terça-feira, 13 de janeiro de 2026

WOROY TOKLIKLI BOHÉ UANIE, O CONTO DA ESCOLA ONDE A PALAVRA ANDA






O Conto da Escola Onde a Palavra Anda

Dizem os mais velhos que, antes mesmo de existirem paredes, a Escola já morava na palavra. E foi assim que começou a Woroy Toklikli, a História Oral do Ensino Nativo, quando o vento ensinava e o rio escutava.


Na aldeia Kariri-Xocó, a Nhenetí Toklikli, a Tradição Oral, caminhava de boca em boca como quem atravessa gerações sem cansar. Ali, a Woroy, a História, não dormia nos livros: ela acordava nos contos do Bohé Uanie, o Ensino Nativo.


Quem carregava essa palavra era o Worobü Woroyá, o Contador de Histórias. Quando homem, chamavam-no Duboherí, Mestre; quando mulher, Duboherídé, Mestra. Mas, acima de tudo, eram semeadores do saber.


Havia muitos Mestres na aldeia.

A Duboheridé Ruñohú, que ensinava a terra a virar cerâmica.


Os Duboruhúá, que trançavam artesanatos como quem escreve caminhos.

O Duboeretuá, que fazia do balaio uma morada.


O Duboheri Torá, que ensinava o corpo a conversar com o chão no Toré.

O Duboherubá, senhor das canoas, que conhecia os segredos do rio.


E o Duboheri Mydzé, que lia os peixes como se fossem estrelas d’água.


Mas nem só de mãos vivia o saber. Havia também os Dzenuandzoá, Guardiões da Cura Nativa;


os Dzenuá Samyá, Guardiões da Memória e da Cultura;


o Dzenu Katiantse, Guardião das Abelhas Nativas;


e os Dzenuá Antse, Guardiões da Natureza, que falavam baixo para não assustar a vida.


Com o tempo, a palavra pediu casa. E nasceu a Erátekié Uanie, a Escola Indígena.

Ali, o Ensino escrito passou a caminhar junto com o saber antigo.


Os Duboherí Tonranran, Mestres dos Livros, chegaram sem apagar os rastros dos ancestrais.


Cada professor e professora trazia consigo uma estrada de conhecimento:


o Duboruhú, que ensinava a Arte a enxergar o invisível;


o Duboherí Subateradá, que mostrava a Geografia como corpo da Terra;


o Doboherí Subantse, que revelava os segredos da Natureza;


o Dubosamy, que ensinava Cultura como raiz;


o Duboherí Nunú Peró, que dialogava com a Língua Portuguesa;


o Duboherí Worobü, que fazia a Matemática contar histórias;


o Doboherí Nunúanie, guardião da Língua Indígena;


e o Bohé Hibuyê, a Educação do Corpo, onde aprender era também mover-se.


Com ele, o Dubohé Hibuyê, Professor de Educação Física, ensinava que o corpo também pensa.


Entre todos eles caminhava Nhenety.

Não como quem manda, mas como quem escuta.


No Subatekié Uanieá, o Curso Saberes Indígenas, Nhenety era o Duboherí Utsohode, o Mestre Formador. Seu trabalho era juntar caminhos: o da escola, o da aldeia e o da memória.


Na Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, Nhenety e os professores sabiam que ensinar não era encher cadernos, mas acender histórias.

E toda vez que um aluno aprendia, a Woroy ganhava fôlego.


Porque enquanto houver quem conte, a História não se perde.


E assim segue a Woroy Toklikli Bohé Uanie:

um conto que não termina,

uma escola que anda,

uma palavra que vive.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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