O sol ainda subia manso sobre o Iwo Opará quando Amotyra reacendeu o fogo da cozinha comunitária. O cheiro da lenha estalando misturava-se ao vento do rio, trazendo lembranças antigas, guardadas no tempo em que a Aldeia ainda era chamada de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, onde muitos Tsehoá Uanieá haviam sido reunidos, nasceram histórias, dores e também um povo de tronco antigo: os Kariri-Xocó.
Amotyra conhecia essas histórias como quem conhece os caminhos do rio. Suas mãos, marcadas pelo tempo, mexiam a massa do Waraeró, o beijú de farinha de mandioca, enquanto ela falava aos visitantes que chegavam curiosos, vindos de longe para conhecer a culinária tradicional da Aldeia.
— Aqui não servimos apenas comida — dizia ela, com voz calma. — Servimos memória.
Os turistas se sentavam em silêncio respeitoso, observando cada gesto. Amotyra contava que muitos povos haviam se encontrado naquela terra: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambá, Xocó, Natú, e até os Peró, os portugueses. Cada um trouxe sua Samyá, sua cultura, e foi assim que as Amiteá, as comidas, ganharam tantas formas, cheiros e sabores.
Ela apontava para as panelas de barro alinhadas no chão.
— Somos povo do rio — explicava. — Do Iwo Opará tiramos os Wãmyá, os peixes. Da mata, as Utuá, as frutas, as Ubuá, as plantas, e também os Keríá, os animais. Tudo conversa entre si.
Amotyra colocava o Ghinhé, o feijão, para cozinhar lentamente, enquanto a Sekiki, a farinha fina de mandioca, descansava em cestos de palha. O Masiche, o milho, era assado nas brasas, estalando como se contasse histórias antigas.
Ela sorria ao falar das heranças Tupi: a Typy-óka, a tapioca que se molda como lua branca; o Mbeju; a Abati Pipoka que pula alegre no fogo; a Pa-soka; a Moka’eka cheirosa; o Pyrau, pirão; a Pamunhã; a Acanjic; o Pirá piri’a envolto em coco; e o Ka’wi, bebida que celebra encontros.
— Cada prato tem um espírito — dizia Amotyra — e cada espírito tem uma origem.
Também lembrava que os portugueses trouxeram novos Keríerá, os animais domésticos: o Curé "porco", o Cradzó "boi", o Wathõ "bode", a Erintuca "ovelha", o Sabucá "galo" e o Tute "pombo". Vieram também frutas "manga, jaca, laranja, maçã" e temperos "alho, cebola, tomate, cenora, canela, alface" que, com o tempo, aprenderam a morar na terra indígena como se sempre fossem dali.
Quando a comida ficou pronta, Amotyra convidou todos a se aproximarem. O fogo iluminava seu rosto sereno, e por um instante os visitantes compreenderam que não estavam apenas provando alimentos, mas entrando em um território de saber ancestral.
— Enquanto esse fogo existir — concluiu Amotyra — as Amiteá Nhenetí Tseho "Comidas da tradição do povo Kariri-Xocó" continuará contando sua história, não só com palavras, mas com o gosto da terra.
E o rio, lá fora, seguia seu curso, levando consigo o aroma da tradição viva.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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