domingo, 11 de janeiro de 2026

UNDÉÁ BOIGHY OPARÁ – O CAMINHO DAS ÁGUAS QUE ENSINAM






O sol ainda se espreguiçava por trás do Boêdohe, o Morro Vermelho, quando Miraguaya, pescador antigo e conhecedor das Dzuá, águas do Opará, empurrou sua canoa para fora do Ubacródzuá, o Porto das Canoas. Seus pés sabiam o caminho antes mesmo de seus olhos acordarem por completo. O rio era casa, era estrada, era palavra antiga.


Naquele dia, Miraguaya não pescaria sozinho.


Vindos do sertão, chegaram Aruanã, Jatobá e Rizalva, três visitantes que nunca tinham visto o rio de perto. Conheciam apenas a terra seca, o chão rachado e o céu pedinte de chuva. Para eles, o Opará era mais que água: era um espanto.


— Aqui é a Natiá Kariri-Xocó, aldeia — disse Miraguaya, apontando o Ibiró Honé, o lado direito do rio. — Esses Undéá, lugares existem desde o tempo dos Tokenhé, antepassados. Cada curva do rio guarda um ensinamento.


Enquanto a canoa deslizava, Miraguaya mostrava as Beá, margens do rio como quem conta histórias vivas. Falou da Tseka, a grande Pucá Kitci, banco de areia onde o povo se banha e onde as crianças aprendem a rir com o rio. Aruanã, o mais jovem dos visitantes, mergulhou os pés na água e se calou — sentia algo que nunca havia sentido.


— Ali é a Yaraitá, — sussurrou Miraguaya, quase em respeito. — Pedra da Mãe D’água. Ela aparece à noite, quando o silêncio fala mais alto.


Rizalva estremeceu. Jatobá fez o sinal de respeito que aprendera com os mais velhos. Miraguaya continuou:


— Perto dali é o Perau, canal profundo. É morada de Camurupim, o Dono do Rio. Quem pesca sem pedir licença, o rio cobra.

Mais abaixo, surgia a Naticróraí, Porto Real do Colégio, com suas casas, suas igrejas e seus santos. No meio das águas, a Itapytera, Pedra do Meio, agora guardava a imagem de Bom Jesus dos Navegantes.


— Antes da imagem, a pedra já era sagrada, — disse Miraguaya. — O rio aceita muitos nomes, mas não esquece os primeiros.


A canoa passou pelo Crodzu Waré, o Porto dos Padres, e pelo Crodzudzi, o Porto de Baixo, onde antigamente rangia a Eyemé Merata, a balsa de ferro que cruzava histórias e destinos.


Ao longe, a Uocró Idabacrú, a ponte de pedra sobre o rio, ligava terras e separava modos de viver. Do outro lado, Propriá. Ali, Miraguaya apontou:


— Undé Piau. Lugar dos peixes. O rio é generoso com quem sabe esperar.

Mais adiante, os Piripiri balançavam com o vento, junco aquático que vira Tupé, esteira de descanso, nas mãos das mulheres da aldeia. E, por fim, o Boêdohe, Morro Vermelho oferecia sua tinta encarnada, memória da terra que também ensina a pintar o corpo e o tempo.


Quando o sol já ia alto, os visitantes do sertão estavam em silêncio. Não era cansaço. Era transformação.


— Agora vocês viram o rio, — disse Miraguaya. — Mas só entende o Opará quem deixa ele entrar por dentro.

E o rio, antigo e atento, seguiu seu caminho, levando consigo mais três histórias para guardar.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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