quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

DZENU KATIANTSE – O GUARDIÃO DAS ABELHAS NATIVAS






Na Terra Indígena Kariri-Xocó, onde a vida caminha entre dois mundos, estendem-se os ecossistemas que nossos antigos nomearam com sabedoria. De um lado, a Retséaraí, a Floresta Branca da Caatinga; do outro, a Retsé Aindzu, a Floresta do Mar, a Mata Atlântica. Entre elas, como coração que ainda pulsa apesar das feridas, resiste a Retséantoá, a Floresta Sagrada do Ouricuri.


As cidades do Baixo São Francisco, às margens do Rio Opará, avançaram no passado como fogo sem dono, devastando florestas e silenciando cantos antigos. Restaram poucas áreas — e nelas, a memória dos seres que sustentavam a vida.


Entre esses seres estavam as Katiá, as abelhas. Não quaisquer abelhas, mas as Katiantse, abelhas nativas sem ferrão, guardadas na tradição oral como se fossem parentes próximos.


— Vovô, por que o senhor fala com tanto cuidado quando diz o nome delas? — perguntou certa vez um menino, sentado à sombra de um ouricuri.


O velho ancião Baca, de olhar profundo como a terra antiga, sorriu antes de responder:


— Porque nome é espírito, meu neto. Quando digo Jandaíra, Uruçu, Tiúba, Mandaçaia, Manduri, Jataí ou Arapuá, eu chamo quem sustenta a floresta.


Baca era conhecido como o Dzenu Katiantse, o Guardião das Abelhas Nativas. Em seu quintal viviam cortiços de Uruçu, Tiúba e Mandaçaia. Ele não as possuía — apenas cuidava.


— Elas trabalham sem ferir ninguém, dizia o ancião, enquanto observava o voo delicado das abelhas.


— E o que elas fazem, vovô?

— Elas acordam as Purúá, respondeu, apontando para as flores da floresta. Sem elas, a Retsé adoece.


As abelhas polinizavam as flores, e as flores sustentavam a vida. Assim era o equilíbrio.


Com o tempo, Baca partiu para o mundo dos espíritos ancestrais. Mas o guardião não morreu — apenas se multiplicou.

Hoje ainda existem Dzenuá Katiantse. Um deles é Nhãbojô, sobrinho de Baca, que aprendeu com o tio o silêncio, a paciência e o respeito pelos seres pequenos. O outro é Kaynamã, conhecedor profundo da Arapuá, a abelha redonda.


— O mel dela não é doce como o das outras, explicou Kaynamã a uma jovem artesã.


— Então por que cuidamos dela?


— Porque sua cera ensina nossas mãos a lembrar quem somos.


Mas nem tudo permaneceu em equilíbrio. Com a chegada dos colonizadores, vieram também as Eíraetémaîu, as abelhas estrangeiras bravas. Com ferrão e agressividade, elas tomaram espaço, atacaram as nativas, feriram pessoas e animais.


— Essas abelhas não conhecem a floresta, lamentou Nhãbojô.


— Elas não pedem licença, completou Kaynamã.


Muitas Katiantse desapareceram. Outras resistem em segredo, escondidas em troncos antigos, aguardando o tempo da volta.


Hoje, o povo Kariri-Xocó guarda uma esperança viva.


— Vamos trazer de volta nossas abelhas, diz o mais velho ao redor do fogo.


— Como faremos isso? — pergunta uma criança.


— Pedindo ajuda aos parentes que ainda guardam colmeias. E ensinando aos mais novos que cuidar da floresta é cuidar de nós mesmos.


E assim, enquanto houver quem conte essa história, o Dzenu Katiantse continuará caminhando invisível pela Retsé, protegendo as abelhas, as flores e o futuro.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





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