Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, havia um dia esperado como quem espera a chuva depois da seca. Não vinha anunciado por sino nem por papel escrito, mas pelo som distante do motor que fazia o coração bater diferente. Era o Ibáchiddá Pidékan, o ônibus do Funrural, que surgia levantando poeira e esperança.
Desde 1971, ele chegava como um parente viajante, trazendo dentro de si remédios, instrumentos, vozes de cuidado e a promessa de alívio. Onde não havia posto de saúde nem casa de médico, o governo fazia rodar o socorro sobre rodas. O ônibus era branco, com faixas verde-lima, cores que se destacavam na paisagem da aldeia como sinal de vida.
Quando estacionava em frente à escola, o tempo parecia desacelerar. Homens, mulheres, crianças e anciãos se organizavam em fila, cada um carregando sua dor, seu medo ou apenas a necessidade de ser visto. O atendimento durava três dias, e nesses dias a aldeia respirava diferente.
O médico era o Dr. Rovérsio, homem de fala firme e mãos que examinavam com atenção. O dentista, Dr. Mário, trazia o som do motorzinho que assustava as crianças, mas também levava embora dores antigas. Dentro do ônibus, o espaço era pequeno, mas o cuidado era grande. Ali, muitos descobriram que sua dor tinha nome e tratamento.
Com o tempo, nosso povo se mudou para a nova Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo. Mesmo assim, o Ibáchiddá Pidékan continuou vindo, ficava defronte à Eráye "Casa Grande", atendendo os indígenas até meados da década de 1980.
Era antes do SUS, antes de acontecer a redemocratização, quando a saúde ainda vinha em passos lentos, mas vinha, fiel como o curso do rio, até a Aldeia Kariri-Xocó, no município de Porto Real do Colégio, Alagoas.
Para nós, aquele ônibus não era só ambulatório. Era sinal de que ainda existíamos aos olhos do mundo. Trouxe alívio aos corpos, mas também esperança aos espíritos. Em cada partida, deixava saudade; em cada chegada, renovava a confiança de que viver valia a pena.
Hoje, quando a memória chama, ainda é possível ouvir o motor chegando na Woderáehó Uanieá, Rua dos Índios e ver, entre poeira e sol, o ônibus branco e verde-lima trazendo consigo o cuidado que atravessou gerações.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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