Naquele tempo em que existir como Tseho Uanie ainda exigia silêncio e cautela, dois irmãos sustentavam o povo Kariri como colunas invisíveis da mesma casa: Suíra, o Pajé, e Nidé, o Cacique. Um guardava a palavra antiga, o outro conduzia os passos do presente. Ambos caminhavam juntos, porque assim ensinavam os ancestrais: a luta sem espírito se perde, e o espírito sem luta se cala.
O princípio da resistência começou com o Boedo Nhenetíá, o esconder das tradições, imposto quando os missionários levaram o povo para a missão de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, queriam dobrar o tempo indígena ao tempo do sino. Mas Suíra dizia que tradição não morre — ela apenas se oculta, como raiz em tempo de seca. Nessa época o Cacique era Jonas Ibá que faleceu e ficou Nidé em seu lugar.
Na Natierácró, a aldeia urbana misturada aos Caraí, brancos a vigilância era constante. Ainda assim, à noite, o povo saía em silêncio. Suíra e Nidé iam à frente, seguidos pelos mais jovens. Na Retsé, a floresta, longe dos olhos do mundo branco, o Matikay, ritual continuava vivo. Em Boedo, no segredo, o canto, a dança e a reza atravessaram muitos Battiá, anos mantendo o povo unido.
Com o passar dos anos, as Radda, terras foram tomadas, as antigas Natiá, aldeias transformadas em Naticróraí, cidades. Aos indígenas restou a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, estreita no espaço, mas larga de memória. Nidé observava aquilo com o coração apertado, e Suíra sentia que os antepassados pediam um novo movimento.
Foi então que, no início dos anos de 1942, os irmãos decidiram que o tempo do esconder precisava dar lugar ao tempo do falar. Começaram as Itohiquiete, longas e difíceis viagens até a cidade de Bom Conselho, em Pernambuco. Não iam sozinhos. Seguiam juntos Iraminõ, Jonas Ibá e Jurandi, irmão de sangue do povo e tio querido, homem de coragem e palavra firme.
A estrada era dura, mas os passos eram muitos. Em Bom Conselho, buscavam Claixiúa-lhá, o Padre Alfredo Dâmaso, assim chamado pelos Fulni-ô de Águas Belas. Nidé falava da terra roubada, das aldeias transformadas em cidade, do povo empurrado para a margem. Suíra rezava antes de cada encontro, pedindo que os antepassados sagrados amansassem os ouvidos de quem precisava escutar.
Foram muitas idas e vindas, muita espera, muita humilhação também. Mas a palavra insistida cria caminho. Em 1944, veio o reconhecimento: o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) reconheceu oficialmente os indígenas Kariri de Porto Real do Colégio. Com isso, foi fundado o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, trazendo escola e enfermaria.
Naquele dia, Suíra chorou olhando para a terra, e Nidé pisou o chão com os pés, como quem reafirma pertença. Com o Posto vieram novamente os Honéá, os direitos: à Radda, à terra; à Pidékan, a saúde; e à Bohetekié, a educação. Não era o fim da luta, mas era a prova de que o caminho dos irmãos não fora em vão.
E assim, com Suíra e Nidé lado a lado — irmãos de sangue e de missão —, junto de Iraminõ, Ibá e Poité, o povo Kariri mostrou que a memória não se apaga, apenas espera o tempo certo de voltar a caminhar.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Nenhum comentário:
Postar um comentário