Nas Natiá, as aldeias antigas dos Kariri do Opará e da Caatinga do sertão, o sol nascia sempre acompanhado do cheiro da terra aquecida e do canto dos pássaros. Ali vivia Suiara, mulher sábia, conhecedora dos Amiteá, os alimentos que sustentavam o corpo e o espírito de seu povo. Diziam que Suiara aprendia ouvindo a Antse, a Natureza, e que cada alimento lhe falava em silêncio.
Suas filhas, Nayane e Amany, já eram moças curiosas. Queriam aprender tudo o que a mãe sabia, pois entendiam que o saber da comida era também o saber da vida. Naquela manhã, sentaram-se ao redor da fogueira, enquanto Suiara preparava a Runhú, a panela de barro, e começou a ensinar.
— Antes dos Peró, os portugueses, — disse Suiara — nosso povo já conhecia os Uanhoá, os costumes que vinham da Retsé, da floresta, e dos Iwoá, os rios.
Ela mostrou os Wãmyá, peixes pescados com respeito; os Uttihu, frutos colhidos no tempo certo; os Keritóá, animais de caça; os Tudjeá, legumes da roça; e o Kati, o mel doce oferecido pelas abelhas da mata.
Nayane observava enquanto a mãe colocava os ingredientes no fogo. Amany ajudava a preparar o Aribá, o prato de barro, e o Babasité, o espeto para assar a carne. Mais adiante, Suiara apontou o Badzuru, o moquém onde as carnes eram defumadas lentamente, e o Bubehó, o forno que guardava o calor da terra.
— Foi assim que aprendemos a fazer o Saredu, o bolo doce de mandioca; o Woudu, de massa simples; o Waraeró, o beijú assado; e a Sekiki, a farinha fina e seca — explicou com calma.
À noite, enquanto a lua subia, Suiara falou das bebidas. Contou sobre o Bydzu, licor doce misturado com frutas e mel; o Yeru, o vinho trazido pelos capuchinhos; e o Nhupy, vinho de milho fermentado naturalmente, preparado com paciência e respeito.
— Não é só comida, minhas filhas — disse ela — é memória.
Suiara ensinou também o Creyá, a técnica de assar sob a terra; o Madzó, milho verde nas brasas; o Waredú, bolo de mandioca adocicado com mel de uruçú. Falou do tempo em que chegaram os colonizadores, trazendo o gado e a Riné, a carne salgada, e o Crodzó, a carne de boi cozida ou assada.
Por fim, reuniu os alimentos que nunca faltaram: o Ghinhé, feijão companheiro de tudo; a Muicú, mandioca de muitas formas; a Bacobá, banana simples ou em mingau; e o Obó, fruto do umbu, que virava embuzada nos tempos de seca.
Nayane e Amany ouviram em silêncio. Sabiam que aquele aprendizado não estava apenas na palavra, mas no gesto, no fogo e no tempo. Ao final, abraçaram a mãe.
E Suiara sorriu, certa de que o saber dos Kariri continuaria vivo, passando de geração em geração, como o fogo que nunca se apaga.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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