O Conto da Escola Onde a Palavra Anda
Dizem os mais velhos que, antes mesmo de existirem paredes, a Escola já morava na palavra. E foi assim que começou a Woroy Toklikli, a História Oral do Ensino Nativo, quando o vento ensinava e o rio escutava.
Na aldeia Kariri-Xocó, a Nhenetí Toklikli, a Tradição Oral, caminhava de boca em boca como quem atravessa gerações sem cansar. Ali, a Woroy, a História, não dormia nos livros: ela acordava nos contos do Bohé Uanie, o Ensino Nativo.
Quem carregava essa palavra era o Worobü Woroyá, o Contador de Histórias. Quando homem, chamavam-no Duboherí, Mestre; quando mulher, Duboherídé, Mestra. Mas, acima de tudo, eram semeadores do saber.
Havia muitos Mestres na aldeia.
A Duboheridé Ruñohú, que ensinava a terra a virar cerâmica.
Os Duboruhúá, que trançavam artesanatos como quem escreve caminhos.
O Duboeretuá, que fazia do balaio uma morada.
O Duboheri Torá, que ensinava o corpo a conversar com o chão no Toré.
O Duboherubá, senhor das canoas, que conhecia os segredos do rio.
E o Duboheri Mydzé, que lia os peixes como se fossem estrelas d’água.
Mas nem só de mãos vivia o saber. Havia também os Dzenuandzoá, Guardiões da Cura Nativa;
os Dzenuá Samyá, Guardiões da Memória e da Cultura;
o Dzenu Katiantse, Guardião das Abelhas Nativas;
e os Dzenuá Antse, Guardiões da Natureza, que falavam baixo para não assustar a vida.
Com o tempo, a palavra pediu casa. E nasceu a Erátekié Uanie, a Escola Indígena.
Ali, o Ensino escrito passou a caminhar junto com o saber antigo.
Os Duboherí Tonranran, Mestres dos Livros, chegaram sem apagar os rastros dos ancestrais.
Cada professor e professora trazia consigo uma estrada de conhecimento:
o Duboruhú, que ensinava a Arte a enxergar o invisível;
o Duboherí Subateradá, que mostrava a Geografia como corpo da Terra;
o Doboherí Subantse, que revelava os segredos da Natureza;
o Dubosamy, que ensinava Cultura como raiz;
o Duboherí Nunú Peró, que dialogava com a Língua Portuguesa;
o Duboherí Worobü, que fazia a Matemática contar histórias;
o Doboherí Nunúanie, guardião da Língua Indígena;
e o Bohé Hibuyê, a Educação do Corpo, onde aprender era também mover-se.
Com ele, o Dubohé Hibuyê, Professor de Educação Física, ensinava que o corpo também pensa.
Entre todos eles caminhava Nhenety.
Não como quem manda, mas como quem escuta.
No Subatekié Uanieá, o Curso Saberes Indígenas, Nhenety era o Duboherí Utsohode, o Mestre Formador. Seu trabalho era juntar caminhos: o da escola, o da aldeia e o da memória.
Na Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, Nhenety e os professores sabiam que ensinar não era encher cadernos, mas acender histórias.
E toda vez que um aluno aprendia, a Woroy ganhava fôlego.
Porque enquanto houver quem conte, a História não se perde.
E assim segue a Woroy Toklikli Bohé Uanie:
um conto que não termina,
uma escola que anda,
uma palavra que vive.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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