria manso naquela manhã, refletindo o céu como um espelho antigo. Suas águas guardavam segredos profundos, histórias de ancestrais e o movimento silencioso dos Wãmyá, os peixes que sustentam a vida do povo Kariri-Xocó. Às suas margens, Anamy trabalhava com calma, moldando varas e fibras para construir seus Pãri, os artifícios de pesca herdados dos mais velhos.


De repente, chegaram rapazes e moças alunos da Escola Indígena, entre eles Tanawany e Kawrã, atentos a cada gesto do pescador. O som do rio misturava-se ao riso dos alunos e ao canto distante das aves. De repente, Tanawany olhou e disse, com os olhos brilhando:


— Olá seu Anamy o Senhor é o Duboheri Wãmy, o Mestre dos Peixes!


Anamy sorriu com ternura, sem parar o trabalho, e respondeu com voz serena:

— Não, moça. Os verdadeiros mestres dos peixes são Ipupiara, o Ser que surge das águas profundas, o Negro D’Água, e Yara, a Mãe D’Água, guardiã do Opará. Eu sou apenas Duboheri Mydzé, o Mestre da Pesca, porque trabalho, faço Naté, e respeito os saberes que nos foram ensinados.


Curioso, Kawrã se aproximou ainda mais e perguntou:


— Anamy quais são esses Pãri que o senhor faz?

Anamy apoiou as mãos no joelho e começou a ensinar, como quem acende uma fogueira de conhecimento:


— São muitos, rapaz . Temos o Cuvú, feito de vara, afunilado para guiar o peixe. O Pari, uma esteira que prende o peixe na lagoa. O Iarú, a flecha; o Seridzé, o arco; o Cludimu, covo cilíndrico de taboca para pequenos peixes e camarões. Há também o Yaclaro, o anzol com linha e chumbada; a Yaentá, a vara de pescar; o Puçá, para os camarões; o Jereré, em forma de arco; e o Muhé, a grande rede feita de algodão ou fibra de tucum.


Os alunos ouviam em silêncio, sentindo que aquelas palavras não eram apenas nomes, mas caminhos antigos.


— Na pescaria — continuou Anamy — usamos o Matapi, a armadilha; a Mupunga, para espantar o peixe com a batição da água; o Setu, para juntar os Wãmyá; e o Ubáydzé, nossa canoa, que repousa no Ubacródzuá, o porto das canoas. Tudo isso faz parte do Piratýpe, a linguagem e o sistema de conhecimento da pesca.

Antes de lançar qualquer armadilha no rio, Anamy fechou os olhos por um instante. Os estudantes da escola aprenderam que aquele silêncio era sagrado.


— O Mydzé, o pescador, sempre pede proteção e autorização à Yara, a dona espiritual dos peixes — explicou. — Para agradá-la, plantamos Masichi, o milho, e Ghinhé, o feijão, para que ela coma ainda verde, à beira do Opará. As Mydzédzí, as mulheres pescadoras, fazem o mesmo, mas com o Ipupiara.


O rio pareceu responder com um leve movimento, como se tivesse escutado.

Anamy concluiu, olhando para os alunos:

— Seguindo esses Subatekié, esses conhecimentos, nunca faltará peixe no Opará. É assim que nosso povo mantém a vida e guarda a memória.


Tanawany e Kawrã compreenderam, naquele instante, que o Duboheri Mydzé não era apenas um pescador. Era guardião de saberes, ponte entre os ancestrais, os espíritos das águas e as gerações que ainda viriam.


E o Opará continuou a correr, levando consigo a história viva do povo Kariri-Xocó.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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