Naquele tempo antigo, que os mais velhos chamam de Tudenhé, o Passado, a terra falava pouco e o céu se fechava. O Iwo Crocrá, o Rio Seco, estendia seu leito rachado como se fosse pele cansada, e as Dzurióá, as lagoas, guardavam apenas um resto de água, espelhando o sol forte do verão. As Dzóá, as chuvas, demoravam a chegar, e o Amite, o alimento, tornava-se raro.
Era nessas horas que o ancião Ibamurú, que conheceu muitos tempos difíceis, reunia as crianças e os jovens sob a sombra do ouricuri. Sua voz era baixa, mas firme, carregada de memória.
— Esse é o tempo do Uchê Amite Eicoré, dizia ele. Tempo de escassez, mas também de ensinamento.
Ao seu lado estava Marú, seu filho, já homem feito, atento a cada palavra do pai. E um pouco mais à frente, sentada sobre uma raiz grossa, estava Inauãny, sua sobrinha, olhos curiosos, aprendendo com o silêncio tanto quanto com a fala.
Ibamurú ensinava que, quando o alimento falta, o povo não se perde. Aprende a olhar de novo para a terra.
— Nas Dzurióá com pouca água, explicava ele, ainda vivem o Musũ, peixe alongado, a Piaba, o Sãmbá, o cágado paciente, e o Myghy, o caramujo que se esconde, mas não some.
Marú lembrava das vezes em que, com cuidado, pescavam apenas o necessário, respeitando o tempo da lagoa. Inauãny observava como cada gesto tinha medida, como nada era tirado além do que o corpo precisava.
Na Retsé, a floresta do Ouricuri, o povo buscava o que a terra oferecia em silêncio: o Kariru, planta que enche o cesto, o Majõgomy, o beldroegão que fortalece; o Igaboró, o inhame-bravo, que só quem conhece sabe preparar.
— A floresta ensina paciência, dizia Ibamurú. Ela testa quem anda nela.
No Merá, o campo aberto, surgia o Dupami, a frutinha vermelha chamada mata-fome, e o Umari, fruto do marizeiro. As amêndoas eram levadas ao fogo para Udé, cozinhar, e depois repartidas em Bohé, a coletividade, porque ninguém comia sozinho.
Na Sitó, a caça, vinham a Tijubina, lagarto bico-doce, e o Bani, o mocó ágil das pedras, o Cóaca "Caroço de Jaca" e a Jety "Batata-doce" que eram assadas na brasa tem um bom sabor. Sempre com respeito, sempre agradecendo.
Quando a noite chegava, Inauãny perguntava:
— Vovô Ibamurú, como nosso povo resistiu a tudo isso?
O ancião sorria, olhando o fogo dançar.
— Resistimos porque nunca esquecemos o Samy, nossa cultura, nem o Nhenetí, nossas tradições. A fome pode apertar o corpo, mas não pode vencer a memória.
Marú completava, olhando para a nova geração:
— Enquanto soubermos ouvir os mais velhos e respeitar a terra, o povo Kariri-Xocó nunca estará perdido.
E assim, no tempo do alimento escasso, o povo aprendeu que sobreviver não era apenas comer, mas lembrar quem se é.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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