Geriçá sentava-se sempre no mesmo banco de madeira, encostado à parede mais antiga da casa. Ali, o barro batido do chão conhecia seus passos desde menino, e a parede, coberta por imagens, guardava mais histórias do que muitos livros. Acima de sua cabeça, alinhadas com cuidado, estavam as Ibenhete Onhantoá, as imagens dos santos na parede, testemunhas silenciosas do tempo.
O jovem Içánauá, seu neto, observava curioso aquelas figuras de papel, pintura e fotografia. Para ele, eram imagens; para o avô, eram presenças.
— Vovô Geriçá, — perguntou o menino — por que o senhor fala com essas imagens como se fossem gente viva?
O ancião sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga.
— Porque elas caminharam com nosso povo, meu neto.
E começou a contar.
Disse que o contato dos Uanieá, os indígenas, com a Erantoá, a igreja, vinha desde o princípio da chegada dos Caraí, os brancos, chamados Peróá, os portugueses. Vieram com eles os Waréá, missionários, e fundaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, entre rezas estranhas e palavras novas, os primeiros encontros aconteceram.
A primeira Ibenhete, a imagem de santo que chegou àquelas terras, foi a de Hietçãdé Tohikiete, Nossa Senhora da Conceição. Era feita de Hé, madeira, e de Bunháongó, barro cozido em terracota. Não era apenas objeto: era símbolo de um tempo novo que se impunha, mas que também era reinterpretado pelos olhos indígenas.
— Ela viu nossos avós crescerem, — disse Geriçá — e ouviu nossas línguas misturadas às deles.
No século XIX, continuou o ancião, a Natiá, a aldeia, foi transformada em Natierácró, cidade. Mudaram os nomes, as cercas, os caminhos. Mas os Kenhéá, os costumes da Itu, a fé aprendida dos colonizadores e missionários, foram absorvidos pelos Uanieá à sua maneira, atravessando os séculos sem apagar quem eles eram.
Içánauá escutava atento.
Já na Natiá Samyá, a aldeia aculturada, na década de 1970, surgiram novas imagens. Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, apareceram os Atsemiucan, vendedores ambulantes. Eles traziam objetos do mundo dos Caraí: rádios, retratos, calendários coloridos.
Foi nesse Uché, nesse tempo, que chegaram as Ibenhehanpé, imagens de parede de santos, e também a Ibentserã, a fotografia, imagem da pessoa no papel. Vieram as He-erã, pinturas no papel, e pouco a pouco as casas indígenas passaram a ter, em suas paredes, santos impressos, colados, pendurados.
Geriçá levantou-se com esforço e apontou para uma imagem amarelada.
— Essa aqui não é só papel, Içánauá. Ela carrega o tempo em que aprendemos a olhar o mundo do outro sem esquecer o nosso.
O neto se aproximou e tocou a parede com cuidado. Pela primeira vez, entendeu que aquelas imagens não estavam ali para substituir a memória indígena, mas para revelar o caminho tortuoso da convivência, da resistência silenciosa e da adaptação.
Naquela casa, as Ibenhete Onhantoá não eram apenas santos na parede. Eram marcas do encontro entre mundos, guardadas pelo olhar atento de Geriçá e agora acolhidas pela curiosidade viva de Içánauá.
E assim, entre imagens, palavras e silêncio, a história continuava.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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