domingo, 28 de dezembro de 2025

DZENUÁ ANTSE – OS GUARDIÕES DA NATUREZA






Na Radá, a Terra viva dos Uanieá, indígenas que existia numa Natiá, aldeia onde tudo respirava junto: as pessoas, as árvores, as águas e os animais. Ali, diziam os anciãos, a Antse, a Natureza, havia moldado o Radda, o Mundo, com a força do Ukie, o Sol, iluminando a Hine do Cayápri, o Dia.


Quando o Uché, o Tempo, se movia, surgiam o Tidzebæ, o Relâmpago, as Arankedzoá, as Nuvens, e então vinha o Dzo, a Chuva, descendo para alimentar as Dzuá, as Águas, que corriam até a Ebedzú, a Fonte sagrada do Iwo Opará, o grande Rio São Francisco.


Foi nesse lugar que vivia Ynori, um jovem curioso, que sonhava em se tornar um Dzenuá Antse, um Guardião da Natureza. Ele sabia que não bastava querer: era preciso aprender com quem escutava os seres da floresta.


Certa noite de Kaia, quando a Kaiaku, a Lua, iluminava o Aranke, no céu e as Batiá, estrelas que brilhavam, Ynori sentou-se ao lado do ancião Vovô Irecê, guardião dos Woroyá, as histórias antigas.


— Vovô, perguntou o jovem,

— por que tantos Keríá, animais desapareceram de nossas Retséá, florestas?


Irecê suspirou fundo, como quem chama a memória da Terra.


— Quando os colonizadores chegaram, eles esqueceram que Antse, a natureza tem espírito. Derrubaram as florestas, calaram muitos Keríá. Hoje, eles vivem mais nas Nhenetíá, nas tradições, e nas Woroyá, histórias que contamos.


E então o ancião começou a nomear os ausentes, como quem chama seus espíritos:


Inhiconete, a Preguiça; Hamoklekle e Rõti, as Onças; Murawó, o Porco-do-mato; Dziku, o Bugio; Kukryt, a Anta; Pãn, a Arara; Krêre, o Papagaio; Imbuam, a Seriema…

Cada nome fazia o fogo estalar, como se os Keríá escutassem.


— Mas nem tudo se perdeu, continuou Irecê.


— Os Dzenuá Antse ainda caminham entre nós.


No dia seguinte, Ynori foi levado à floresta por Anaiê, uma anciã que conversava com os pequenos seres. Ela mostrou o Ibozoim, o Sonhim, a Kati, a Abelha trabalhadora, o Munim, o Grilo cantor, e até o Myghy, o Caramujo paciente.


— Todo ser tem Ba, Vida, disse Anaiê.

— Até o menor Axum, a Formiga, sustenta o mundo.

Mais adiante, perto das águas, aprenderam sobre a Nieɲi, a Cobra guardiã dos caminhos, o Klimi, a Lontra das Dzuá, águas e o Hazú, o Tamanduá silencioso. Anaiê explicou que proteger também era não caçar, não destruir, saber esperar.

— A Boregor, a Caipora, ainda protege os Keríá Uaplu, disse ela.


— Hoje, só caçamos quando a Antse, natureza permite, e apenas em extrema necessidade.


Ao entardecer, Ynori viu Gongá o sabiá cantar, o Xáj, picapau bater o bico no tronco e o Xõn, urubu circular no alto, limpando o mundo. Ele compreendeu, então, que ser Dzenuá Antse não era lutar contra a natureza, mas caminhar com ela.


Naquela noite, olhando a Kaiaku, lua refletida no Aindzu, o Mar distante, Ynori fez seu juramento silencioso:

guardar as florestas, respeitar os Keríá, ouvir os anciãos e ensinar aos mais novos.

E assim, dizem os Woroyá, que todo Kariri-Xocó pode se tornar um Dzenuá Antse, desde que escute a Antse, respeite o Uché e cuide do Radda como quem cuida da própria alma.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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