Na Pehó Kayaku, a Lua da enxurrada de dezembro, o Iwo Opará, o grande Rio São Francisco, começava a subir suas Dzuá, águas trazendo no corpo os troncos de Sutuá, árvores antigas arrancadas pela força da correnteza. Era nesse tempo que Suré e Seremy, mestres do Toré, caminhavam atentos pelas margens, olhos de quem sabe ler os sinais da terra.
— Essa lenha já vem benzida pelo rio, dizia Suré, tocando o tronco úmido.
— É Héisú boa pras Buyêantoá, fogueira sagrada respondia Seremy. Vai aquecer santo e gente.
Os meninos Awanã e Naryãny seguiam atrás, curiosos, aprendendo em silêncio. Eles sabiam: nada ali era só madeira. Tudo tinha tempo, nome e espírito.
Quando chegava a Uanhí Kayaku, a Lua da lavoura de março, o povo abria as Bechiéá, roças plantando Masiche, milho e Ghinhé, feijão. E no dia 19, antes mesmo do sol se despedir, Suré acendia a primeira Buyê, a fogueira de São José, bem na Okenerá, a porta da casa.
— É aqui que o santo entra, explicava ele a Awanã.
— E é aqui que o Toré começa, completava Seremy, batendo leve o maracá.
As Woderáehó Natiá, ruas da aldeia, se enchiam de luz e cheiro de fumaça boa. As portas viravam lugares sagrados.
Na Dzó Kayaku, a Lua da chuva de junho, o coração da aldeia batia mais forte. No dia 13, a fogueira de Santo Antônio chamava o povo. Quando a Kayá chegava, a noite as Buyê mó torá Toré, fogueiras eram acesas, e a Bohé, a coletividade do povo, se formava em roda.
Seremy cantava, Suré puxava o passo, e Awanã e Naryãny já dançavam, aprendendo com o corpo aquilo que não se ensina com palavra.
Nos dias 23 e 24, o Masichi Erã, o milho verde, era colhido. As Amí Nhenetí, comidas da tradição surgiam: canjica, pamonha, pipoca. O Toré ecoava junto aos Buyêranke, os fogos que riscavam o céu em cores, sem apagar a força do chão.
Na finalização, nos dias 28 e 29, o Toré seguia noite adentro. Quando o Sabucanheyé, o galo, anunciava o amanhecer, era Suré quem entoava o canto final, como quem fecha um ciclo e abre outro. Agora, Awanã e Naryãny cantavam juntos, voz firme, memória viva.
Mesmo com a chegada da Hinebakró, da energia elétrica, com o Crameokli, o rádio e o Craiwonhé, Toca-disco tocando Amara Caraí, as cantigas de branco, o povo não largou o Toré. Dançava-se também o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, sem esquecer a pintura da alma.
Era tempo de vestir Rocruté woroby, roupa nova, mas também de renovar o espírito antigo.
Suré olhou para os mais novos e disse baixinho:
— Enquanto houver fogo na porta, o povo não se perde.
E assim, ano após ano, as Duantoá Okenerá, as Fogueiras dos Santos nas Portas, continuam acesas — não só na lenha, mas no coração do povo Kariri-Xocó.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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