Quando o sol ainda espreguiçava seus primeiros raios sobre o Opará, Parú já estava de pé. Ajustava com cuidado os colares de sementes, os arcos pequenos e as pulseiras de fibra que ele mesmo fazia desde menino. Parú era Buruhúá, artesão da aldeia, e toda Myreprí bubyhé, a sexta-feira, armava sua pucá, banca no mesmo undé, lugar bem no começo da rua onde a feira nascia como um rio de gente.
Dizia-se entre os mais velhos que, muito antes dos Caraí chegarem, os povos indígenas já sabiam trocar saberes, alimentos e objetos. A feira, para Parú, não era invenção nova; era continuação da vida. Mas foi quando a antiga Natiá virou Naticróraí, a povoação de Colégio, que o povo passou a chamar aquele encontro de Eisdembé Woderáehó, a Feira na Rua.
Logo ao lado da banca de Parú, Amélia ajeitava suas formas de bolo. Era branca, filha de ribeirinhos, mas já falava algumas palavras da língua local e gostava de ouvir as histórias dos anciãos. Seus saredu, bolos de mandioca, perfumavam o ar, misturados ao cheiro do waraeró, o beijú quente que ela assava ali mesmo, em fogo manso.
— Bom dia, Parú — disse ela, sorrindo.
— Bom dia, Amélia. Que seu saredu venda bem hoje — respondeu ele, com respeito.
Mais adiante, dona Yandé cuidava de sua banca de ubudzoá, plantas medicinais.
Sabia qual folha curava febre, qual raiz acalmava o espírito e qual chá fortalecia o corpo. Gente vinha de longe só para ouvir seus conselhos. Perto dela, seu Paulo que vendia Rocruté pendurava roupas simples de pano, enquanto gritava os preços com voz alegre.
A feira crescia. Havia uanhí, grãos e cereais; tdjeá, verduras frescas; ghinhé, feijão recém-colhido; abati-uaupé, arroz; utuá, frutas de toda cor: bacobá, banana madura; behedzí, melancia aberta no meio, vermelha como o coração da terra.
Crianças se juntavam em volta da banca de benhekié bunhá, brinquedos de barro moldados por mãos pacientes. Um pouco mais adiante, tocava um rádio velho vendendo craiwonpiwon, CD e craiwopewa, DVD enquanto um cordelista recitava versos dos torãpisetí, contando histórias de heróis, encantados e do próprio Opará.
Havia também os keríerá, animais domésticos para vender; os wãmyá, peixes no balaio ainda brilhando de rio; as natéretá, ferramentas; e a pucá tané, banca do fumo. Todos eram atsemiucan, vendedores ambulantes, cada qual trazendo um pedaço da sua vida para aquele chão.
Parú observava tudo com olhos atentos. Para ele, a feira era mais que compra e venda: era a samy, a cultura viva pulsando.
Ali se encontravam os povos dos povoados, das cidades ribeirinhas, das margens do Opará. Ali se trocavam moedas, palavras, sorrisos e memórias.
Quando o sol já ia alto, Amélia levou um pedaço de bolo até Parú. Ele, em troca, lhe deu um colar simples, feito de sementes da mata.
Assim seguia a Eisdembé Woderáehó: antiga como o povo, nova a cada sexta-feira, rua que virava história, feira que ensinava que viver é partilhar.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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